A FILHA DO SILNCIO

MORRIS WEST

As muitas edies deste livro de Morris West so uma prova irrefutvel do seu valor e da 
receptividade que encontra por parte dos leitores antigos e novos deste escritor que j nos deu 
outros romances maravilhosos como As Sandlias do Pescador, O Embaixador, O Advogado do 
Diabo e, mais recentemente, O Vero do Lobo Vermelho e A Salamandra. Em A FILHA DO 
SILNCIO o autor se utiliza com maestria do drama de um processo judicial para expor as 
fraquezas morais e os conflitos de seus personagens.

O prefeito de uma aldeia da Toscana  assassinado a tiros, em pleno dia, por uma jovem de 
24 anos, que  presa, processada e julgada por homicdio premeditado. O julgamento se 
converte na denncia de um morto e das pessoas vivas que, h muito, se haviam unido 
numa conspirao de silncio.  o ponto de partida para uma srie de intrigas, conflitos e 
revelaes comprometedoras.

Uma histria que emociona, onde o amor se mistura com a violncia das vendettas 
primitivas.

A FILHA DO SILNCIO no  apenas um bom livro: , acima de tudo, uma obra 
edificante

OBRAS DO AUTOR

MORRIS WEST

O ADVOGADO DO DIABO
ARLEQUIM
A CONCUBINA
O EMBAIXADOR
A ESTRADA SINUOSA
A FILHA DO SILNCIO
FILHOS DAS TREVAS
FORCA NA AREIA
O HEREGE KUNDU
O NAVEGANTE
PROTEU
A SALAMANDRA
AS SANDLIAS DO PESCADOR
A SEGUNDA VITRIA
TERRA NUA
A TORRE DE BABEL
O VERO DO LOBO VERMELHO
OS FANTOCHES DE DEUS
A FILHA DO SILNCIO

17  EDIO

Traduo de BRENNO SILVEIRA

EDITORA RECOR

Ttulo original norte-americano

DAUGHTER OF SILENCE

Copyright (C) 1961 by Morris L. West

Publicado mediante acordo com Paul R. Reynolds, Inc., NewYork, USA.

Alta vendetta dalto silenzio  figlia. (A nobre vingana  filha de profundo silncio.) ALFIERI: La Congiura 
de Pazzi, Ato I, Cena 1

Direitos de publicao exclusiva em lngua portuguesa no Brasil adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A. Rua Argentina 171 - 20 921 Rio 
de Janeiro, RJ

que se reserva a propriedade literria desta traduo

IMPRESSO POR TAVARES & TRISTO - GRFICA E EDITORA DE LIVROS LTDA.,  RUA 20 
DE ABRIL, 28, SALA 1.108, RIO DE JANEIRO, RJ.

1
ERA um MEIO-DiA resplendente, em pleno vero, nos vales do
altiplano da Toscana: uma hora letrgica, uma estao de p e 
langor,
de linho esbrugado e de andorinhas nos restolhais de trigo, de 
vinhos
novos a sazonar no pas dos deuses mais antigos. Era uma hora de
toques de sinos ondulantes no ar seco, tranqilos sobre os tmulos
de santos j mortos e os feudos de mercenrios esquecidos. Havia
em tudo um convite  obscuridade e s venezianas cerradas - pois
quem, seno os ces e os americanos, exporia sua cabea insensata
ao meio-dia, a um sol de agosto?
Na aldeia de San Stefano ecoavam pela praa as primeiras badaladas do 
angelus. O sineiro era velho, e dbil a msica de seus 
toques.
A aldeia estava sonolenta e saciada, devido  boa colheita, de 
Modo que os ltimos momentos de sua vida matinal eram tambm silenciosos.
Um velho deteve-se, persignou-se e permaneceu de cabea baixa,
enquanto as trplices badaladas soavam no branco campanrio. Um
sujeito atarracado, de avental branco, tendo dobrado no brao um
guardanapo axadrezado, achava-se  porta do restaurante, a esgravatar os 
dentes com um palito de fsforo. Um policial com cara de
mula deu um passo para fora de sua porta, lanou um olhar de
esguelha, preguiosamente, pela praa, cuspiu, coou-se e tornou a
voltar para o seu vinho e o seu queijo.
A gua caa, indolentemente, das bocas de fatigados golfinhos
e espalhava-se pela rasa bacia da fonte, enquanto um menino 
escanifrado brincava com um barquinho de papel. Um carvoeiro empurrava o 
seu carrinho de mo por sobre os paraleleppedos. O carro
estava cheio de pequenos feixes de gravetos e de sacos marrons 
contendo carvo. Uma garotinha achava-se empoleirada sobre eles, os
cabelos desgrenhados, ar srio, como um diabrete dos bosques. Uma
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mulher descala, com um beb sobre o quadril, saiu da casa de
vinhos e dirigiu-se a um beco situado na outra extremidade da 
piazza.
Cinco milhas alm, as torres e os velhos telhados do casario de 
Siena erguiam-se, brumosos e mgicos, contra um cu cor de cobre.
Era um quadro plcido, curiosamente antigo, esparsamente povoado, com sua 
animao ligada ao lento pulsar da vida campestre.
Ali, o tempo flua preguiosamente como a fonte, e a nica mudana
que se processava era a mutao cclica dos sculos e das estaes.
Aquilo, compreendia-se, era um enclave tribal, onde a tradio era
mais importante do que o progresso, onde os costumes constituam
nove dcimos da lei e onde os amores antigos eram alimentados to
persistentemente quanto os antigos dios e as emaranhadas 
lealdades
de sangue e servido.
Havia um caminho de acesso e outro de sada, um conduzindo
a Arezzo, o outro a Siena, mas seu trfego era pequeno e 
circunscrito em certas estaes do ano. As estradas de turismo e de 
comrcio haviam sempre passado ao largo de San Stefano. As granjas do 
vale eram pequenas e ciosamente reservadas para seus proprietrios 
camponeses, de modo que os imigrantes no eram bem acolhidos. Os que
se iam eram os irrequietos, os desarraigados ou os ambiciosos, 
e a aldeia sentia-se feliz de ver-se livre deles.
Antes que se extinguissem os ltimos ecos dos sinos, a praa
j estava vazia. Fecharam-se postigos, correram-se cortinas. O p
tornou a assentar nas fendas do empedrado irregular, o barquinho
de papel flutuava sem leme em torno da fonte, e o canto das 
cigarras erguia-se, estrepitoso e montono, dos campos adjacentes. 
Terminara o primeiro perodo do dia. A paz - ou o que passava por paz
desceu sobre a aldeia.
*Decorridos, talvez, dez minutos, o sineiro saiu da igreja - um
frade idoso, vestindo um hbito empoeirado de So Francisco, uma
tonsura branca na cabea e um rosto corado, sulcado de rugas, 
como uma ma de inverno. Deteve-se um momento  sombra do prtico,
a enxugar a testa com um leno vermelho; depois, lanou o capuz
sobre a cabea e atravessou a praa, as sandlias a bater nas 
pedras crestadas.
Mal havia dado uma dzia de passos, uma cena pouco comum
f-lo parar. Um txi com chapa de Siena entrou na piazza e deteve-se
diante do restaurante. Uma mulher desceu, pagou ao chofer e 
ficou a observar o automvel que se afastava, at perd-lo de vista.
Era jovem; no teria mais de vinte e cinco anos. Seu trajo
distinguia-a como criatura citadina: tailleur, blusa branca, 
sapatos elegantes, uma bolsa dependurada do ombro por uma ala de couro.
Tinha o rosto plido, calmo e singularmente belo, como o de uma
madona de cera. Na praa deserta, ensolarada, parecia indecisa e
vagamente solitria.
Permaneceu um momento parada, a olhar a praa, como se procurasse 
orientar-se num territrio que lhe fora antes familiar; 
depois, com passos firmes, confiantes, dirigiu-se a uma casa situada 
entre a adega e a padaria, e tocou a sineta. Abriu-lhe a porta uma 
matrona trajada de bombazina preta, com um avental branco atado  
cintura.
Trocaram algumas palavras e a robusta mulher fez um gesto, 
convidando-a a entrar. Ela declinou do convite e a matrona 
afastou-se, deixando a porta aberta. A moa ficou  espera, procurando 
algo na bolsa, enquanto o frade a observava, curioso como qualquer 
campons diante de um estranho.
No tardou talvez trinta segundos para que o homem surgisse
 porta - um sujeito alto, corpulento, em mangas de camisa, cabelos 
grisalhos, rosto plido e enrugado, um guardanapo enfiado 
no peitilho da camisa. Mastigava ainda um bocado de alimento e,  
luz clara do sol, o frade pde ver um ligeiro fio de molho a 
escorrer-lhe pelo canto da boca. Olhou a jovem sem qualquer sinal de que 
a houvesse reconhecido, e fez-lhe uma pergunta.
Foi ento que ela o baleou no peito.
O impacto f-lo girar sobre si mesmo e apoiar-se  ombreira
da porta - e, num momento horrvel de perplexidade, o frade viu
a jovem dar mais quatro vezes ao gatilho e, depois, afastar-se, 
caminhando, sem pressa, em direo  delegacia de polcia. Os estampidos 
ecoavam ainda pela piazza quando o frade se ps a correr,
cambaleante, a tropear nas pedras, a fim de ministrar a absolvio
final a um homem que j havia entregue sua alma ao Senhor.
Cinco milhas alm, em Siena, o Dr. Alberto Ascolini posava
para um retrato - um exerccio frvolo, uma iluso de imortalidade
a que se submetia com ironia.
Era um homem alto, de sessenta e cinco anos, de rosto rosado
e enrgico, e uma juba de cabelos alvos como neve a cair-lhe, em
intencional desordem, sobre o colarinho. Trajava um costume e 
uma gravata de seda, presa por um alfinete de brilhantes. Tanto a 
roupa como a gravata eram impecavelmente talhadas, mas deliberadamente
fora de moda, como se a velhice e uma animao incongruente 
constitussem os seus nicos cabedais. Parecia um ator - um ator muito
bem sucedido - mas era, na realidade, advogado, um dos mais brilhantes 
advogados de Roma.
A pintora era uma jovem esguia, morena, de pouco menos de
trinta anos, olhos cor de avel, sorriso franco e expressivo, mos
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elegantes. Chamava-se Ninette Lachaise. Seu apartamento era um
alto sto que dava para os telhados da velha cidade, voltado para
o campanrio da Vergine Assunta. De um lado, havia um atelier
meticulosamente limpo e bem arranjado, no outro, ficava a sua 
habitao, mobiliada com respingos de artesanato provinciano, polida e
cintilante, a revelar o cuidado de uma dona de casa gaulesa. 
Seus quadros eram uma indicao de seu carter: cheios de luz, parcos
de detalhes, estilizados mas, no obstante, amplos em seus movimentos, 
uma continuao linear da primitiva tradio toscana  adaptada
 linguagem do sculo vinte.
Trabalhava agora com carvo, fazendo uma srie de esboos
rpidos, enquanto o seu modelo, sentado meio  sombra, meio 
luz, lhe contava histrias escandalosas dos tribunais romanos. 
Era uma exibio de virtuosismo, de ambas as partes. Os casos que o
velho contava eram cheios de extravagante esprito, de malcia 
inteligente e de astuciosa licenciosidade. Os esboos da jovem eram
ansiosos e perceptivos, dando a impresso de que uma dzia de
homens viviam dentro da pele suave e rosada daquele 
inteligentssimo charlato.
Ascolini observava-a com olhos astutos e afetuosos e, ao terminar de 
contar suas histrias, sorriu, dizendo-lhe com falsa 
emoo:
- Quando estou em sua companhia, Ninette, lamento a minha perdida 
juventude.
- Se nada mais tem a lamentar, dottore, - respondeu ela,
com suave ironia - ento  um homem feliz.
- Que outra coisa h para se lamentar, minha cara, seno as
loucuras que se  incapaz de cometer?
- Talvez as conseqncias daquelas que a gente j cometeu.
- Oh, oh, Ninette! - exclamou Ascolini, agitando suas mos
eloqentes e rindo secamente. - Nada de sermes esta manh, por
favor! Este  o comeo de minhas frias ... e eu a procurei para
me distrair.
- No, dottore - respondeu ela, com seu ar grave, continuando a desenhar 
com traos firmes, rpidos. - Eu o conheo h
muito tempo e demasiado bem. Quando vem c tomar uma xcara
de caf ou convidar-me a almoar no Sordello,  porque est 
satisfeito com o mundo. Quando me encarrega de um trabalho como este, ou
paga demasiado bem minhas paisagens,  porque tem problemas na
cabea. Oferece-me um estipndio para resolv-los. Como sabe, esse
 um mau hbito... um mau hbito que no lhe faz justia.
O rosto liso, vigoroso, do advogado, anuviou-se por um momento. Depois, 
esboou um falso sorriso:
isso? - No obstante, voc aceita o estipndio, Ninette. Por que
- Vendo-lhe os meus quadros, dottore, no a minha simpatia. Esta, o 
senhor a tem de graa.
- Voc me torna humilde, Ninette disse, mordaz, o velho.
- Nada o torna humilde, dottore volveu ela, incisiva. E a  que comeam 
todas as suas dificuldades ... com Valria, com
Carlo, consigo prprio. Veja! - ajuntou, acrescentando um ltimo
trao gil  tela, e voltando-se para ele, estendeu-lhe a mo. - As
palavras j esto ditas; no precisa mais posar. Venha ver seu
retrato.
Conduziu-o ao cavalete e ficou ao seu lado, segurando-lhe a
mo, enquanto ele examinava o desenho. O velho permaneceu longo
tempo em silncio; depois, sem sinal de gracejo, indagou:
- Estas so todas as minhas faces, Ninette?
- No; so somente as que o senhor me revela.
- E julga que existam outras?
- Sei que devem existir. O senhor  um homem demasiado
heterogneo, dottore, demasiado fascinante em cada variedade.
- E qual delas  o verdadeiro Ascolini?
- Todas elas - e nenhuma delas.
- Interprete-mas, filha.
- Esta aqui? O grande advogado, o nobre causdico que domina todos os 
tribunais em Roma. Modifica-se um pouco, como v.
Aqui,  o querido dos salons, o homem de esprito que faz enrubescer os 
homens e roer-se de cimes as mulheres, quando lhes 
sussurra algo aos ouvidos complacentes. Aquela ali? Um momento passado no 
Sordello: Ascolini a tomar vinho com os estudantes de
direito, e a pensar que desejaria ter tido um filho. Ali, 
converte-se
no jogador de xadrez, movendo as pessoas como se fossem pees,
desprezando-se a si prprio mais do que as despreza a elas. Na 
face seguinte, h uma lembrana ... da juventude talvez ou de um velho
amor. E, por ltimo, o grande advogado tal como poderia ter sido,
se um sacerdote rural no o arrancasse de um fosso e no lhe 
desvendasse o mundo: um campons com uma carga de gravetos s costas,
tendo nos olhos a monotonia de toda uma vida ...
-  demais - observou, sem meias palavras, o velho.
Vindo de uma criatura to jovem, isso  demais e extremamente
assustador. Como  que sabe tudo isso, Ninette? Como consegue ver
tantos segredos?
Ela fitou-o, um momento, com olhos sombrios, penalizados.
Depois, abanou a cabea.
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- - Isso no so segredos, dottore. Ns somos aquilo que fazemos. Est 
escrito em nossos rostos para que o mundo o leia. 
Quanto ao que se refere a mim? Sou, aqui, uma estrangeira. Vim da Frana
como os velhos soldados aventurosos, a fim de saquear as 
riquezas do sul. Vendo meus quadros ... e aguardo algum a quem possa
entregar-me com confiana. Sei o que  a gente procurar amor e
estreitar nos braos apenas uma iluso. O senhor tem sido bondoso
para comigo, revelando-me mais de sua pessoa do que imagina. No
raro, pergunto a mim mesma a razo disso.
-  simplssimo! - exclamou ele, tendo em sua rica voz de
ator uma inflexo dissonante. - Se eu fosse vinte anos mais moo,
Ninette, pedia-lhe que casasse comigo.
- Se eu fosse vinte anos mais velha, dottore - respondeu-lhe
ela, docemente - talvez aceitasse o seu pedido... e o senhor 
depois me odiaria por isso.
- Eu jamais poderia odi-la, minha cara.
- O senhor odeia tudo aquilo que possui, dottore. Ama somente
aquilo que no pode obter.
- Voc hoje est brutal, Ninette.
- Existem coisas que devem ser enfrentadas, no acha?
- Suponho que sim.
Ele soltou-lhe a mo e dirigiu-se  janela, onde ficou a observar
o sol derramar-se sobre o topo dos telhados da velha cidade. 
Sua alta estatura parecia curvada e diminuda, e o seu rosto, imponente, 
tornou-se angustiado, macilento, como se a idade o houvesse apanhado 
desprevenido. A jovem observava-o, tomada de sbita piedade pelos 
seus dilemas. Decorrido um momento, indagou, em voz baixa:
- Trata-se de Valria, pois no?
- E de Carlo.
- Fale-me de Valria.
- No faz ainda dois dias que chegamos de Roma e ela j
comeou um caso amoroso com Basilio Lazzaro.
- Houve outros casos, dottore. O senhor os encorajava. Por
que razo deveria este preocup-lo?
- Porque para mim a vida j vai bastante adiantada, Ninette!
Porque quero netos em minha casa e uma promessa de continuidade,
e porque esse tal Lazzaro  um patife que acabar por destru-la.
- Eu sei - disse, baixinho, Ninette Lachaise. - Se sei!
- J sabem disso em Siena?
- Duvido. Mas, certa vez, eu mesma estive apaixonada por
Lazzaro; ele foi a minha grande iluso.
- Lamento-o, filha.
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- No deve lament-lo por mim... mas pelo senhor e por Valria. E por 
Carlo tambm, claro. Ele j sabe?
No o creio.
Mas soube a respeito dos outros9
Penso que sim.
O senhor ria daquilo, lembro-me bem, dottore. Fez at um
gracejo acerca de sua filha enganar um marido tolo. Disse que 
ela seguia os passos do pai... Sentia-se orgulhoso de suas 
conquistas e de sua esperteza.
Ele  um idiota - disse, com amargura, Ascolini. - Um
jovem idiota e sentimental que nem sabia a quantas andava. 
Merecia uma lio.
- E agora?
- Agora, fala em deixar-me e em abrir o seu prprio escritrio de 
advocacia.
- E o senhor no est de acordo?
- Claro que no! Ele  demasiado jovem, demasiado inexperiente. Destruir 
sua carreira, antes que ela esteja sequer 
comeada.
- O senhor destruiu o casamento dele, dottore; por que deveria, agora, 
preocupar-se com a sua carreira?
- No me preocupo, mas  que isso envolve o futuro de minha
filha, e o futuro de seus filhos, se tiverem filhos.
- O senhor est mentindo, dottore - disse, com tristeza, Ninette
Lachaise. - Est mentindo para mim. Est mentindo para si prprio.
Surpreendentemente, o velho advogado riu e abriu os braos
num gesto de desespero quase cmico:
- Claro que estou mentindo! Sei da verdade melhor do que
voc, filha. Criei um mundo  minha prpria maneira, e j no gosto
mais de seu aspecto, de modo que preciso de algum que o destrua
sobre a minha prpria cabea e me faa comer os pedaos.
- E no ser, talvez, o que Carlo est procurando fazer agora?
- Carlo? - explodiu Ascolini, desdenhoso. - Ele tem muito
de menino para poder controlar sua prpria esposa. Como pode ele
competir com um touro velho e manhoso como eu? Nada me agradaria mais do 
que se ele me fizesse engolir minhas prprias 
asneiras, mas ele  demasiado cavalheiro para faz-lo... Vamos! ~ 
ajuntou, afastando o assunto com um alar de ombros e aproximando-se 
dela, para tomar-lhe as mos nas suas. - Esquea tudo isto e volte para
a sua pintura, minha querida. No somos dignos de ajuda... nenhum
de ns! Mas h uma coisa...
- O que, dottore?
- Voc vai hoje jantar conosco, na villa.
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- No... por favor! - exclamou Ninette, numa recusa incisiva e enftica. 
- Como bem sabe, tenho prazer de acolh-lo aqui
em qualquer momento, mas mantenha-me longe de sua famlia. Eles
no pertencem ao meu crculo de amigos; nem eu ao deles.
- No o fao por mim, mas por voc. H algum l que quero
que voc conhea.
- Quem?
- Um meu hspede. Chama-se Peter Landon.  mdico e veio
da Austrlia, via Londres.
- Um pas brbaro, segundo me dizem, dottore, cheio de animais estranhos 
e de gigantes em mangas de camisa.
Ascolini riu:
- Quando voc conhecer esse tal Landon, talvez se convena
mais disso. Ao entrar numa sala, ele a ocupa toda com a sua 
pessoa. Quando fala, parece rude e demasiado seguro de si mesmo, para
que a gente o ache corts. Depois, a gente percebe que ele est
falando toscano puro, que o que ele diz tem bastante sentido, 
e que teve uma vida mais variada do que a sua ou do que a minha. H,
tambm, um certo vigor nele, bem como, penso eu, algo de insatisfeito. - 
Tocou-lhe o rosto com a mo num gesto afetuoso.
Ele poderia ser bom para voc, minha cara.
Ela enrubesceu e afastou-se um pouco:
- O senhor est se tornando casamenteiro, dottore?
- Gosto mais de voc do que supe, Ninette - respondeu
ele, srio. - Gostaria de v-la feliz. Por favor, v jantar conosco.
- Muito bem, dottore, irei. Mas, antes, quero que me prometa
uma coisa.
- O que voc quiser, filha.
- Prometa que no representar nenhuma comdia comigo,
como costuma fazer com sua prpria famlia. Eu jamais poderia
perdo-lo.
- Eu tambm jamais me perdoaria. Acredite, Ninette.
Tomou-lhe o rosto em suas velhas mos e beijou-lhe de leve a
testa. Depois, retirou-se - e ela ficou longo tempo a fitar, 
por cima dos telhados da cidade, as- encostas das colinas da Toscana, 
onde, o vinho  adoado pelo sangue de antigos sacrifcios e os ciprestes
nascem da concavidade dos olhos de prncipes mortos.
Na Villa Ascolini, empoleirada na encosta de um monte, sobre
a aldeia de San Sfefano, Valria Rienzi dormitava, atrs das venezianas 
fechadas. No ouvira o badalar dos sinos, nem os tiros, 
nem o eco do tumulto que se seguiu. Os nicos sons que penetravam em
seu quarto eram o canto das cigarras, o rudo da tesoura de um
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jardineiro, e a msica plangente, dbil, que Carlo estava tocando
no salone.
Ela no pensara em morte naquele meio-dia estival. O pulsar
de seu sangue era demasiado forte para que ela pensasse em coisa
assim to lgubre e irrelevante. Bastava-lhe dobrar na cama o 
corpo esguio, repuxar o peignoir de seda de encontro  pele, para que 
sentisse a doura e a comicho da vida. Na verdade, estava pensando
no amor, que ela considerava uma diverso agradvel, embora passageira, e 
nocasamento, que reconhecia como sendo uma coisa permanente, embora 
ocasionalmente enfadonha.
Casamento, para ela, significava Carlo Rienzi, o seu belo marido um tanto 
infantil, que tocava, embaixo, o seu triste 
piano. Significava discrio, propriedade pblica, cuidado matronal pela 
carreira do marido. Significava uma renncia  liberdade, um dispndio de
ternura que ela raramente sentia, exigncias de um corpo que 
Carlo jamais soubera despertar, exacerbao de um esprito demasiado 
Vivaz e voluntarioso para que pudesse ajustar-se ao temperamento 
melanclico e hesitante do marido. Casamento significava Roma e retido
romana - jantares de cerimnia e cocktais oferecidos aos que 
entregavam polpudas causas judiciais a seu pai e a seu inexperiente 
genro.
O amor, na contextura de umas frias de vero na Toscana,
significava Baslio Lazzaro, o solteiro moreno, ardente, que no
fazia segredo de sua predileo por esposas jovens. O amor era um
antdoto contra o tdio, uma afirmao de independncia. Uma saborosa 
piada para compartilhar com um pai compreensivo, um aguilho
com que atormentar um marido demasiado jovem, convertendo-o 
condio de homem.
Aos trinta anos, Valria Rienzi estava em situao de dar um
balano nas bnos recebidas: boa sade, bonita, sem filhos, um
marido inalevel, um amante insistente, um pai que tudo via, tudo
compreendia e tudo perdoava com cnica indulgncia.
Era aquela uma meditao agradvel, ali na clida, ntima penumbra de seu 
quarto, onde faurios e drades pintados se  divertiam
no teto. Havia msica, cuja tristeza de modo algum a afetava. 
Havia a promessa de um vero inteiro de divertimentos e, se Basilio se
mostrasse por demais exigente, l estava o visitante, Peter 
Landon.
Ela ainda no o avaliara bem, mas havia tempo de sobra para
iniciar aquele sujeito do Novo Mundo nos divertimentos 
sardnicos, tortuosos, do Velho Continente.
No obstante... no obstante... havia um ondular desassossegado no lago 
de Narciso - correntes sombrias movendo-se sob os
nenfares. Havia nela modificaes que nem ela prpria compreendia
bem: uma sensao de vazio, uma necessidade de rumo, algo que
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a impelia a novos e mais ardentes encontros, um vago temor e, s
vezes, um pungente pesar. Houve tempo em que a conspirao existente 
entre ela e o pai lhe asseguravam absolvio mesmo para as
suas maiores loucuras. Agora, porm, j no havia absolvio, mas
algo assim como uma perversa tolerncia, como se ele se sentisse
menos desapontado por ela do que por si prprio.
Agora, o pai j no ocultava o desejo de que ela assentasse e
tivesse filhos. O problema, porm,  que ele no tinha respeito 
algum por Carlo, no sabendo, por outro lado, ensinar-lhe, a ela, sua 
filha, uma maneira de restaurar o respeito por si prpria. O que ele, 
agora, exigia, era uma nova conspirao: uma unio sem amor, que 
trouxesse amor a um velho epicurista que, durante toda a vida 
fingira desprezar o amor. Era pedir demais em troca de to pouco. 
Pouqussimo para ela, muitssimo para ele - e, para Carlo, uma decepo
a mais.
Houve-um tempo em que Carlo lhe suplicara amor - que lhe
pedira filhos. Trocaria, ento, os ltimos fiapos de seu orgulho 
por um beijo, por um momento de intimidade. Mas agora, no. Tornara-se, 
naqueles ltimos meses, mais adulto, mais frio, menos 
dependente, mais absorto no planejamento de sua prpria vida.
Contara-lhe uma parte de seus planos. Estava resolvido a deixar
o escritrio de Ascolini e abrir sua prpria banca de advocacia. 
Feito isso, dar-lhe-la um lar prprio, uma casa separada da do pai. E
depois? Era esse depois que a preocupava, quando ela tivesse de
ficar s, sem apoio, sem absolvio, sujeita ao veredicto de um marido 
enganado e  determinao de seus prprios desejos turbulentos.
A  que estava o n do problema. Que  que a gente buscava
tanto, a ponto de essa busca constituir um sofrimento para a 
carne?
De que  que se tinha tanta necessidade, a ponto de se estar 
Disposto a renunciar a tudo o mais para alcan-lo? Vinte e quatro horas
antes, ela ouvira a mesma pergunta dos lbios pouco prometedores
de Baslio Lazzaro.
Estava de p, completamente vestida, com as luvas e a bolsa
na mo,  porta do quarto de Baslio, a observ-lo, enquanto ele
abotoava a camisa sobre o peito forte e trigueiro. Notara a 
tranqilidade satisfeita de seus movimentos, a vivaz indiferena pela sua
presena, e indagara, queixosamente:
- Mas, Basilio... por que ter de ser sempre assim?
- Assim como? - perguntou Lazzaro, irritadamente, enquanto apanhava a 
gravata.
- Quando nos encontramos,  como se fosse a ouverfure de
uma pera. Quando nos amamos,  tudo drama e msica. Quando
partimos...  como se estivssemos pegando um txi.
O rosto belo e moreno de Lazzaro contraiu-se, com ar de
espanto.
- Que  que voc esperava, cara? A coisa  assim mesmo.
Depois que se toma o vinho, a garrafa se esvazia. Terminada a 
pera, no se fica  espera de que venham limpar o teatro. A gente j se
divertiu. E vai para casa e espera que haja outra representao.
- E isso  tudo?
- Que mais poder haver, cara? Pergunto-lhe: que mais?
Aquilo era um perfeito enigma, a que ela jamais encontrara uma
resposta adequada. Meditava ainda sobre isso, quando o relgio de
bronze dourado marcou meio-dia e quinze; dispunha ainda de tempo
para banhar-se e vestir-se para o almoo.
A praa de San Stefano formigava de gente. Toda a aldeia
sara  rua, crianas e velhos, aglomerando-se  porta do morto, 
papagueando ao redor da fonte, interrogando o policial apalermado 
que montava guarda  porta da delegacia. Nada havia de turbulento na
maneira pela qual o povo se conduzia; nada havia de hostil em
sua atitude. Eram apenas espectadores, metidos por curiosidade 
num melodrama de tteres.
Da janela de seu escritrio, o sargento Fiorello observava-os com olhos 
sagazes, profissionais. At ali, tudo bem. Estavam 
excitados, mas ordeiros, movendo-se pela praa como carneiros num
redil. No havia perigo de violncia imediata. Dentro de uma hora,
os detetives de Siena chegariam e tomariam conta do caso. A  famlia
do homem assassinado achava-se mergulhada em sua dor. Ele podia
ficar tranqilo e cuidar de sua prisioneira.
Esta estava afundada numa cadeira, a cabea pendida, o corpo
sacudido por tremores convulsivos. Abrandou-se, ao fit-la, o  rosto
magro, coriceo, de Fiorello, que, decorrido um instante,  despejou
um pouco de conhaque numa xcara de barro e a levou aos lbios
da moa. No primeiro gole, ela engasgou; depois, sorveu-o lentamente. 
Decorrido um momento, os tremores cessaram, e Fiorello 
ofereceu-lhe um cigarro. Ela recusou, agradecendo com voz morta, 
sem inflexo:
- No, obrigada. Estou melhor, agora.
- Tenho de fazer-lhe umas perguntas. Sabe disso?
Para um homem to rude, o tom com que lhe falou era estranhamente 
delicado. A moa fez um aceno com a cabea, indiferente.
- Sei.
- Como se chama?
- O senhor j o sabe: Anna Albertini. Chamava-me antes
Anna Moschetti.
- A quem pertence esta arma?
16 17
Apanhou a arma e estendeu-lha na palma da mo. Ela no titubeou nem 
desviou o olhar; respondeu simplesmente:
- A meu marido.
- Precisamos comunicar-nos com ele. Onde se encontra ele?
- Em Florena, Vicolo degli Angelotti, nmero dezesseis.
- Tem telefone?
- No.
- Ele sabe onde voc se encontra?
- No.
Tinha os olhos vtreos; estava sentada erecta na cadeira, plida
e rgida como uma catalptica. Sua voz tinha algo de metlico, de
cerimonioso, como a de uma criatura que se achasse sob narcose.
Fiorello hesitou um momento; depois, fez-lhe outra pergunta:
- Por que fez isso, Anna?
Pela primeira vez, um leve sinal de vida assomou aos olhos e
 voz da moa:
o senhor sabe o porqu. No importa a maneira pela qual
eu diga, ou o senhor o escreva. O senhor sabe o porque.
- Diga-me uma outra coisa, Anna. Por que razo escolheu
esta ocasio? Por que no fez isso um ms atrs, ou cinco anos
antes? Por que no esperou mais tempo?
- E isso importa?
Fiorello manuseava distraidamente a pistola que matara Gianbattista 
Belloni. Sua voz tambm adquiriu um tom meditativo, 
reflexivo como se tambm ele estivesse a reviver acontecimentos 
distantes daquele lugar e daquele momento.
- No, no importa. Dentro em pouco, voc ser levada daqui.
Ser julgada, condenada e mandada, por vinte anos, para uma 
priso, por haver assassinado um homem a sangue-frio.  apenas uma 
pergunta para encher o tempo.
- O tempo. . . - repetiu ela, apoderando-se dessa palavra
como se fosse um talism, uma chave para os mistrios de toda uma
existncia. - No foi a mesma coisa que olhar para os ponteiros
de um relgio ou arrancar as folhas de um calendrio. Foi como ...
como caminhar por uma estrada... sempre a mesma estrada ...
sempre na mesma direo. De repente, a estrada terminou... aqui
em San Stefano,  porta da casa de Belloni. O senhor compreende,
no  verdade?
- Compreendo.
Mas a compreenso chegara tarde demais - e ele o sabia. Com
dezesseis anos de atraso. A estrada completara um crculo 
perfeito e,
agora, como a sua prisioneira, ele deparava com marcos que 
julgara
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j transpostos e esquecidos. Deps a arma sobre a mesa e apanhou
um cigarro. Ao acend-lo, viu que suas mos tremiam. Envergonhado,
levantou-se e ps-se a preparar um prato de po, queijo e 
azeitonas;
depois, encheu um copo de vinho e colocou a modesta refeio 
diante
de Anna Albertini. E disse, spero:
- Quando a levarem para Siena, voc ser de novo interrogada,
talvez durante muitas horas. Por isso, deveria procurar comer.
- No tenho fome, obrigada.
Sabia que ela estava num estado de choque, mas sua passividade no 
deixava, desarrazoadamente, de irrit-lo.
- Santa Me de Deus! - explodiu. - Ento no compreende?
H um homem morto logo a ao lado. Voc o matou. Ele  o prefeito desta 
cidade, e h a fora uma multido que a faria em 
pedaos,
se algum proferisse uma nica palavra. Quando os rapazes de roupa
preta chegarem de Siena, iro frit-la como um peixe numa panela.
Estou procurando ajud-la, mas no posso obrig-la a comer.
- Por que razo est procurando ajudar-me?
No havia malcia na pergunta, mas apenas a vaga e plcida
curiosidade dos enfermos. Fiorello conhecia demasiado bem a resposta, mas 
de modo algum poderia d-la. Voltou-se e dirigiu-se 
janela, enquanto a moa petiscava o alimento, vaga e pattica, 
como
um pssaro que se v engaiolado pela primeira vez.
Houve, ento, uma agitao na rua. O pequeno frade deixara
a casa do morto e caminhava, apressado, na direo da delegacia.
O povo comprimia-se em torno dele, puxava-lhe o hbito, 
assediava-o
com perguntas, mas ele afastava a todos com um gesto, 
dirigindo-se,
trpego, sem flego, para o escritrio de Fiorello.
Ao deparar com a moa, deteve-se, de sbito, e seus olhos se
encheram de impotentes lgrimas de velho. Fiorello perguntou-lhe,
sem meias palavras:
- O senhor a conhece, pois no?
Frei Bonifcio respondeu com um aceno fatigado de cabea:
- Creio que o imaginei desde o primeiro momento, quando a
vi na praa. Eu deveria ter esperado que tudo isto acontecesse. 
Mas
j faz tanto tempo! ...
- Dezesseis anos. E agora a bomba explode!
- Ela precisa de ajuda.
Fiorello deu de ombros e estendeu os braos, num gesto de
desespero:
- Mas que ajuda pode haver?  um caso j liquidado. Vendetta. Assassnio 
premeditado. A pena  de vinte anos.
- Ela precisa de assistncia Jurdica.
- O Estado a fornece aos rus sem recursos.
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- Isso no basta. Ela precisa do melhor defensor que possamos
encontrar.
- E quem pagar, mesmo que se descubra algum que queira
aceitar uma causa perdida?
- A famlia Ascolini est passando o vero na villa. O velho
 um dos grandes advogados criminais. Posso, ao menos, 
pedir-lhe que se interesse pelo caso. Seno ele, talvez o genro.
Por que deveriam interessar-se pelo caso?
Ascolini nasceu aqui na regio. Deve sentir alguma dedicao pelos seus 
compatrcios.
- Dedicao! - exclamou Fiorello, acentuando a palavra com
um riso gutural. - At mesmo entre ns existe hoje to pouca dedicao... 
Por que deveramos esperar dedicao por parte dos
signori?
Durante um momento, dir-se-ia que o modesto sacerdote aceitaria aquela 
proposio familiar. Sua face descaiu, os ombros 
encurvaram-se-lhe. De repente, porm, uma idia o assaltou e, quando se
voltou de novo para Fiorello, seu olhar era duro.
- Desejo fazer-lhe uma pergunta, meu amigo - disse tranqilamente. - 
Quando Anna for levada a julgamento, o senhor prestar depoimento?
- De acordo com as provas - respondeu, seco, Fiorello.
Que mais poderia fazer?
- E quanto ao passado? E quanto ao comeo deste caso
monstruoso?
- No tomarei conhecimento, padre. Sou pago para manter a
paz e no para reescrever histria antiga.
 essa a sua ltima palavra?
Tem de ser - disse Fiorello, mal-humorado. - No posso
esconder-me num claustro, como o senhor, padre. No posso dar-me
ao luxo de ficar a bater no peito e fazer novenas a Santa 
Catarina, quando as coisas no saem como desejo. Este  o meu mundo. Essa
gente que est l fora  a minha gente. Tenho de viver no meio 
dela, da melhor maneira possvel. - Esta aqui. . . - ajuntou, fazendo
um gesto brusco em direo da moa -  uma causa perdida, por
mais que procuremos fazer. De qualquer modo, creio que agora compete  
Igreja ajud-la.
Escoavam-se os segundos, enquanto os dois homens se achavam
frente a frente, o sacerdote e o policial, cada qual entregue 
ao seu prprio caminho, cada qual envolvido nas conseqncias de uma
histria comum, enquanto Anna Albertini, sentada a um passo de
distncia, lambiscava em seu prato, indiferente e distante como 
uma habitante da lua. Sbito, sem proferir qualquer outra palavra, o 
velho
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frade afastou-se uns passos, apanhou o telefone e pediu uma 
ligao
para a Villa Ascolini.
Na quietude do meio-dia, no salone, Carlo Rienzi tocava Chopin
para o visitante, Peter Landon. Formavam, ambos, um par curioso:
o corpulento australiano com seu rosto arguto, sardento, o punho
vigoroso em torno do fomilho do cachimbo; o italiano, esguio, 
plido, incongruentemente belo, lbios sensitivos e olhos de sonhador, 
com um toque de mistrio e insatisfao.
A composio era um dos primeiros noturnos, terno, lmpido,
plangente, e Rienzi interpretava-o com simplicidade e  fidelidade. As
notas caam puras como gotas de gua; as frases eram plasmadas
com amor e compreenso - e no com intencional brilhantismo ou
falso sentimento. Aquela era a verdadeira disciplina da arte: a 
submisso do executante ao talento do compositor, a subordinao da
emoo pessoal quilo que o mestre, morto havia muito, registrara.
Landon observava-o com olho clnico, astuto, e pensava em
quo jovem era ele, quo vulnervel, e quo estranhamente se achava
ligado  sua fria e civilizada esposa e ao velho e brilhante 
advogado que era o seu mestre em direito.
Contudo, no era inteiramente jovem, nem completamente livre
de cicatrizes. Suas mos eram fortes, mas continham-se sobre os
teclados. Havia rugas em sua testa e incipientes ps-de-galinha 
no canto de seus olhos. Tinha pouco mais de trinta anos. Era 
casado. Devia j ter sofrido o seu quinho nas exaes da vida. Tocava
Chopin como algum que compreendesse as frustraes do amor.
Quanto ao prprio Landon, a msica despertava-lhe ecos de
uma insatisfao ntima. Homem do Novo Mundo, adotara sem esforo as 
maneiras urbanas do Velho Continente. Ambicioso, abandonara a promissora 
profisso, em seu prprio pas, a fim de
escalar as arriscadas encostas da reputao em Londres. Rebelde
por natureza, disciplinara sua lngua e seu temperamento, acomodando-se 
aos estratagemas da profisso mais invejosa do mundo, na
cidade mais invejosa do planeta. Conseguira, habilmente, chegar 
aos coquetis de pessoas preeminentes e, agora, mediante diligncia, 
talento e diplomacia, estava j estabelecido como consultor em 
psiquiatria e em psicopatologia criminal.
Era j muito para um homem de pouco menos de quarenta
anos, mas achava-se ainda a dois passos do permetro privativo 
dos grandes. Dois passos, mas, no obstante, aquele era o salto 
mais difcil de todos. Fazia-se mister um trampolim para execut-lo; um
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caso oportuno, um afortunado encontro com algum que  necessitasse
de seus conselhos, um momento de inspirao em suas pesquisas.
At ento, fugira-lhe tal oportunidade, e ele mergulhara, a pouco
e pouco, na frustrao e na acerba insatisfao daqueles que so
sempre desafiados dentro dos limites de seu talento. Aquilo  era uma
espcie de crise, e ele era bastante atilado para reconhec-lo.  Havia
um perodo crtico em todas as carreiras- uma fase de 
ressentimento, indeciso e perigo. Muitos polticos desafortunados haviam 
perdido um asserto no Gabinete por lhes ter faltado pacincia ou 
discrio. Muitos eruditos brilhantes eram preteridos em suas profisses 
por terem-se mostrado um tanto bruscos com seus superiores. Na hermtica 
fraternidade da Associao Mdica Britnica, um homem precisava engolir 
seu orgulho e cultivar a benevolncia de seus  amigos.
E quando algum se aventurava na nova cincia do esprito,  precisava
ser diligentemente condescendente com os seus colegas de  bisturi e
do estetoscpio. E, se esse algum era um estrangeiro, precisava  ser
duplamente cuidadoso, duplamente dependente das qualidades de  sua
prpria atuao e da validez de suas prprias pesquisas.
De modo que ele preferira para si prprio uma estratgia: a
retirada. Preferira passar aquele ano de licena entre os  especialistas
da Europa; trs meses com Dalilin, em Estocolmo, praticando em
instituies dedicadas aos criminalmente insanos; uma temporada  com
Gutmann, em Viena, estudando a natureza da responsabilidade e,
agora, umas breves frias em companhia de Ascolini, famoso pelo
seu emprego do testemunho mdico-legal.
E depois? Tambm ele tinha aquele problema do depois, pois
que enfrentava agora um novo aspecto da crise: o tdio da meia idade. 
Quanto deveria um homem pagar pela realizao de sua ambio? E, uma vez 
que houvesse pago, quando poderia desfrut-la...
e com quem? A msica triste, antiga, zombava dele, com suas descries de 
esperanas perdidas, amores mortos e o clamor de triunfOs esquecidos.
Houve um momento longo, sincopado, enquanto as ltimas notas
se extinguiam; depois, Rienzi girou sobre o assento e fitou-o de frente:
- Bem, a est, Peter! Voc teve a sua msica! Agora, dinheiro
sobre a mesa! Chegou o momento de pagar o msico.
Landon tirou o cachimbo da boca e sorriu:
- Qual  o preo?
- Um conselho. Um conselho profissional.
- Acerca de qu?
- Acerca de mim. Faz j uma semana que voc est aqui.
Agrada~me pensar que nos tornamos amigos. Voc conhece alguns
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de meus problemas. E  bastante perspicaz para imaginar o resto. 
Abriu os braos, num gesto sbito de splica: - Estou num beco
sem sada, Peter! Sou casado, num pas em que no existe divrcio.
Amo minha mulher, que no me ama. Trabalho para um homem a
quem admiro grandemente ... e que no tem por mim o mnimo
respeito, como se eu fosse o mais modesto empregado de seu 
escritrio. Que  que devo fazer? Que  que se passa comigo? Voc 
o psiquiatra! Voc  o sujeito que sonda os coraes de seus pacientes. 
Leia o que se passa em minha vida e na de Ascolini.
Landon franziu o sobrolho e tornou a enfiar o cachimbo na
boca. O instinto profissional advertia-o contra intimidades  assim to
intempestivas. Dispunha de uma dzia de evasivas para  desencorajar
tais confidncias. Mas o sofrimento do homem era patente, e sua
solido, em sua prpria casa, estranhamente comovente. Ademais,
Landon passara ali, em casa de seu sogro, mais tempo do que o
justificava a cortesia - e sentia-se tocado de desconhecida  gratido.
Hesitou um momento e, depois, disse, pensando as palavras:
- Voc no pode ter ambas as coisas ao mesmo tempo, Carlo.
Se deseja um psiquiatra - embora eu no creia que voc o deseje
- deve consultar um de seus prprios compatriotas. Pelo menos,
tero uma linguagem e um conjunto de smbolos em comum. Se
quer desabafar com um amigo, isso  diferente. - Riu, secamente,
entredentes. - Ademais, isso constitui, em geral, uma receita  melhor.
Mas, se voc o disser aos meus pacientes, estarei falido dentro  de
-uma semana.
- Chame a isto um desabafo, se quiser - respondeu Rienzi,
com seu ar meditativo, melanclico. - Mas no v que estou metido
numa armadilha, como um esquilo encerrado numa gaiola?
- Pelo casamento?
- No. Por Ascolini.
- No gosta dele?
Rienzi hesitou um momento e, ao responder, havia um mundo
de cansao em sua voz:
- Admiro-o muitssimo. Ele possui talento singularmente multiforme e  
excelente advogado.
- Mas?
- Mas creio que o vejo demais. Trabalho em seu escritrio.
Minha mulher e eu moramos em sua casa. E sinto-me oprimido por
sua eterna juventude.
Era uma frase esquisita, mas Landon a compreendeu. Recordou
rapidamente o primeiro coquetel a que comparecera no apartamento
de Ascolini, em Roma, quando pai e filha tocaram para o seu pequeno mas 
seleto grupo de convidados, enquanto Carlo Rienzi  andava
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de um lado para outro, no terrao banhado de luar. Sentia-se 
favoravelmente inclinado para aquele jovem-velho, de boca demasiado
sensitiva e mos controladas de artista. Perguntou-lhe, em voz 
baixa:
- E voc precisa morar com ele?
- Dizem-me que sim - respondeu Rienzi com suave amargura. - Dizem-me que 
lhe devo obrigaes. Que lhe devo a minha
carreira. Hoje, na Itlia a advocacia  uma profisso em que h
gente demais, e o patrocnio de um grande homem  uma coisa rara
de se encontrar. Sou-lhe devedor tambm por minha esposa. E ela,
por sua vez, est em dbito para com ele, sendo filha nica de um
pai que lhe deu amor, segurana e a promessa de uma rica herana.
- E Ascolini exige pagamento?
- De ns ambos - respondeu Carlo, encolhendo de leve os
ombros num gesto de derrota. - De mim, exige lealdade e submisso
a seus planos quanto  minha carreira. De minha esposa, uma...
uma espcie de conspirao, em que a juventude dela  dedicada
mais a ele do que a mim.
- E que  que sua esposa pensa disso?
- Valria  uma mulher singulr - disse, sem * hesitao,
Rienzi. - Compreende o que  dever, a devoo filial e o pagamento
de dvidas. Alm disso, gosta muitssimo do pai e encontra grande
prazer em sua companhia.
Mais do que na sua?
Carlo sorriu, ao ouvir tal - aquele seu sorriso vago, infantil,
que constitua muito de seu charme.
Ele tem a oferecer muito mais do que eu, Peter - respondeu,
em voz baixa. - Eu no sei interpretar o mundo com a segurana
com que ele a faz. No sou ousado nem bem sucedido, embora gostasse de 
s-lo. Amo minha esposa, mas receio que ela necessite  menos
de mim do que eu dela.
- O tempo poder modificar isso.
- Duvido - disse, peremptrio, Rienzi. - H outras pessoas
envolvidas nesta conspirao.
- Outros homens?
- Vrios. Mas eles me preocupam menos do que a minha
prpria deficincia como marido. - Levantou-se e dirigiu-se  porta
envidraada que dava para o terrao. - Que tal se caminhssemos
um pouco?  mais ntimo l fora.
Permaneceram algum tempo em silncio, a caminhar por uma
alameda de ciprestes, atravs de cujos troncos, verdes, viam o cu
e os campos que se estendiam numa policromia de oliveiras 
escuras,
vinhedos verdes, terras de pousio trigueiras e milharais  sacudidos pelo
vento. Cinicamente, Landon pensava que o tempo operava suas 
transformaes de modo demasiado lento e que, para Carlo Rienzi, havia
necessidade de remdios mais rpidos. Receitou-os, sem meias palavras:
- Se sua esposa lhe pe cornos, no h necessidade de que voc
os use. Devolva-a ao pai e arranje uma separao judicial. Se no
gosta de seu emprego ou de seu patro, mude de vida. V cavar
fossos, se for preciso, mas liberte-se j!
- Pergunto a mim mesmo - respondeu, com desolado humor,
Rienzi - por que ser que so sempre os sentimentalistas os que tm
as respostas engatilhadas? Eu esperava outra coisa de voc,  Peter.
Voc  um profissional. Deveria compreender melhor do que os  outros
as aberraes do amor e da posse... por que razo a esperana
ainda constitui, no raro, um lao mais forte do que a conquista 
compartilhada.
Landon enrubesceu. e deu-lhe uma resposta mordaz:
- Se algum gosta de coar-se, no nos agradecer se curarmos a sua 
comicho.
- Mas, para cur-lo, ser preciso dilacerar-lhe o corao? Decepar-lhe a 
cabea, para que aprenda a raciocinar?
- De modo algum. Procura-se ajud-lo a atingir maturidade
suficiente para que possa escolher o seu prprio remdio. Ou,  ento,
se no houver remdio, a suportar sua aflio com dignidade.
Mal as proferiu, arrependeu-se de suas palavras, orgulhando-se
de uma tolerncia que no possua, envergonhando-se de uma rispidez 
adquirida no exerccio de sua profisso. Aquele era o 
castigo
da ambio: no poder um homem revelar simpatia por algum
sem que se sentisse humilhado. Aquela, a ironia do amor-prprio:
no poder sentir piedade pelo que no sofrera em sua prpria carne
- o beijo dado mas no retribudo, a paixo liberalizada mas no
correspondida. A resposta pacfica de Rienzi foi a mais amarga 
das
censuras.
- Se me falta dignidade, Peter, no deve censurar-me demasiado. Mesmo o 
ator mais medocre pode fazer o papel de rei. Mas
 preciso um grande ator para, mesmo usando cornos, fazer a 
platia
chorar. Se no me rebelei at hoje,  porque me faltou 
oportunidade,
e no coragem. No  to fcil como voc pensa, resolver os dilemas
da lealdade e do amor. Mas estou planejando uma revoluo, creia-me! Sei, 
melhor do que voc, que a minha nica esperana, quanto
a Valria,  derrotar Ascolini em seu prprio terreno... destruir a
lenda que ele criou para ela, e que constitui a fonte de seu 
poder
sobre Valria. Estranho, no  mesmo? Para impor-me como amante,
preciso firmar-me antes como advogado. Preciso de uma causa, 
Peter;
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apenas de uma boa causa. Mas onde com os diabos encontr-la?
Antes que Landon tivesse tempo de articular uma resposta ou
uma desculpa, um criado veio chamar Rienzi ao telefone e o mdico
de almas. ficou a meditar sobre os problemas do amor numa velha
terra em que as paixes seguem por canais tortuosos e a juventude
carrega sobre as costas cinco mil anos de histria violenta.
Landon alegrou-se de ficar s. Homem devotado  mecnica do
xito, achava demasiado molesto o excesso de companhia, sendo que
um nmero demasiado grande de impresses novas lhe parecia um
fardo para a imaginao. Precisava restaurar um tanto as foras, 
antes de entregar-se, naquela tarde, aos seus inteligentssimos mas 
exigentes anfitries.
Carlo Rienzi era um sujeito atraente, e no se podia encarar sem
simpatia os seus dilemas e indecises mas o problema de todas as
amizades, na Itlia, era esperarem os outros que a gente se 
envolvesse nos assuntos alheios, que se tomasse este ou aquele 
partido, esmo nas questes mais triviais ou importantes, que se 
interessasse
por todas as tristezas e se corasse diante de todas as 
indiscries. Se
no se tivesse cuidado, a gente se esgotava como uma bolsa 
liberalmente aberta, esvaziada e deixada de lado, enquanto os amigos se
entregavam tumultuosamente ao amor ou  piedade.
Era um alvio, pois poder-se ficar sozinho e desfrutar de um
simples prazer de turista, qual fosse o de, ali do jardim,  apreciar a 
paisagem.
O primeiro impacto era de tirar o flego: um ar vivo e palpitante, que 
superava os transportes do corao e do esprito; 
Colinas ao nvel dos olhos, hirtas, tendo por fundo o cu, empedachadas 
de pinheiros e castanheiros, escabrosas de velhos rochedos e de 
Runas de castelos de guelfos e gibelinos; um falco a pairar muito 
alto, no cu azul; escuros pinheiros a galgar as encostas, como lanceiros 
em marcha.
Apesar de toda a sua crosta de ambio e egosmo, Landon
no era um: homem vulgar. No se pode palmilhar os secretos caminhos do 
esprito humano sem que se possua um certo talento que
nos permita maravilhar-nos diante de certas coisas, uma graa 
mnima que nos permite sentir compaixo por nossos semelhantes, e um
pequeno vu de lgrimas para um homem que se encontra nas garras
do terror da descontinuidade. Lgrimas assomavam-lhe aos olhos,
naquele momento, ante o sbito prodgio daquela velha terra,  povoada,
em pleno meio-dia, de fantasmas.
Aquele era o verdadeiro clima do misticismo, selvagem, mas,
no obstante, terno; suave no tamanho da terra, mas, no obstante,
spero nos vestgios de antigos e sangrentos conflitos.
Ali, o pequeno Irmo Francisco, num enlace maravilhoso, uniu-se  Senhora 
Pobreza. Ali chegaram os mercenrios de Barbarroxa:
lanceiros da Inglaterra, arqueiros de Florena, bandidos da  Albnia,
heterogneos mas terrveis no massacre de Montalcino. O rei-poeta
de Luxemburgo, Henrique, o das canes de amor, morrera ali, sob
aqueles ciprestes. No monte de Malmarenda, onde se erguiam  quatro
rvores, teve lugar aquela monstruosa festa das festas, que  terminou
na carnificina dos Tolomei e dos Salimbeni. E, debaixo dos  velhos
telhados de Siena, Madona Catarina revelou a doce substncia de
seu esprito: A Caridade no se busca por si mesma... mas por
Deus. As almas deveriam unir-se e transformar-se pela Caridade. 
Devemos encontrar, entre espinhos, perfume de rosas prestes a  
desabrochar.
Aquela era uma terra de paradoxos, um campo de fuso, de
contradies histricas: beleza e terror, xtase espiritual e  grosseira
crueldade, ignorncia medieval e o frio iluminismo da era do 
irracionalismo. Seu povo, tambm, era um complexo de muitas raas: 
antigos etruscos, germano-lombardos e mercenrios, vindos s Deus sabe
de onde. Santos medievais, humanistas florentinos, astrlogos rabes, 
todos contriburam para a sua herana. Seus mercados negociavam desde a 
Provena at o Bltico, e estudantes de todas as partes
do mundo vinham ouvir as prelees de Aldo Brandini sobre a anatomia do 
corpo humano.
Para Landon, aquela era uma estranha viso processional - em
parte, paisagem e, em parte, escavao de antigas lembranas; mas,
depois daquele desfile, sentia-se um pouquinho mais  compreensivo,
um pouquinho mais tolerante para com aquela gente ardente e 
complicada, de cuja mesa participara. No havia necessidade de que 
participasse da maldio que eles impunham a si prprios. Podia 
perdolos... contanto que no precisasse viver entre eles.
Sentiu o perpassar de um perfume e um rudo de passos e, passado um 
momento, Valria Rienzi estava ao seu lado, na alameda.
Trajava elegante vestido de vero. Tinha os ps nus metidos em 
sandlias de couro dourado e os cabelos atados  nuca com uma fita
de seda. Parecia plida, pensou ele. Havia sombras em torno de
seus olhos e um vago sinal de cansao em seus lbios; mas sua pele
era clara como mbar - e ela o saudou com um sorriso.
-   primeira vez, Peter, que o vejo assim.
- Assim como?
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- Desprevenido, descuidado. Quase como um menino a assistir,
na praa, a uma Pulcinlla.
Landon sentiu-se enrubescer, mas sorriu e procurou afastar,
com um alar de ombros casual, o comentrio:
- Desculpe-me. No percebi que parecia... descuidado. No
pretendo s-lo, asseguro-lhe. Devo parecer-lhe um sujeito muito
caturra.
- Tudo, menos caturra, Peter - respondeu ela e, como se
fosse a coisa mais natural do mundo, enlaou a mo na dele e ps-se
a caminhar a seu lado. - Pelo contrrio, voc  um homem bastante
provocador. Provocador e, talvez, tambm um tanto assustador.
Ele j se divertira, em sua vida, com demasiadas mulheres, para
que no reconhecesse aquele simples lance; mas sua vaidade se  sentiu
lisonjeada, e ele resolveu ir um pouco mais alm. Indagou, com ar
de inocncia:
- Assustador? No compreendo.
- Voc  to realizado... to controlado. Vive de voc para
voc. Assemelha-se, sob muitos aspectos, a meu pai. Compreende to
bem as coisas que, dir-se-ia, os outros nada tm a oferecer-lhe. 
Vocs ambos encaram a vida como se ela fosse um banquete. Sentam-se,
comem e, depois, levantam-se satisfeitos, e seguem adiante. 
Oxal eu pudesse ser assim!
- Pois eu diria que voc o tem sido com bastante xito.
Lanou o golpe de leve, como um esgrimista que iniciasse uma
competio esportiva. Para sua surpresa, ela franziu o sobrolho e 
respondeu, sria:
- Eu sei. Fao-o muito bem. Mas a coisa no  real, percebeu? Ajo como 
uma aluna que recita uma lio que j sabe de cor.
Meu pai  um bom professor. E Baslio tambm.
- Baslio?
- Um homem com quem venho me encontrando ultimamente.
Ele faz da irresponsabilidade uma arte.
O terreno, afinal de contas, no era assim to conhecido. Landon
achou que talvez fosse sensato abandonar aquele jogo, antes que
o mesmo fosse levado a srio. Disse canhestramente:
- Fala-se demais acerca da arte de viver. Segundo minha experincia, 
consiste ela, principalmente, em artifcio: ps, 
cosmticos e mscaras de carnaval.
- E o que est por baixo disso?
- Homens e mulheres.
- De que espcie?
- De todas as espcies... quase todos eles solitrios.
Mal disse isso, percebeu que cometera um erro. Aquilo era o
comeo de todos os casos amorosos: a primeira intimidade, a  fenda
na cota de malha que desnudava o corao, deixando-o exposto 
lmina. E a lmina surgiu, tateante, mais rpida do que ele  imaginara.
- Foi isso que li em seu rosto, no foi, Peter? Voc se sentia
solitrio. Voc  como aquela ave l no alto. . . livre, com o mundo
todo sob as asas. . . e, no obstante, se sentia solitrio.
Apertou os dedos na palma da mo de Landon; ele sentiu-lhe
o calor do corpo ao mesmo tempo que o envolvia o perfume de Valria.
- Eu tambm me sinto s - ajuntou ela.
Ele era mdico e compreendia os empregos da dor.
- Com tudo o que possui, Valria? - indagou friamente.
Com seu pai, com Carlo... e com Basilio, lanado de contrapeso?
Estava preparado para enfrentar-lhe a ira e at mesmo uma bofetada na 
boca; mas ela apenas desvencilhou-se dele e respondeu  com
glido desdm:
- Eu esperava outra coisa de voc, Peter. S porque lhe seguro
a mo e lhe digo uma pequena verdade a meu respeito, voc me
encara como se eu fosse uma prostituta? No fao segredo de meus
atos nem das pessoas de quem gosto. Mas voc... voc deve sentir
grande desprezo por si prprio. -Tenho pena da mulher que procure am-lo.
Depois, como se sua vergonha no bastasse, Carlo surgiu no
meio do caminho, dizendo-lhes com glacial polidez:
- Vocs tero de desculpar-me por eu no estar presente 
hora do almoo. Houve alguma complicao na aldeia. Pediram minha
ajuda. No sei a que horas estarei de volta.
No esperou resposta, deixando-os rapidamente, atores hostis
num palco vazio, sem script, ponto ou qualquer soluo previsvel
para seus conflitos. Desajeitado como um colegial, Landon  gaguejou
uma desculpa.
- No sei o que possa dizer-lhe para pedir que me perdoe.
Posso... posso apenas procurar explicar. Em meu trabalho, a  gente
adquire maus hbitos. Fica-se sentado como um padre confessor a
-ouvir misrias alheias. As vezes, a gente se sente assim um  pouco
como Deus num tribunal supremo. Eis a o problema. O outro problema  que 
o paciente sempre procura converter o seu psiquiatra  em
algo diferente: num pai, numa me, num amante.  um sintoma
de enfermidade. Chamamos a isso transferncia. Adotamos certas 
defesas contra isso. . . uma espcie de brutalidade clnica. O  diabo 
que, s vezes, empregamos essa mesma arma contra pessoas que no
so, de modo algum, nossos pacientes.  uma espcie de covardia.
28  29
E voc tem razo, ao dizer que me desprezo por isso. Sinto muito, 
Valria.
Ela ficou um momento sem responder, recostada a uma urna.
de pedra, a arrancar as ptalas de uma glicnia e a esparram-las
junto de seus ps. Tinha o rosto voltado para o outro lado, de  modo
que ele no podia ver-lhe os olhos; mas, ao virar-se para ele,  sua voz 
era intencionalmente cinzenta:
- Somos todos covardes, no somos, Peter? Somos todos brutais, quando 
algum toca na pequena pstula de medo que temos
em nosso ntimo. Sou brutal com Carlo, sei disso. Mas ele,  sua
prpria maneira, tambm  brutal comigo. Mesmo meu pai, que 
esplndido como um velho leo, cria um purgatrio para aqueles a
quem ama. No obstante, somos necessrios uns aos outros. Sem
ningum a quem possamos ferir, s poderemos ferir a ns prprios
- e eis a o derradeiro terror. Mas at quando poderemos viver
assim, sem que nos destruamos mutuamente?
- No sei - respondeu, sombrio, Peter Landon, perguntando
a si prprio, naquele mesmo momento, at que ponto um homem
poderia suportar os aguilhes da ambio, at onde poderia subir
sozinho, antes de mergulhar no desencanto e no desespero.
30
A DELEGACIA, em San Stefano, estava abafada de fumaa de
cigarros e de cheiro de azedo de vinho e queijo aldeo. O  sargento
Fiorello achava-se ostensivamente sentado  parte, copiando um 
depoimento. Frei Bonifcio permanecia de p, a mexer em seu cinto,
enquanto Carlo Rienzi explicava algo a Anna Albertini:
- Frei Bonfcio contou-me por alto sua histria, Anna. Estou
ansioso por ajud-la. Mas, primeiro, h certas coisas que voc precisa 
compreender. - Sua voz tinha o tom expositivo e paciente de
um mestre-escola a ensinar um aluno obtuso. - Voc deve compreender, por 
exemplo, que um advogado no  um mgico. Ele no
pode provar que o preto  branco. No pode agitar uma varinha
e fazer com que desapaream ascoisas que aconteceram. No pode
ressuscitar gente que morreu. S o que pode fazer  contribuir com
o seu conhecimento da lei e com a voz, a fim de defend-la no 
tribunal. Alm disso, um advogado tem de ser aceito pelo seu  cliente.
E preciso que este concorde em contratar seus servios. Estou  sendo
claro?
Talvez fosse apenas uma iluso, mas dir-se-ia que, por um momento, o 
fantasma de um sorriso contraiu os lbios plidos da moa.
- No tive muita educao - respondeu ela, gravemente mas sei alguma 
coisa acerca de advogados. O senhor no precisa
tratar-me como se eu fosse uma criana.
Rienzi enrubesceu e mordeu o lbio. Sentia-se demasiado jovem
e excessivamente canhestro. Mas recomps-se e prosseguiu, com  mais
firmeza:
- Ento deve compreender o que fez... e saber quais so as conseqncias.
Anna Albertini, em sua atitude plcida, indiferente, fez com
a cabea um sinal afirmativo:
31 
-- Oh, certamente! Sempre soube o que iria acontecer. Isso no me 
preocupa.
- No a preocupa agora, mas ir preocup-la depois quando
estiver no tribunal a ouvir a sentena. Quando eles a levarem  embora
e voc se vir com roupa de presidiria, fechada atrs das grades.
- No me importa onde eles me ponham... no me importa.
Agora estou livre... compreende?. . . e feliz.
Pela primeira vez, o velho frade entrou na discusso.
- Anna, minha filha - disse ele, com brandura - hoje foi
um dia estranho e terrvel. Voc no poder saber como se sentir
amanh. De qualquer modo, quer voc o queira ou no, o tribunal
far com que tenha um advogado. Acho melhor que tenha a seu
lado algum que se interesse um pouco por voc, como aqui o Dr. Rienzi...
- No tenho dinheiro algum com que pag-lo.
- O dinheiro ser providenciado.
- Ento creio que est bem.
Rienzi, chocado ante aquela indiferena, disse irritado:
- Precisamos de algo mais formal do que isso. Quer fazer o
favor de dizer ao sargento Fiorello que me aceita como seu 
representante legal?
- Digo, se assim o deseja.
- J ouvi - disse Fiorello, sorrindo, entredentes. - Anotarei aqui. Mas 
acho que o senhor est perdendo tempo.
- Isso  que no compreendo - comentou Anna, com estranha simplicidade. - 
Sei que nada podem fazer por mim. Por que
razo, pois, o senhor e Frei Bonifcio esto tendo todo esse 
trabalho?
- Estou procurando saldar uma dvida - respondeu, em voz
baixa, o frade.
Carlo Rienzi juntou suas anotaes, meteu-as no bolso e levantou-se.
-- Voc ser levada para Siena, onde ser instaurado o processo, Anna - 
disse, rpido. - Depois, ficar na cadeia da  cidade,
ou talvez a mandem para a casa correcional de mulheres, em San
Gimignano. Onde quer que voc se encontre, irei v-la amanh. Procure no 
ficar muito assustada.
- No estou assustada - afirmou Anna Albertini. - Creio
que esta noite dormirei sem pesadelos.
- Deus a guarde, filha - disse Frei Bonifcio ao retirar-se,
fazendo o sinal da cruz sobre a cabea da jovem.
Rienzi j estava junto  porta, falando com Fiorello.
- Quando comear a preparar a defesa, gostaria de vir aqui
falar com o senhor, sargento.
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Sinto muito, mas no ser Possvel - respondeu Fiorello,
com frio ar profissional. - Serei convocado pela Promotoria Pblica.
- Ento falaremos no Tribunal - concluiu, lacnico~ Rienzi,
saindo, seguido pelo frade, para a praa ensolarada, cheia de 
murmrios.
A multido abria alas  passagem de ambos, Todos os fitavam,
apontavam-nos e sussurravam entre si como se fossem monstros  de
circo, at que desapareceram nas frias sombras confessionais da 
Igreja de San Stefano.
o almoo, na Villa Ascolini, foi um torneio de trs participantes,
dominado pelo rutilante esprito do velho advogado. A ausncia de
Carlo foi aceita com indiferena e, sups Landon, com certo alvio.
A desgraa ocorrida na aldeia no mereceu seno um gesto de desaprovao. 
Nem Ascolin, nem Valria perguntaram de que se tratava,
mas quando Landon insistiu com eles a respeito, Ascolini fez-lhe
uma preleo irnica acerca dos vestgios do sistema feudal ainda
existentes.
- Vivemos a maior parte do ano em Roma, mas a propriedade da vila nos 
converte por definio na famlia Patronal, Quando
voltamos para c, pagamos uma espcie de tributo pelo nosso domnio. s 
vezes,  um pedido de novas contribuies para a igreja
ou para o convento. Outras vezes, patrocinamos os estudos de  algum
estudante mais ou menos brilhante. Ocasionalmente, somos convidados a 
servir de rbitro em alguma disputa local... que , provavelmente, o que 
aconteceu hoje. Mas, quaisquer que sejam as circunstncias, o princpio  
o mesmo: os senhores pagam um tributo ao populacho pelo privilgio de 
sobreviver; os humildes servem-se dos senhores, para que estes os 
defendam de uma democracia na qual no confiam e de uma burocracia que 
desprezam,  um ajuste razovel. - Sorveu delicadamente o seu vinho e 
acrescentou, aps breve reflexo: - Alegra-me que Carlo comece a assumir 
a sua parte nesse tributo.
Valria sorriu, com ar de tolerncia, e deu umas palmadinhas no brao do 
hspede:
- No lhe d ateno, Peter. Ele  um velho malicioso,
Landon sorriu e ps-se a descascar um Pssego, o rosto rosado
de Ascolini tinha uma expresso de perfeita inocncia,
-  privilgio dos velhos testar a tmpera dos jovens. Ademais,
alimento grandes esperanas quanto ao futuro de meu genro.  um
33
jovem de singular talento e instruo. - Seus olhos jovens,  astutos,
observaram Landon por cima doaro dos culos. - Espero que ele
o esteja tratando devidamente.
- Melhor do que mereo - respondeu Landon, contente por
Ascolini haver mudado de assunto. - Levou-me ontem, de automvel, a 
Arezzo.
Ascolini fez com a cabea um gesto de aprovao.
- Uma nobre cidade, meu amigo. Demasiado negligenciada pelos turistas. A 
cidade de Petrarca e de Aretino. - Esboou um
sorriso, satisfeito. - O senhor  um estudioso de almas, Dr. 
Landon.
Eis aqui uma parbola para o senhor: o grande amante e o grande
libertino surgem do mesmo solo; o poeta erudito e o poeta 
satrico a garatujar palavras obscenas nos mesmos edifcios pblicos; os 
sonetos a Laura e os Sonetti Lussuriosi. Certamente j os leu, 
pois no?
- Li Petrarca - respondeu, com um sorriso, Landon. - Hoje
em dia j no reimprimem Aretino.
- Emprestar-lhe-ei um exemplar - volveu Ascolini, com um
gesto eloqente de mo. - Trata-se de um clssico escatolgico
que no pode deixar de interessar a um psiquiatra. Enquanto aqui
estiver, peo-lhe que use a biblioteca. No  muito grande, mas 
talvez possa ach-la interessante e curiosa.
-  muita amabilidade de sua parte. No sabia que o senhor
era bibliffio.
- Papai  uma dzia de homens condensada num s - comentou, secamente, 
Valria.
Novamente Ascolini riu, vivaz, entredentes- Coleciono experincia, Sr. 
Landon, como antes colecionava mulheres, que so a chave da experincia. 
Mas agora j estou muito velho para isso. De modo que possuo livros, tm 
ou outro quadro e o drama indireto do Direito.
- O senhor  um homem afortunado, dottore.
Ascolini fitou-o com olhos vivos, irnicos:
- A juventude  que  a poca afortunada, meu caro Landon.
A maior fortuna da velhice  uma sabedoria que nos permita  avaliar
o que nos restou: o sumo do vinho, a riqueza da recordao, a
plenitude da razo. Uma coisa que tenho procurado explicar a 
Carlo - e aqui  minha filha -  que  melhor a gente ser uma rvore
que cresce tranqilamente ao sol do que o macaco que sobe 
atabalhoadamente  procura do fruto.
- Pergunto a mim mesmo - disse, com afetada inocncia,
Landon - se o senhor se sentiu sempre contente de ser a rvore,
dottore.
- Vejo que no me enganei a seu respeito, meu amigo. O
senhor lida h muito tempo com o Direito, para que se deixe 
enganar pelos truques de um velho advogado. Claro que nem sempre isso
me satisfez: quanto mais alto o fruto, tanto mais depressa eu 
queria subir. Mas o fato permanece o mesmo.  melhor ser-se a rvore
que o macaco. Mas como consegue meter uma velha verdade numa
cabea jovem?
- No procuro faz-lo - respondeu Landon, com certa mordacidade. - As 
cabeas jovens foram feitas para bater de encontro
a paredes. Mas quase todas conseguem sobreviver.
Surpreendentemente, Ascolini fez com a cabea um sinal de
assentimento, acrescentando, com ar de pesar:
- O senhor tem razo, sem dvida. Receio ter-me metido
demais na vida desses jovens. Eles nem sempre compreendem o 
afeto que lhes tenho.
- O que no compreendemos, papai - interveio Valria, a
voz alta e vibrante como uma corda de violino - e o que voc
tampouco compreende,  o preo que exige por isso.
Ao levantar-se, a manga de seu vestido esbarrou em seu copo,
de modo que o cristal se espatifou no cho, fazendo com que o
rubro vinho se espalhasse pelo lajeado cinzento. Landon 
entregou-se, com meticuloso cuidado, ao resto de seu pssego, at que o 
velho o desafiou com sardnico humor :
- No se constranja, meu amigo. No procure fazer o papel
de anglo-saxo urbano com gente como ns.  assim que ns somos.
 assim que temos vivido h mil anos. Fazemos grandes quadros de
nossas depravaes e grandes peras de nossas tragdias mais sangrentas. 
O senhor  um estudioso do drama humano. Tem assento
em camarote. Se somos felizes em exibir nossas loucuras, o 
senhor tem todo o direito de aplaudir a comdia. Vamos, meu caro 
amigo...
Permita que lhe sirva um conhaque. E, se lhe for difcil perdoar,
lembre-se de que sou um campons que se valeu da advocacia para
Converter-se em gentleman.
No havia como resistir a tal urbanidade e, apesar de. si prprio, Landon 
sentiu-se encantado, tornando a rir. Mas, mais  tarde,
ao estender-se sobre a grande cama florentina, a fim de  dedicar-se
ao ritual da sesta, viu-se procurando escrever a sua prpria  verso da
crnica Rienzi.
O velho advogado era um personagem demasiado complexo
para que pudesse ser definido tomando-se por base o esnobismo um
tanto ingnuo de uma sociedade ainda feudal. Poderia ser um campnio, com 
a astcia e a rude ambio de um campons, mas no
34  35
era nenhum mendigo a cavalo. Talvez tivesse sido forjado de matria 
tosca, mas era duro como o granito e polido pelas 
disciplinas de
um mundo superpovoado. Sua carreira se baseava nas loucuras de
outros homens - e paixes demasiado ignbeis t-lo-lam destrudo
havia muito. Landon sentiu que o Dr. Ascolini possua muito maior
estatura do que Carlo ou Valria seriam capazes de admitir. Podia
imaginar o velho entregue a um forte amor, ao dio, ou a uma
perverso desses sentimentos, mas no lhe era possvel julg-lo 
mesquinho.
E Valria? Tambm ela lhe causara uma impresso diferente
da que Carlo lhe transmitira. Via-a como uma espcie de princesa
intransigente, meio desperta para o amor, mas no obstante, ainda
acorrentada  tirnica magia da infncia. Para Carlo, havia ainda
uma certa inocncia em Valria, apesar de seus casos amorosos.
Mas Landon lembrou-se das jovens que Lippo Lippi usava para
pintar suas virgens e seus anjos - jovens de rostos suaves,  olhos
lmpidos e a recordao de mil e uma noites em seus lbios. Era
um pensamento desagradvel, mas no podia livrar-se dele. Quando
a profisso de um homem o obrigava a sentar-se junto de um div
de confisses e a encarar as mulheres calculadamente, aprendia,  s 
vezes penosamente, que a inocncia era coisa rara e possua muitos 
disfarces. Valria talvez no fosse depravada, mas era inclinada, sem 
dvida, a outras satisfaes que no as que lhe eram proporcionadas
por um marido jovem e incerto. Landon via-a maternal, mas sem filhos; 
fria, mas no insensvel; no dominada pelo pai, mas apoiada, como ele, 
em reservas ntimas, de modo que precisava menos dos outros que outras 
mulheres, mas que poderia dar muito mais, se o
estado de esprito e o momento fossem propcios.
Ps-se a pensar, languidamente, quais poderiam ser esse estado
de esprito, esse momento - e viu-se a fitar o poo de seu prprio
vazio.
Tudo o que via naquela gente, ele o havia evitado em sua prpria vida: 
marido enganado, crueldade, o prurido da carne, o medo de perder aquilo 
que se podia apenas fingir possuir, a tirania vampiresca da velhice, a 
pervertida rendio da juventude. Estabelecera
para si um objetivo limitado, e estava agora quase a ponto de 
alcanlo. Divertira-se com mulheres, mas jamais se entregara a elas. 
Preservara a tica de uma arte de curar, ao usar essa arte para o seu 
prprio progresso. Tinha dinheiro, posio, lazer. No estava sujeito
nem a uma esposa, nem a uma amante. Era livre, disciplinado e vazio do 
vinho da vida que aqueles outros dissipavam com to
ardente indiscrio.
De repente, sentiu-se como se eles fossem os ricos, e ele apenas
o mendigo parado em seu porto - e perguntou a si mesmo, como
os mendigos decerto fazem, se seu estmago teria capacidade para
suportar um banquete, mesmo que um banquete lhe fosse oferecido.
Quando o calor da tarde escorria como lava sobre a terra numa hora em que 
camponeses e burgueses se ocultavam como toupeiras, fugindo ao sol - 
Ninette Lachaise meteu tintas e telas em seu velho automvel e rumou para 
o campo.
Era uma peregrinao de artista, quase to penosa como a que
era empreendida pelas irmandades religiosas de outros tempos. A
terra estava quente como um rescaldo; as estradas eram um inferno
de poeira; os montes, calcinados, concentravam o calor e 
difundiamno em ondas abrasadoras pelas baixadas onde as vinhas 
definhavam, os crregos secavam e os ramos das oliveiras pendiam, 
lnguidos, no ar parado. O gado desistira de pastar e achava~se reunido 
sob esparsas sombras, os olhos vtreos, as lnguas sedentas pendentes da 
boca. As raras criaturas humanas, apanhadas de surpresa pelos caminhos ou 
no amanho da terra, pareciam encolhidas e ressecadas como gnomos que 
palmilhassem uma paisagem lunar. Por sobre tudo isso se estendia o 
penetrante milagre da luz: o
deslumbramento do cu para as bandas do sul, o alvo cintilar de estuques 
e dos afloramentos de tufos, sombras bronzeadas nas  fendas das 
montanhas, reluzir de lagos, ocre de todos os telhados,  lampejar de 
jias em asas de pssaros e no vo de acrdios. E a estava a
justificao daquela peregrinao: a spera novidade do aspecto das
coisas, a sbita dilatao do espao, a separao entre massa e contorno, 
de modo que a gente via atravs dos ossos da criao e tinha
um vislumbre da macia articulao de suas partes.
Para Ninette Lachaise havia ainda outras justificativas. Cada
peregrinao era, por definio, uma disciplina para o esprito, uma
tentao do desconhecido e um passo em direo do inatingvel.
Chegara quatro anos antes, em fuga, quela cidade, chamada,
por seus devotos, o Lar das Almas. Fugira de uma casa, em Paris, 
dominada por uma me doente e por um pai idoso, cuja recreao
era lamentar as glrias extintas da vida militar. Fugira da 
esterilidade dos ateliers de ps-guerra e de uma juventude que era um 
prenncio de velhice. Duas coisas tinham acontecido subitamente: sua 
pintura explodira em surpreendente maturidade e, uma semana aps sua
primeira exposio, mergulhara de ponta cabea num caso amoroso
com Baslio Lazzaro.
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Indiferente como um touro, Baslio Lazzaro era dado a aventuras desse 
gnero, e a ligao entre ambos durou seis tempestuosos
meses. Separaram-se sem pesar - e ela, magoada mas desperta,  ficou
sabendo que era capaz de paixo, embora duvidasse que viesse a
entregar-se de novo de maneira to completa. Aprendera, ainda,  outra
coisa: que aquela era uma terra de homens, e que no havia- salvao para 
uma mulher em amores promscuos ou irrefletidos. De
modo que fez das disciplinas da arte uma disciplina tambm para
a carne, embora aguardasse, quase sempre cautelosamente, o momento de um 
encontro afortunado.
Mas no bastava esperar inconscientemente a promessa de amor
dos contos de fadas, o Prncipe Encantado e o viveram felizes  para
sempre. Em sua natureza e em sua situao, havia elementos que
ela ainda no percebia bem. At onde seu talento poderia conduzi-la? 
Quando poderia ela desafiar a lenda da incapacidade da  mulher
para as grandes criaes da arte? De que grau de igualdade 
necessi-taria ela para sobreviver, aps os primeiros estmulos do  
galanteio
e da intimidade sexual? Por que motivo se sentia atrada por  homens
como Ascolini - os cnicos e os experientes - e por que razo
desconfiava dos jovens que eram todo ardor, mas que se mostravam to mal 
dotados de compreenso? Qual a vantagem de fixar
vises de beleza para deleite dos outros, enquanto que os verdes  anos
se dissipavam na solido do outono?
Desde a visita de Ascolini, todas essas indagaes e dezenas de
outras haviam adquirido perfeita nitidez, como os penhascos e as
fortificaes ameadas dos montes toscanos. Era um sinal de sua 
inquietude o haver ela aceito o convite para jantar na villa, em 
companhia de Valria, que desempenhava agora o papel de amante de
Baslio Lazzaro, e de um estrangeiro desconhecido, que lhe estava
sendo apresentado como simples objeto de exame.
De repente, porm, a comicidade da situao apoderou-se dela,
e ps-se a rir - um riso claro, livre, que ressoou pelo vale, 
espantando as cabras e fazendo com que uma cotovia alasse vo,  fendendo
o ar tremeluzente.
Na biblioteca da villa, Alberto Ascolini, advogado e ator, 
representava uma reconciliao com a filha. Era uma cena que representara 
muitas vezes e seu papel tinha a ptina de uma longa prtica. Estava 
recostado ao consolo da lareira, elegante,  impertigado,
impressionante, tendo na mo uma taa de conhaque e um leve sorriso de 
conspirao a contrair-lhe os cantos da boca. Valria 
achava enrodilhada em sua poltrona, o queixo apoiado na mo, sentada
os ps, como uma menina. Ascolini encolheu eloqentemente os ombros e 
disse:
- Filha, voc no deve mostrar-se demasiado ressentida. Sou
velho bode perverso, que ri de seus prprios gracejos. Mas eu a amo 
ternamente. No  fcil para um homem ser, ao mesmo tempo, pai e me de 
uma menina. Conheo meus malogros melhor do que voc.
Mas isso de eu vender o meu amor...  novo para mim. E
penoso, tambm. Acho que voc deveria explicar-se um pouco melhor.
Valria Rienzi abanou a cabea:
- Voc no est no tribunal, papai. No ocuparei o lugar das
testemunhas.
- Talvez no, minha filha - respondeu ele, sereno, revelando
apenas um leve ar de tristeza. - Mas voc me ps no banco dos
rus. No acha que tenho o direito de ouvir a acusao? De que
modo fao com que voc pague o amor que lhe dedico?
Voc recebe uma parte de tudo o que fao.
Recebo? Recebo? - exclamou o velho, franzindo, perplexo, a nobre testa e 
passando a mo pela cabeleira branca. - Voc 
...
faz com que eu parea um cobrador de impostos. Cuido de voc ...
claro! Interessa-me a sua felicidade ... Mas isso constitui, 
acaso, uma exigncia? Acaso j lhe neguei alguma coisa, mesmo o direito
de ser jovem e tola?
Pela primeira vez, ela inclinou a cabea para fit-lo meio hostil,
meio splice:
- Mas ento no v que a metade de tudo isso foi sempre em
seu benefcio? Carlo? Ele foi, primeiro, criao sua. Voc o preparou e 
entregou-mo como um pnei de estimao, mas conservou
sempre uma mo na rdea. Os outros? Foram, tambm, criao
sua... divertimentos para a noiva infeliz, cavalieri sirventi 
proporcionados pelo pai indulgente. Eram romances destinados a relembrar
sua prpria mocidade.
- Mas voc os aceitou, minha querida. E mostrou-se grata,
como bem recordo.
- Voc tambm me ensinou isso - respondeu ela, num assomo
de amargura. - Agradea os doces, como uma boa menina... Mas
quando eu mesma quis tomar algo ... como Basilio... ali, ento, a
coisa foi diferente!
Pela primeira vez, o rosto rosado, brilhante, de Ascolini, revelou sinais 
de clera: `
- Lazzaro  um patife! No  companhia para uma mulher
de estirpe!
38  39
- Estirpe, papai? Qual  a sua estirpe? Voc era filho de
campons. Casou pobre e lamentou do feito, quando adquiriu 
reputao. Voc desprezava minha me e ficou contente quando ela morreu. 
E eu? Sabe o que eu deveria ser? O modelo da mulher que
voc quis, mas jamais conseguiu. Sabe por que razo voc jamais
tornou a casar? Para que ningum jamais pudesse rivalizar com voc.
Para que pudesse sempre desdenhar daquilo de que tinha necessidade
e possuir o que amava.
- Amor? - repetiu Ascolini, com frio desdm. - Fale-me
acerca de amor, Valria. Ser que voc amou Carlo? Ou Sebastan?
Ou aquele sul-americano, ou o filho do grego cujo dinheiro lhe saa
at pelas orelhas? Ou ser que o encontrou, no cio, num apartamento de 
terceiro andar, com esse tal Lazzaro?
Ela agora chorava, a cabea enterrada nas mos, e ele julgou
que ganhara a partida.
- Voc e eu no devemos ferir-nos, minha filha - disse docemente. - 
Devemos ser honestos e dizer que o que temos entre ns
 o que de melhor conhecemos do amor. Para mim, , dentre todas
as coisas que conheo, a mais valiosa. Para voc, haver mais, 
muito mais, pois que o mundo ainda  novo para voc. Mesmo com Carlo
poder haver algo, mas  preciso que voc d, ao menos, a metade
dos passos nesse sentido. Ele  um rapaz, e voc uma mulher, rica
de experincia. Mas voc, como mulher, deve comear a preparar-se
para ter um lar e filhos. Dentro de um ou dois anos, eu talvez me
aposente, e Carlo, naturalmente, ficar com o meu escritrio de
advocacia. Vocs tero, ento, uma situao segura. E deve haver
filhos, com quem vocs possam desfrutar dela. O tempo dos gafanhotos
chegar tambm para voc, minha querida, como j chegou para
mim.  ento que voc necessitar dos pequenos.
Lentamente, ela se ergueu na poltrona e lanou-lhe ao rosto a
pergunta brutal:
- E a quem pertencero eles, papai? A Carlo? A mim? Ou a voc?
Dito isto, afastou-se rapidamente, deixando-o sozinho na biblioteca 
abobadada, com dois mil anos de sabedoria nas estantes e sem
remdio algum contra o inverno e a desiluso.
Havia uma lenda, em San Stefano, segundo a qual o Irmozinho
Francisco construra l, com suas prprias mos, a primeira capela.
Os afrescos da igreja celebravam o acontecimento e, nos claustros
dos frades, havia um jardim, com um relicrio em que se via o
Poverello de braos estendidos, a dar as boas-vindas s aves que
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vinham banhar-se no aqurio que tinha a seus ps. O ar fresco, a
luz tnue, os nicos rudos que ouviam eram os da gua no tanque
e os ps com sandlias a caminhar ao longo das colunatas. Ali, sentado 
num banco de pedra, Carlo Rienzi ouviu a confisso de Frei Bonifcio.
Era, aquela, uma experincia purificadora, como a de observarse um homem 
a ler sua primeira acusao num tribunal ou a ouvir
um mdico fazer o diagnstico de seu prprio mal incurvel. o 
velho tinha o rosto macilento, encovado, e os ombros caldos, como se 
carregasse pesado fardo. Enquanto fazia sua penosa exposio, seus 
dedos, nodosos, atavam e desatavam a corda que lhe servia de cinto.
- Eu j lhe disse antes, meu filho, que o que aconteceu hoje
foi o ltimo captulo de uma histria muito longa. I-J muita gente
envolvida nela. Eu sou uma delas. Cada um de ns tem uma parte
da culpa do que hoje ocorreu.
Rienzi ergueu a mo, num gesto de advertncia.
- Detenhamo-nos aqui um instante, padre. Permita-me que lhe
fale um pouco acerca da lei. Cometeu-se aqui, hoje, um assassnio.
A primeira vista, foi um ato de vingana premeditado, motivado por
uma injustia praticada, h muitos anos, contra Anna Albertini. No
h dvida quanto ao ato, as circunstncias Ou o motivo. A acusao
tem em mos um caso nitidamente definido. A defesa possui apenas
dois argumentos: insanidade mental ou atenuao da pena. Se dissermos que 
a acusada  insana, teremos de prov-lo mediante testemunho psiquitrico, 
e o caso da moa dificilmente ser melhor do
que se ela sofrer a pena normal por assassnio. Se pedirmos diminuio da 
pena, temos de escolher entre duas razes: provocao
ou enfermidade mental parcial. Um tribunal no  um confessionrio.
A lei aceita de maneira limitada a culpa moral de um ato. 
Interessa-se Pela responsabilidade, mas na ordem social, no na ordem 
moral.
Sorriu e estendeu as mos, num gesto de splica. - Li suas conferncias, 
padre. Perdoe-me mas desta vez nossos papis esto trocados.
Pelo bem de minha cliente, o senhor no deve conduzir-me a coisas
Irrelevantes.
O velho digeriu lentamente o sentido de tais palavras; depois,
fez com a cabea um gesto de aquiescncia.
- Todo ato de violncia, meu filho,  uma espcie de loucura,
duvido que o senhor encontre em Anna Albertini uma criatra
legalmente insana. Quanto  diminuio da pena, acho que posso
ajud-lo embora no saiba de que modo o senhor poderia usar o
que eu lhe disser. Deteve-se um momento e prosseguiu, lentamente: - H 
duas verses dessa histria. A primeira  a que ser
apresentada no tribunal, pois que fiz parte do registro 
oficial. A se-
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gunda... - - interrompeu-se e ficou longo momento mudo, fitando as costas 
de suas mos nodosas, sardentas. - Conheo a segunda
verso, mas no posso revel-la, pois que a fiquei sabendo, pela
primeira vez, debaixo do selo do confessionrio. Posso apenas 
dizer-lhe que existe e que o senhor ter de descobri-la por si prprio. 
Se
poder prov-la,  coisa que constitui outro problema. E, mesmo
assim, duvido que possa ter qualquer valia num tribunal.  Sua voz tremeu 
e seus olhos se encheram das lgrimas remelosas da velhice. - A justia, 
meu filho! Quantas vezes no  ela anulada pelo
prprio processo e por aqueles que deviam preserv-la! O senhor viu
Anna hoje. Tem vinte e quatro anos. A ltima vez que a vi, faz j
dezesseis anos... uma criana de oito anos a colocar flores no tmulo
de sua me e a gravar, com um pedao de lata, uma inscrio na
parede do cemitrio. A inscrio ainda l est. Mostr-la-ei depois.
Apesar de toda a sua indiferena profissional e de suas prprias
preocupaes ntimas, Rienzi comoveu-se ante a pattica situao do
velho. Ele prprio era um homem familiarizado com a culpa; 
familiarizado, tambm, com a impotncia do homem em extirp-la. Eis uma
tragdia da condio humana: cada um de nossos atos, por mais
simples que seja,  contingente de outro gesto passado e lana no
futuro uma ramada de conseqncias. Talvez possa expiar-se o pecado,
conceder-se perdo, mas as conseqncias se estendem, como o
encrespar das guas numa lagoa infinita, como correntes que se
movem eternamente num mar sombrio.
Rienzi insistiu, delicadamente, com o frade:
- E a histria oficial, padre, quando  que comea? Onde est
escrita? Quem a conta?
- Todos, em San Stefano. O registro consta dos arquivos do
sargento Fiorello, confirmado pelo depoimento de meia dzia de
pessoas. Comea no ltimo ano da guerra, quando os alemes dominavam esta 
regio, e Giaribattista Belloni era lder do bando de
guerrilheiros que agia nos montes. Foi, como sabe, uma poca de
confuso, desconfiana e conflitos sangrentos. Anna vivia na aldeia
em companhia da me, Agnese Moschetti, que era viva de um
homem morto na campanha da Lbia. Durante algum tempo, um pequeno 
destacamento de alemes esteve aquartelado na aldeia, sendo
que alguns se aboletaram na casa de Agnese Moschetti. Quando os
alemes se foram, ela foi acusada de ter-se associado a eles, 
revelando-lhes os movimentos dos guerrilheiros e os nomes de alguns
deles. Foi julgada por uma corte marcial sumria, composta de 
guerrilheiros, que a declarou culpada e a condenou  morte perante um
esquadro de fuzilamento. Giaribattista Befioni presidiu ao julgamento
e assinou a ordem de execuo. Depois do armistcio, os trmites da
corte marcial foram autenticados e arquivados nos cadastros 
policiais da aldeia. Poucos anos mais tarde, Belloni foi eleito prefeito
da aldeia e condecorado com medalha de ouro pelo Presidente, por
atos de bravura a servio da ptria...
Interrompeu-se e enxugou os lbios, como para suprimir um
gosto desagradvel.
- E que diz o processo acerca de Anna Albertini? - indagou
Rienzi.
- Tomou conhecimento de sua existncia - respondeu, seca.mente, o velho. 
- E do fato de haver ela sido entregue aos cuidados
de Frei Bonifcio, da Ordem dos Frades Menores, que a enviou para
Florena, aos cuidados de parentes.
- Onde se encontrava ela, quando sua me foi julgada e executada?
- O processo no se refere a isso.
- Mas o senhor sabe?
- Sei, mas sob o sigilo da confisso.
- E a prpria Anna jamais lhe contou?
- Desde a * ocasio da morte de sua me at hoje jamais ouvi
uma nica palavra de seus lbios. Como tampouco o ouviu qual.
quer outra pessoa da aldeia. Junto  sepultura da me ela nem sequer
chorou.
- Hoje ela  casada. Sabe alguma coisa a respeito de seu
marido?
- Nada. A polcia, naturalmente, mandou busc-lo.
- E outros parentes?
- Conheci a tia que a levou para Florena. Mas no sei sequer
se ela ainda vive. - Seus ombros arquearam-se mais, numa atitude
de desalento. - Isso j faz dezesseis anos, meu filho. Dezesseis
anos...
- O senhor me disse que ela escreveu alguma coisa na parede
do cemitrio. Ser que eu podia ver, por favor?
- Certamente.
Conduziu Rienzi, atravs dos claustros circulares, at uma porta
rangente situada aos fundos, que dava para o campo santo cercado
de muros, onde querubins de mrmore, colunas em espirais e enfezadas 
perptuas prestavam seu mudo testemunho  mortalidade. A
Sepultura de Agnese Moschetti era assinalada apenas por uma pedra
tosca, que registrava somente a data de seu nascimento, a data de
sua morte e a derradeira e pattica inscrio: Requiescat in pace.
A menos de um passo da lpide, ambos ficaram de ccoras junto
ao muro em runas do cemitrio, a fim de ler, junto ao cho, a 
dolorosa inscrio infantil: Befioni, um dia . eu o matarei.
42 43
Rienzi ficou a fitar longamente a inscrio; depois indagou, vivamente:
- Algum mais viu isto?
- Quem poder sab-lo? - respondeu o velho, encolhendo
os ombros, num gesto impotente. - Est a h tantos anos!
- Se isto for apresentado ao tribunal - disse Rienzi, em voz
baixa - estaremos liquidados mesmo antes de comear. Arranje-me
um macete e um cinzel. . . depressa!
As trs e meia da tarde, Landon despertou de uma inquieta
modorra e encontrou Carlo Rienzi sentado em sua poltrona, a fumar
um cigarro e a folhear uma revista com soturno desinteresse. Tinha
os sapatos empoeirados e a camisa amarfanhada. Seu rosto parecia
contrado e fatigado. Exps a Landon, com telegrfica brevidade,
o que ocorrera em San Stefano e terminou, olhando-o de esguelha,
com as seguintes palavras:
- A tem voc o que ocorreu, Peter. O dado- est lanado.
Aceitei a causa.. Encontrei um par de associados dispostos a agir
comigo e a apoiar-me nos tribunais de Siena. Eis a, pois, a minha
primeira causa.
- Voc j falou com sua esposa ou com Ascolini?
- Ainda no - respondeu, com um sorrisinho enviesado. J tive muitas 
emoes, por ora. Deixarei essa comunicao para
depois do jantar. Ademais, queria primeiro falar com voc. Poderia
fazer-me um favor?
- Que espcie de favor?
- Profissional. Gostaria de t-lo, de maneira informal, como
conselheiro psiquitrico. Gostaria que voc visse a moa, fizesse seu
diagnstico e, depois, indicasse um possvel emprego de um testemunho 
mdico.
- Isso no  fcil - respondeu Landon, franzindo, com ar
de dvida, o sobrolho. - Suscita questes de tica, de polidez 
profissional e, mesmo, de minha prpria situao perante a lei.
- E se lhe assegurassem que uma consulta informal no constituiria 
nenhuma transgresso?
- Ento eu pensaria no caso. Mas, de qualquer maneira, ficaria ainda 
devendo a seu sogro uma explicao. Afinal de contas,
sou seu hspede.
- Podia esperar at que eu falasse com ele?
- Certamente. Mas h algo que eu gostaria de perguntar-lhe,
Carlo. - Hesitou um momento e depois fez-lhe a pergunta nua
e crua: Por que este caso? Ao que parece, as desvantagens esto
todas contra voc.  a sua primeira causa e h pouqussimas 
probabilidades de que voc a ganhe.
O rosto de Rienzi afrouxou, abrindo-se num sorriso esplndido, infantil; 
depois, ele se tornou novamente srio.
.  uma pergunta justa, Peter, e procurarei respond-la, como
j o fiz para mim.  uma ingenuidade pensar-se que, na advocacia,
a preeminncia se baseie somente em vitrias. A causa perdida ,
no raro, mais vantajosa do que a causa segura. Nova luz sobre
anflijornias clssicas, aplicaes controversas de princpios 
aceitos,
uma estratgia que se aproveita do perene paradoxo existente 
entre
legalidade e injustia - eis a os fundamentos da reputao em advocacia. 
Como v,  o mesmo que ocorre na medicina. Quem adquire
maior nomeada... o sujeito que cura uma clica causada por mas
verdes ou aquele que, numa massagem de dez segundos, faz reviver
um corao que entrou em colapso? No existe cura para a morte,
meu caro Peter, mas h uma grande arte em seu adiamento. Em
direito, h uma arte correlata, quanto  inspirao, e nisso se 
baseiam
as grandes carreiras..A. de Ascolini, por exemplo. E, assim o 
espero,
a minha.
Landon sentiu-se chocado pelo frio cinismo da exposio. No
podia acreditar que aquele fosse o nostlgico poeta que tocara 
Chopin, o amante magoado cujo mundo explodira diante de seu rosto. Seus
lbios pareciam jovens demais para que pudessem ter articulado
aquele argumento; seu corao demasiado jovem para que pudesse
ter-se rendido a uma to glida ambio. No obstante, com toda
justia, Landon teve de concordar com ele. Carlo estava disposto a
vencer Ascolini, em seu prprio terreno, aquele estreito campo de
luta onde o direito se define por contradio como um instrumento
de preceitos ou um instrumento de justia. Carlo Rienzi s podia
combater dentro dos termos tradicionais, despojando-se do sentimento
como se despojara das vestes comuns, envolvendo-se no hbito negro
e desumano do inquisidor.
Landon, porm, estava comprometido pela amizade, e precisava
saber at que ponto Rienzi compreendia a sua situao. De modo
que o enfrentou de novo, asperamente, com uma nova pergunta:
- Voc compreende o que est dizendo, Carlo? Voc se comprometeu com uma 
cliente... baseado apenas na esperana. No
uma grande esperana, talvez, mas, de qualquer modo, uma esperana.  uma 
relao pessoal que vai muito alm do formalismo.
- No, Peter! - exclamou Rienzi, rpido e enftico. - Baseia-se nica e 
exclusivamente no formalismo. No posso formar um
juzo moral quanto ao estado da alma de minha cliente. No posso
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entregar-me  simpatia ou ao sentimentalismo, quanto ao que ela
se refere. Minha funo  despertar tal simpatia nos outros, conseguir 
julgamento favorvel por parte dos outros, inclinar todos 
os dispositivos legais a favor dela. Eis o que se pode exigir de  mim.
No posso admitir quaisquer outras exigncias. No sou sacerdote,
nem mdico, nem guardio de mentes enfermas.
Se ele fosse assim to preciso e eloqente no prprio tribunal,
talvez se pudesse esperar muito dele. Mas Landon perguntava a si
prprio quantas dessas palavras pertenceriam ao discpulo, e 
quantas ao mestre. Indagava, tambm, de si mesmo, at que ponto Rienzi
compreendia que a iseno de nimo do grande advogado ou do
grande mdico era fruto de amarga experincia, de uma madura convico da 
inutilidade final de tudo. No estaria Rienzi cometendo,
ao entregar-se assim to cedo  iseno de nimo dos mais idosos,
um erro to grande como o de render-se demasiado prontamente aos
sentimentos compassivos da juventude? Mas ele era o espectador, e
Rienzi o ator, de modo que deu de ombros e disse, em tom despreocupado:
- Eu, em seu lugar, no iria alm das botas. Contudo, se sua
cliente for to bela quanto o diz, vocs formaro, sem-dvida, um
par impressionante no tribunal.
O rosto de Rienzi anuviou-se - e ele respondeu, pensativo:
- Ela  como uma criana, Peter. Tem vinte e quatro anos,
mas fala e raciocina como uma criana... de modo simples e imprevisvel. 
Duvido que ela venha a constituir uma grande ajuda para
si prpria ou para mim.
- Voc vai alegar insanidade mental?
Rienzi franziu o sobrolho:
- No sou especialista, mas duvido que possa faz-lo. Por
isso  que necessito de sua opinio, como profissional. Confesso  que
estou confiando, mais do que tudo, em circunstncias atenuantes,
que espero descobrir em San Stefano.
- Tais investigaes podem ser dispendiosas.
- Frei Bonifcio encarregou-se de levantar os fundos necessrios para a 
defesa. Mas no me surpreenderia nada se eu tivesse  de
tirar de meu bolso uma parte das despesas.
- Voc est se entregando a um grande jogo, no lhe parece?
- O maior jogo de todos  Valria - disse, com ar grave,
Rienzi. - Mas estou resignado a isso, de modo que o resto no
passa de bagatela. - Estendeu a mo: - Deseje-me boa sorte, Peter.
- Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, Carlo. Que Deus
o acompanhe.
Rienzi lanou-lhe um olhar rpido, perquiridor:
- Acho que voc o diz de corao.
- De todo o corao. No sou um grande exemplo de dedicao, mas sei que, 
por maior que seja a sua queda, voc jamais
cair das mos de Deus. Talvez voc precise lembrar-se disso algum
dia.
- Eu sei - respondeu, pensativo, Rienzi. - Talvez precise
Jembrar-me disso, sobretudo esta noite.
Dito isto, afastou-se, e Landon sentiu por ele um pesar 
estranhamente pungente. Havia, atrs de si, palavras e,  sua frente, uma
batalha que se avolumava, mas Landon no conseguia afastar de
sua mente a desagradvel convico de que estava lutando, com
armas erradas, por uma causa errada - e que a vitria de Carlo
-Rienzi bem poderia constituir, afinal de contas, a mais sutil 
de todas
as derrotas.
O jantar de Ascolini comeou, de maneira sumamente cordial,
com coqutis na biblioteca. O velho estava afvel e eloqente; Valria 
afetuosa para com ele e atenciosa para com os hspedes, 
embora
um tanto mais reservada do que a ocasio parecia exigir. Para 
Landon,
a outra convidada foi uma agradvel surpresa. Achou-o decorativa,
divertida e agradavelmente feminina. Ela nada-tinha da estudada
languidez de suas primas italianas - nem nada de sua frvola 
coqueteria, que prometia muito, mas que era, no raro, sovina, no momento
de cumprir o prometido. Falava bem e ouvia com lisonjeiro interesse - e 
estava mais do que  altura da irnica malcia do 
advogado.
Ascolini estava fazendo uma evidente comdia de seu papel de
casamenteiro.
- Precisamos proporcionar-lhe alguma distrao, Landon
disse, cordialmente. -  uma pena que voc no esteja no mercado
dos casamentos... Voc faria furor aqui na aldeia.
- O senhor proporciona aventuras aos solteires, em Siena?
Ascolini riu e lanou a pergunta a Ninette Lachaise:
- Como  que voc responderia a isso, Ninette?
- Diria que os solteires, em geral, sabem cuidar de si prprios.
- Isso  uma lenda - respondeu, com um sorriso, Landon.
- Quase todos os solteires obtm o que procuram e acabam por
descobrir que no era isso que queriam.
- Ns tambm temos as nossas lendas - comentou Ascolini
com custico humor. - Nossas virgens so virtuosas, nossas 
esposas,
satisfeitas, e nossas vivas, discretas. Mas o amor  sempre uma
loteria. Compra-se o bilhete e espera-se que no saia branco.
46  47
- No seja vulgar, papai - disse, calmamente, Valria.
- o amor  um negcio muito vulgar - volveu o Dr. Ascolini.
Ninette Lachaise ergueu sua taa, num brinde:
- As suas conquistas em Siena, Dr. Landon.
Ele bebeu com Cautela. No havia coqueteria em seus olhos
francos e castanhos, mas um leve sorriso se apegava aos cantos 
de
sua boca. Mulheres bem-humoradas eram bastante raras em sua 
vida,
e as inteligentes ou eram enfadonhas ou destitudas de beleza. 
Pensou
que, com aquela, ele seria capaz de arriscar mais do que jamais
ousara, quanto a confiana, intimidade e, talvez, amor. Viu que
Ascolini o observava com um sorriso levemente divertido, e 
perguntou
a si prprio se o velho no teria percebido os seus pensamentos. 
Foi
ento que, de repente, Carlo entrou, impecavelmente trajado e, ao
que parecia, de excelente humor. Preparou um drink para si mesmo
e juntou-se  conversa.
A mudana que se operou no ambiente foi imediata, surpreendente e, no 
entanto, curiosamente difcil de definir-se. Era 
como
se a metade das luzes tivessem sido apagadas e eles se vissem, 
sbito,
em meio de um rsco claro de afabilidade. Ascolini tornou-se 
subitamente suave, e Valria adquiriu uma aura de prosaica ternura. A
conversa perdeu sua agudeza e converteu-se em confortvel 
digresso.
Era a espcie de conspirao que se pratica com os enfermos - a
vaga euforia imposta aqueles a quem o impacto do mundo resultou
demasiado spero.
O prprio Carlo parecia no o perceber, e Landon estava bastante disposto 
a admitir que sua percepo talvez tivesse sido 
aguada
pela fadiga e por aquela cautelosa desconfiana com que a gente
encara uma situao nova. A verdade era que, desde o ltimo coquetel at 
a primeira xcara de caf, ele no conseguia lembrar-se
de uma nica frase ou gesto significativos. Mas, depois de haver
sido servido o conhaque e de o criado ter-se retirado, Carlo 
Rienzi
tomou conta do palco e as luzes tornaram a brilhar com todo o 
seu
fulgor.
- Com a permisso de nossos convidados, eu gostaria de fazer
uma comunicao  famlia.
Valria e o pai trocaram um olhar rpido e inquiridor - e
Valria revelou, com um alar de ombros, sua ignorincia do que se
passava.
-- No discuti isto com nenhum de vocs porque achei que
se tratava de, uma deciso particular - prosseguiu, calmamente. Mas, 
agora, que j a tomei, espero que a aceitem. Chamaram-me 
hoje
 aldeia, como sabem. O prefeito foi assassinado por uma moa
que morava antigamente aqui, An- na Albertini.  uma longa 
histria,
e eu no os molestarei, contando-a agora. O fim da coisa  que 
Frei
Bonifcio me pediu para assumir a defesa da moa. E eu aceitei.
Ascolini e Valria fitavam-no, perplexos. Ele aguardou um momento e, em 
seguida voltou-se para Ascolini com um cumprimento
que no deixava de ser elegante:
- Tive um longo aprendizado, sob a orientao de um grande
mestre. Agora,  tempo de que eu siga o meu prprio caminho.
Estou renunciando ao mestre, a fim de cuidar de minhas prprias
causas. - Meteu a mo no bolso e tirou um pequeno pacote, entregando-o ao 
velho. - Do estudante ao mestre, em sinal de agradecimento. Deseje-me 
felicidade, dottore.
Landon sentiu por ele, naquele momento, singular respeito, e
rezou para que eles fossem amveis para com as deficincias de
Carlo. Qualquer que fosse a base da tcita unio de ambos contra
ele, a verdade  que Carlo se portara como um homem.
Rienzi aguardou de p num poo de silncio, enquanto sua esposa e seu 
sogro permaneciam sentados, cabisbaixos, os olhos 
fixos
na mesa. Ento, tambm ele se sentou, e Ascolini ps-se a abrir
o pacotinho com diligente deliberao.
Finalmente, surgiu o presente: um relgio de ouro, de bolso,
de delicado acabamento florentino, preso a uma corrente de fino
lavor. Ascolini no revelou sinal algum de satisfao ou pesar; 
ficou
apenas com o relgio na mo, enquanto vertia para o italiano o
latim clssico da inscrio: Ao meu ilustre mestre, a quem esta
lembrana e a minha primeira causa so dedicadas, de seu reconhecido 
discpulo.
Ascolini deixou o relgio cair, de modo que este ficou a oscilar
com um pndulo, preso de sua corrente. Ainda tinha os olhos
contrados e, ao falar, sua voz revelou seco desdm:
- Guarde-o, rapaz... ou mande-o a uma casa de penhor.
Talvez precise dele mais cedo do que imagina.
Deps cuidadosamente o relgio sobre a mesa, afastou a cadeira
e retirou-se da sala. Carlo esperou que ele sasse, depois voltou-se
Para Valria e disse, com toda a calma:
- E voc, cara? Que  que tem a dizer?
Lentamente, ela ergueu a cabea e fitou-o com olhos cheios de
condenao.
- Sou sua esposa, Carlo - respondeu, em voz baixa. - Aonde
quer que voc v, eu tambm devo ir. Mas voc fez, esta noite, uma
coisa terrvel. No sei se jamais poderei perdo-lo.
48 49
Dito isto, tambm ela se retirou da sala, e Landon, Ninette e
Rienzi ficaram a olhar uns para os outros, sobre os destroos do
jantar. Carlo envolveu com a mo a clida e bojuda taa de conhaque
e levou-a aos lbios. Depois, esboou um sorriso malicioso:
- Lamento que vocs tivessem de presenciar isso, mas era a
nica maneira pela qual eu poderia assegurar a minha prpria coragem.
Depois, fez uma pausa e proferiu as palavras mais tristes que
jamais tinham ouvido:
-  estranho, sabem... Durante toda a vida, tive medo de
estar s, e, durante toda a vida, estive s sem que jamais o 
soubesse.
Estranho!
- Durante toda a minha vida - comentou, Landon, pensativo - lidei com 
mentes enfermas. Mas no creio que jamais haja
me sentido to chocado.
Ninette Lachaise pousou-lhe sobre o pulso a mo fria e respondeu, 
calmamente:
- A  que est o seu erro, creio eu, Peter. Essa gente no
 doente;  apenas egosta. A vida deles todos  uma batalha, uns
contra os outros. Cada um deles deseja demasiado em troca de muito
pouco. Esto entrincheirados, como inimigos, em seu prprio egosmo.
- Voc  uma mulher sensata, Ninette.
- Demasiado sensata, talvez, para que lucre com isso.
Estavam, agora, no automvel dela, a meia milha dos portes
da villa, onde trs luzes brilhavam, amarelas, e separadas umas das
outras, nas paredes claras, e o luar cintilava, frio, sobre as agudas
pontas dos ciprestes. Quando Carlo saiu da sala de jantar, Landon
se sentira, subitamente, sufocar pela atmosfera de hostilidade e, com
desacostumada humildade, pedira a Ninette que lhe fizesse ainda
companhia, durante um momento, antes da hora de recolher-se. Ela
acedera calmamente e conduzira-o em seu carro, por uma estrada
serpenteante, at um lugar em que a terra descia em precipitosa
escarpa e os montes se alteavam, ao longe, em ngremes encostas,
em direo das bruxuleantes e tardias estrelas.
No sentia necessidade de cautela em companhia daquela mulher, que no 
fazia nenhum drama daquele primeiro e ntimo passeio
noturno. Era-lhe grato, percebendo na maneira tranqi de sua conversa 
uma retribuio daquela gratido dos solitrios. Sentiu prazer
em revelar-lhe um pensamento que o intrigara durante longo tempo:
- Sabe qual  a coisa mais rara do mundo, Ninette? Um
homem ou uma mulher bastante sensatos, que saibam encarar o
50
mundo frente a frente e aceit-lo, bom ou mal, tal qual ele se 
apresenta no momento. Quando as pessoas me procuram, ou sou chamado
para v-las em prises ou hospitais,  porque sou o ltimo marco
em sua longa fuga da realidade. Essa fuga  um sintoma de enfermidade - e 
a doena, a mais sutil de todas: medo! Tm medo de
perder o que possuem, tm medo da dor, da solido, de suas prprias
naturezas, as obrigaes que qualquer vida normal acarreta.
- E qual  a sua cura, Peter?
- s vezes, no h cura. s vezes, os mecanismos da mente
recusam-se a funcionar, exceto dentro de uma trilha psictica. Quanto
aos demais, procuro dar-lhes a mo e conduzi-los de volta, passo a
passo, ao momento do terror primacial. Enquanto o estou fazendo,
esforo-me por restituir-lhes a coragem, para que enfrentem esse
terror. Se sou bem sucedido, eles comeam a sentir-se de novo bem.
Se falho. - - - Hesitou um momento e ficou a fitar o escuro vale,
onde um aglomerado esparso de luzes assinalava a aldeia de San
Stefano. - Se falho, ento, a fuga recomea.

- E onde termina ela?
- Em coisa alguma. Na derradeira negao do ser, quando
o mundo se contrai e adquire as dimenses do prprio umbigo do indivduo; 
quando no h mais esplendor, nem profuso e quando
at mesmo a capacidade de amor  destruda. H ocasies em que
- ajuntou, em voz baixa - pergunto a mim mesmo se no estou
destruindo em mim aquilo que procuro construir nos outros.
- No, Peter! - exclamou ela, e o calor de sua voz o surpreendeu. - 
Estive a observ-lo esta noite, junto de Carlo. Ele estava
lhe despertando cuidados. Voc teve a delicadeza de mostrar-se gentil.
Enquanto voc se conservar assim, no precisar ter receio.
- Mas de que modo renovar na gente aquilo que dispendemos
com os outros?
- Se eu pudesse estar certa de uma resposta a isso - disse,
em voz baixa, Ninette - sentir-me-ia mais segura do que me sinto
agora. Mas penso... no, acredito, mesmo, que esse dispndio 
tambm desenvolvimento... que as flores caem para que o fruto
nasa, e que tudo foi feito para ser assim desde o comeo.
Riu ligeiramente e retirou a mo. - J  tarde e estou ficando 
sentimental. V para a cama, Peter. Voc  um homem perturbador.
- Posso tornar a v-la?
- Em qualquer momento. Encontrar o meu nome na lista telefnica.
Acho que vou deixar a villa amanh.
E ir para onde?
51
- Se no fosse por Carlo, voltaria para Roma. Mas prometi
ajud-lo nesse seu caso, e no posso, agora, recuar. Talvez arranje
acomodaes em Siena.
- Isso me alegra - comentou, simplesmente, Ninette Lachaise.
- D-me, tambm, um pouco de esperana.
Acercou-se dele e beijou-lhe, de leve, os lbios; mas quando
Landon quis apert-la de encontro a si, afastou-o delicadamente:
- Volte para casa, Peter. E bons sonhos!
Ele ficou a observar, longamente, enquanto o velho automvel
de Ninette descia, ruidosamente, a colina; depois, voltou-se e 
caminhou em direo dos portes da villa, onde um porteiro sonolento
lhe desejou um truculento Boa noite.
Dormiu mal aquela noite, despertando, no dia seguinte, cansado
mal-humorado, em meio ao pleno vero da Toscana. Depois, porm,
de barbear-se e tomar um banho, sentiu-se mais refrescado, mas no
conseguia afastar de si o fardo de ser hspede de uma casa hostil.
Desejaria ardentemente no ter-se comprometido nem com Ascolini,
nem com Rienzi; mas o mal j estava feito, restando-lhe ao menos o 
consolo de um afastamento parcial. Fez as malas, com a inteno
de partir logo aps a refeio matinal, e saiu para o terrao, a fim
de gozar da fresca da manh.
Para sua surpresa, l encontrou Valria Rienzi. Houve mais
do que um simples embarao na maneira pela qual ela o saudou:
- Levantou-se cedo, Peter.
- No dormi bem esta noite. E a manh est bonita.
Ela contraiu a boca, numa expresso de pesar e disse, em voz baixa:
- Alegra-me encontr-lo aqui. Quero que me desculpe pelo
que aconteceu ontem  noite. Portamo-nos muito mal.
Landon no estava disposto a entregar-se a uma competio de
esgrima, de modo que encolheu os ombros e respondeu, ousadamente:
- No h necessidade de que voc se desculpe. Esta  sua
casa. Voc tem o direito de agir como quiser. Mas acho que Carlo
no merecia o que aconteceu.
- Eu sei - respondeu ela, aceitando a censura sem protesto.
Eu o magoei muitssimo. Mas j pedi que ele me perdoasse.
- Ento nada mais h a dizer. O resto  assunto particular,
entre vocs dois.
- Voc est muito zangado, no est? - indagou, prendendo-lhe a mo de 
encontro  balaustrada de pedra e voltando-se para
ele, com todo o encanto de um sorriso cheio de arrependimento. Eu no o 
culpo. Mas Carlo me apanhou de surpresa. Lamento muito
que voc estivesse envolvido.
- No estou envolvido em coisa alguma, nem estou zangado.
pelo menos por enquanto. Mas acho que ser melhor que eu parta
depois do breakfast.
Ela no-fez nenhuma tentativa para dissuadi-lo, mas, apenas,
um gesto de assentimento com a cabea.
- Carlo me disse. Posso compreender como  que voc se
sente. Ele me disse tambm que voc prometeu ficar alguns dias
en, Siena. Sou-lhe grata por isso. Ele precisa, neste momento, de
um amigo.
- Penso que ele precisa mais de sua esposa.
Ela enrubesceu ante a censura e voltou a cabea para o outro
lado, cobrindo o rosto com as mos. Landon ficou  espera, sentindo-se 
meio culpado, meio satisfeito, enquanto fitava por sobre os
ciprestes, os penhascos de Amiata. Decorrido um momento ela se
recomps, mas havia algo de hibernal em sua voz e, ao voltar-se para
ele, tinha o olhar sombrio.
- Talvez eu o merecesse. Talvez, para o bem de Carlo, voc
tenha o direito de dizer isso. Mas, agora,`poderia fazer-me um favor?
- Que espcie de favor?
- Caminhar um pouco comigo pelo jardim. Conversar um pouco comigo.
- Certamente.
- Obrigada.
Tomou a mo de Landon e desceu com ele os largos degraus
de pedra que davam para as alias do jardim. Devido ao clssico
engenho dos velhos jardineiros, os caminhos acompanham os contornos do 
terreno, descendo, serpenteantes, por entre renques de
pinheiros, roseirais, encostas de arbustos floridos e prgolas 
que arrastavam consigo a purpurina florao das glicnias. As vezes, a 
casa
se ocultava; outras vezes, uma cortina de arbustos escondia o 
camnho, como se aquilo tivesse sido feito para a intimidade de antigos
amantes, mas o vale estava sempre  vista. No havia outro rudo
seno o zumbir de insetos, o pipilar ocasional de um pssaro ou o
gil rastejar de uma lagartixa pela folhagem, em busca do calor de
uma rocha.
- s vezes,  noite, ouvimos rouxinis no jardim - disse Valria. - Papai 
e eu samos, sem fazer rudo, para ouvi-los. Primeiro
um comea, depois outro, at que todo o vale parece cheio de cantos.
 belssimo.
- E solitrio tambm, s vezes.
- Solitrio? - repetiu ela, olhando-o um tanto surpresa.
- Para quem fica dentro de casa a tocar Chopin no escuro.
- Carlo?
52 53
- Quem mais poderia ser?
- Ento voc no compreende, no  verdade?
- Gostaria de compreender mas no preciso faz-lo. Afinal
de contas, nada tenho com isso.
- Carlo foi quem criou tal situao. E eu gostaria de explicarlhe algo.
- Oua-me, Valria! - exclamou ele, detendo-se sob os ramos
de uma figueira cinzenta, de onde um tordo os observou com olhos
crticos, redondos. - Compreenda quem sou e o que sou. Sou um
homem que cura mentes enfermas. Passo a maior parte de minha
vida a ouvir as complicaes dos outros, que me pagam para isso.
Se eu me estender para fora da sala de consultas, no terei 
oportunidade alguma de levar uma vida normal. Comovem-me os infortnios
dos outros, mas no posso ser obrigado a socorr-los, pois que quase
nada tenho para dar-lhes. Do mesmo modo, voc no me deve explicao 
alguma, mesmo que queira dar saltos mortais no telhado do
Duomo. Agora, se  que isso ficou entendido, ouvi-la-ei. Se puder
ajud-la, f-lo-ei. Mas depois disso. . . basta! Basta para mim, e
basta para voc, tambm.
- Oxal eu tivesse metade de sua indiferena! - respondeu
ela, com tanta amargura na voz, que causou surpresa a Landon.
- Mas voc tem razo. No se tem o direito de exigir nada de voc.
Eu falo; voc ouve ... j que vai mesmo embora. Basta! Mas voc
no  nem a metade to feio quanto pretende fazer com que os
outros acreditem.
Tomou-lhe de novo a mo e f-lo caminhar a seu lado, enquanto
o tordo os fiscalizava vivazmente dos ramos das rvores. Landon 
viu-se, de repente, a admirar a segurana com que ela entrava em 
assuntos e questes que, de modo algum lhe eram lisonjeiros. Ela no
procurava diminuir sua culpa, nem fazer drama. Havia nela uma
simplicidade essencial terrivelmente desconcertante.
- Eu sei, Peter, que voc acha que existe algo um tanto inslito em 
minhas relaes com papai. Isso influi em seu juzo acerca de meu 
casamento com Carlo. De qualquer forma voc  mais corts do que alguns 
de meus amigos.
- O mundo  assim mesmo. As pessoas bisbilhotam. Amam
o cheiro do escndalo.
Isso era uma banalidade, mas ela ficou um momento a meditar,
com ar grave. Depois, perguntou:
- Voc acha isso escandaloso, Peter?
Ele sorriu e abanou a cabea:
- Eu sou mdico e no um censor de moral. Adoto o ponto
de vista clnico. Antes de fazer um diagnstico, procuro descobrir
todos os fatos.
54
- Bem, ento eis aqui o primeiro, Peter. Durante longo tempo,
vivi apenas num mundo e achei-o bastante satisfatrio. Eu no tinha
me, mas um pai que me amava ternamente e que abriu para mim,
uma a uma, as portas do mundo. Cada nova revelao era, para
mim, uma maravilha. Ele no me negava nada, mas, no obstante,
conseguiu ensinar-me as disciplinas do prazer. Fez o que a maioria
dos pais no sabem fazer: ensinou-me a compreender o que significava ser 
uma mulher. Respondia a todas as perguntas que eu lhe
fazia, e jamais o apanhei numa mentira. Que h de inslito no
fato de eu o haver amado e sentir-me sempre contente de estar a seu lado?
- Nada de inslito, mas, talvez lamentvel.
- Por que diz isso?
Pela primeira vez, ele surpreendeu uma certa ansiedade em sua voz.
- Porque, em geral,  a omisso dos pais que obriga uma
criana a procurar sua inteireza em outro lugar ... num mundo mais
amplo, com outras pessoas, com outras espcies de amor. No  a
relao existente entre voc e seu pai que  inslita, mas, sim, o
fato de voc a achar completa e suficiente. Seu pai  um homem
notvel, mas ele no  todos os homens nem todo o mundo.
- Foi o que descobri - disse, calmamente, Valria. - Isso
o surpreende?
Um pouco.
J lhe disse que nunca o apanhei numa mentira. At recentemente, isso era 
verdade. S muito lentamente fui percebendo a 
realidade. Ele sempre me disse que todos os seus cuidados e conselhos
tinham em mira o meu bem-estar. E, ao invs disso, descobri que
o meu bem-estar era um fundo estabelecido em seu prprio benefcio. Eu 
era um capital que ele criou para substituir a juventude que
perdera. - Seu rosto se anuviou e ela hesitou, acanhada, antes de
concluir: - Ele quer que eu seja tudo aquilo que eu no posso ser:
esposa, amante, filha... e um espelho que reflita a imagem de Alberto
Ascolini.
- E o que  que voc quer ser, Valria?
- Uma mulher! Uma mulher que me pertena.
- E no a Carlo?
- Que pertena a algum que possa dar-me a identidade que meu pai me 
tirou!
- E Carlo no pode fazer isso?
Pela primeira vez, Landon ouviu-lhe o riso; mas no havia
jocosidade nele; apenas uma melanclica ironia:
55
- Voc sente muito por Carlo, pois no? Ele  um menino.
Um menino apaixonado! E, quando se viveu com um homem durante
toda a vida, isso no constitui nem a metade do que a gente deseja.
- Ele pareceu-me bastante homem, ontem  noite - comentou Landon, 
secamente.
- Voc no foi para a cama com ele - respondeu Valria
Rienzi. E Landon ainda estava engolindo aquele bocado, quando ela
lhe ofereceu um outro: - Qual  sua receita, doutor, quando uma
moa quer ser beijada e derrubada sobre um monte de feno e tudo
o que se lhe oferece  chocolate pela manh?
Ento, por haver sido desafiado em sua prpria masculinidade, e por estar 
cansado de fazer papel de mocho sbio, enquanto
outros brincavam de baciami entre os arbustos, Landon tomou-a nos
braos e beijou-a, sentindo-lhe a doura da boca misturada a um
salgado ressaibo de sangue.
- Encantador! - exclamou o Dr. Ascolini, com rido bom
humor. - Encantador, perfeitamente encantador... embora um tanto ou 
quanto indiscreto.
Landon afastou-se bruscamente e viu o velho parado no meio
do caminho, o rosto rosado aberto num sorriso radiante.
- Por princpio, eu deveria desaprovar isto - ajuntou.
Mas, dadas as circunstncias, parece-me uma diverso recomendvel para 
ambos.
- Oh ... v para o diabo!
Zonzo de raiva e de humilhao, Landon passou por Ascolini e
afastou-se rapidamente. O riso sonoro do ator seguiu como a 
gargalhada de uma criana, encantada com as diabruras de um palhao.
56
5
Quando Landon chegou ao terrao, a refeio j estava na mesa
e Carlo, enquanto tomava o seu caf, folheava um monte de jornais
da manh. Cumprimentou Landon com ar grave, mas corts, passoulhe uma 
xcara de caf e um prato de po caseiro, ainda quente, e disse-lhe, 
calmamente:
- Vi o que aconteceu, Peter. Foi quase como se tivesse procurado fazer 
com que eu o visse. - Apontou para o jardim, onde Ascolini e a filha eram 
claramente visveis atravs de um vo existente entre os arbustos. - 
Agora voc talvez compreenda contra o
que tenho de lutar.
Landon sentiu-se corar ante aquela nova humilhao.
- A culpa foi minha - disse, desajeitadamente. - Lamento
que isso tenha acontecido.
Rienzi fez um gesto com a mo, como se fosse desnecessria
qualquer desculpa.
- Por que voc se culpa? Isso j aconteceu antes. E tornar a acontecer.
Landon sentiu-se, impulsivamente, irritado:
- Ento, com os diabos, por que razo voc se mostra assim
to complacente? Por que no me d um soco no nariz? Se minha
esposa me fosse infiel, eu lhe torceria o pescoo, ou a 
abandonaria.
- Mas ela no  sua esposa, Peter - respondeu Carlo, com
voz montona. -  minha esposa... e sou, de certo modo, responsvel Pelo 
que ela . Voc a conhece apenas h poucos dias. Eu
vivo com ela h anos. Voc a julga como julgaria qualquer outra
mulher que quisesse pintar o sete durante o vero. Mas, nela, isso 
uma espcie de obstinao infantil, que sempre contou com a indulgncia, 
do pai, que pensa apenas em si prprio. Como voc j percebeu, ela nunca 
 voluntariosa para com ele, embora, no raro, se
57
ressinta da influncia paterna. O padro de ordem e de autoridade j
se acha estabelecido, como o teria sido conosco no caso de um 
casamento normal. Fora do padro, Valria no reconhece qualquer direito
ou obrigao. O mundo e todas as criaturas que nele existem foram
feitos apenas para uso ou benefcio da famlia Ascolini.
- E voc acha que pode romper esse padro e tornar a recomp-lo?
- Sei que devo tent-lo.
- Desejo-lhe boa sorte!
Rienzi sorriu e abanou a cabea:
- Peter, meu amigo, no banque o cnico comigo. Sei o que
voc  e como se sente. Isto aqui  um casamento... no muito
satisfatrio, mas, no obstante, um contrato que nos une at a morte,
e que eu devo fazer funcionar da melhor maneira possvel. No comeo,
cometi um erro terrvel. Tinha demasiado amor e pouqussima experincia. 
Agora, sou mais experiente e ainda existe, penso eu, bastante amor. Voc 
no deve desprezar-me por eu procurar praticar uma boa ao. No deve 
tampouco desprezar Valria, por no lhe
terem ensinado o que deviam.
A dignidade de Carlo, o pattico da situao, deixou Landon
mais envergonhado do que desejava admitir, mas havia ainda uma
advertncia a fazer:
- So necessrias duas pessoas para manter um contrato, Carlo.
Voc talvez possa fazer tudo o que espera, e at mais ... mas, ainda
assim, poder falhar, quanto ao que se refere a Valria. Voc deveria, ao 
menos, estar preparado para isso.
Carlo deu de ombros e respondeu, com triste desprezo por si mesmo:
- Que  que tenho a perder, Peter?
- A esperana.
Rienzi ficou um momento a fit-lo; depois, acenou com a cabea, num 
desolado gesto de assentimento:
- Esse  o meu derradeiro terror, Peter. Voc no deve pedir-me, ainda, 
que o enfrente. Tome o seu caf e vejamos o que diz a imprensa acerca de 
nossa cliente.
O caso de San Stefano abrira manchetes em todos os matutinos.
As descries eram sensacionais, cheias de retrica sangrenta e de
pormenores sdicos. As fotografias abrangiam todas as gamas da
vulgaridade, desde o horrendo instantneo do morto sendo velado
pelos parentes em sua casa, at um close-up de Anna Albertini ao
ser metida num carro de presos, a saia erguida at a coxa. Mas,
dentre a confuso das palavras mal escolhidas, a histria surgia de 
maneira bastante clara.
A vtima era Gianbattista Belloni, ex-agricultor, depois lder de
guerrilheiros e, mais tarde, prefeito de San Stefano e proprietrio de 
terras de amplos recursos. Terminada a guerra, fora condecorado com uma 
medalha de ouro e uma citao do Presidente, por destacados servios 
militares prestados ao pas. Era casado e tinha dois 
filhos j adultos. Sua esposa chamava-se Maria. Segundo o testemunho das
pessoas do lugar, era homem de bom carter, hbitos generosos e
modesta preeminncia. Seu assassnio levou a aldeia a apaixonado 
ressentimento.
Anna Albertini - chamada, diversamente, pela imprensa, a
jovem assassina, a bela, mas sanguinria criminosa, a assassina
de encantos satnicos - nascera Anna Moschetti, filha de um soldado 
convocado, morto na campanha da Lbia, e de uma me executada pelos 
guerrilheiros por sua colaborao com os alemes. Tinha vinte e quatro 
anos de idade e estava ausente de San Stefano h
dezesseis anos. Aos vinte, casara-se com um jovem florentino chamado
Luigi Albertini, que trabalhava como guarda-noturno numa tecelagem.
No dia do crime, Anna Albertini preparou a refeio matinal
para o marido e, depois, enquanto este se achava ainda dormindo,
apanhou o seu revlver e saiu. Tomou, logo cedo, um trem que
chegou a Siena pouco antes do meio-dia. Ao desembarcar, tomou
um txi na estao e dirigiu-se a San Stefano, a fim de matar Belloni.
O motivo do crime era claro: vendetta. Represlia pela morte da
me, contra o homem que presidira ao julgamento marcial sumrio.
Os jornais exploraram muito este motivo. Quase todos eles discutiram o 
caso com singular sobriedade e um jornal importante chegou
mesmo a estampar um editorial condenando, em termos bastante 
fortes, qualquer renascimento dessa antiga e nefasta prtica, exigindo
a mxima vigilncia por parte da polcia e do poder judicirio, para
que nenhuma falsa benignidade pudesse parecer que estava a 
justificar o barbarismo dos conflitos sangrentos que desfiguraram tantas
Pginas de nossa histria.
Tal comentrio pareceu, a Landon, bastante justo. A lex taliones
marcava bastante fundo as relaes humanas. Era um culto sangrento,
desenfreado, ruinoso, que no tinha parelha sequer na selva. Sempre
que era praticado, as comunidades viviam mergulhadas em terror
dirio, a um passo do colapso e do caos. No caso em apreo, ele
tinha-de admitir que todas as simpatias se achavam voltadas para
o lado dos anjos. E, fosse qual fosse a maneira pela qual Carlo
Rienzi formulasse a sua defesa, os anjos no veriam com bons olhos
a sua passagem pelo tribunal.
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No ltimo jornal que folheou, deparou com uma surpreendente
fotografia de Anna Albertini: um clich de duas colunas, um tanto
prejudicado por retoques apressados, mas que no obstante, constitua 
ainda um retrato de trgica beleza e terrvel inocncia. No
havia maldade nos lbios suavemente traados, nem dio no olhar,
mas uma vaga expresso de encantamento ante algo maravilhoso,
invisvel para os outros. Se os velhos moralistas disseram a 
verdade ao afirmar que os olhos eram o espelho da alma, ento a alma de
Anna Albertini era, um espelho de pureza primitiva. Carlo Rienzi
inclinou-se sobre a mesa e indicou a fotografia com a colher com
que mexera o caf:
- Eis a exatamente o aspecto dela, Peter... voc ter de
dizer-me o que existe por trs desse rosto.
- Precisarei de tempo- respondeu Landon, em tom seco e
profissional. - Tempo e uma certa liberdade durante a consulta.
Essa parte compete a voc.
- Terei de consultar Galuzzi. Ele  consultor do Departamento
de Justia, na parte de sade mental. Se ele estiver de acordo, no
teremos muita dificuldade. com as autoridades penitencirias. Talvez
demore um pouco para se conseguir uma entrevista com ele, mas
tratarei disso o mais cedo possvel. Arranjei acomodaes para voc
em Siena. Entrarei em contato com voc l.
-  uma situao embaraosa para todos - observou Landon,
com ar de viva inquietao. -  melhor que eu deixe j a villa.
- Voc me disse que queria conversar com Ascolini, antes
de comear qualquer trabalho comigo.
- Dispensar-me-ei dessa cortesia. No creio que, agora, isso
tenha importncia.
- Bem - disse Carlo, vivamente. - Vamos apanhar suas
malas e partir.
A viagem at Siena foi curta e rida para ambos. Carlo estava
preocupado, e Landon macambzio e irritadio. A esplndida paisagem 
passava por eles despercebida, e Rienzi logo desistiu de suas
foradas tentativas no sentido de distrair o seu companheiro. Logo
 chegada, Carlo instalou Landon numa surpreendente pensione, com
as armas dos Salimbeni sobre o portal, aposentos imensos, de tetos
guarnecidos de caixotes, e uma fonte do sculo XIII a adornar o
ptio. Para terminar, comunicou-lhe que o aluguel, durante uma 
semana, j estava pago. Quando Landon, diante de tal generosidade,
corou, Rienzi riu.
- Chame a isso de suborno, se quiser, Peter. Preciso de voc
aqui. Voc viu o que existe de pior em ns. Agora, gostaria que visse
o lado melhor. Hoje, voc precisa de tempo para dedicar a si prprio... e 
eu tambm. Apanh-lo-ei aqui amanh cedo, s nove e
trinta. No se *neta em complicaes!
Landon no sentia disposio alguma para se meter em folias,
mas ficou contente quando Rienzi se foi. Precisava de tempo e de
isolamento para livrar-se da depresso m que se achava. Ainda era
cedo, e resolveu perambular pela cidade. Aquela cidade cujos 
amantes, em outros tempos, haviam chamado de O Lar das Almas.
Esperava que a cidade pudesse fazer alguma coisa pela sua prpria
alma, que se encontrava, ento, em triste estado.
Na verdade, a cidade nada fez por ela, seno fazer com que
ele se sentisse ainda mais infeliz. H uma doena que aflige muitos
viajantes, uma doena endmica cujo sintoma principal consiste em
aguda rnelancolia, uma sensao de opresso diante do que  velho
e de desagrado pelo que  novo. Os rostos com que a gente depara
adquirem um carter sinistro, como os desenhos de Leonardo da
Vinci. O aparatoso desfile da histria converte-se numa procisso de
caricaturas grotescas a abrir caminho em meio do dobrar de sinos
em miserere. Tem-se conscincia da prpria solido e estranheza. Os
esforos de comunicao numa lngua estrangeira transformam-se num
fardo intolervel. Os alimentos parecem-se uma mistura adulterada.
E a gente tem saudade do vinho mais aguado de nosso prprio pas:
No existe remdio para essa enfermidade. A gente a tolera
como um acesso passageiro de malria, e, depois, ela se dissipa, sem
que cause qualquer dano perceptvel  mente ou ao corpo. O melhor
tratamento  a gente ignor-la e pr-se em movimento, entregando-se a 
gestos de interesse e atividade. Uma jovem bonita constitui grande ajuda. 
Meia garrafa de conhaque no  substituto digno de *confiana. Mas Landon 
tomara muito conhaque na noite anterior e achava-se demasiado esfalfado 
para procurar uma companhia feminina numa
cidade estranha. Assim, aps duas horas de caminhada a esmo, sentou-se 
para um almoo indiferente, uma ligeira sesta e um telefonema a Ninette 
Lachaise. A reao dela foi clida e imediata. Teria muitssimo prazer em 
v-lo. Deveriam encontrar-se, para o jantar,
no Sordello, um lugar animado, semelhante a uma caverna, situado
perto do campo freqentado por artistas e estudantes das faculdades da 
Universidade.
Ao se encontrarem, ela o recebeu de modo afetuoso. Quando
entraram nas adegas fumarentas, as cabeas se voltaram para ambos
e houve um coro de assobios de aprovao, que fez com que Landon
se sentisse um palmo mais alto e particularmente reconhecido a
Ninette Lachaise.
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Para oviajante experimentado, ou para o solteiro experiente,
no h tempo para longos prembulos em questo de amizade. Ou se
consegue um entendimento rpido ou se abandona o esforo. A gente
torna-se cioso do tempo, pois que se despendeu muito com a mecnica de ir 
de um lugar para outro. At mesmo uma passagem de
estrada de ferro se converte numa justificao para a pequena morte
da partida. Quando se toma um avio, a gente se v lanado numa
interrupo de atividade que  como que uma perturbadora imagem
da eternidade. De modo que se experimenta certo ressentimento 
contra aqueles que exigem prova de identidade, complicadas provas de
aptido para que se possa gozar de sua companhia. A gente se sente
impaciente diante de mulheres que regateiam seus sorrisos ou fazem
um drama de um convite para jantar. E, s vezes, a gente sente
mesmo desprezo por si mesmo, por sentir tanta necessidade de 
companhia no caminho de peregrino que se percorre.
Quando Landon explicou isso a Ninette, ela o aceitou como um
cumprimento e deu-lhe a sua prpria e bem-humorada verso do mesmo.
-  a punio da liberdade, Peter; a taxa que temos de pagar
por sermos solteires ou artistas. Quando os comediantes ambulantes
chegam  cidade, os maridos no perdem de vista suas esposas.
Quando os mascates chegam com seus bas de novidades, os negociantes 
honestos apertam os cordis de suas bolsas e conservam suas
filhas em casa. Voc ainda  Scaramouche, chri; eu ainda sou
Pierrette, ligeira no amor e pronta a seduzir-lhes os filhos e a lev-
los,
ao altar. S quando somos velhos e famosos  que eles nos convidam para 
jantar.
- E, no obstante, eles precisam de ns, Ninette. Somente criaturas como 
voc e como eu podem mostrar-lhes de que modo segurar o mundo pelas 
pernas ecuspir-lhe nos olhos.
Ela riu, feliz, e mordeu uma azeitona.
- Claro que eles precisam de ns, Peter, mas no exatamente
como queremos que algum precise de ns. As paredes ficam nuas,
sem um ou dois quadros. Hoje,  to elegante ter-se um psicanalista
como antigamente era elegante ter-se um confessor pessoal. Quanto
ao resto. . . - e suas belas mos envolveram num gesto todas as
pessoas palradoras que se achavam na adega. . . - todos eles 
prefeririam que permanecssemos na Bomia e s aparecssemos por
ocasio do carnaval. Seja l como for, tenho a certeza de que somos
mais felizes aqui.
- E que acontecer quando ficarmos velhos?
Ela encolheu os ombros e esticou o beio, como verdadeira parisiense:
- Se formos velhos e tolos, daremos com os burros ngua, e
talvez at procuremos consolo no lcool. Mas, se formos velhos e
sbios, voltaremos, s vezes, aos velhos tempos, como antigos mestres a 
receber a homenagem da juventude... como aquele que ali est, por 
exemplo.
Indicou, atravs da sala, um canto mal alumiado, em que um
homem de cabelos brancos se achava sentado em companhia de
meia dzia de estudantes, que o ouviam com enlevada ateno. No
cabide, ao lado da mesa, estavam dependurados quatro daqueles
curiosos bons medievais, cujas cores denotavam a Faculdade de
Direito. No mesmo momento, o homem voltou a cabea e Landon
viu, com certo sobressalto e surpresa, que era o Dr. Ascolini. Ele
estava muito distante, demasiado absorto em sua sance, para notar
a presena de Landon, mas Landon sentiu, embaraado, um leve
rubor assomar-lhe ao rosto. Ninette disse-lhe, zombeteira, a sorrir:
- Voc no me contou o que aconteceu esta manh, Peter.
Quer falar-me a respeito?
Landon o fez. Falou durante toda a sopa e a pasta. Falou enquanto tomavam 
uma garrafa de vinho e pediu outra, enquanto Ascolini
continuava sentado, eloqente e respeitado, entre o seu grupo de
estudantes. De vez em quando, Ninette sondava, com uma pergunta
ocasional, o mago daquele drama provinciano. Quando Peter terminou, ela 
pousou a mo esguia sobre a dele e indagou, delicadamente:
- Voc quer saber o que penso, Peter?
- Quero.
- Pois acho que Valria est apaixonada por voc. Carlo apiase em voc 
mais do que seria, a ele, conveniente, e Ascolini respeita
voc mais do que voc supe. - Antes que ele tivesse tempo de 
interromp-la, Ninette prosseguiu: - Acho, ainda, que voc est mais
profundamente afetado por tudo isso do que o admite. Voc gosta
de passar por filantropo, mas a mscara escorrega-lhe do rosto, pois
que no se adapta muito bem a voc. No fundo, voc  um homem
compassivo, que se magoa demasiado facilmente com a maldade ou
a desconfiana. Voc julga essa gente de modo demasiado rspido e
sumrio. Pinta todos os seus quadros em branco e preto, sem lugar
para os meios tons.
- Voc se refere a Ascolini?
- A todos eles, mas a Ascolini em primeiro lugar, se o desejar.
Uma exploso de risos ergueu-se da mesa do velho, e Landon
o viu dar umas palmadinhas; no ombro do jovem que a causou.
Viu-o tambm fazer sinal ao garo, para que trouxesse outra garrafa
62 63
de vinho e, depois, inclinar-se atentamente, a fira de ouvir a 
pergunta de outro estudante. Ninette Lachaise fez outra pergunta:
- Como  que voc interpreta isso, Peter? Que  que o traz
aqui?
- Voc mesma j o disse. O velho mestre recebe as homenagens da 
juventude!
- E isso  tudo, chri? No existe ali bondade? Medo? Solido?
Landon, pesaroso, teve de ceder.
- Muito bem, Ninette- Voc venceu. De modo que o diabo
tem um corao bondoso... mas no porque o deseje.
- Ele j lhe mostrou o seu corao, Peter? Ou voc o viu
atravs dos olhos de alguma outra pessoa?
A censura era to delicada, que no lhe restava outro recurso
seno aceit-la. Respondeu, sorrindo:
- A artista  voc. Seus olhos so mais penetrantes do que
os meus. Talvez voc queira descrev-lo para mim.
- Eu o conheo, Peter - disse ela, calmamente. - Conheo-o
h muito tempo. Ele compra meus quadros e vai, com freqncia,
-ver o que estou fazendo. Conversamos e tomamos caf juntos.
Sem que tivesse razo para tal, Landon sentiu uma aguilhoada
de cimes, ao pensar que aquele velho e malicioso charlato 
desfrutava da intimidade da casa de Ninette. Mas Siena era uma cidade
pequena, e ele tinha menos direitos, quanto  jovem, do que 
Ascolini.
- Sei que ele possui muito charme - disse, encolhendo os
ombros.
Ninette Lachaise enc,heu-lhe novamente o copo e entregou-lho
com um sorriso. Beba seu vinho, chri.  voc quem ir levar-me  casa e
no o venervel doutor. Mas, falando seriamente: h uma tragdia
em sua vida. Ele tem uma filha que o decepciona e um genro que
alimenta ressentimentos contra ele.
Agora, foi a vez de Landon rir.
- Valria o decepciona? E t:e que  que ele se queixa? Ele
a fez  sua prpria imagem.
- Os auto-retratos nem sempre so a melhor arte. - Estendeu suas 
encantadoras mos e tomou-lhe o rosto, voltando-o para
ela. Seus olhos desafiavam-no, meio zombeteiros, meio srios. Todos ns 
amamos nossas prprias pessoas, Peter, mas nem sempre
somos felizes com o que vemos no espelho. Voc ?
Ele capitulou da maneira mais corts possvel. Tomou-lhe as
mos e beijou-as.
Voc venceu, Ninette disse, com ar despreocupado.
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- Voc  melhor advogado do que Ascolini. Deixarei em suspenso minha 
opinio.
- Poderia fazer-me um favor9
- O que quiser.
- Deixe-me convidar Ascolini para tomar algo conosco.
Recusar seria uma grosseria. Ademais, ele desejava gozar mais
da companhia daquela mulher, e alguns minutos de constrangimento
eram uni preo modesto para tal privilgio. Ninette dirigiu-lhe um
sorriso rpido, gracioso, e atravessou o salo, sob urna nova 
irrupo
de assobios e de aplausos. Ascolini saudou-a com exuberante 
cortesia
e, aps uns momentos de conversa, veio com ela para a- mesa de
Landon. Estendeu-lhe a mo e disse, com sua velha e obstina
ironia:
- Est em melhor companhia do que eu, meu amigo. Isso me
alegra.
- Temos muito em comum - atalhou Ninette Lachaise.
- o senhor  um homem afortunado, Mr. Landon. Se eu fosse
vinte anos mais moo, tir-la-la do senhor. - Suspirou 
teatralmente
e sentou-se em sua cadeira. - Ali, juventude, juventude! Um 
tempo
fugaz! S lhe damos valor quando a perdemos. Cada um desses 
jovens
deseja ser to experiente quanto eu. De que modo dizer-lhes que
eu no queria outra coisa seno ser to sensual quanto eles?
Landon serviu-lhe vinho e participou do brinde que- Ascolini
fez a Ninette. Conversaram voluvelmente alguns instantes e, de 
repente, Ascolini disse:
- Eu raramente me desculpo, Landon, mas devo-lhe uma explicao. Lamento 
o que aconteceu em minha casa.
-  coisa j esquecida. Gostaria que tambm o senhor a esquecesse.
Ascolini franziu o sobrolho e agitou a juba branca:
- No deve prometer tanto, meu amigo, nem mesmo por delicadeza. No  
possvel esquecer, mas apenas perdoar... e isso, Deus
o sabe,  bastante difcil. - E, com a mesma volubilidade com que
abordara o assunto, passou para outro: - Esteve hoje com Carlo, Landon?
- Estive.
- Ento est metido nesse caso?
- No o creio .- respondeu Landon, sondando o terreno.
Ofereci apenas a Carlo a minha assistncia profissional, do lado da 
defesa.
- Carlo tem sorte com os seus amigos - comentou, secaraente, Ascolini.
- Mais sorte do que com a sua famlia, talvez!
65
- Vocs so ambos meus amigos. No permitirei que discutam
em minha companhia. Voc, Peter, tem a lngua demasiado solta.
E o senhor, dottore - ajuntou Ninette, pousando a mo no brao
de Ascolini - por que razo faz questo de passar por monstro,
com chifres, rabo e fogo a sair-lhe dos ouvidos? O senhor  to leal
a certos princpios quanto Peter, embora no o confesse.
Para Landon, aquilo era uma advertncia para que tivesse melhores 
maneiras, feita por uma criatura cuja opinio ele prezava. Procurou, 
desajeitadamente, reparar sua indelicadeza:
- Por favor, doutor! Sou um estranho que se viu envolvido,
contra sua vontade, num assunto de famlia. Sinto-me irritadio e
confuso. Carlo foi o primeiro a honrar-me com sua confiana, de
modo que me sinto, naturalmente, inclinado a colocar-me a favor dele.
Mas, na verdade, nada disso me diz respeito. S um idiota desejaria
servir de rbitro numa disputa domstica.
- Infelizmente, Landon, no  de rbitro que precisamos, mas
de perdo para os nossos pecados e da graa que nos permita emendar-nos. 
Sou demasiado velho e demasiado orgulhoso para pedir tal
coisa, e Carlo  jovem demais para reconhecer tal necessidade. Quanto
a Valria. . . - Interrompeu-se, para tomar um gole de vinho e
ver de que maneira poderia expressar seu pensamento. - Quanto
a Valria, fui eu quem lhe revelou o mundo ... roubando-lhe a
inocncia com que ela deveria compreend-lo. Voc  uma mulher
sensata, Ninette... Que  que voc receita para uma doena como a nossa?
- Se eu lhe disser, talvez o senhor deixe de comprar os meus quadros.
- Pelo contrrio! Talvez eu at a surpreenda, comprando-os todos.
- Ento, dottore mio, eis aqui a receita. A menos que queiram
acabar matando-se uns aos outros, algum tem de dizer a primeira
palavra amvel. E o senhor  quem tem menos tempo para isso.
Durante longo momento, Ascolini permaneceu mudo. Fugiu-lhe
o brilho dos olhos, seu rosto rosado tornou-se flcido e, pela primeira
vez, Landon percebeu quo velho era ele. Finalmente, levantou-se,
tomou a mo de Ninette e levou-a aos lbios:
- Boa noite, filha. Durma em paz. - E, em tom mais cerimonioso, voltando-
se para Landon: - Gostaria de conversar com o senhor, se quisesse almoar 
comigo, amanh, no restaurante 
Luca.
- L estarei.
-  uma hora, ento. Divirtam-se, com a minha bno.
Ficaram ambos a observ-lo, enquanto Ascolini atravessava o
salo, seguindo, com o seu jeito de velho, por entre as mesas repletas
de gente at que os estudantes se ergueram  sua aproximao, como
filhos zelosos de um pai ilustre.
Landon sentiu os olhos de Ninette postos em sua pessoa, mas,
como nada tinha a dizer, ficou a fitar a toalha axadrezada da mesa,
desconcertado e um tanto envergonhado. Finalmente, Ninette disse,
com uma pontinha de ternura:
- H outros lugares, outras pessoas, Peter. Vamos  procura deles.
No houve assobios, ao sarem. At mesmo o Sordello tinha
o seu cavalheirismo prprio, mas Landon no sabia dizer se era a gide de 
Ascoliiii que os protegia, ou se ele j havia adquirido o ar de homem 
apaixonado - coisa nobre na Toscana, apenas um pouco menos solene do que 
um funeral ou a coroao de um Papa.
 Eram j trs horas da madrugada quando ele levou Ninette para
casa, ao deixarem a ltima cantina e as ltimas pessoas. Na 
obscuridade do vo da porta da casa de Ninette, beijaram-se, agarrados um
ao outro, tontos e apaixonados, at que ela o afastou de si, 
sussurrando-lhe:
- Nome apresse, Peter. Prometa-me que voc no me apressar. No somos 
crianas e sabemos aonde este caminho conduz.
- Quero que seja um caminho longo.
- Eu tambm. Mas preciso de tempo para refletir.
- Posso visit-la amanh?
- Amanh... o dia que quiser!
- Mas voc poder ficar enjoada de mim e mandar-me embora.
- Nesse caso, eu me amaldioarei e o chamarei de volta. Agora v para 
casa, chri, por favor!
 A velha cidade estendia-se, mgica, sob a lua de vero, com
suas  colunas prateadas, suas torres serenas, suas fontes cheias de
Plidas estrelas. Seus sinos estavam mudos, mas suas praas eram
ffiUrmurejantes de fantasmas antigos e cordiais. Um deles fez-lhe uma
Pergunta que ele julgou j ter ouvido antes: Que acontece, meu
amigo, quando o mundo explode diante de nosso rosto?
Num terceiro andar, perto da Porta Tufi, Valria Rienzi jazia
desperta, a observar as sombras do luar, que se estendiam sobre os
topos dos telhados. Ao seu lado, na cama em desalinho, Baslio
Lazzaro dormia, ressonando, a sono solto, tendo no rosto belo, rude,
um ar de satisfao. Mesmo em repouso, havia nele profunda vitalidade 
animal: no peito largo, coberto de plos escuros, no ventre.
66 67
chato e nos ombros atlticos, musculosos. Era como um animal de
coudelaria, criado para reproduo, orgulhoso de sua potncia, 
desgracioso, mas dominador no ato da posse.
Contudo, embora o desprezasse, Valria no podia sentir-se
pesarosa por t-lo conhecido. Sua violncia magoava-a, seu egosmo
irritava-a, mas, no obstante, ele jamais deixava de proporcionar-lhe
uma espcie de realizao. Ele no lhe pedia que ela fosse diferente
do* que era - uma mulher atraente, apta para o acasalamento, feliz
por dedicar-se aos jogos amorosos e que no fazia demasiadas perguntas 
acerca do amor. Havia uma urgncia pnica em sua maneira
de request-la, o que a levava rapidamente  excitao. Alegrava-o
a submisso, mas ficava encantado quando encontrava cooperao.
Lazzaro no exigia, como Carlo, que ela fizesse o papel de sedutora, nem 
como seu pai, que ela recordasse um episdio de literatura lasciva. Era 
simples como o animal a que se assemelhava e sua simplicidade era uma 
garantia da liberdade dela. Ela podia
ir ou ficar. Se ficasse, havia um preo. Se o deixasse, havia outras
vinte mulheres a quem ele poderia chamar com um simples estalo
de seus dedos vigorosos. Tratava-a como uma prostituta e fazia com
que ela assim se sentisse, mas, pelo menos, ela no se via 
comprometida alm do contrato noturno.
Lazzaro era como que uma catarse para suas confuses, um companheiro e um 
smbolo de sua rebeldia. No obstante, jamais seria
um companheiro permanente ou que lhe bastasse. E isso a levava,
atravs de rodeios, a deparar frente a frente com a pergunta j 
respondida: que lhe restaria, quando o espetculo terminasse?
Seu pai tinha uma resposta: um casamento conveniente e um
bando de filhos junto aos quais ela pudesse chegar, graciosamente,
 meia-idade. Mas sua resposta tinha um matiz que denotava a exigncia de 
um velho que desejava posse e continuidade. Quando
viessem as crianas, ele as ligaria, pelo afeto,  sua pessoa, ou as
exibiria como uma censura.
E Carlo? A resposta de Carlo era, ainda, diferente. O casamento era um 
contrato, o amor um pacto recproco. Ele apresentava-lhe o seu amor como 
se fosse um buqu de flores e exigia que ela o beijasse pelo 
oferecimento. Se conseguisse vencer nesta ou 
naquela causa, tornar-se-ia mais arrogante, mas no menos exigente, 
depondo-lhe aos ps a vitria, como preo do amor. Em certo sentido, sua 
exigncia era mais brutal que a de Lazzaro, que dava, recebia, e ia
embora. Carlo, amava-se a si prprio nela, como uma criana que
se ama em sua me, exigindo uma ddiva gratuita de afeto.
Ele era cheio de incertezas, mas no podia tolerar qualquer 
incerteza nela. Submetera-se,  sua prpria maneira,  tirania de 
Ascolini
68
 mas recusava-se a compreender o quanto mais sujeita se tornara ela
ao pai. Exigia lealdade  sua prpria rebelio, mas no podia 
compreender que a rebelio dela devia processar-se alhures e de maneira
mais sutil. Ele tambm desejava filhos - mas como uma prova, no
como fruto do amor.
Mas essas no eram, ela o sabia, as nicas respostas. Ela era
voluntariosa, e precisava ser domesticada; ardente, e 
necessitava da satisfao dos sentidos. Havia, em seu ntimo, receios que 
desejava compartilhar com algum, mas com algum frio e sensato, que
no fosse, no entanto, paternal; vergonhas sobre as quais precisava
falar e, recordaes que deviam ser aceitas sem censura - de modo
que, quando chegasse o momento em que ela tivesse de dar-se, pudesse 
faz-lo grata e livremente, quer como esposa, quer como amante, pouco 
importava.
Enquanto o luar se dissipava e as sombras plidas subiam do
assoalho para o teto, pensou em Peter Landon e no breve, ardente
interldio que tivera com ele no jardim. Se houvesse tempo e 
oportunidade, ela poderia de novo atra-lo para si, a menos - e essa 
idia
fez com que experimentasse o vivo aguilho do cime - a menos
que Ninette Lachaise o apanhasse primeiro.
Peter Landon no era o nico objeto de conteno que se interpunha entre 
ela e aquela intrusa de alm fronteira. Vinha observando, h muito tempo, 
o afeto crescente de Ascolini por ela, sentindo mesmo o mudo pesar do pai 
por ela no poder comparar-se  desembaraada bomia que vivia a pintar 
em sua gua-furtada. E, aquela noite,
com perversa satisfao, ela fizera com que Lazzaro tornasse a falar da 
francesa.
Ela o lisonjeara e despertara-lhe a sensualidade, at que, no
fim, Lazzaro acabara por revelar-lhe, com mesquinha vaidade masculina, os 
pormenores ntimos de seu caso amoroso com Ninette Lachaise. Aquilo era, 
na melhor das hipteses, uma vitria vergonhosa, mas uma Valria mais 
experimentada poderia t-la transformado numa vitria mais nobre. O amor 
era uma guerra em que
os despojos cabiam aos mais sutis e experientes - e um homem,
uma vez beijado, j se encontrava meio desarmado.
O leite derramado no podia tornar de novo  jarra; a inocncia perdida 
no podia jamais ser restaurada. Mas Landon tampouco era inocente e 
talvez. . . talvez... O cinza frio da falsa 
alvorada j se insinuava no cu ocidental, quando ela se vestiu 
apressadamente
e desceu as escadas, a fim de tomar o seu automvel que deixara
no beco ao lado. Baslio Lazzaro despertaria e veria que ela tinha ido
69
embora - e sorriria com alvio, por haver encontrado uma mulher
que conhecia as regras do jogo.
Pontualmente, s nove e trinta da manh, Carlo Rienzi chegou
 pensione, para ler a Landon o relatrio de seu primeiro dia de
atividade. O sumrio inicial no era nada promissor. Anna Albertini
fora acusada de assassnio premeditado e encarcerada na casa 
correcional feminina de San Gimignano. Carlo entrevistara-a e a 
encontrara
muito pouco disposta a cooperar. A coisa estava feita. Ela sentia-se
contente. No queria mais falar a respeito. Seu marido iria ser 
apresentado como testemunha da acusao e ningum em San Stefano
desejava abrir a boca, exceto a favor das provas policiais. 
Frei Bonifcio no conseguia obter o que esperava, e Rienzi teria de 
pagar
de seu prprio bolso as despesas de seu colega.
Havia apenas um tpico favorvel. O Prof. Galuzzi teria muito
Prazer em receber seu ilustre colega de Londres e discutir 
inicialmente com ele, de maneira informal, os aspectos psiquitricos do
caso. Carlo e Landon foram por ele convidados a tomar caf em
seus aposentos, na Universidade.
Desde o primeiro momento o Prof. Galuzzi causou boa impresso a Landon. 
Era um indivduo alto, esguio, de pouco menos de quarenta anos, cabelos 
grisalhos, cavanhaque cinzento, 
pince-nez de ouro e ar ligeiramente pedante. Mas o pince-nez ocultava uns 
olhos
astutos, pestanejantes, e o pedantismo escondia um esprito gil e
uma imediata simpatia humana. Landon teve a impresso de que ele
poderia causar grande impresso no tribunal, como perito. Resumiu
o caso de maneira rpida, mas cordial:
- Existe uma frmula segundo a qual o Sr. Landon poderia
ser convidado a depor, num tribunal italiano, como testemunha 
especializada a favor da defesa. De minha parte - e, por favor, no
interpretem mal minhas intenes - eu no aconselharia tal coisa.
As simpatias do pessoal local, mesmo entre a gente do forum, 
poderiam voltar-se contra um especialista estrangeiro. Por outro lado, eu
me sentiria feliz de contar com a colaborao de meu ilustre colega,
como observador clnico do caso. - Debruou-se, atentamente, sobre
a sua xcara de caf, e prosseguiu: - Se o meu distinto colega 
preferisse, claro, servir de conselheiro privado da defesa, isso s a ele
diria respeito.
- O senhor vai alm do que eu esperava, professor - disse,
cautelosamente, Carlo.
- Mas o senhor no compreende por que razo o fao? indagou Galuzzi, 
observando-o com olhos vivos, geis. - Ento 
 70
assim? Creio que talvez o Sr. Landon me compreenda melhor do
que o senhor. Somos ambos mdicos. Nosso interesse principal est
voltado para a sade do esprito humano e, quando deparamos com
a lei, procuramos atenuar as conseqncias de alguma enfermidade
mental que possa existir. Procure no me entender mal! - 
advertiu,
erguendo a mo. - Quando eu for chamado ao banco das testemunhas, devo 
responder de maneira cabal e verdadeira a quaisquer
perguntas que me possam ser feitas acerca de meu conhecimento
clnico. No posso determinar de que modo o tribunal interpretar o
meu testemunho. Se o senhor achar que deve convidar outros especialistas, 
que talvez possam divergir de meu diagnstico, eles tero
todas as facilidades para examinar a acusada.
-  um oferecimento justo, Carlo - disse, calorosamente,
Landon - Sinto-me lisonjeado. Acho que voc deveria sentir-se grato.
Diga-me, professor: o senhor j se avistou com Anna Albertini?
- Ainda no. Visit-la-ei, pela primeira vez, esta tarde. Mas
gostaria, ento, de estar s. Depois, ser fcil apresent-lo com 
observador visitante. Tenho, porm, uma informao interessante. Como
os senhores sabem, todas as mulheres, ao chegar  priso, so 
examinadas pelo mdico da casa correcional. O objetivo do exame  
verificar a presena de qualquer enfermidade infecciosa, que possa 
contaminar as outras encarceradas. A ficha de sade de Anna Albertini
 excelente. Anotou-se, tambm, que  virgem intacta.
Ao ouvir tal coisa, Rienzi ficou boquiaberto:
- Mas ela est casada h quatro anos!
- Interessante, no acham? - indagou Galuzzi, o cavanhaque
a subir e a descer, enquanto ria. - Eis a algo que lhe dar o que
pensar, Dr. Landon. E h ainda outra coisa. No apresenta sinal
algum de depresso ou mania. Nada de violncia ou histeria. Meu
colega da priso a descreve como criatura calma, bem-humorada e
aparentemente satisfeita. Mas Yeremos. . . - Hesitou um momento,
e, depois, indagou: - Poderia fazer-me um favor, Dr. Landon?
- Certamente!
- Seu trabalho no  desconhecido aqui, e o senhor fala excelente 
italiano. Eu gostaria que nos conhecssemos melhor... e talvez, se isso 
no parecesse uma imposio, o senhor pudesse fazer uma palestra para os 
meus alunos do ltimo ano.
- Terei o mximo prazer. O senhor poder comunicar-se comigo, a qualquer 
momento, na Pensione della Fontana.
- Entrarei em contato com o senhor. - Escreveu o endereo
numa agenda e levantou-se. - Agora, peo-lhes que me desculpem,
Pois tenho de dar uma aula dentro de cinco minutos.
71
Enquanto seguiam seu tortuoso caminho, de volta ao centro da
cidade, Carlo falava voluvelmente, revelando a satisfao que lhe
causara a entrevista com o Dr. Galuzzi, mas Landon ajuntou uma
ou duas palavras de cautela:
- No confie demais nestas coisas, Carlo. Galuzzi agrada-me.
] um sujeito simptico, mais liberal do que outros em suas amabilidades 
profissionais. Mas tal amabilidade no lhe custa nada, e, no banco das 
testemunhas, ele permanecer firme como uma rocha, pois que se acha em 
jogo sua reputao profissional.
- Sempre me esqueo - respondeu Rienzi, olhando-o de esguelha - que voc 
deve ter passado muitas vezes por casos como este. Diga-me uma coisa:  
provvel que seu diagnstico do caso varie muito do de Galuzzi?
- Duvido. Pode haver alguma divergncia de opinio, quando
se trata de um caso complexo. Poderia haver uma divergncia ainda
maior quanto  questo do tratamento. Mas parece-me que voc est
querendo ouvir uma certa resposta. Voc est pressupondo que toda
conduta anormal  um sintoma de enfermidade mental. Existem certos
profissionais extremados que defendem esse ponto de vista. Eu no.
Estou certo de que Galuzzi tambm no. Se sua cliente for uma
demente, ambos estaremos de acordo quanto a isso ... e voc ter
o seu caso resolvido em vinte minutos. Do contrrio, voc ter de
voltar s circunstncias atenuantes.
-  nisso que estou trabalhando agora. Mas, at agora, s
deparei com portas fechadas.
- Mas existe uma que talvez se abra.
- Qual?
- A do marido de Anna Albertini.
- Ele se recusou a falar com quem quer que fosse, exceto 
polcia. Alm disso, j voltou para Florena.
- D um pulo at l e pergunte-lhe por que razo sua esposa
 ainda virgem, aps quatro anos de casamento.
- Santo Deus! - exclamou Rienzi, em voz baixa. - Isso
talvez pudesse dar certo!
- Sempre constitui uma probabilidade razovel. Desafie um
homem quanto  sua virilidade, e ele se mostrar logo disposto a
falar. Se ele lhe dir ou no a verdade,  outro assunto.
- Se soubssemos o que os inibiu em seu casamento, teramos
algumas perguntas importantes a fazer  prpria Anna. E, a partir
da...
- A partir da - atalhou Landon, com um sorriso - voc
ter de preparar o seu prprio jantar, Carlo. Posso ajud-lo a 
mexer a sopa, mas, no fim, voc  quem ter de com-la. E, por falar em
72
comer, Ascolini convidou-me para almoar com ele hoje. Encontrei-o
ontem  noite, quando me achava em companhia de Ninette Lachaise.
- Ah, o velho, o velho charme! -- disse Carlo, em tom de
ressentimento. - Mel para as moscas. Se voc fosse mulher, ele o
levaria para a cama antes do pr do sol. No me traia, Peter!
Disse isso com um sorriso, mas Landon, no mesmo instante,
ficou profundamente irritado:
- V para o diabo, Carlo! Se  assim que voc encara um
simples gesto de polidez, v para o diabo que o carregue!
E, sem levar em conta os protestos de Rienzi, deu meia-volta
e afastou-se apressadamente, mergulhando num labirinto de vielas,
a tropear em montes de lixo e em regos de gua suja, at que
surgiu, ofegante e furioso, na ofuscante claridade do Campo. 
Consultou o relgio e viu que era apenas meio-dia; entrou, pois, num
bar, tomou dois conhaques e fumou meia dzia de cigarros insossos,
at que chegasse a hora de almoar com Alberto Ascolini.
Encontrou o velho sentado num canto bem situado do Luca,
como que entronizado numa poltrona de pelcia vermelha, ao p
de um nu da Renascena. Dois garons permaneciam a seu lado,
atentos e obsequiosos, enquanto Ascolini sorvia seu vermute amarelo
e fazia anotaes num caderninho com capa de marroquim purpurino. Landon 
no conseguiu reprimir um sorriso, diante do cuidado
com que ele teatralizava todas as ocasies. Poderia ser campons,
mas tinha habilidade de impor distino at mesmo ao esplendor
barroco do Luca, que  em parte restaurante, em parte clube, e, em
parte, um monumento s pompas extintas do sculo XIX.
Saudou Landon com ar ausente, e, dentro de noventa segundos,
j tinha na mo um aperitivo, aps o que, perguntou, bruscamente:
J leu os jornais, Landon?
Li.
- Que  que acha do caso?
- Excetuando-se a demncia, no posso imaginar caso mais fcil para a 
acusao.
- E para a defesa?
- Uma tarefa nada auspiciosa. Foi o que eu disse a Carlo.

- E ele concorda?
- No inteiramente.
- Ento  porque ele deve dispor de outras informaes.
-  o que se diria.
Deixou o assunto morrer a, como um velho e hbil espadachim
aps os primeiros passes perfuntrios.
73
- Vamos fazer uma trgua, Landon. No tenho, creia-me, desejo algum de 
causar-lhe embaraos. E gostaria que confiasse um
pouco em mim. Talvez possa ser-lhe difcil compreender, mas tenho
grande interesse pelo bem-estar de Carlo.
Landon pensou um momento no que Ascolini acabara de dizer
e, depois, respondeu, cuidadosamente:
- Talvez nos ajudasse a ambos, se o senhor explicasse esse seu interesse.
Ascolini recostou-se em sua poltrona, estendeu as mos suaves
e uniu-as, as pontas dos dedos, umas sobre as outras, num gesto
episcopal. Seus olhos embaaram-se, como os de um pssaro meio
adormecido, e sua voz adquiriu um tom seco, didtico:
- Como um de seus escritores ingleses disse certa vez, Landon,
a juventude  desperdiada com os jovens. Quando se  velho, a
gente se ressente desse desperdcio. Tem-se tambm os meios para
se entregar a esse ressentimento, como fiz no caso de Carlo. 
Eis a o
problema da velhice, meu amigo.. . um problema que o senhor ter
de enfrentar mais cedo do que imagina: a lista dos prazeres que
se encontram ao nosso alcance diminui, de modo que a gente se
aferra  prpria mesquinhez,  falta de uma distrao mais vigorosa.
No me sinto orgulhoso disso. Tampouco posso dizer que o lamento.
Explico-lhe isto como uma experincia. Sou um homem ciumento,
meu amigo: ciumento do que tive, ciumento do que perdi, ciumento
da extravagncia com que os jovens se mostram indulgentes para
com sua conscincia ou suas iluses. Tomemos Carlo, por exemplo.
Em seu casamento, ele desempenha o papel de cavalheiro indulgente. Isso  
uma loucura quanto ao que se refere a todas as 
mulheres... e maior loucura ainda quando se trata de uma mulher como
Valria. Comigo, desempenha o papel de discpulo respeitoso, de
genro submisso. Recusa-se a ver que sou um velho obstinado, que
precisa que algum esfregue o seu nariz no p. Ali, os velhos 
touros, Landon! Permanecem diminudos mas desafiadores,  espera da 
ltima luta que os enobrece, embora os destrua, a desprezar os jovens 
hesitantes que recusam o combate. Acaso isto tem algum sentido para
o senhor? Dentre todas as pessoas, o senhor deveria 
compreender.
- Compreendo - respondeu, calmamente, Landon. - E
sinto-me grato por me haver explicado. Mas h algo que o senhor
tambm deveria compreender. Carlo comeou sua luta. O que ele
fez, at aqui, foi desafi-lo. O senhor no deve desprez-lo, por 
ele lutar de um modo diferente do seu.
- Desprez-lo? - exclamou o homem, subitamente veemente.
Pela primeira vez, comeo a respeit-lo!
- Ento por que humilh-lo, como o senhor o fez, quando ele
lhe ofereceu um presente e os seus agradecimentos?
Ascolini lanou-lhe um sorriso enviesado e abanou a cabea.
- O senhor  ainda muito jovem, meu caro Landon. Quando
os velhos touros combatem, lanam mo de todos os estratagemas
sujos. - E, com um encolher de ombros, deixou de lado a discusso,
como se no mais se interessasse por ela. - Agora, permita-me que
encomende o seu almoo e uma garrafa de vinho, para instilar sangue
em suas veias. Precisamos disso junto de uma mulher como Ninette
LachaiseOs garons acorreram pressurosos a um seu aceno, e eles fram
servidos como prncipes de uma poca mais nobre. Enquanto comiam, o velho 
discorreu, tranqila e persuasivamente sobre a sua
infncia de campons em Val dOrcia, de sua educao nas mos
de um sacerdote paroquial, de seus tempos de estudante na 
Universidade de Siena, de sua luta para tomar p em Roma, de seus 
primeiros xitos, de seu eclipse durante o regime fascista, de sua 
ascenso para uma nova preeminncia aps a guerra.
A narrativa era ousada e vvida, com uns toques, s vezes de
sardnico humor e, outras vezes, de pungente pesar pelas 
simplicidades de um tempo perdido. Falou, sem rancor, do malogro de seu
casamento, de seu desejo de ter um filho e das esperanas que 
alimentava quanto  filha, quando esta chegara, em lugar de um 
primognito.
Ao chegar  fruta e ao queijo, Landon tinha diante de si o
quadro de um homem que muito conseguira realizar, mas que perdera, 
alhures, ao longo do caminho, a chave da felicidade. Referindo-se a si 
mesmo, Ascolini disse, extravagantemente:
Comi as mas de Sodoma, meu amigo, mas no posso lamentar-me demasiado, 
pois que ainda me lembro do gosto dos bons
frutos e de alguns vinhos nobres. - E, referindo-se a Valria: Procurei 
arm-la de conhecimentos com que pudesse lutar contra
o dia em que o amor pudesse falar-lhe. Eu queria possuir nela o
que sua me no conseguira dar-me. E o que encontrei, afinal, foi
uma rplica de mim mesmo. . . - Deu de ombros e afastou os
seus pesares juntamente com as migalhas que estavam sobre a 
toalha.
- A vida  assim mesmo. A gente deve suport-la com decoro ou
abandon-la com dignidade. Preferi suport-la.
Quanto a isso, Landon nada tinha a dizer. No podia consolar
Nem  julgar aquele homem. De modo que fez uma pergunta:
- Acha que Carlo poder refazer sua vida com Valria? Poder ela 
Contentar-se com ele?
74 a 75
- No sei. Tal como esto as coisas, dir-se-ia que Carlo 
quem ama, e ela quem aceita o amor, sem que lhe d, no entanto 
qualquer valor. Se o amor lhe fosse retirado, pode ser que ela se
sentisse amedrontada e se esforasse por agarrar-se a ele. Se 
no... chi sa? H mulheres que se divertem com seus coraes e parecem
viver satisfeitas.
- O senhor se interessa pelo rumo que as coisas; tomam?
Ele o fixou com olhos frios, de advogado, e respondeu, enfaticamente:
- Interesso-me muitssimo, embora no, talvez, pelo motivo
que o senhor pensa. Desejo que esse casamento dure... e que dure
da maneira mais feliz possvel, no por causa de Carlo, mas de
Valria, e por que quero um neto ... uma promessa, ao menos, de
continuidade. - E, antes que Landon tivesse tempo de fazer qualquer 
comentrio, prosseguiu: - Foi por isso que o convidei a vir
aqui hoje. Quero que Carlo saiba que conta com o meu apoio neste
caso e em suas relaes com Valria.
Landon encarou-o com ar de completa incredulidade. Tudo o
que acontecera nas ltimas quarenta e oito horas parecia desmentir
o que o velho estava lhe dizendo. Como se lesse os pensamentos
de Landon, Ascolini tirou do bolso um envelope amarelo-claro e
colocou-o sobre a mesa:
- Gostaria que me fizesse o favor de entregar isto a Carlo.
Contm um cheque de um milho de liras e algumas anotaes que
redigi sobre o caso. Gostaria que o senhor explicasse a Carlo a minha
atitude e insistisse com ele para que aceitasse o dinheiro e o meu
conselho, a bem da causa de sua cliente. Poderia fazer-me esse favor?
- No, absolutamente!
- No acredita em mim, no  isso?
- Acho que o senhor est cometendo um erro.
- Por qu?
- Em primeiro lugar, no creio que Carlo aceite essa sua ajuda.
Em segundo lugar, mesmo que ele aceitasse, isso faria com que
ficasse sendo de novo seu credor. Seu triunfo - se houvesse
ainda pertenceria em parte ao senhor.
- Julga que  isso que desejo?
- No. Mas em sua prpria confisso o senhor se referia a
isso. O velho touro ... lembra-se?
Durante longo tempo, Ascolini permaneceu em silncio, os olhos postos na 
mesa, a traar com um garfo figuras sem sentido sobre a alva toalha. 
Depois, apanhou o envelope, tornou a met-lo no bolso e disse, em voz 
baixa:
76
- Talvez tenha razo, Landon. O senhor no tem motivo algum
para confiar em mim, e eu no tenho o direito, para salvaguardar
nenhuma vaidade, de convert-lo em meu emissrio. Poderia fazer-me,
ao menos, um favor?
- Certamente, se puder.
- Conte a Carlo o que eu disse, e o que ofereci.
- O senhor o v todos os dias. Por que no lhe conta o senhor mesmo?
- Espero que o senhor possa explicar-lhe melhor do que eu a minha 
posio.
- Tentarei faz-lo, mas no posso garantir o que ele julgar.
- Claro que no. Quem pode garantir que o prprio juizo
que uma criatura faz de si prpria no  uma mentira destinada a
tornar a vida suportvel? - disse Ascolini, lanando a Landon um
sorriso frio, irnico. - O senhor, por exemplo, Mr. Landon, pode
desmontar, pea por pea, a mente de um homem, e, depois, juntlas 
novamente, como um relgio. Acaso j perguntou a si mesmo
por que razo se envolveu to profundamente em nosso caso?
A coisa foi feita com tal habilidade que Landon no pde deixar
de sorrir, diante do puro virtuosismo de seu interlocutor. 
Ademais, era uma pergunta justa, e j era tempo de que ele desse uma 
resposta honesta. Refletiu um momento, depois, disse, com ar srio:
- Em parte, por motivos de simpatia. Gosto de Carlo e acho
que ele merece melhor sorte. Em parte, tambm, por ambio. O
senhor sabe que eu vinha procurando um tema original para minhas
pesquisas, que servisse para aumentar minha reputao, quando de
meu regresso a Londres. Este caso talvez mo proporcione. Alm
disso - ajuntou, pousando as mos sobre a toalha e ficando a 
observ-las, atentamente, durante alguns momentos - alm disso, eu 
tambm, em certo sentido, estou passando por uma crise. Uma crise que,
penso, o senhor compreender. Tenho vivido, h demasiado tempo,
uma vida solitria e auto-suficiente. Envolvi-me nisso, creio 
eu, devido, em parte, a um impulso subconsciente, que me impelia para
a vida comunitria e para a competio.
Ascolini fez com a cabea um gesto de assentimento.
- Aprecio sua franqueza, Landon. Permita-me ainda uma pequena pergunta. 
Como  que o senhor me encara?
- Com particular respeito - respondeu Landon.
- Obrigado. Acredito em sua sinceridade. - Aguardou uma
frao de segundo e tornou a indagar, ainda mais astutamente:
que acha de Valria?
Novamente Landon sentiu sbita irritao, mas dominou-se e
respondeu, a voz inalterada:
77
- ] uma mulher atraente, que tem seus prprios problemas.
- Acha que o senhor poderia resolv-los?
- No.
- Acha que ela poderia criar-lhe problemas?
- Qualquer mulher pode criar problemas para qualquer homem.
Landon sorriu perversamente de sua resposta, ao levar seu copo
de vinho aos lbios, enquanto Ascolini reiniciava seus desenhos sobre
a toalha. Decorrido um momento, o velho advogado ergueu os olhos para 
ele.
- ] bastante estranho, Landon, mas, em qualquer outra ocasio,
eu no teria desaprovado uma ligao entre o senhor e Valria. Acho
que o senhor  o tipo do homem de que ela necessita. Agora, porm,
devido s razes que lhe expliquei, no veria isso com bons olhos.
- O mesmo digo eu - respondeu, irrefletidamente, Landon.
Tenho os olhos voltados para outro lado.
O velho anmou-se imediatamente:
- Ninette Lachaise?
- Exatamente.
- Alegra-me ouvi-lo - respondeu Ascolini, com ar grave e
satisfeito. - Gostaria muito de v-la feliz. Por essa razo, 
digo-lhe
apenas o seguinte: aja com muita cautela. . . e no procure fazer
tudo  sua prpria maneira. Obrigado por sua pacincia, Sr. Landon,
e por sua companhia.
Apesar de toda a urbanidade de Ascolini, Landon saiu do restaurante ainda 
magoado e bastante ressentido. No fora por Ninette
Lachaise, ele os teria mandado todos ao diabo e tomado o 
primeiro
trem para Roma. Estava farto de suas intrigas. Odiava-os de 
todo o
corao, por eles o terem seduzido e conquistado sua amizade, lanando 
depois  sua porta todas as culpas de que se acusavam mutuamente.
Aquela era a espcie de situao que ele evitara, cuidadosamente,
durante toda a sua vida, convencido de que um homem j tinha 
muito
com que se preocupar ao cuidar de sua prpria salvao, sem que
agisse como juiz, jri e ama-seca do resto da humanidade. Mas ser
apanhado numa armadilha, como um menino inexperiente diante da
primeira viva com que deparava, era demais! Resolveu, pois, terminar 
incontinenti suas relaes com aquela gente - e, para 
dissipar
seu mau humor, ps-se a caminhar pelas estreitas vielas, rumo ao
atelier de. Ninette.
No momento em que a sentiu de novo em seus braos, no
teve mais dvida de que amava. Tudo o que ele jamais sonhara numa
78
mulher parecia haver florescido naquela: simplicidade, ardor, 
corao. Ela no tinha nenhum dos artifcios que outras mulheres 
empregavam para despertar ternura, ao mesmo tempo que se negavam a
retribu-la. Dava liberalmente o que tinha, sem nenhuma exigncia
usurria, de pagamento. Encarava o mundo com olhos de artista, 
serena, reconhecida, compassiva. Pela primeira vez em sua vida, a
cautela de solteiro o abandonou e ele disse-lhe a verdade:
- Tive de vir. Precisava dizer-lhe, Ninette, que a amo.
- Eu tambm o amo, Peter.
Ficou um momento agarrada a ele; depois, desvencilhou-se suavemente de 
seus braos e acercou-se da janela, ficando a olhar, o
rosto voltado para o outro lado, os telhados vermelhos da velha cidade.
- Agora que j o dissemos, vivamos com isso algum tempo.
No faamos contratos; aguardemos e desfrutemos o que possumos.
Se isto florescer, ser bom para ns. Se morrer, no nos magoar 
demasiado.
- Quero que floresa, Ninette.
- Eu tambm. Mas tanto eu como voc j dissemos antes o
que estamos dizendo agora... e no durou.
- Sei que durar, quanto a mim.
- Ento continue a dizer isto, chri, o tempo todo, at que
voc acredite, no fundo de seu corao, que  verdade.
- E voc?
- Eu farei o mesmo.
Permaneceram de p junto  janela, braos enlaados, corpos
unidos, a saborear as primeiras douras da confisso e a observar a
luz derramar-se, dourada e suave, do cu toscano.
Depois, Ninette fez com que ele se sentasse, tirou o avental e
Ps-se a mexer-se pela casa, a fim de preparar-lhe caf. Landon 
faloulhe de seu almoo com Ascolini e de como ficara furioso com Rienzi;
disse-lhe, tambm, de sua deciso de afastar-se, o mais cedo possvel,
de toda aquela complicao mesquinha. Ela ouviu-o em silncio,
enquanto o bule de caf borbulhava, como uma contraparte cmica
da histria. Depois, sentou-se, tomou-lhe as mos nas suas e disse,
com sua maneira franca de sempre:
- Sei como voc se sente, Peter. No o censuro. Essa no 
sua gente, nem minha. O feitio de suas vidas est retorcido e 
revirado de uma maneira que nem voc nem eu podemos suportar. Eles
carregam, como jamais poderamos fazer, o fardo de amargas e
antigas histrias. Mas, no obstante -  curioso - eles precisam de
ns, - muito mais de voc do que de mim.
79
- Como  que pode dizer isso, Ninette?
- Por que preciso de voc quase tanto quanto eles, Peter. Voc
se. sente descontente consigo mesmo, eu sei; mas, para ns, voc
 o homem novo do Novo Mundo, uma prova de que  possvel
viver-se sem histria, comear-se com uma tela limpa numa terra
banhada por uma nova luz. Isso  um smbolo, como voc percebe,
que representa a nica soluo, no s para essa gente como para
--muitas Outras pessoas. Algum precisa dizer Desculpe-me e comear de 
novo.- Do contrrio, a velha histria corrompe a nova, e
no existir, no fim, esperana alguma. - Hesitou um instante,
como se procurasse as palavras que definissem um pensamento incmodo. - 
] como o que ocorre conosco; ns ambos conhecemos
outras pessoas, gostamos de algumas e detestamos o resto. Mas, se
continuarmos a viver no passado, no h esperana para nenhum de
ns. Temos de reconhecer que o presente  importante, e que o
futuro constitui sempre um ponto de interrogao. Amo-o porque
voc  capaz de fazer isso. Rienzi e Ascolini precisam de voc por
essa mesma razo. Voc pode permitir-se ser generoso para com eles.
Landon abanou a cabea. Sentia-se perturbado por um vago
sentimento de culpa, que nem mesmo ento conseguia expor a
Ninette.
- No me superestime, querida. H ocasies em que me sinto
bastante vazio.
- Voc d aos outros mais do que imagina, chri.  por isso
que me  to caro.
De repente, surpreso, ele conseguiu exprimir um pensamento
que ocultara at mesmo de si prprio:
- Tenho medo dessa gente, Ninette. No sei dizer porque,
mas eles me aterrorizam com sua capacidade de maldade. Sabem
o que esto fazendo, confessam-no, e a gente acaba por sentir-se
envergonhado.  como a gente ouvir um homem contar histrias
indecentes a respeito de sua prpria esposa. - Lanou um risinho
gutural. - Eu devia estar habituado a isso... ouo-o quase todos
os dias de meus pacientes. . . mas aqui no estou to bem armado.
- Eu sei - disse, em voz baixa, Ninette. - Estou aqui h
mais tempo do que voc. Eles se atormentam porque no sabem
como amar. Mas ns o sabemos. De modo que eles no podem ferirnos. . . e 
ns talvez possamos ajud-los.
- E  isso o que voc realmente deseja, Ninette?
- Sou to rica, Peter, to rica neste momento, que gostaria
de gastar um pouco de minha riqueza com o resto do mundo.
Ele a tomou em seus braos e beijou-a. O bule de caf fervia,
em plena ebulio, e eles puseram-se a rir gostosamente, com a alegria
simples, espontnea, de estarem vivos.
Ao cair da tarde, rumaram, no velho Citroen de Ninette, para San 
Gimignano - a San Gimignano das Torres Maravilhosas , a cidade 
miniatura em que a Idade Mdia se acha preservada, do mesmo tamanho, 
quase intata, na contextura do sculo XX.
A terra estendia-se, plcida, sob as longas sombras de ciprestes
e oliveiras, marrom nos lugares em que o arado revolvera) cinzenta
sob a ramagem das vinhas, verde nos stios em que as fontes ocultas
ainda banhavam o tenro relvado. A claridade era suave, o ar calmo,
mas clido, devido ao hlito de uma terra ainda viva, ainda frtil,
aps o transcurso de sculos de fome.
Os camponeses, revigorados pela sesta, trabalhavam nos eirados
e nas plantaes de hortalias - homens, mulheres e crianas curvados 
sobre o enxado ou sobre o forcado. A paz reinante em tudo
aquilo penetrou na alma de Landon, e ele mergulhou naquela agradvel 
dicotomia em que o corpo se concentra no exerccio mecnico
das coisas em marcha e o esprito se ala, livre, por sobre o 
panorama eterno da humanidade.
Tambm Ninette estava muda, absorta, como artista que era,
na contemplao da cor, do contorno e do conjunto de tudo aquilo.
Eles se achavam separados mas unidos, apartados mas em harmonia,
como notas do mesmo acorde, como cores em feliz combinao. No
tinham necessidades que no fossem satisfeitas pela simples presena
de um ao lado do outro, nenhum temor que no pudesse ser dissipado por um 
toque de mo ou por um sorriso de confiana. Se
aquilo no era amor, ento Landon nada sabia a tal respeito. E se
o amor era uma tolice, ele se sentia feliz de ser um tolo.
Ao divisarem o velho e sombrio mosteiro, que era agora casa
correcional feminina, Ninette sentiu um arrepio. Aconchegou-se a
Landon e disse, baixinho:
s vezes, Peter... s vezes eu tambm tenho medo.
De que, minha querida?
Disto tudo - respondeu ela, abrangendo, com um gesto, a
Campagna ensolarada e as torres distantes e sonhadoras de San
Gimignano. -  to tranqilo, como voc v! Os camponeses so
gente simples... atrasados com os camponeses de toda a parte, mas
afveis e bondosos para com os filhos. No obstante, de vez em
quando, algo explode - pum! - e h violncia, dio e toda a espcie de 
crueldade.
80 81
- Como o caso de San Stefano?
- Exatamente. Aquela moa, Peter... Antes de voc chegar,
desenhei-lhe o rosto, copiando-o das fotografias dos jornais. Procurei
analis-lo como artista, e no consegui encontrar seno uma expresso
infantil... No entanto, veja o que aconteceu!
- Tenho pensado nisso desde que li os jornais esta manh.
 difcil de se acreditar na maldade infantil, mas ela existe.
- As vezes, as crianas a herdam, como espiroquetas no sangue.
Outras vezes, aceitam-na, como substituto do amor. Ningum pode
viver com o corao vazio.
- Mas essa moa era casada. Deve ter conhecido alguma coisa
do amor.
- Uma coisa nada tem a ver com a outra, Peter. As vezes, a
capacidade de amar  destruda. Uma erva do pntano morrer em
solo seco. Um animal nascido na escurido sente-se cego  luz do
sol. Veja, por exemplo, a filha de Ascolini. Acaso lhe faltou 
jamais
amor?
- Que  que a levou a pensar nela?
A resposta de Ninette apanhou-o de surpresa:
- Sonhei com ela esta noite, Peter... e com voc tambm.
Vocs estavam de mos dadas num jardim, como namorados. Eu
o chamava de longe, mas voc no me ouvia. Procurei aproximar-me
de voc, mas algo me retinha. Acordei dizendo o seu nome e chorando.
- Querida, voc est com cimes.
- Eu sei. Tolo, no acha?
- Muitssimo tolo. Valria nada significa para mim.
- Pergunto-me, s vezes, se voc significar alguma coisa
para ela.
- Que  que eu poderia significar-lhe? - indagou ele, envergonhado, 
constrangido.
- Beije-me e venha c! Que  que elas sempre pretendem?
Desvencilhou-se dele e esboou um sorriso triste: - Seja 
paciente comigo, chri. Toda mulher tem seus caprichos e o meu  ter 
cime
do homem que amo. Esqueamo-nos de todos eles e falemos de ns.
E assim o fizeram,  maneira feliz, extravagante, dos namorados,
enquanto os telhados e os campanrios de San Gimignano se 
recortavam mais nitidamente no azul do cu. Finalmente, Landon disselhe 
que ficaria em Siena at depois do julgamento e que, ento, a
pediria em casamento.
Estranhamente, a conversa de casamento pareceu perturb-la,
como se aquilo fosse pedir demais demasiado cedo, tentando os 
antigos deuses da Etrria a um de seus maliciosos gracejos. Landon
procurou. caoar dela, para ver se a distraa, mas o seu estado de
esprito no mudou. Como muita gente corajosa, que aceita a vida
da melhor maneira possvel, Ninette tinha receio profundo, 
instintivo, de exigir do futuro uma promessa demasiado grande - medo
de contar com a colheita antes que o fruto houvesse amadurecido.
Ao chegar  cidade, pararam para tomar vinho na velha praa,
chamada Praa da Cisterna. Landon entregou-se  tola cerimnia
de. erguer um brinde s deidades, para aplacar-lhes a ira. 
Ninette
franziu o sobrolho e disse, um tanto irritada:
- No faa essas coisas, Peter!
-  apenas uma brincadeira, querida. No significa coisa
alguma.
 - Eu sei, Peter, mas no gosto de fazer pactos com o amanh.
Gosto do dia de hoje exatamente como ele , bom e mau. Sinto-me
mais segura assim. No quero enfrentar o grande talvez.
- Talvez o qu?
- Talvez eu morra. Talvez voc se canse de mim e me abandone. Talvez eu 
fique cega e no possa mais pintar.
- Isso  tolice.
- Eu sei, chri. Tudo o que ainda no aconteceu  tolice. Mas,
quando acontece,  melhor a gente estar preparada. Gosto de no
levar em conta o futuro at que o sol se erga sobre um novo dia.
- Mas algum tem de fazer planos para o amanh. A vida
no  apenas um acidente... ou um jogo de xadrez disputado por
um destino predominante.
- Ento voc ter de fazer planos por ns dois. Eu apenas
procurarei fazer com que sejamos felizes hora aps hora. - Levantou-se e 
fez com que ele tambm se erguesse. - Vamos embora!
Ainda h muita coisa para mostrar a voc antes do pr do sol!
Nas duas horas seguintes, exploraram a minscula cidade
sendo cada um de seus passos uma regresso  violenta histria da
provncia. No sculo XII, seus cidados haviam expulsado o tirano,
Volterra. No sculo XIV, a cidade rendera-se a Florena, exaurida pelos 
banqueiros Medici e pelas sanguinolentas faces existentes
dentro de suas prprias portas. Benozzo Gozzoli pintara l, e Folgore, o 
seu filho poeta, fora de l condenado ao inferno de Dante,
juntamente com os onze grandes perdulrios de Siena. Quando uma
de suas torres derrua, outra era construda, dotada de flechas, 
manganelas e todas as outras necessidades blicas. Nicol Machiavelli
PS suas milcias  prova junto de seus muros, e o prprio Dante
Conduziu uma embaixada da Liga dos Guelfos  presena do Grande
Conselho. Quanto ao seu aspecto exterior, o lugar pouco mudara
com a passagem dos sculos e,  medida que as sombras se alongavam,
82 a 83
a gente quase esperava ouvir o tropel de soldados e o estrpito de
cavalarianos, enquanto mercadores, fidalgos e frades se comprimiam
ao transpor a porta da cidade, antes do pr do sol.
Ao terminar o passeio, estavam suados, empeeirados e ansiosos
por beber algo. Ninette sugeriu que deviam parar num pequeno
restaurante  beira da estrada, que era meio casa de pasto,, meio
cantina e, por reputao, um lugar de encontro de namorados rurais. 
Estacionaram o carro junto  estrada e, ao atravessar o ptio
umbroso, viram, cinco segundos j demasiado tarde, que Valria
Rienzi estava sentada em companhia de um homem numa das mesinhas de 
mrmore. Landon viu Ninette enrubescer e empertigar-se
ao mesmo tempo que Valria lhes acenava para que fossem sentar-se
 sua mesa. No tinham outra alternativa seno mostrar-se corteses.
Valria apresentou o seu companheiro:
- Peter, gostaria que voc conhecesse um meu amigo, Baslio
Lazzaro. Baslio, este  Peter Landon. Voc certamente j conhece
Ninette, pois no?
- Claro! Somos velhos amigos - respondeu, suavemente,
Lazzaro. - E  para mim um prazer conhec-lo, Senhor Landon.
Ninette nada disse. Valria olhou-a com ar de felino regozijo,
enquanto que Lazzaro e Landon se examinavam mutuamente, convencendo-se 
ambos da imediata antipatia que sentiam. Houve uma pequena e constrangida 
pausa; depois, Valria disse:
- Tentei, telefonar-lhe esta manh, Peter. Queria conversar
com voc um momento, amanh.
- Estive fora quase o dia todo - respondeu, desajeitado,
Landon. - E no sei bem o que acontecer amanh.
- Posso telefonar-lhe, ento?  assunto bastante importante.
Nada lhe restava fazer, seno aquiescer. Landon e Ninette desvencilharam-
se deles o mais depressa possvel, tomaram a sua bebida
em silncio e voltaram depressa para o automvel. Decorrido um
momento, Ninette comentou, em tom irritado:
- Eu no lhe disse, Peter? Ela est interessada em voc e no
desistir sem luta.
- E a mim me pareceu - disse, acremente, Landon - que
esse tal Baslio est interessado em voc.
E a terminou, bruscamente, a conversa. Uma pequena rajada
de vento frio soprou atravs do campo e, depois, cessou. Apesar de
todo o seu amor, eles no conseguiam encontrar palavras com que
tranqilizar um ao outro, e voltaram para Siena soturnos e arredios,
enquanto o cinzento lusco-fusco pousava sobre os bosques de oliveiras e 
os tristes e funreos ciprestes.
Em todos os casos de amor, embora precipitados, h momentos
em que a comunicao viva, intuitiva, se rompe - momentos em
que o homem e a mulher so lanados de volta  solido que primeiro os 
predispe um para o outro. A viso que cada um tem do
outro  demasiado perfeita, o equilbrio de interesse  demasiado
precrio para suportar o menor defeito ou o mais leve desapontamento A 
primeira rendio parece to completa, que nenhuma das
partes pode admitir as reservas que ainda existem. So ambos to
ternos que no podem admitir haja qualquer intolerncia em suas
pessoas. Os ressentimentos acendem-se rapidamente em disputas de
amantes. H ira, afastamento e recuo para o retraimento anterior,
que se torna, depois, intolervel. impelindo-os de volta, mais 
necessitados do que antes, um aos braos do outro.
Eis a a verdadeira anatomia do amor - simples e patente
para os que sobreviveram a ela, mas complexa e penosa para os que,
como Ninette e Landon, tinham ainda de suportar a dissecao.
No altercaram aquela noite, mas mostraram-se reservados um
para com o outro. O cime que Ninette sentia de Valria Rienzi parecia a 
Landon mesquinho, infantil e contraditrio, pouco lisonjeiro
para um homem que estava disposto a assinar um contrato de casamento  
menor aquiescncia por parte dela. Fora Ninette quem
insistira com ele para que restabelecesse sua aliana com Rienzi.
Fora ela quem o persuadira de que aquela gente precisava de sua
amizade. Se agora ela lamentava tal deciso, no havia razo alguma
pela qual ele devesse pagar por aquilo.
Quanto a ela, exigia renovada confiana, indulgncia para com
os seus caprichos. Precisava-a, como ocorre com as mulheres, de
uma sociedade, na aparente insensatez do jogo amoroso. Ressentia-se
tanto dos gracejos como da spera relutncia de Landon.
Havia apenas um remdio: deixar tudo aquilo de lado, esquecer
as palavras proferidas e entregar-se aos beijos. Mas ambos se 
afastaram dessa simplicidade. Estavam receosos um do outro aquela noite.
Diziam o contrrio do que queriam, embora soubessem que a verdade estava 
a apenas um passo deles: a grande cama florentina, com
suas pesadas cortinas e suas antigas lembranas de outros amores.
Nenhum deles era inocente quanto ao ardor; a nenhum deles faltava
experincia ou inclinao amorosa, mas ambos sentiam, sem que pudessem 
diz-lo com palavras, que a disciplina da continncia lhesPrometia mais 
do que a desenfreada rendio de outras ocasies. 
Talvez aquilo fosse uma insensatez. A vida,  breve demais para que
a gente a desperdice em irritaes estreis. Mas tudo no amor 
loucura, e separaram-se,mal reconciliados, com a esperana de que
as coisas melhorassem na manh seguinte.
84 85
As dez e trinta, na manh seguinte, o Prof. Emlio Galuzzi
teve uma entrevista privada com seu colega ingls. Havia uma mudana 
sutil em suas maneiras, como se, sem testemunhas, ele estivesse disposto 
a revelar-se mais livremente a algum que tambm
pertencia  irmandade esotrica da medicina. Comeou com uma apologia 
pessoal.
- O senhor concordar comigo, Dr. Landon, que somos ainda
-os pioneiros de uma cincia inexata. Nossos mtodos, so, no raro,
tateantes e canhestros. Nossas definies so, s vezes, incorretas.
Tivemos grandes mestres - Freud, Jung, AdIer e os demais mas sabemos que 
mesmo as suas pesquisas mais reveladoras foram com freqncia, tolhidas 
por uma adeso demasiado dogmtica a hipteses no provadas. Quanto a 
mim, gostaria de dizer-lhe que sou um ecltico. Gosto de reservar-me o 
direito de escolha, quando um ou outro dos mestres parece indicar um 
caminho mais claro rumo  verdade. Pelo que li de seu trabalho, creio que 
o senhor adota uma atitude semelhante.
-  bastante certo o que o senhor acaba de dizer respondeu
Landon, movendo a cabea em sinal de assentimento. Penso que
se pode afirmar que, em todas as cincias, os grandes avanos no
campo das descobertas foram feitos por investigadores ousados, cujos
erros serviram, no fim, para fazer surgir uma outra frao, de 
verdade. A cincia do esprito  ainda inexata, mas j percorremos longo
caminho, desde Bedlaml e as primitivas idias de, possesses diablicas 
ou loucura divina.
- Bem disse Galuzzi parecendo aliviado. - A partir deste
ponto, podemos comear a cooperar. - Encolheu os ombros e fez
86
um ligeiro gesto de enfado. - Tenho sido atormentado, com demasiada 
freqncia, por colegas que parecem pensar que tm em suas
mos a resposta para o derradeiro enigma da mente humana. No
podemos permitir-nos tal arrogncia. No somos deuses nem adivinhos De 
modo que... passemos  nossa paciente, essa tal Anna
Albertni. Estive ontem vrias horas em sua companhia. Gravei nossa
entrevista - e gostaria que o senhor a ouvisse. Antes, porm, 
desejaria esclarecer-lhe um ponto de direito penal vigente em nosso pas.
Temos, como os senhores, o argumento normal de insanidade mental,
cuja definio se aproxima bastante da que se emprega nos tribunais 
britnicos. Temos outra alegao, definida de maneira menos clara, que se 
chama semi-infermit mentale, ou enfermidade mental parcial.
Numa extremidade da balana, essa definio adquire um pouco o
matiz daquilo que os americanos chamam impulso incontrolvel.
Na outra, apia-se na aceitao do princpio de que certos estados 
mentais diminuem a responsabilidade legal do indivduo, sem que a destrua 
por completo. Estou sendo claro?
- Admiravelmente claro - respondeu, com um sorriso, Landon. - No me 
agradaria nada deparar com o senhor num tribunal,
sem que tivesse a minha causa bem estudada.
- Rienzi deparar comigo - volveu, secamente, Galuzzi
e estou pensando que este ser o terreno em que terei de 
colocar-me.
- O senhor exclui inteiramente a insanidade mental?
- Excluo - respondeu, de modo bastante enftico, Galozz.
Quando o senhor vir a moa, penso que concordar comigo. Penso
que, segundo todas as normas jurdicas, essa jovem  completamente s. 
No vejo sinais de mania, esquizofrena ou tendncias paranicas.
No h amnsia, nem sinais de histeria. Existe um certo choque 
residual, mas ela dorme calmamente, alimenta-se normalmente e cuida de si 
com especial cuidado, parecendo aceitar sua situao com  refletida 
resignao: H trauma, certamente, associado  morte da me. H tambm 
obsesso, diminuda, mas no inteiramente eliminada pelo efeito catrtico 
do ato de vingana. Seus graus e ramificaes exigiro explorao muito 
mais longa.
- E essas coisas constituem enfermidade mental, segundo a definio 
italiana?
Galuzzi riu e abriu os braos com exuberncia latina:
- Ali! Chegamos, agora, ao mago da questo! Estamos todos
em dificuldade, quanto a este ponto. A definio no  clara. E,
demasiado freqentemente, o esprito jurdico deste pas reage com muito 
vigor contra qualquer insinuao de que uma pessoa legalmente s no  
inteiramente responsvel por suas aes. Quanto a este Ponto, Dr. Landon, 
o senhor sabe to bem quanto eu que o
87
progresso da cincia mental e a evoluo do direito no marcham
no mesmo passo. No raro,  apenas uma questo de oratria forense fazer-
se com que os jurados seinclinem para uma deciso 
favorvel.
A justia, com freqncia, sente-se tolhida ante a falta de uma 
definio no cdigo. Eis um* servio que homens como ns podem prestar  
lei; tornar nossas descobertas to claras, que elas *no possam  deixar 
de ser aceitas como uma base para a legislao futura. Mas, neste caso, 
temos de aceitar a situao tal qual se apresenta. O melhor que
podemos fazer  explorar a mente da acusada e determinar, da maneira mais 
clara possvel, o limite de sua responsabilidade 
criminal.
Agora, antes que ouamos a gravao ... O senhor j viu essa moa?
- Ainda no. Rienzi avicou-se com ela e fez-me uma descrio
bastante expressiva.
Eu no o censuraria muito por isso - respondeu Galuzzi,
rindo entredentes. - Sou mais velho do que ele, mas confesso que
tambm me senti curiosamente impressionado. Ela  uma mulher de
beleza bastante incomum, de um encanto quase de freira. Em San
Gimignano eles as vestem como freiras... bbadas, ladras, praticantes de 
abortos e as pequenas meretrizes que se vendem pelas esquinas. Mas esta 
tal Anna! Podia-se pintar uma aurola em torno de sua cabea e coloc-la, 
numa igreja, sobre um pedestal. Mas vamos ouvi-la.
Dirigiu-se  sua mesa, ligou o aparelho de gravao e poucos
segundos depois, Landon estava mergulhado no dilogo. A voz de
Galuzzi adquiriu o tom frio, informal, do analista 
experimentado. A voz da jovem era agradavelmente estridente, mas distante 
e indiferente
- nem montona, nem entediada, mas estranhamente dissociada,
como a de um ator que falasse atravs de uma mscara grega.
- Voc compreende, Anna, que sou mdico e que estou aqui
para ajud-la?
- Sim, compreendo.
- Diga-me: voc dormiu a noite passada?
- Dormi muito bem, obrigada.
- E no estava com medo?
- No. Estava muito cansada devido a todas as perguntas. Mas
ningum foi rude comigo. No senti medo.
- Quantos anos tem voc, Anna?
- Vinte e quatro.
- Durante quanto tempo esteve casada?
- Quatro anos.
- Em que espcie de casa vocs moram?
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- No  casa.  apartamento. No  muito grande, mas basta  para Luigi e 
para mim.
- Que idade tem Luigi?
- Vinte e seis anos.
- Que  que fizeram depois que casaram?
- O que toda a gente faz. Eu cuidava da casa, fazia as compras
e tratava de Luigi.
- Isso foi em Florena?
- Foi.
- Voc tinha amigos em Florena?
- Luigi tinha companheiros de trabalho, alm de sua famlia.
eu no conhecia ningum l.
- No se sentia solitria?
- No.
- Luigi tratava-a bem?
- Tratava. Costumava, s vezes, ficar zangado comigo, mas
era bom para mim.
Por que razo ele ficava zangado?
- Costumava dizer que eu no o amava como devia.
- E voc o amava?
- No fundo, sim.
- No fundo? Como assim?
- Em meu ntimo. Em minha cabea. Em meu corao.
- E voc disse isso a Luigi?
- Disse. Mas isso no fez com que ele deixasse de ficar
zangado.
- Por qu?
- Porque ele costumava dizer que isso no bastava. Que as
pessoas casadas faziam certas coisas para mostrar que se amavam.
- Voc sabe o que ele queria dizer?
- Oh, sei!
- Mas voc no queria faz-las?
- No.
- Por que no?
- Porque pensava que ele poderia magoar-me.
- Que mais pensava voc?
- Pensava em seu revlver.
- Fale-me desse revlver.
- Ele o levava para o trabalho todas as noites. Era essa a sua
funo. Ele tinha de guardar a fbrica durante a noite. Pela manh, ao 
voltar para casa, punha-o na gaveta da cmoda.
- Voc tinha medo da arma?
89
- Somente quando sonhava com ela. Durante o dia, eu costumava tir-la da 
gaveta e ficar com ela na mo a mir-la. Era fria e
dura.
- Que,  que voc sonhava a respeito da arma?
- Que Luig a estava empunhando e apontando-a para a minha
me. Depois no era mais Luigi. Era uma outra pessoa. Eu no conseguia 
ver-lhe o rosto, mas sabia que era Belloni. Eu 
procurava, ento, chegar at ele, mas no o conseguia e acordava.
- Belloni era o homem que voc matou?
- Exatamente.
- Por que razo voc o matou?
- Porque ele fuzilou minha me.
- Fale a respeito disso, Anna.
- Euprefiriria no falar. Isso j acabou. Belloni est morto.
E voc se sente assustada ao pensar nisso?
No. Apenas gostaria de no falar a respeito.
Muito bem. Fale-me, ento, a respeito de seu pai.
No me lembro de muita coisa acerca dele. Ele foi para o
exrcito quando eu tinha cinco anos. Depois, soubemos que havia
sido morto. Mame e eu choramos muito. Depois ela se conformou.
Levou-me para o seu quarto e passei a dormir com ela.
- At que os alemes chegaram  aldeia?
- No. Sempre.
- Quando os alemes l estavam, voc ainda dormia com ela?
- Sim. Ela costumava trancar a porta  noite.
- E onde era a escola que voc freqentou?
- Em San Stefano, com as freiras.
- E o que lhe ensinavam elas?
- A ler, escrever e fazer contas. E o catecismo.
- E no catecismo, Anna, no est escrito que no se deve
matar?
- Est.
- Mas voc matou Belloni. No acha que cometeu um pecado?
- Creio que sim.
- E voc no se importaria?
- Jamais pensei nisso dessa maneira. S sabia que precisava
mat-lo, porque ele matou minha me.
- E voc o sabia o tempo todo?
- Sabia.
- De que modo voc o sabia?
- Sabia, apenas. Quando acordava pela manh, quando preparava o jantar, 
quando lavava o assoalho ou ia fazer compras... 
Sabia o tempo todo.
- Como foi que voc decidiu mat-lo?
- Foi por causa da arma.
- Mas voc me disse que a arma estava sempre l. Luigi a
levava para o trabalho e, de manh, punha-a de novo na gaveta. 
Voc me disse que costumava apanh-la e que ficava a mir-la. Por 
Que razo esperou todo esse tempo?
- Porque era diferente. Aquela manh, Luigi no ps a arma
na gaveta. Esvaziou os bolsos e deixou-a sobre o criado-mudo. 
Quando ele estava dormindo, eu a apanhei, fui a San Stefano e matei 
Bellon... Por favor, no podemos parar um momento?
- Certamente.
Galuzzi levantou-se e desligou o aparelho. Depois, voltou-se 
Para Landon, que, sentado  escrivaninha, tomava notas no verso de um 
envelope.
- Bem, Dr. Landon, eis a a primeira parte. Que  que pensa, at essa 
altura?
- At essa altura,  um caso quase que classicamente simples.
Choque e trauma causados pelas circunstncias que envolveram a
morte de sua me; incapacidade infantil para dominar a situao e
um conseqente bloqueio da funo do ego; aa a obsesso, os pesadelos, a 
incapacidade sexual, a transferncia de smbolos. - Encolheu os ombros e 
sorriu. - Isso seria o mesmo que tirar-lhe as algemas, claro. Eu no 
deveria precipitar-me em minhas concluses. Um ponto interessante  o 
vestgio de conscincia primitiva sob a camada de sua educao no 
convento: a violncia deve ser reparada por meio de violncia.  a 
tentativa arcaica no sentido de procurar-se dominar uma situao que se 
acha alm dos meios de controle usuais. Vemos isso, ainda, na aceitao 
de um momento mgico, como o da descoberta da arma sobre a mesa, como um 
motivo para o ato final de vingana. Mas estou lendo suas conferncias, 
professor. O senhor conhece to bem tudo isso quanto eu.
Galuzzi fez um aceno *afirmativo com a cabea e disse, com
ar grave:
- Como o meu amigo bem o diz, trata-se quase de um caso
de compndio. Escavaremos mais profundamente, claro, e, mais cedo
Ou mais tarde, depararemos com a descrio do que at agora nos
 negado: o momento da morte da me da acusada. No tenho
dvida de que descobriremos coisas muito mais complexas do que
as que nos so reveladas nesta nossa primeira discusso. Mas, 
mesmo que as nossas primeiras suposies sejam confirmadas, mesmo que
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nos apresentemos com um conjunto de sintomas clssicos e uma perfeita 
patologia de psicose traumtica, onde  que nos 
encontraremos?
- Voltaremos ao cdigo - respondeu, sorrindo, Landon. natureza e aos 
fatores determinantes da responsabilidade humana.
os velhos moralistas tinham certa razo, como o senhor sabe, 
quando se recusavam a render-se com demasiada facilidade  doutrina do 
livre arbtrio.
Galuzzi fez um aceno afirmativo e, com sua maneira pedante,
embelezou o tema:
- Eis, exatamente, o meu ponto de vista, Landon. No posso.
acreditar nos deterministas que afirmam no existir qualquer 
responsabilidade real, e que todo ato humano  uma conseqncia 
inevitvel de milhares de outros, como uma bola que ressalta de uma 
parede invisvel. A pergunta a que temos de responder, a pergunta que o 
tribunal exigir seja respondida,  se resta , nessa moa livre arbtrio 
suficiente,- inteligncia suficiente para julgar a natureza de seu ato, 
ou se ela teria podido decidir-se contra o mesmo.
Landon encolheu os ombros, num gesto de impotncia:
- Quem poderia responder a isso, exceto Deus Todo-Poderoso?
- No obstante - observou, sombriamente, Galuzzi - toda
vez que nos reunimos num tribunal, arrogamo-nos uma funo divina, o 
poder sobre a vida, a morte e o juzo derradeiro. H vezes em que, quando 
me sento no banco das testemunhas, temo pela minha prpria sanidade 
mental. Gostaria de ouvir um pouco mais, ou preferiria primeiro ver a 
moa?
- Gostaria de v-la em sua companhia. O senhor pode fazer
as perguntas; eu apenas ouvirei. J  bastante difcil conduzir-se uma 
investigao no prprio idioma da gente, sem procurar interpretar os 
matizes em outro.
- Permita que lhe oferea um almoo e uma garrafa de vinho
disse* Emlio Galuzzi. - Penso que talvez tenhamos uma tarde
difcil.
O crepsculo j descia sobre a velha cidade, quando Landon
voltou  Pensione della Fontana. Sentia-se cansado e desanimado, 
oprimido pela lembrana da sombria priso e pelos rostos das infelizes 
que l se achavam confinadas.
A entrevista com Anna Albertini fora longa e tediosa e, apesar
de toda a habilidade de Galuzzi e da instigao de Landon, no 
tinham conseguido induzi-la a revelar coisa alguma sobre as 
circunstncias que envolveram a morte de sua me ou a sua participao 
nela. 
Quanto a Landon, sentia-se frustrado por ver outro profissional 
assumir o controle de uma operao familiar.
Sua depresso aumentou, ao ver que no havia recado algum de
Ninette. Aguardavam-no, porm, duas outras, mensagens: um telegrama de 
Carlo, enviado de Florena, e um pedido de Valria 
Rienzi, para que ele lhe telefonasse aquela noite, antes das oito 
horas, para um certo nmero em Siena.
o telegrama de Carlo era breve e enigmtico: Foi um gracejo,
mas peo desculpa. Fiz progressos. Novas entrevistas San Stefano
esta noite. Contato cliente amanh cedo. Favor estabelecer 
contato comigo amanh meio-dia Hotel Continentale. Landon meteu o 
telegrama no bolso e tocou a campainha, para que a criada lhe 
preparasse um banho.
Enquanto se banhava no ornamentado banheiro de mrmore,
analisou sua situao. Para um homem em gozo de suas frias anuais, ele 
havia renunciado a uma parte demasiado grande de sua liberdade, a uma 
parte excessiva de seus interesses pessoais, a 
favor de um grupo de pessoas por quem no tinha interesse algum. Se o 
caso de Anna Albertini fosse o que parecia ser - um caso corriqueiro - 
nada acrescentaria  sua experincia ou  sua reputao. Poderia 
desincumbir-se de sua promessa a Carlo Rienzi enviando-lhe um resumo de 
suas prprias concluses e das concluses de Galuzzi, e indicando-lhe a 
maneira pela qual deveria conduzir a defesa.
Quanto a Ascolini no lhe devia nada, exceto certas delicadezas 
De hspede. Um bilhete corts e um presente delicado seriam o 
bastante.
-Quanto a Valria, devia tanto ou to pouco quanto um beijo num
dia de vero.
E Ninette? A a questo era diferente. Estava apaixonado por
ela. Dissera-lhe que queria casar com ela. Ela evitara uma 
resposta. Respondera-lhe que ele era livre para esperar ou ir-se embora. 
De modo que, agora, a questo adquirira novo aspecto. Que desejava Peter 
Landon? Quanto estava disposto a pagar? Que caminho seguiria, com duplo 
arns?
Sentia-se ainda ressentido por Ninette no o haver chamado.
Sabia que no era razovel de sua parte exigir tanto dela, mas 
Quando um homem estava acostumado, h tantos anos, a ser requestado pelas 
mulheres, era difcil abandonar o hbito de exigir. Havia, alm disso, 
outros receios. Se o alade se fendera to pronto e com tanta facilidade, 
que espcie de msica tocaria, aps uns dois anos de casamento? Talvez 
fosse melhor, afinal de contas, fazer as malas e partir, resignando-se a 
gente ao contentamento momentneo e seguro. A felicidade era um crdito 
duvidoso em qualquer terreno - e quem poderia saber disso melhor do que 
um mdico de almas enfermas?
92 93
Depois, mediante rpida reao, seu estado de esprito modificou-se, 
passando da irritao  inquietude. Que fossem todos eles
para o diabo! Ele era ainda livre - e j havia ultrapassado h 
muito a idade da aquiescncia. J havia gasto demasiado de si mesmo, 
merecia uma noite toda sua na cidade. E se uma jovem ou uma matrona 
quisesse ser beijada, por que razo no satisfazer, ao mesmo tempo, a ela 
e a si prprio? Ocorreu-lhe a cmica idia de que Ascolini provavelmente 
o aprovaria, de todo o corao, naquele momento.
Saiu da banheira, enxugou-se com viva satisfao, vestiu-se com
extremo cuidado, e, depois, sentou-se junto ao telefone, a fim 
de comunicar-se com Valria Rienzi.
Aps breve intervalo, ela atendeu, grata mas reservada:
- Peter? Foi amvel de sua parte telefonar-me. Ser que poderia reservar-
me um pouco do seu tempo, esta noite?
- Posso, como no!
- Poderia convidar-me para jantar?
- Certamente. Onde nos encontraremos?
Ela disse-lhe que estava tomando coquetis com uns amigos, na
Via del Capitano. Sugeriu que ele a apanhasse s oito e meia; 
jantariam, depois, num restaurante prximo. A Landon, agradou a idia de 
que teriam, em seu primeiro encontro, companhia de outras pessoas - de 
modo que aquiesceu, Valria agradeceu-lhe com desconcertante cortesia e 
desligou.
Movido por vago impulso de culpa, tentou telefonar a Ninette,
mas ningum atendeu em seu atelier. Sentiu-se ressentido, 
achando, com masculina ingenuidade, que uma pequena separao seria bom 
para ambos. Eram apenas sete e meia, de modo que, dispondo ainda de uma 
hora, resolveu cuidar um pouco de sua correspondncia, um tanto 
negligenciada.
Enquanto examinava a pilha de cartas, viu-se, de repente, tomado
da agradvel sensao de que estava agindo acertadamente. Era um
sujeito sensato, que sabia aonde se dirigia, um cidado so, com
crdito nos bancos, um profissional que prestava nobres servios 
a seus semelhantes. O resto - com exceo de Ninette Lachaise no passava 
de uma excurso pela provncia, um interldio pastoral
que seria esquecido logo que terminasse.
Em dado momento, porm, sem qualquer advertncia, sentiu-se
mergulhar num desses estados de esprito em que o terror e o mistrio da 
vida se tornam subitamente manifestos, em que as aes mais triviais se 
revelam como coisas de conseqncia csmica, entregara uma carta de 
apresentao em Roma e, agora, estava agindo, contra sua vontade, como um 
elemento catalfico num complicado drama de famlia. Deixara-se seduzir 
por um advogado inexperiente,
94
e deveria agora aconselh-lo quanto ao destino de sua cliente.
Jantara com uma desconhecida, como fizera antes milhares de 
vezes, e achava-se agora preso a uma resoluo de casamento,  promessa 
de filhos e  infindvel cadeia da continuidade humana. Agora, deveria 
jantar com outra, imprudentemente, mas tendo plena conscincia de que 
esse encontro poderia tambm iniciar uma nova cadeia de conseqncias.
Era uma experincia curiosa, como estar a gente numa alta
montanha, a olhar um vale inundado de trevas. O vale era vazio e
mudo. A gente encontrava-se, s, sobre um pncaro - uma criatura lanada, 
de parte alguma, para o alto, sem destino algum. De repente,
uma luz perfurava a escurido; depois outra, e mais outra. A Lua
erguia-se e o vale animava-se, subitamente, pelo homem e todas 
as suas obras - e a gente tinha, forosamente, de descer a juntar-se  
multido, ou, ento, morrer, pela fria escolha do orgulho, vazio e nu.
No era bom para o homem estar s. Mas havia um preo para a gente se 
unir  caravana dos peregrinos, e um dzimo a pagar em cada dia da 
jornada. Devia-se comer com lgrimas o prprio po e beber com gratido o 
vinho aguado. Era preciso . que a gente se resignasse a ser invejado e 
odiado e, tambm, amado. E se a caravana no chegasse ao lugar prometido, 
a gente devia suportar, seno com alegria, pelo menos com resignao a 
estada no deserto.
Eis a o verdadeiro horror da condio humana: os homens tinham
de estar sujeitos uns aos outros numa servido inelutvel, onde a
doena de um poderia converter-se numa epidemia para toda a comunidade, e 
a culpa de uns poucos transformar-se em bode expiatrio de todos. Um 
pequeno gesto de compaixo poderia converter-se numa grande afirmao, e 
uma injustia insignificante disseminar-se, at chegar a uma corrupo 
completa.
Reflexo nada confortadora para uma noite de vero na Toscana
de modo que Landon a afastou de si e ps-se a caminho, a fim
de jantar com Valria Rienzi.
Concedendo-se a esta dama aquilo que de direito lhe cabia,
possua ela singular encanto, e sabia proporcion-lo generosamente quando 
o desejava. Lisonjeou Landon, elogiando-o a seus amigos, mas no lhe deu 
tempo de enfadar-se em companhia deles. Deu-lhe, depois, a chave de seu 
automvel e fez com que ele a conduzisse para fora dos muros da velha 
cidade, a um restaurante campestre, onde jantaram debaixo de uma trelia 
coberta de parreiras e tomaram vinho feito no mesmo local. O vinho era 
generoso, havia um trio de msicos sentimentais e, decorridos vinte 
minutos, Landon j se sentia mais descansado e menos cauteloso do que nos 
ltimos dias.
95
Tambm Valria parecia grata por aquela ocasio e ps-se a
gracejar com ele, bem-humorada:
- Parece, Peter, que voc est comeando a divertir-se: um
pouco de drama, um pouco de comdia, um pouco de romance.
- J era tempo, no lhe parece?
- Certamente. Mas, at esta noite, eu no teria sido capaz de
diz-lo. Fez um biquinho com a boca e franziu a testa, com ar
cmico. Sempre que falava com voc, sentia-me como uma menina que se 
dirige a seu confessor.
- Mas no esta noite, espero - respondeu, rindo, Landon,
estendendo-lhe a mo por sobre a mesa. - Vamos danar e eu lhe
farei minha confisso.
Disse-o frivolamente, mas ela, com a mesma presteza, apegou-se
 sua palavra. E, enquanto danavam, muito juntos e harmoniosos,
ou sorviam o seu vinho  luz plida do abajur, ela puxava por ele,
de modo que Landon se ps a falar, livremente, sobre si mesmo
sua famlia, sua carreira e a situao que produzira o seu afastamento do 
cenrio londrino. Valria era boa ouvinte e, quando no estava 
representando o papel de coquete, revelava um calor e uma simplicidade 
que Landon jamais teria acreditado que ela possusse.
Mais tarde, falaram de Carlo, e ela perguntou-lhe:
- Voc ainda acha que ele est agindo certo, Peter?
- Acho que est agindo de um modo que  bom para ele.
Embora possa lucrar com isso menos do que espera, acho que foi
bom voc e seu pai terem decidido apoi-lo.
Valria lanou-lhe, de soslaio, um rpido olhar:
- Voc julga que ele se importe, nesta altura, que ns o
apoiemos ou no?
- Acho que se importa muito, embora talvez no o confessasse,
com receio de parecer fraco.
- Voc viu a sua cliente... essa tal Anna Albertini?
- Vi. Tive uma longa sesso com ela esta tarde.
- E que tal  ela?
- Jovem, bela ... e bastante desvalida, penso eu.
Valria lanou um risinho seco:
- Seria engraado se Carlo se apaixonasse por ela. Advogados
e mdicos costumam apaixonar-se por suas clientes, no  verdade?
- Penso que Carlo est apaixonado por voc, Valria.
Ela abanou a cabea.
- No dessa maneira, Peter. Se eu fosse uma jovenzinha ftua
e insignificante, talvez. Sei que ele pensa que  amor o que 
sente
por mim, mas receio que essa no seja a minha espcie de amor.
E voc, Peter, est apaixonado por Ninette Lachaise?
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Era um truque to hbil como o de um prestidigitador. Uma sacudidela de 
um leno de seda e um coelho branco surge de dentro de uma cartola vazia, 
enquanto o prestidigitador sorri para o pblico ingnuo. E Landon, 
apanhado desprevenido, era to inocente como as mariposas que adejavam em 
torno das luzes veladas. Furtou-se  pergunta:
- No me apresse, Valria. Como voc disse, estou comeando
a divertir-me.
Ela estendeu o brao e deu-lhe umas palmadinhas na mo com aprovao de 
irm.
- Isso  bom, Peter. Alegro-me por voc.  sempre melhor
quando se trata de uma mulher experimentada. Se no der certo,
no haver complicaes, nem arrependimentos. Dance de novo comigo. 
Depois temos de ir embora.
Depois disso, tudo foi demasiado fcil. A languidez da noite
apoderou-se deles e, ao voltarem para Siena, Valria cochilou, a
cabea apoiada em seu ombro, confortvel como uma gata. Ao chegarem  
Pensione della Fontana, Landon convidou-a para um ltimo drink. Ela 
aceitou, sonolenta. Mas, quando se fecharam no velho quarto, com seu alto 
teto guarnecido de caixotes e suas sombras de antigos amores, o ardor os 
envolveu como uma onda, lanando-os, na escurido e no tumulto de seu 
sangue, sobre as cobertas revoltas da cama.
J quase ao amanhecer, Landon despertou e viu-a sentada, completamente 
vestida,  beira do leito. Valria tomou-lhe o rosto entre as mos e 
beijou-lhe os lbios. Depois, sorriu - e seu sorriso era cheio da antiga 
sabedoria das mulheres.
- Sinto-me feliz agora, Peter. Eu o desejei primeiro, como voc
sabe, e agora voc jamais poder tornar a desprezar-me... No,
no diga nada. Foi bom para mim e, penso, poder ser bom tambm para 
voc. Eu queria feri-lo bastante. Agora, no posso. Voc
ja no precisa mais temer-me. Carlo jamais saber, nem Ninette. 
Mas voc e eu no esqueceremos. Boa noite, querido. Durma bem.
Tornou a beij-lo - e deixou o quarto. Landon permaneceu
desperto at o amanhecer, a procurar, no dicionrio de sua 
profisso, as palavras que descrevessem o que acontecera com ele.
Ele j tinha idade suficiente para no se deixar tomar de pnico,
como um rapazinho, aps seu primeiro lapso com uma mulher casada, mas era 
tambm, demasiado experiente para deixar de encarar
claramente as conseqncias de seu ato. Havia culpa no que fizera: uma 
culpa pessoal, uma injustia para com Ninette e outra ainda
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maior quanto ao que se referia a Carlo. No podia culpar ningum
seno a si prprio - e no podia dar-se ao luxo de confessar sua
falta-De modo que com suprema ironia, se viu forado a adotar
a receita que impunha a todos os seus pacientes: aceitar a 
culpa, reconhecer o que realmente somos, usar esse conhecimento como uma 
tnica de Nessus e suportar, com a mxima dignidade possvel, o remorso e 
o veneno que nos corri.
Usou-a durante toda a manh. Vagou sem rumo pela cidade,
percorrendo praas abrasadas de sol e vielas mal cheirosas. Tomou
bastante caf e fumou demais. Amaldioou-se a si prprio, chamando-se 
idiota, mas no pde fazer o mesmo quanto a Valria.
Acabou, uma hora antes do meio-dia, por sentar-se, sozinho, a 
Uma mesa de caf colocada sobre a calada, exausto e humilhado pela 
certeza de que estava passando por uma crise em sua vida e que se achava 
mal preparado para enfrent-la.
Viajara at muito longe, e durante demasiado tempo, para que
no soubesse que existem vinte substitutos agradveis para a 
grande paixo. A gente podia sobreviver, satisfeito, com qualquer um 
deles, como a maioria das pessoas sobrevive sem trufas ao breakfast ou 
champanha em cada jantar. O caminheiro fatigado contenta-se com uma 
caneca de gua da bomba da aldeia, sem indagar se existe fonte mais doce 
ou mgica. Sua prpria vida podia estender-se numa  sucesso de episdios 
como o que tivera com Valria, cada episdio tornando-se cada vez um 
pouco mais inconseqente,  medida que a vitalidade, com o passar dos 
anos, ia diminuindo. E, se no houvesse arrebatamento, pelo menos no 
existiria nenhum dos penosos cometimentos do amor.
O amor era um estado extico, bastante semelhante  agonia,
mas, uma vez que um homem j o houvesse suportado, era para
sempre perseguido pela lembrana e pela amarga saudade do paraso
perdido. Quantas vezes poderia o mundo explodir? E, aps o seu tumultuoso 
esplendor, quem poderia aplaudir os fogos de artifcio e os amores de 
subrbio?
Um romntico deveria fazer desse momento uma histria de
penetrao espiritual e de nobre resoluo. Mas Landon era deficiente 
nessas coisas, como tambm sentia que o era em muitas outras.
Aguardou, simplesmente, tenso e fatigado, o momento em que 
readquirisse a calma e se sentisse pronto a enfrentar Ninette Lachaise.
Tinha as mos pegajosas e o corao batia-lhe forte, ao subir
as escadas e ao bater  porta do atelier de Ninette. Dez segundos
depois, ela estava em seus braos, ansiosa e repreensiva:
- Chri! Onde foi que voc esteve ontem o dia todo? Por que
no me procurou? Telefonei-lhe, esta manh, uma dzia de vezes,
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mas ningum sabia onde voc estava. No devemos fazer essas coisas
um com outro nunca mais ... prometa-me - Depois, sentindo algo
de estranho nele, manteve-o  distncia de seus braos e fitou-lhe
o rosto, - Algo aconteceu, Peter? O que foi?
A mentira saiu-lhe dos lbios mais facilmente do que imaginara:
- No aconteceu nada, exceto que tenho sido um idiota. Perdoe-me. Ontem, 
estive todo o dia ocupado. Telefonei-lhe  noite, mas voc no estava em 
casa. Sa da cidade. Estava zangado... mas sem razo. Voc me perdoa?
Tomou-a em seus braos e beijou-a, mas ela se desvencilhou
dele, plida e fria como uma esttua, e aproximou-se da janela. 
Quando, por fim, falou, sua voz soou tensa e cava pelo grande 
aposento:
- Era isso que eu temia, Peter, o momento em que o que fomos
viesse a ameaar aquilo que queremos ser. Foi por isso que eu 
queria esperar e dar ao seu amor tempo para amadurecer.
- E ainda deseja isso?
Intencionalmente, Landon mantinha-se afastado dela, procurando fazer com 
que sua voz fosse neutra e reservada.
- Sim, Peter, desejo, mas s se voc o desejar tanto quanto
eu. E voc no deve mentir-me... nunca. Se houver alguma coisa
que voc no queira dizer-me, guarde-a para voc mas no minta.
Eu fao-lhe a mesma promessa.
- E h ainda alguma outra coisa?
- H. Ainda quero um pouco de tempo, Peter, antes que resolvamos casar.
- Quanto tempo?
- At depois do julgamento.
- Julguei que talvez pudssemos partir antes.
Pela primeira vez, Ninette voltou o rosto para ele, e Landon
viu que ela se esforava por dominar-se. Sua resposta foi 
bastante firme.
- No, Peter. No me pea para lhe dizer tudo. Mas penso
que, a esta altura, voc j assumiu uma dvida para com Carlo, e no
Se sentir feliz enquanto no a saldar. Sei que eu tambm no me
sentiria.
Como, nada tivesse a opor a isso, Landon permaneceu mudo,
at que Ninette se aproximou dele e passou-lhe os braos pelo pescoo e 
ele sentiu, pela primeira vez, a promessa de uma muda absolvio.
Era meio-dia e um quarto quando Landon chegou ao Continentale. Encontrou 
Rienzi em mangas de camisa, diante de um mao
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de anotaes, sentado a uma mesa atulhada de livros. Tinha o rosto
oncilento, os olhos de fadiga e prosseguia o seu trabalho  
custa de conhaque e caf forte - uma mistura venenosa para um homem
j meio entorpecido pelas toxinas de seu prprio organismo. Quanto
a Landon, tambm se sentia cansado, constrangido, num estado de
esprito nada animoso, de modo que resolveu participar do veneno.
Serviu-se de uma xcara de caf e de dois dedos de conhaque; 
depois, estendeu-se sobre a cama, enquanto Rienzi falava.
- Estamos fazendo progressos, Peter. A coisa  lenta, mas, pelo
menos, estamos seguindo na direo certa. Fui a Florena, como voc
sabe. Falei com Luigi Albertini.  uma figura insignificante, 
mas foi bem industriado pela polcia. No obstante, como voc imaginou,
abriu-se um tanto comigo, quando lhe perguntei porque sua esposa
era ainda virgem, aps quatro anos de casamento. - Rienzi sorriu
e imitou o dialeto das vielas de Florena: - Ela no queria saber
disso. Achava que eu iria mago-la. Levei-a a um mdico, mas ele
nada pde fazer. Que  que um sujeito pode fazer com uma esposa
assim? Depois, fechou-se como um molusco em sua concha. Tive
a impresso de que ele estava ocultando alguma coisa, mas eu no
dispunha de tempo para descobrir o que era. Queria, no entanto,
que ele continuasse preocupado, de modo que contratei um 
investigador particular para desenterrar mais alguma informao a 
respeito dele. Ele me escrever, se conseguir alguma coisa. - Voc me 
disse, em seu telegrama, que ia a San Stefano. Conseguiu alguma coisa l?
- Tambm j fiz algum progresso. Frei Bonifcio desejava
ver-me. Um de seus penitentes o procurara, levado por uma crise 
de conscincia. No quis revelar-me o nome desse indivduo, mas, ao
que parece, trata-se de algum que esteve ligado a Belloni em seu
tempo de guerrilheiro. Frei Bonifcio disse-lhe que ele tinha 
obrigao moral de revelar o que quer que fosse que pudesse ajudar a 
moa.
O homem respondeu que queria pensar um pouco a respeito. Se ele
se decidir a falar, Frei Bonifcio entrar imediatamente em comunicao 
comigo. Procurei falar novamente com o sargento Fiorello,
mas no consegui coisa alguma. Designei um outro investigador 
particular para percorrer as aldeias e ver se descobre alguma 
coisa,acerca das atividades de Belloni durante a guerra... Um homem como 
ele
deve ter alguns inimigos. . . E, esta manh, estive com Anna.
- Eu tambm a vi ontem - respondeu Landon.
- Eu sei. Ela me disse. Ficou muito grata a voc e a Galuzzi,
pela maneira delicada como a trataram.
Ao que parece, ela se mostrou mais comunicativa com voc
do que conosco - comentou Landon sorrindo, enquanto sorvia o
seu conhaque.
Rienzi aproximou-se e sentou-se  beira da cama.
- Que  que voc acha, Peter? - indagou, ansioso. - Que
 que Galuzzi pensa?
 - Exclua por completo a insanidade mental - respondeu, categrico, 
Landon. - H sinais de trauma, obsesso e outros sintomas. E,aluzzi 
deseja mais tempo para determinar at que ponto sua condio diminui sua 
responsabilidade legal. Eu estou de acordo com 
ele.
- E isso  tudo?
- Que mais queria voc?
Rienzi ps-se a andar de um lado para outro pelo aposento, a
passar a mo pelos cabelos e a falar em frases incisivas, 
apressadas:
- Estou procurando um ponto em que firmar o p, Peter...
uma posio de onde possa lutar. Estou horrorizado com o que aconteceu a 
essa moa... muito mais do que com o que ela fez. Sabe como  que ela ? 
Como algum que tivesse vivido toda a sua vida num quarto, a olhar, 
atravs da janela, o mesmo jardinzinho. Sabe
o que ela me disse ontem? Agora posso amar. Agora posso fazer
Luigi feliz. Como  que ela poderia ter sabido o que estava 
fazendo?
Ela  como algum que descesse de um outro planeta!
- O tribunal ter uma outra opinio, Carlo - respondeu
Landon, com ar srio. -  melhor que voc tenha isso claramente
em seu esprito. Ela sabia o que era uma arma. Sabia o bastante 
para planejar uma viagem de trem e de txi. Sabia que assassnio era
uma questo de polcia. Compreendia suas conseqncias. Morava
numa cidade grande. Cuidava da casa para o seu marido. Tinha 
educao bsica e vestia-se como uma moa elegante. No era maluca
nem cretina, e aguardou dezesseis anos para matar um homem. No
digo que isso seja toda a histria... sei que no  ... mas a  que
Comea o trabalho do tribunal. E voc sabe to bem quanto eu que,
atrs disso tudo, existe uma questo de ordem pblica e o receio
de que qualquer gesto de clemncia possa fazer reviver nas montanhas a 
prtica da vendetta.
Foi este ltimo pensamento que fez com que o ardor de Carlo
arrefecesse mais rapidamente. Refletia um momento e, depois, 
respondeu, em voz baixa:
- Sei tudo o que voc disse e ainda mais, Peter, mas existe algo
que me perturba profundamente e que talvez nos proporcione um
ponto de partida para a defesa. Esse assassnio foi premeditado 
durante dezesseis anos. Se isso  verdade, ento Anna Albertini 
resolveu comet-lo quando contava oito anos de idade, que no  uma idade
100 101
de responsabilidade legal. A deciso foi tomada ento, Peter, 
embora o ato tenha sido praticado em outra poca. Que aconteceu durante
esses dezesseis anos? Qual era o estado da moa durante todo esse
tempo? Qual foi o choque que a lanou a isso?
- Voc est formulando, em outras palavras, as perguntas de
Galuzzi e minhas.
- Nesse caso, a menos que vocs me dem uma resposta, no
se far justia.
Landon ps de lado sua xcara de caf e levantou-se da cama.
E foi ento sua vez de pr-se a andar de um lado para outro pelo
quarto, enquanto formulava mentalmente sua resposta.
- A lei faz justia por acaso, Carlo. Qualquer espcie de lei.
Antes de mais nada,  um cdigo de ordem pblica, coibitivo, uma
arma punitiva. A justia acha-se ainda nas mos de Deus... e Ele
leva muito tempo para proferir um veredicto!
- Talvez desta vez - disse Carlo Rienzi - possamos persuadi-lo a agir um 
pouco mais depressa. - Hesitou um instante e, depois, movido por sbita 
resoluo, voltou-se e fitou Landon face a face:
- No tenho o direito de pedir-lhe isso, Peter. Nada posso 
oferecer-lhe por seus servios, exceto minha gratido, mas quero que voc
fique em Siena e me ajude. Apesar de Galuzzi - e contanto que
eu possa fazer com que o tribunal o aprove - quero arrol-lo 
entre as testemunhas da defesa!
- Como voc quiser.
Landon disse isso de maneira to casual, que sentiu como se
houvesse trado a si prprio; mas no lhe restava mais nimo para
representar e, quando Carlo, surpreso, o fitou boquiaberto e 
encantado, ajuntou, irritadamente:
- Pelo amor de Deus, homem! Voc j sabia, o tempo todo,
que minha resposta seria afirmativa! No faamos um drama disto.
E, com a mesma sinceridade, digo-lhe: no espere milagres. O mais
que posso oferecer-lhe  uma autoridade que contrabalance a de
Galuzzi.
Rienzi riu, um riso amplo, infantil, de alvio e prazer.
- H ainda um outro pormenor - retrucou Landon, carrancudo, ansioso por 
livrar-se do assunto. - Almocei com Ascolini, como voc sabe. Ele quer 
ajud-lo. Oferece-lhe um milho de liras e um mao de anotaes por ele 
redigidas sobre a maneira de se
conduzir este caso,
- No posso aceit-las - respondeu, com fria nfase, Rienzi.
- Eu disse-lhe que voc provavelmente no aceitaria, mas talvez
fosse uma boa idia enviar-lhe um bilhete de agradecimento.
- Eu o farei. - E acrescentou, em voz baixa: - Sabe de
uma coisa, Peter? Neste momento, sinto-me capaz de ser mais 
delicado com Valria e com o pai do que jamais o fui antes. E sabe
por qu? Porque o tenho como meu amigo e porque existe algum
que precisa mais de mim do que eles: Anna Albertini. 
Subitamente, surge em minha vida algo a que me dedicar, uma causa pela 
qual
me preocupar... e isso me torna muito feliz.
Feliz? Para Landon, ele mais parecia um homem que, no patbulo, fizesse 
um gracejo forado, enquanto lhe ajustavam a corda ao pescoo. Mas que 
podia ele dizer? Quando se dormiu com a esposa de um homem, acaso pode a 
gente roubar-lhe tambm as iluses?
Aquele era o trago mais amargo que Landon jamais engolira em sua
vida. Bebeu-o com um sorriso, mas seu gosto acre permaneceu-lhe
na lngua, hora aps hora, dia aps dia, at que Anna Albertini foi
levada a julgamento.
102 103
A abertura de um julgamento criminal constitui ocasio estranhamente 
teatral. A tradio e o instinto do pblico exigem no apenas que a 
justia parea ter sido feita, mas tambm, que sua aplicao proporcione 
um divertimento dramtico: uma expiao, mediante piedade e terror, das 
paixes despertadas pelo ato criminoso.
H quem afirme que a maneira de proceder de um tribunal britnico 
apresenta melhores qualidades teatrais que dos tribunais continentais 
europeus; mas  bom que nenhum delinqente incauto subestime qualquer uma 
delas. A tradio britnica deriva diretamente do antigo sistema 
germnico de julgamento por combate. O tribunal 
um lugar de peleja e disputa, tendo por rbitro um juiz e um jri.
Tanto a acusao, como a defesa apresentam suas provas mediante
inquirio e reinquirio de testemunhas. Disputam o fato e sua 
interpretao. Empenham-se em combates verbais, como cavaleiros nas
antigas lias.
O modo latino, por contraste,  o de inquisio, baseado no direito 
romano e modificado pelo mtodo dos canonistas. Consiste de inqurito 
preliminar conduzido por uma autoridade e baseado em todas as provas 
disponveis, que  depois resumido a apresentado,
em forma de processo, ao tribunal, que ouve o caso segundo os mritos do 
mesmo. O ru no se declara culpado ou inocente. No h disputa, mas 
simplesmente uma revelao pblica de fatos, uma causa, baseada em fatos, 
e apresentada tanto pela defesa como pela 
acusao e, depois, uma deciso - no um veredicto - proferida pelo 
magistrado que preside ao julgamento e baseada nos votos de cinco juzes: 
dois em nome do judicirio e trs representando o povo.
Para um indivduo criado dentro da tradio britnica, h sempre algo 
ligeiramente sinistro no mtodo inquisitorial, j que o mesmo parece 
negar o princpio firmado de que o nus da prova recai sempre
104
sobre a Coroa, e que um homem  inocente enquanto no se
provar a sua culpa. O mtodo latino pressupe, seno de fato, pelo
menos na prtica, que a verdade se encontra no fundo de um poo
profundo, e que o acusado  culpado, at que a inquirio possua
fatos suficientes para provar que o mesmo  inocente. No fim, 
dir-se-ia que a justia  mal servida, tanto num mtodo como no outro.
Todo tribunal tem aspecto um tanto ou quanto teatral. H um
palco em que os personagens representam os rituais de revelao,
conflito e resoluo. H uma montagem simblica: as armas da repblica 
acima do estrado dos juzes, a cadeira entalhada em que se
senta o magistrado que preside ao julgamento, acima dos juzes 
assistentes, a diviso que os separa dos funcionrios do tribunal. H os
lugares reservados aos espectadores, que devem portar-se com 
decoro,
ao manifestarem seus sentimentos a favor dos atores que se acham
em cena. H uma galeria para os crticos e comentaristas de 
imprensa. Os personagens principais usam costumes caractersticos. Os 
gestos so estilizados. O dilogo  formal e tradicional, de modo que,
como em todos os teatros, a realidade  revelada atravs da irrealidade, 
e a verdade exposta mediante uma fico de autores de
pantomima.
Landon e Ninette chegaram cedo, mas j encontraram a antecmara repleta 
de gente: reprteres, fotgrafos, testemunhas, 
espectadores, funcionrios assediados por jornalistas, todos a falar ao 
mesmo
tempo, todos a representar o seu prprio papel de artistas de 
praa
pblica, antes que o programa oficial comeasse.
O velho Ascolini abriu caminho por entre o pblico, a fim de
cumpriment-los. Parecia cansado, pensou Landon. Tinha o rosto
menos rosado, a pele menos clara, como se seu esprito vigoroso
ardesse atravs dos tecidos de seu corpo; mas saudou-os com o
humor vivaz de sempre:
- Ento os pombinhos, finalmente, se mostraram em pblico!
Permita-me que eu a admire, minha cara jovem. timo! Ento o
amor, at agora, continua sendo um agradvel passatempo, hein?
Talvez voc possa logo terminar o meu retrato. E o senhor, Dr.
Landon? Ento vai ser a testemunha especializada, hein? O senhor
 um homem obstinado, pois no? Sua atitude nos surpreendeu, 
principalmente a Valria, creio eu!
- Ela se encontra hoje aqui?
A pergunta foi feita por Ninette.
- Est ali adiante, sentada, soturnamente, a um canto. Tenho
estado muito pouco com ela, durante estas ltimas semanas. Tem
l suas prprias complicaes, penso eu. E receio que no possa
chegar-me a ela.
105
Era um assunto delicado. Landon procurou mudar de assunto.
- Como est CarlO, esta manh?
- Sentindo a tenso - respondeu Ascolini, lanando-lhe, de
vis, um olhar sardnico. - O senhor deveria saber melhor do que
eu, Sr. Landon. Tem trabalhado com ele.
Landon preferiu ignorar a aguilhoada e perguntar, tranqilamente:
- Que  que acha do julgamento, doutor?
Ascolini estendeu as mos, num gesto triste:
- O que eu esperava. Clima hostil e um vago rumor de surpresas. Carlo 
falou-me um pouco a respeito. Mas se o senhor 
dispuser
de algum tempo livre, Dr. Landon, eu gostaria de tomar um copo
de vinho em sua companhia e na de Ninette.
- Quando quiser, dottore - respondeu Ninette, com um sorriso. - Basta 
bater  minha porta.
- Com dois jovens namorados, o melhor, em geral,  a gente
telefonar primeiro. Mas eu os procurarei.
Houve uma agitao entre a multido, quando a porta se abriu,
e eles se viram impelidos, a contragosto, para a sala do 
tribunal.
Demorou dez minutos para que o populacho fosse dominado, convertendo-se 
numa platia murmurejante; depois os atores comearam a
entrar no palco.
Primeiro surgiu o promotor pblico, que conduziria a acusao
um indivduo alto, cara de ave de rapina, cabelos grisalhos, metlicos. 
Ocupou o seu lugar numa mesa situada  direita do estrado
destinado aos juzes e ps-se a discutir, em voz baixa, com seus 
assistentes. Em seguida, entraram o juiz auxiliar da vara e o 
escrivo do
jri, criaturas frias, ligeiramente pomposas, que se sentaram a 
uma
mesa prxima ao banco dos rus, no outro lado da sala, de frente
para o promotor.
Logo depois, entrou Carlo Rienzi, acompanhado de dois colegas
de meia-idade, de aspecto modesto, instalando-se numa mesa 
defronte
 tribuna dos juzes. Carlo envelhecera muito nas ltimas semanas.
Estava muitssimo mais magro. Suas roupas pendiam-lhe, folgadas,
dos ombros magros. Tinha o rosto chupado e amarelo. Havia rugas
profundas em torno de sua boca e de seus olhos. Em sua beca 
negra,
de peitilho~ engomado, tinha o aspecto de um monge torturado por
sua conscincia e por suas prticas ascticas.
Ninette tocou no brao de Landon e murmurou:
- Precisamos cuidar dele, Peter. Ele parece terrivelmente s.
Landon aquiesceu, distraidamente, com um movimento de cabea. Ela no o 
dissera com tal inteno, mas aquilo pareceu a
Landon uma viva advertncia de que, mesmo depois de vrias semanas de 
trabalho em comum, ele ainda estava em dbito para com Rienzi.
Sbito, uma exclamao abafada e um murmrio de vozes encheram a sala, 
quando Anna Albertini entrou e foi conduzida ao lugar destinado aos rus. 
O escrivo do jri imps rapidamente silencio, mas a jovem no deu 
mostras de haver ouvido coisa alguma. Permaneceu, imvel, as mos a 
agarrar o anteparo de metal do compartimento, cabisbaixa, o rosto 
exangue, mas ainda assim belo, sob a luz spera e amarelada da sala.
Finalmente, foi chamada a ateno do tribunal para a entrada
dos juzes e do presidente, e a multido manteve-se de p, em incio, at 
que eles se sentassem  tribuna e dispusessem, seus papis sobre a mesa.
O presidente era uma figura imponente - um homem alto, um
tanto curvado, de cabelos brancos e um rosto velho e inteligente, no
qual a compreenso e a majestade impessoal da lei pareciam constantemente 
em guerra entre si. Franziu o sobrolho, ante o burburinho da multido, e 
sentou-se, sem fazer qualquer comentrio. O juiz auxiliar da vara, ento, 
adiantou-se e anunciou:
- Se assim aprouver ao Presidente e aos membros do tribunal,
a Repblica denuncia Anna Albertini. Acusao: assassnio premeditado.
Landon sentiu que Ninette lhe apertava o brao. Experimentou
ligeira sensao de frio na boca do estmago. Os manguais da lei
comeavam a bater sobre a eira, e no cessariam de faz-lo at que
as alimpaduras tivessem sido joeiradas e os ltimos gros da 
verdade tivessem sido empilhados para o moinho.
As primeiras palavras do presidente foram dirigidas  jovem
que se achava no compartimento dos rus:
- A senhora  Anna Albertini, nascida Anna Moschetti na
aldeia de San Stefano e residente, ultimamente, em Florena?
A resposta foi firme, positiva, neutra:
- Sou.
- Anna Albertini, a senhora  acusada do assassnio voluntrio e 
premeditado de Gianbattista Belloni, prefeito de San Stefano, ocorrido no 
dia 14 de agosto deste ano. Tem defensor particular ou requer a 
assistncia de um advogado pblico?
Carlo Rienzi levantou-se e fez a comunicao de praxe:
- A acusada acha-se representada, senhor Presidente... Carlo
Rienzi, advogado.
Sentou-se, enquanto o presidente se debruava por um momento
sobre os papis que tinha  sua frente. Depois, dirigiu-se de novo
para a acusada:
106  107
- Segundo consta do libelo acusatrio que aqui tenho, a senhora, Anna 
Albertini, chegou de txi a San Stefano, ao meio-dia da data j citada. 
Dirigiu-se  casa do prefeito e disse que desejava v-lo. Convidada a 
entrar, recusou e aguardou  porta. Quando o
prefeito apareceu, a senhora o alvejou cinco vezes e encaminhou-se 
delegacia de polcia, onde entregou a arma, foi detida e, mais tarde,
acusada. A senhora fez uma declarao: Ele fuzilou minha me durante a 
guerra. Prometi que o mataria. E o fiz.
Deseja agora retirar ou impugnar esta declarao?
Carlo Rienzi respondeu por ela:
- No desejamos retirar nem impugnar a declarao feita pela
acusada. Alegra-nos que ela tenha sido feita espontaneamente, 
sem coero.
O presidente, franzindo o sobrolho, olhou-o intrigado.
- O advogado da defesa j leu o depoimento da acusada?
- J, senhor Presidente...
- E percebe claramente o seu car ter incriminatrio?
- Perfeitamente, senhor Presidente. Mas, a bem da justia,
solicitamos que essa declarao seja lida  luz de provas que ainda
devero ser apresentadas a esta corte.
Concedida a solicitao. Meus colegas e eu levaremos isso
em conta no devido tempo. - Voltou-se para o promotor:
 - O Ministrio Pblico pode iniciar a acusao.
O sujeito alto, com ar de ave de rapina, levantou-se e disse, de
maneira bastante suave:
- Sr. Presidente, membros do jri. Os acontecimentos referentes a este 
crime so to simples, to claros e brutais, que no exigem de minha 
parte recurso algum oratrio para que vs os condeneis. Com permisso do 
Sr. Presidente, proponho-me simplesmente
apresentar as minhas testemunhas.
- Permisso concedida.
A primeira testemunha foi o corpulento sargento Fiorello. Apesar de sua 
fisionomia rude, de seu sotaque de homem do campo, fez muito boa figura 
no banco das testemunhas. Suas respostas foram concisas, sua narrativa 
fluente. Identificou-se como sendo 
Erizo Fiorello, sargento a servio da Segurana Pblica. Estava havia j 
Vinte e cinco anos em San Stefano, sendo agora o encarregado da delegacia 
de polcia. Identificou a acusada e a arma que ela usara.
Descreveu as circunstncias em que fora cometido o crime e o que se
passou depois com a criminosa, merecendo uma palavra elogiosa do
presidente pela maneira com que soube enfrentar a situao. Foi
elogiado, ainda, pela habilidade e moderao com que interrogou 
acusada e pela presteza com que suprimiu qualquer desordem na
aldeia. Quando o promotor acabou de interrog-lo, ergueu-se como
se fosse um Hampden local - um campeo da ordem pblica, mas,
ao mesmo tempo, simptico guardio de seu povo.
Carlo, ento, causou sua primeira e pequena surpresa. Declinou
de examinar a testemunha, mas solicitou que a mesma fosse chamada
de novo, mais tarde, a fim de ser interrogada pela defesa. O 
presidente ergueu o sobrolho, com ar de dvida.
-  um pedido pouco comum, Dr. Rienzi. Acho que o mesmo
deve ser justificado perante o tribunal.
- Trata-se de uma questo de clareza em nossa apresentao,
Sr. Presidente. Propomo-nos obter certas informaes de testemunhas
que sero chamadas posteriormente, e precisaremos, depois, 
reinterrogar o sargento Fiorello. Se o interrogarmos agora, as perguntas 
sero
irrelevantes. - Voltou-se, com ligeira curvatura, para o promotor:
- Neste momento, estamos nas mos do representante do Mnistrio Pblico, 
e devemos acompanhar a seqncia de testemunhas.
Os juzes trocaram algumas palavras em voz baixa e, em seguida,
o presidente aquiesceu. Rienzi agradeceu-lhe e sentou-se.
Landon lanou um olhar atravs da sala, para ver que impresso
tal ttica causara a Ascolini, mas seu rosto estava oculto, de modo
que s conseguiu ver o perfil sereno e clssico de Valria.
Era difcil ver-se qualquer maldade em seus olhos, como tambm o era 
perceber-se qualquer sentimento mau no rosto plido e virginal da jovem 
que se achava no compartimento dos rus. Landon lembrou-se da lenda 
japonesa daquelas belas mulheres mascaradas
que, mediante magia diablica, se transformavam em mariposas, em
noites de lua cheia. No obstante, ela mantivera sua palavra. Era
possvel que Ninette houvesse suspeitado de algo, mas Valria nada
lhe dissera. Quando, nas ltimas semanas, ele a encontrava em 
presena de Carlo, ela se mantinha discreta. Somente uma vez, deparando 
com ele numa sala vazia, Valria lhe desmanchara o cabelo e dissera:
- Sinto falta de voc, Peter. Por que ser que as criaturas
como eu sempre escolhem as pessoas erradas?
Quanto ao resto, Landon confiava nela e via-se forado a um respeito 
relutante.
Agora, uma nova testemunha era conduzida ao banco dos depoentes: Maria 
Belloni, esposa do morto, a matrona corpulenta que sara  porta da casa 
do prefeito e atendera Anna Albertini.
Em seu vestido de luto, ela parecia, agora, encolhida e velha, como se
Mal pudesse suportar o fardo da solido e do sofrimento. Aps 
prestar juramento, o promotor aproximou-se dela, delicado com um
108 109
agente funerrio. Sua bela voz proferia as palavras como se ele 
estivesse a recitar um salmo:
- Signora Belloni, compartilhamos de sua dor. Lamentamos
que a senhora tenha de expor-se ao sofrimento de um novo 
interrogatrio, mas desejo que a senhora procure dominar-se e responder
s perguntas do Sr. Presidente.
- Eu... eu tentarei.
- A senhora  uma mulher corajosa. Obrigado.
Ficou perto da depoente, enquanto o presidente fazia as perguntas de 
praxe:
--- Seu nome  Maria Alessandra Belloni e a senhora  a esposa
do extinto?
- Sou.
- O tribunal gostaria de ouvir, em suas prprias palavras o
que aconteceu pouco antes de seu marido ter sido morto.
Durante um momento, dir-se-ia que ela iria sucumbir por completo. Depois, 
dominou-se e comeou a depor, a princpio 
hesitantemente e, depois, num tom crescente de ardor e histeria:
- Estvamos sentados  mesa, como sempre... meu marido,
os meninos e eu. Havia vinho, pasta e um risoto especial. Era 
uma
festa... o aniversrio de meu marido. Estvamos todos muito 
felizes,
como uma famlia deve estar. De repente, ouvimos um toque de
campainha. Fui ver quem era. Essa a estava l na porta. - Lanou
um dedo acusador em direo de Anna Albertini - Disse-me que
queria falar com o meu marido. Parecia to modesta e solitria, que
pensei em fazer-lhe uma caridade. Convidei-a para comer conosco.
Ela respondeu que no ... que era um assunto particular. Eu ...
eu voltei e chamei meu marido. Ele levantou-se da mesa. Tinha 
ainda
o guardanapo em torno do pescoo e um pouco de molho no canto
da boca... Lembro-me... lembro-me de que ainda tinha um pouco
de molho no canto da boca. Ele foi atender... Ouvimos, ento...
os tiros. Corremos todos e ele estava estendido junto  porta, 
com
o peito todo cheio de sangue. Ela o matou! - As palavras foram
proferidas num grito violento. - Ela o matou como a um animal!
O grito extinguiu-se e ela afundou o rosto nas mos, soluando.
Landon lanou um olhar a Anna Albertini. A jovem tinha os
olhos fechados e vacilava em seus ps, como se fosse desmaiar. Rienzi
ps-se imediatamente de p, protestando, com voz estridente:
- Sr. Presidente! Minha cliente se acha sob grande tenso.
Devo pedir-lhe sejam dados uma cadeira e um copo dgua.
O presidente aquiesceu:
- Que a acusada permanea sentada durante os depoimentos.
Dem-lhe de beber.
110
Um dos guardas retirou-se e trouxe uma cadeira. O escrivo do
jri ofereceu-lhe um copo dgua de sua prpria mesa. A acusada
bebeu, de bom grado, e sentou-se. Enquanto isso, o promotor 
permaneceu perto de Maria Belloni, consolando-a com sua experimentada
amabilidade. Demorou uns trs minutos para que o presidente 
pudesse
prosseguir seu interrogatrio.
- Signora Belloni. . . A senhora j vira alguma vez a acusada,
antes de ela chegar  sua casa?
- No a via desde que ela era menina, durante a guerra.
- E a senhora a reconheceu?
- No momento, no. S depois.
- Sabe por que ela matou o seu marido?
- Porque ele cumpriu o seu dever.
- Quer explicar isso, por favor?
- Durante a guerra, meu marido era o chefe dos guerrilheiros
nesta regio. Tinha muitas vidas em suas mos, muitas vidas. Havia
tambm traidores, que vendiam informaes aos alemes e aos facisti.
A me dessa moa era um deles. Por causa dela, muitos de nossos
rapazes foram capturados, torturados e mortos. Da ter sido ela 
presa.
Houve um julgamento e ela foi condenada  morte. Meu marido presidiu ao 
julgamento e, mais tarde,  execuo. Estvamos em tempo
de guerra. Ele tinha de proteger os seus homens... e suas 
mulheres
tambm. - Sbito, suas idias comearam a tornar-se vagas e dissociadas, 
como se ela estivesse se afastando da realidade do 
tribunal
e mergulhando num mundo ntimo, de sofrimento e terror. - Mas
isso faz muito tempo, j acabou... como muitas outras coisas que
aconteceram durante a guerra. E, de repente... isto acontece... 

tudo completamente maluco, como um pesadelo. Vivo pensando que
vou despertar e encontrar o meu marido a meu lado. Mas ele no
vem... ele no vem!
A voz extinguiu-se num som esganiado e ela se, ps a chorar
baixinho - um choro entrecortado de soluos. Um sussurro de piedade 
percorreu o tribunal, como uma lufada de vento que soprasse
sobre um trigal, mas o presidente imps imediatamente silncio.
- Deseja a defesa fazer qualquer pergunta a esta testemunha?
indagou o magistrado.
- Temos trs perguntas a fazer, Sr. Presidente. Eis a primeira:
de que modo soube a Signora Belloni das acusaes feitas  me de
Anna Albertini, e como teve conhecimento do julgamento e da
execuo?
- Queira responder a essa pergunta.
Maria Belloni ergueu a cabea e fitou, com ar vago, a tribuna111
- Meu marido me contou, claro, bem como os outros que estiveram l. De 
que outro modo poderia eu saber? Eu tinha de olhar
os meus filhos, de cuidar da casa.
- Obrigado. E a pergunta seguinte, Dr. Rienzi?
- Com a permisso do Sr. Presidente, gostaria de faz-la diretamente  
testemunha.
- Permisso concedida.
Rienzi levantou-se e dirigiu-se lentamente ao banco das testemunhas. Suas 
maneiras estavam  altura das do promotor, quanto 
brandura e comiserao.
- Signora Belloni, seu marido era um bom marido?
A resposta veio rpida, amarga:
- Bom marido! Bom pai! Ele nos amava... cuidava de ns.
Mesmo, nos piores dias, tivemos sempre alimento, agasalho. Ele 
nunca
fez mal a ningum. O Presidente da Repblica enviou-lhe uma medalha de 
ouro e o chamou de heri. Eis a que espcie de homem
era ele! E, de repente, ela apareceu e o matou como um co!
Rienzi aguardou um momento, at que ela se acalmasse, e, depois, indagou, 
com enganosa brandura:
- E seu marido foi-lhe sempre fiel?
O promotor ps-se de p de um salto:
- Sr. Presidente, protesto!
O presidente abanou a cabea:
- Julgamos a pergunta relevante, segundo o sumrio que aqui
temos. Pedimos  testemunha que a responda.
- Repito a pergunta, signora - disse, pacientemente, Rienzi.
Seu marido foi-lhe sempre fiel?
- Claro que foi! Uma mulher sempre sabe disso, no sabe?
Ele era bom marido e um bom pai. No havia ningum mais.
- Obrigado, signora.  s o que eu desejava saber.
Quanto a Landon, no percebia, de modo algum, que importncia poderia ter 
tal pergunta. O pblico presente tambm no via
nela drama algum. Landon sentia, vagamente decepcionado, que 
Carlo
estava se lanando, de maneira canhestra, contra testemunhos 
incontestveis.
Enquanto Maria Belloni deixava o banco das testemunhas, houve
uma consulta, em voz baixa, entre o presidente e os outros 
juzes.
Depois, o presidente dirigiu-se ao promotor:
- Meus colegas observam, com toda a razo, que, dados os
depoimentos das testemunhas at agora ouvidas e tendo-se ainda em
conta a declarao assinada da acusada, no tm eles dvida alguma
quanto ao fato e as circunstncias materiais referentes ao 
assassnio de Gianbattista Belloni. Ressaltam, porm, que a segunda parte 
da
112
acusao, pelo representante do Ministrio Pblico, deve prosseguir... 
isto , a de que o crime foi cometido voluntria e premeditadamente.
O promotor de rosto de ave de rapina sorriu. Podia dar-se ao
luxo de ser indulgente diante de uma causa inequvoca e j quase
provada. Respondeu, brandamente:
- J estabelecemos o fato e o motivo, Sr. Presidente, Somos
de opinio que a premeditao ser provada pelo depoimento de
nossas prximas testemunhas. A primeira delas  Giorgio Belloni,
filho do morto.
Giorgio Belloni era um jovem magro, de rosto comprido, mos
nervosas e estridente sotaque rural. Seu depoimento foi simples e
comprometedor. Defrontara-se duas vezes com Anna Albertini: a
primeira vez no dia do crime e, depois, durante um interrogatrio
preliminar. Tinham sido, na infncia, colegas de escola, e ele a 
reconhecera instantaneamente. Nessas duas ocasies, insistira com ela
para que lhe dissesse por que razo matara o seu pai e, nas duas
vezes, ela lhe dera, diante de testemunhas, a mesma resposta: 
Nada tenho contra voc, Giorgio; somente contra ele. Tive de esperar 
muito
tempo, mas agora a coisa est terminada.
Quando Rienzi declinou de contestar tal depoimento ou de interrogar a 
testemunha, o presidente franziu o sobrolho e os juzes 
voltaram-se uns para os outros, sussurrando entre si. Ninette 
voltou-se
para Peter e indagou, ansiosa:
- Que  que ele est fazendo, Peter? Como  que poder
lutar, agora?
D-lhe tempo, querida. Este  apenas o primeiro round.
Olhe o Dr. Ascolini.
Landon lanou um olhar atravs da sala e viu o velho inclinado para a 
frente, a cabea apoiada nas mos, enquanto Valria
permanecia ereta a seu lado, um sorrisinho irnico nos lbios. O
promotor anunciou, com melflua satisfao, sua prxima testemunha:
- Luigi Albertini, marido da acusada.
Todas as cabeas se voltaram e Anna lanou um grito abafado:
- No, Luigi... no!
Era o primeiro sinal de emoo por ela revelado desde que comeara o 
julgamento. Olhou-o fixamente, levando  boca o leno amarfanhado, dando 
a impresso, durante um momento, de que queria sair do compartimento dos 
rus e correr para junto do jovem 
plido, bem parecido, que estava sendo conduzido ao banco das 
testemunhas.
Um dos guardas, ento pousou a mo sobre seu ombro e ela se sentou,
de novo, hirta, fechando os olhos como se no quisesse presenciar um
113
horror iminente. o jovem prestou juramento e o presidente 
interrogou-o com voz neutra:
- Seu nome  Luigi Albertini e o senhor  marido da acusada?
- Sou.
A resposta foi quase inaudvel e o presidente o admoestou,
spero:
- Esta  uma ocasio penosa, jovem, mas o senhor est aqui
para ser ouvido pelo tribunal. Queira falar mais alto. H quanto
tempo esto casados?
- Quatro anos.
- Viveu com sua esposa durante todo esse tempo?
- Sim, senhor.
- Qual  sua ocupao?
- Sou vigia noturno da Tecelagem Elena, em Florena.
- Quais so as suas horas de trabalho?
- Das nove da noite s seis da manh.
- No decurso de seu trabalho o senhor usa arma?
- Uso.
A um sinal do presidente, o escrivo aproximou-se do banco
das testemunhas e apresentou a arma.
Reconhece esta arma? - tornou a perguntar o presidente.
Reconheo.  minha.
Quando foi que a viu pela ltima vez?
Quando cheguei do trabalho, na manh do dia quatorze de
agosto. Eu a coloquei sobre o criado-mudo. Costumava guard-la na
gaveta da cmoda, mas, essa vez, eu estava cansado e me esqueci.
- A arma estava carregada?
- Sim, senhor.
- Que  que o senhor faz, habitualmente, quando chega do trabalho?
- Como alguma coisa e deito-me.
- E fez isso, na manh do dia quatorze de agosto?
- Fiz.
- E a que horas acordou?
- s trs da tarde.
- Sua esposa estava em casa?
- No.
- Onde se achava ela?
- Eu no sabia. Deixou-me um bilhete, dizendo que eu no
me preocupasse com ela, pois que estaria de volta dentro de dois
dias.
- Quando deu pela falta de sua arma?
- Quando a polcia me trouxe para Siena, a fim de ver minha
esposa.
- Obrigado.
O presidente olhou, com ar interrogativo, para Rienzi
e Rienzi levantou-se, lentamente, e disse:
- Ainda uma vez, Sr. Presidente, devo pedir a indulgncia do
tribunal. A defesa gostaria de interrogar mais tarde essa 
testemunha.
O presidente franziu a testa e respondeu, seco:
- Eu lembraria  defesa que a deciso da corte ser dada 
luz dos fatos contidos no processo e interpretados segundo as provas.
Sugeriria, vivamente, que a defesa no confiasse em manobras tticas.
- Com o devido respeito, Sr. Presidente - respondeu com
firmeza, Rienzi - devo lembrar que esta corte existe para ministrar
a justia e que seria lamentvel que isso no pudesse ser feito devido
a procedimentos demasiado rgidos.
Mesmo para os observadores inexperientes, foi esse um gesto
arriscado. Os juizes assistentes levantaram a cabea, com ar de 
desagrado, e, depois, voltaram-se de novo para o presidente, a fim de
ver como deviam agir. O velho magistrado permaneceu um momento
em silncio, a mexer em sua caneta. Finalmente, franziu a testa e 
respondeu:
- Em vista da dbia situao da defesa, sentimo-nos inclinados a 
aquiescer ao pedido. A testemunha est dispensada, mas tornar a ser 
chamada mais tarde.
- Obrigado, Sr. Presidente.
Rienzi sentou-se e o promotor pblico ps-se de p, com ar de tranqilo 
triunfo.
- Com a devida permisso do Sr. Presidente e dos demais membros desta 
corte de justia, a Promotoria Pblica  de opinio que, mesmo sem 
qualquer novo testemunho, no s o crime como a premeditao j se acham 
provados. Contudo, a fim de anteciparme a quaisquer argumentos que possam 
vir a ser apresentados pela defesa, baseados em insanidade ou 
incapacidade mental, gostaria de chamar a minha ltima testemunha, o 
Prof. Emlio Galuzzi.
O Prof. Galuzzi encaminhou-se, imponente, para o banco das
testemunhas. Falou lenta e pedantemente, mas no havia dvida alguma 
quanto  sua autoridade ou competncia. Com aquiescncia do
presidente, o prprio promotor o interrogou:
- Prof. Galuzzi, quais so suas funes oficiais?
- Sou professor catedrtico de Medicina Psiquitrica na Universidade de 
Siena. Diretor da Clnica Psiquitrica do Hospital Santa
Catarina, desta cidade. Sou Conselheiro do Departamento de Higiene
Mental e Psicologia Criminal do Departamento de Justia.
114  115
- O professor examinou a acusada Anna Albertini?
- Examinei. De acordo com instrues do juiz auxiliar da vara,
submeti a acusada a uma srie de exames mdicos e psiquitricos.
- Poderia fazer a fineza de relatar sua opinio ao tribunal?
- No encontrei sinal algum de enfermidade fsica ou quaisquer sintomas 
de histeria. H indcios de choque residual, mas isso
est em consonncia com a reao normal aps um crime desta natureza e 
com os processos de deteno, encarceramento e interrogatrio
a que a acusada foi submetida. Notei, no entanto, acentuados 
indcios de trauma psquico, relacionado diretamente com as 
circunstncias referentes  morte de sua me. Isso se revelou atravs dos 
sintomas clssicos de obsesso, incapacidade emocional e perverso 
aparente do senso moral com respeito ao crime.
- O senhor diria, professor, que a acusada era, no sentido legal,
uma pessoa s?
- Perfeitamente.
- Concorda, pois, em que ela se acha apta a ser julgada por esta corte?
- Concordo.
- Ainda no sentido moral, professor, a acusada , na sua
opinio, uma pessoa responsvel?
- O senhor est me pedindo para que repita o que j disse
- respondeu, com suavidade, Galuzzi. - Sanidade legal implica
responsabilidade legal.
O promotor aceitou a censura com um leve sorriso.
- Tenho ainda uma pergunta a fazer-lhe. Na sua opinio, e
segundo o mesmo sentido legal, era Anna Albertini uma pessoa 
responsvel no momento em que praticou o crime?
- Sim, eu diria que sim.
- Isso  o bastante. Muito obrigado.
Carlo Rienzi levantou-se.
- Com permisso do Sr. Presidente, gostaria de fazer algumas
perguntas  testemunha.
O presidente consultou o relgio, que marcava cinco minutos
para o meio-dia, e respondeu, de mau humor:
- Este tribunal acolher de bom grado qualquer manifestao
de atividade por parte da defesa, mas j estamos quase na hora de
interromper os trabalhos. O interrogatrio da defesa demorar muito?
- Talvez tome tempo, Sr. Presidente.
- Nesse caso, seria melhor interrompermos aqui os trabalhos.
A defesa poder comear a inquirir a testemunha quando reiniciarmos a 
sesso. O tribunal voltar s trs horas da tarde.
Apanhou seus papis e saiu da sala, acompanhado de seus colegas. o guarda 
conduziu Anna Albertini para fora do recinto, 
enquanto o pblico, em confuso vozerio, trocava impresses entre si. 
Landon e Ninette abriram caminho entre o povo, a fim de falar com Carlo,
mas antes que conseguissem chegar at ele, Valria j l estava e ambos 
ouviram as primeiras palavras, breves, trocadas entre marido
e mulher.
Voc vai ou no almoar, Carlo? No quero ficar muito
tempo aqui.
Carlo fitou-a, o olhar absorto:
No, no me espere. Quero falar com Anna. J ordenei que
levassem o almoo  sua cela.
- Encantador! - exclamou, com desdm, Valria. - Encantador, embora um 
tanto ou quanto bizarro! Ento voc no se importa
que Basilio me leve a almoar?
Rienzi, com um gesto de cansao, deu de ombros e virou-se
para o outro lado.
- Faa o que quiser, Valria. No posso entregar-me a duas
batalhas ao mesmo tempo.
- Mesmo nesta aqui voc no est se saindo muito bem, no
 verdade, querido?
- Estou fazendo o que posso - respondeu, com ar soturno.
E ainda h um longo caminho a percorrer.
Uma vida inteira para a sua plida e branca virgem!
Deu meia volta e seguiu a multido que saa do tribunal, mas
Landon, furioso, bloqueou-lhe a retirada:
Deixe disso, Valria! Deixe de agir como uma cadela! Homem
algum merece o que voc est procurando fazer com Carlo.
- Voc devia ser mais corts, querido. Se me der na cabea,
poderei fazer coisas piores.
Deu-lhe uma palmadinha indulgente na face e deixou-o, afogueado e 
impotente, a pensar mais uma vez no preo de uma noite
de indiscrio. Voltou  mesa da defesa, onde Ninette, caridosamente, 
falava com Carlo:
Voc parece cansado, Carlo. Precisa cuidar mais de voc.
Rienzi esboou um sorriso triste:
Tenho passado um mau bocado. Se no fosse por Peter,
eu teria me sentido muito s. E Valria est procurando tornar a
coisa ainda pior. - Voltou-se para Landon: - Que tal a impresso
que sentem l do meio do pblico, Peter?
Exatamente como planejamos... Uma escaramua preliminar.
116  117
um sorriso breve, infantil, aflorou aos lbios de Rienzi:
- Acho que me sairei um pouco melhor esta tarde. Agora
se me desculparem, desejo ver minha cliente. Ela necessita neste
momento, de muito apoio.
- Por que no vai jantar hoje conosco?
Carlo hesitou, mas Ninette lanou-lhe o seu cativante sorriso:
- Por favor, Carlo, voc nos deve um pouco de sua companhia. Esperaremos 
voc depois da sesso da tarde e jantaremos em
meu apartamento. Voc poder descansar l. e, talvez, tocar-nos um
pouco de msica.
- Gostaria disso. Obrigado.
Reuniu seus papis e afastou-se - uma figura encurvada, cansada - em 
direo da porta que conduzia s celas dos presos com
ordem de reencarceramento. Landon e Ninette seguiram-no com o
olhar, tocados ambos de piedade por um talento to solitrio e por
uma to sincera boa vontade.
- Valria  um monstro, - explodiu, furiosa, Ninette.
- Se no conseguir dobr-lo de uma maneira, tentar outra.
Que foi que voc lhe disse, Peter?
- Disse-lhe que ela era uma cadela... e que deixasse Carlo
em paz.
- Voc no tem modo dela, Peter?
A pergunta apanhou-o desprevenido e, durante um momento,
no soube o que responder. Com surpresa, porm, viu que Ninette
ria baixinho:
- No permita nunca que mulher alguma faa chantagem com
voc, Peter. Nem mesmo eu. Eu o amo, chri, e tambm eu posso
lutar por aquilo que desejo. Vamos! Oferea-me um drink e algo de comer.
A ante-sala do tribunal estava quase vazia, mas o Dr. Ascolini
os esperava junto  porta que dava para o corredor. Sem qualquer
prembulo, enlaou o brao no de Ninette e disse, categrico:
- Recuso-me a comer sozinho. Vocs dois vo almoar comigo no Luca. Quero 
falar-lhes.
Quase no houve tempo para que conversassem, enquanto seguiam pelas 
caladas repletas. Mas, uma vez sentados, em meio ao conforto barroco do 
Luca, Ascolini lanou um desafio a Landon. - Bem, meu amigo, que  que 
acha das probabilidades de Carlo?
- Ainda  muito cedo para se dizer.
- E voc, Ninette?
- Francamente, dottore, no sei o que pensar. No posso crer
que ele seja to inepto quanto tem parecido at agora. Mas ele no
118
me causou qualquer impresso... e creio que muito menos ainda,
aos membros do tribunal.
O velho riu entredentes, satisfeito:
- Ento talvez estejam agora dispostos a concordar comigo
que eu talvez tivesse feito bem em dissuadi-lo de aceitar esta causa.
Ninette Lachaise abanou a cabea.
- No inteiramente. Mesmo que ele fracasse - e Peter acha
que h bastante probabilidade de que tal ocorra - ele ter experimentado 
as suas prprias foras. No poder deixar de lucrar um pouco -com-isso.
- Mesmo que ele arrune sua carreira?
- Uma carreira  menos importante do que o amor prprio, dottore. O 
senhor sabe disso.
- Touch! - exclamou, com um sorriso, Ascolini. - O senhor
tem a uma mulher formidvel, Dr. Landon! Mas eu gostaria, agora,
de dizer-lhes algo que talvez os surpreenda: acho que Carlo est
se portando extraordinariamente bem. - Aguardou um momento,
saboreando a surpresa de ambos. - O senhor, meu caro Landon, foi
criado em meio dos fogos de artifcio dialticos dos tribunais 
britnicos. Pensa em termos de duelo entre promotor e defesa. Quer 
ver
um fato contrabalanado por outro, um argumento a contrapor-se a
outro. Exige que a simpatia dos ouvintes penda ora para um lado,
ora para outro... e que haja um choque de personalidades. De
modo que no consegue perceber a estratgia que o nosso sistema
exige. - Sorveu sua bebida e limpou delicadamente os lbios com
um leno de seda. - Vejamos o que Carlo fez at agora. Procurou
diminuir-se aos olhos dos juzes, de modo que estes esto preocupados, 
receosos de que no se faa  acusada justia adequada. Por
conseguinte, sentem-se inclinados a conceder-lhe maior 
amplitude de
ao do que, de outro modo, o fariam. Permitiu ele que a acusao
esgotasse todos os seus argumentos durante a sesso matinal. Ter
agora oportunidade de interrogar, logo no incio da sesso da 
tarde,
uma testemunha-chave da acusao, bem como de reinterrogar outras,
 luz de evidncias apresentadas pela defesa. Isso constitui uma 
campanha slida. . . tanto mais slida quando se trata de uma causa 
nada
.promissora.
Carlo, sentir-se-ia encorajado, se ouvisse isso.
O velho franziu a testa e respondeu, com ar triste:
- Duvido-o. O clima existente entre ns  menos favorvel do
que nunca. Valria est agora a exibir esse tal Lazzaro debaixo do
nariz do prprio Carlo. Ele no pode deixar de acreditar que eu
aprovo o que est ocorrendo.
119
- Ela est se destruindo a si prpria - comentou Ninette,
tomada de sbida ira. - Ser que ela no o compreende?
~- Compreende melhor do que voc - respondeu o velho, sombrio. - Mas 
existem coisas que no nos podem causar contentamento. Uma delas, sou eu; 
a outra,  ela. Nossa nica satisfao
consiste em arrancar de cada momento o que quer que ele contenha
de doce ou amargo. , se se quiser, um impulso para a conquista,
e no para a alegria. Procuramos dominar e, se no o conseguimos,
sentimo-nos mais felizes em destruir. Carlo afastou-se de ns, todo o seu 
interesse est voltado para essa causa... e, receio-o, para a sua prpria 
cliente.
- Eu tambm o receio - interveio Landon com vivo interesse. - Venho 
observando isso acontecer durante estas ltimas semanas. Procurei, 
mostrar-lhe aonde isso conduz. Apontei-lhe os perigos a que ele e sua 
cliente esto sujeitos, mas temo que ele no
esteja em condies de med-los. Sinto-me preocupado por ele. Em
sua profisso, como em qualquer outra, um homem necessita de uma
linha de defesa que o poupe das exigncias que lhe so feitas. Se
no a encontrar no lar, poder tentar ou uma dedicao impossvel
ou uma identificao perigosa com sua cliente.
Ascolini fez com a cabea um gesto de assentimento e indagou, com grave 
interesse:
- E em qual dessas direes Carlo se inclina?
- Ele cr que se inclina para a dedicao. Eu receio que seja
para a outra direo. Ele no faz segredo de suacompaixo para
com Anna Albertini. Esfora-se por proporcionar-lhe conforto e 
oferecer-lhe segurana. De sua parte, ela comea a apoiar-se nele para
tudo. O que constitui duplo perigo.
- Eu sei - disse Ascolini. - Valria zomba disso tudo, e
isso  ruim para um homem que j trabalha com os nervos a ponto
de estourar. Mas ele, agora, aceita a luta. J no permitir que lhe
preguemos peas, como antes. O rapaz tornou-se homem, e sente-se,
no fundo, magoado.
Interrompeu-se, como se estivesse cansado de tanta infelicidade, e fez um 
sinal para que o garom os atendesse. Durante o almoo, conversaram sobre 
coisas mais amenas, mas, ao ser-lhes trazido o caf, tornaram a referir-
se ao julgamento, e o velho passou a 
Expor-lhes, de maneira sbria, jurdica, o que achava dos problemas da 
defesa.
- Num caso como esse, em que os fatos e as circunstncias de um crime no 
do margem a qualquer dvida, no h esperana de absolvio. Sociedade 
alguma pode perdoar um assassnio.
O senhor e Carlo arquitetaram um argumento em favor da atenuao
120
da pena, baseados em provocao e em enfermidade mental parcial.
o problema, a,  que se vem ambos imediatamente levados a um
terreno de duvidosa definio, em que o xito depende tanto da 
habilidade do advogado como da legalidade de sua alegao. A  que
entra a experincia... e a experincia de Carlo  deficiente.
- Penso que o senhor ainda o subestima, dottore - observou
Ninette.
- Talvez - sorriu, irnico, Ascolini. - De qualquer modo,
minha filha, receio que o tribunal seja mais severo do que vocs
imaginam, j que uma deciso demasiado liberal poderia conduzir a
desordens pblicas.
- A vendetta?
- A vendetta, o crime passional... qualquer circunstncia em
que a lei falhe e deixe de impedir ou punir a injustia, e em 
que o
indivduo se vingue por suas prprias mos. Sociedade alguma pode
permitir isso, por grande que tenha sido o mal original, pois 
que a
sociedade no se atreve a tomar liberdades quanto ao que se 
refere
 sua prpria sobrevivncia. - Suas belas mos fizeram um gesto
no ar, como que pondo de lado o assunto, como um enigma sem
soluo. - Eis a porque a justia  representada por uma mulher.
 volvel, paradoxal, implacvel, mas tem sempre um olho voltado
para o seu principal interesse.
Riram de seu cinismo - e o Dr. Ascolini ficou satisfeito. Todavia, Landon 
sentiu, no mesmo instante, grande piedade por ele:
um homem com um certo toque de grandeza, um analista frio, um
lutador valente, um humorista estico, e, no obstante, privado do
repouso da idade, devido s paixes a que se entregara e permitira
que outros se entregassem. No competia a ele julg-lo mas Landon
compreendia bastante claramente o dilema em que ele se encontrava.
Zombara durante demasiado tempo do homem de quem agora necessitava como 
se fosse um filho. Amara com demasiado egosmo a filha
que agora empregava o seu amor como uma arma contra ele. Sua
ambio achava-se satisfeita e seu ardor exaurido. Tudo o que lhe
restava era o seu feroz orgulho de campons - fraco baluarte contra
o assdio dos anos e da solido.
Landon alegrou-se quando Ninette lhe disse, com sua maneira tranqila, 
perceptiva:
- Carlo ir jantar hoje conosco. Por que tambm o senhor
no aparece, dottore? Teriam ambos oportunidade de passar juntos
alguns momentos de entretenimento.
Ascolini sorriu e abanou a cabea:
- Voc tem o corao generoso, minha jovem, mas no deixe
que ele tome conta de voc.  Carlo quem precisa de sua companhia.
121
Eu sou um velho e corrompido demnio que, por pura perversidade,
ser capaz de dizer o que no deve. - Afastou sua cadeira e 
levantou-se: - Vamos tomar um pouco de ar, antes da prxima sesso.
A vinte passos do recinto do tribunal, numa cela estreita, calado,
o advogado Carlo Rienzi servia o almoo  sua cliente. Encomendara
a refeio num restaurante prximo - um servio completo, com
vinho, talheres de prata e alvos guardanapos de linho. Estava 
agora
atarefado como uma dona-de-casa, a estender a toalha, a dispor
os pratos em seus lugares e a servir a comida, enquanto a jovem
permanecia de p, a olhar, atravs da janela gradeada, um pedao de
cu azul.
A cela era austera como um refgio de monge: uma cama baixa
de rodzios, um crucifixo na parede, dois bancos e uma tosca mesa
de madeira; mas, para Carlo Rienzi, tudo aquilo tinha, naquele 
momento, um ar de conforto e intimidade.
Durante as ltimas semanas visitara Anna Albertini quase que
diariamente, mas jamais tivera qualquer momento de intimidade 
com
ela. Havia sempre um guarda a escutar o que diziam, cuja 
presena,
ameaadora, impunha certa formalidade s palavras que trocavam.
Agora, pela primeira vez, estavam realmente a ss. A pesada porta
tinha o ferrolho corrido, o postigo de observao estava fechado, 
e
o guarda, aptico, comia o almoo e bebia o vinho que Rienzi lhe
oferecera.
Anna Albertini, porm, no revelava sinal algum de prazer ou
surpresa ante essa nova situao. Agradecera-lhe com ar grave 
quando
o almoo foi trazido, e deixava que ele o servisse. Ao terminar 
de
pr a mesa, Carlo chamou-a:
- Venha comer alguma coisa, Anna.
- No quero comer nada, obrigada.
Ao responder-lhe, no se voltou, como se falasse, com voz neutra,
inexpressiva, para o cu.
-  uma boa refeio - disse, com forada vivacidade, Rienzi.
- Eu prprio a encomendei.
Ela, ento, voltou-se para ele, e havia uma vaga sugesto de
calor em sua resposta:
- No devia ter tido todo esse incmodo.
Rienzi sorriu, encheu dois copos de vinho e entregou-lhe um:
- Se no est com fome, eu estou. No quer fazer-me companhia?
- Certamente, se assim o desejar.
Plcida, distante, acercou-se da mesa e sentou-se diante dele.
Rienzi ps-se a comer imediatamente, interrogando-a entre um 
bocado
e outro:
- Como se sente, Anna?
- Muito bem, obrigada.
- A coisa foi dura, esta manh. Receio que, esta tarde, seja
pior. - No tenho medo.
- Mas devia ter - respondeu, spero, Rienzi. - Agora, deixe
de bobagem e almoce.
Obediente como uma criana, a jovem ps-se a comer aos bocadinhos, 
enquanto Rienzi sorvia o seu vinho e a observava, atnito, como sempre, 
diante de seu estranho ar de inocncia e de seu alheamento. Decorrido um 
momento, ela indagou:
- Por que razo deveria eu ter medo?
Apesar de toda a sua experincia com ela, Rienzi ficou perplexo:
- Ento voc no compreende, Anna? Nem mesmo agora? Voc viu o tribunal, 
como ouviu as testemunhas. Se o promotor levar a melhor, voc ser 
condenada a vinte anos de priso. Isso no a atemoriza?
Sua mozinha plida indicou a cela:
E a priso, acaso, no  isto?
Isto no me assusta. - Arregalou os olhos, diante da obtusidade dele. - O 
pessoal  amvel e atencioso. Sou feliz aqui. 
Sinto-me feliz em San Gimignano, mais feliz do que jamais o fui em toda
a minha vida.
- Por haver assassinado um homem? - indagou, asperamente Rienzi, 
irritado.
- No, no . por isso.  porque durmo tranqilamente. No
tenho pesadelos. Acordo pela manh e sinto-me nova... uma nova
pessoa num mundo novo. No h o que odiar, nem o que temer.
Pela primeira vez, sinto que sou eu mesma.
Rienzi fitou-a, tomado de um sentimento em que havia um misto
de espanto e piedade - e, tambm, um mudo temor.
Como  que voce era antes, Anna?
O rosto da jovem anuviou-se, e seus olhos tornaram-se, subtamente, 
vagos.
- Eu nunca soube. A  que estava o problema: eu nunca soube.
122 123
Ento, como sempre, sentiu pena dela. Curvou-se sobre o prato
e comeu, durante um momento, em silncio. Depois, disse-lhe, em
tom mais cordial:
- Como sabe, Anna, temos alguma probabilidade... Muito
pequena,  verdade. Mas talvez possamos fazer com que lhe dem
uma sentena bastante leve.
- Espero que sim - respondeu Anna Albertini~ placidamente.
Pelo senhor.
- Por mim? - indagou, perplexo, Rienzi.
- Sim. Sei que esta causa significa muito para o senhor. Se
vencer, sua reputao estar feita. Ser o grande advogado que sempre 
quis ser.
- Como sabe disso?
- No sou criana.
Rienzi, durante alguns momentos, engoliu, com desagrado, essas
palavras; depois procurou interrog-la de outra maneira:
- Diga-me uma coisa, Anna. Se conseguirmos uma sentena
leve, que  que voc far, ao sair da priso?
- O que sempre desejei fazer. Voltarei para o meu marido,
serei uma boa esposa, dar-lhe-ei filhos.
- Tem certeza de que poderia faz-lo?
- Por que no? J lhe disse que sou uma nova pessoa. Terminaram os 
pesadelos.
- Talvez possa encontrar pesadelos ainda piores  sua espera
respondeu, asperamente, Rienzi.
Afastou a cadeira e deixou a mesa, indo postar-se, como Anna
o fizera pouco antes, junto  janela, pondo-se a fitar, atravs 
das
grades, um cu do tamanho de um leno de bolso. A jovem olhou-o
com infantil perplexidade. Depois disse, tristonha:
- No compreendo, absolutamente.
Rienzi voltou-se bruscamente para ela, fitou-a um momento e,
em seguida, desabafou, num apelo simples e ardente:
- Anna, estou procurando fazer com que voc compreenda
uma coisa. No s neste momento, mas at o fim do julgamento,
voc est em minhas mos. Eu ajo por voc, penso por voc, argumento por 
voc. Mas, depois, qualquer que seja o curso que tomem
os acontecimentos, voc ter de fazer todas essas coisas por si 
mesma.
Ter de construir uma vida nova... dentro das quatro paredes da
priso ou l fora, num mundo de homens e mulheres. Voc precisa
comear a preparar-se, agora, para o que possa ocorrer. Voc 
estar
s, compreende?
- Como poderei estar s? Sou casada com Luigi. Alm disso,
o senhor me ajudar, no  verdade?
Rienzi procurou no se comprometer:
- Um advogado sensato se interessa somente pela causa, Anna,
e no pela vida privada de seus clientes.
Mas o senhor se interessa por mim, pois no? De maneira
particular,  o que quero dizer.
- O que  que a faz dizer isso?
- Eu sinto; nada mais. Quando estou l no tribunal, digo a
mim mesma que, enquanto estiver pensando no senhor, tudo estar bem.
- Isso no  verdade, Anna. Sou apenas um advogado comum
a defender uma causa difcil. No posso fazer milagres. Voc no
deveria esper-los.
Foi quase como se ela no o tivesse ouvido - como se no
conseguisse, sequer, v-lo. Prosseguiu, com o ar srio e pattico de
uma criana que procurasse explicar-se:
- Quanto ao que me diz respeito, o senhor  a nica pessoa
existente no tribunal. Mal vejo as outras. Mal ouo o que elas dizem.
] como se - . . como se...
- Como se o qu? - instigou-a, com vivacidade, Rienzi.
- Como se o senhor estivesse segurando minha mo, como
minha me costumava fazer.
- Santo Deus, no!
A jovem fitou-o, aflita:
- Eu disse alguma coisa que no devia?
- Continue seu almoo, Anna - respondeu, obtuso, Rienzi.
- A comida est esfriando.
Afastou-se dela e ps-se a andar de um lado para outro pela
cela, pensativo, enquanto a moa comia bocadinhos, apaticamente.
Decorridos alguns momentos, um novo pensamento pareceu ocorrer-lhe. E 
perguntou:
- Onde est Luigi? Por que  que ele no me visita?
- No sei, Anna.
Na sua maneira estranha, absorta, ela pareceu aceitar a resposta.
Rienzi hesitou um instante e, depois, indagou:
- Diga-me uma coisa, Anna: por que foi que voc casou com Luigi?
- Minha tia disse que j era tempo de eu assentar minha vida.
E eu tambm queria casar. Luigi era um rapaz simptico, bondoso
e amvel. Parecia que poderamos ser felizes juntos.
- Mas no foram?
- Durante o noivado, sim. Eu tinha orgulho dele e ele parecia
orgulhoso de mim. Passevamos, conversvamos, ficvamos de mos
dadas e nos beijvamos. Fazamos planos acerca do que iramos
124  125
fazer. . , acerca dos nomes de nossos filhos, da espcie de 
apartamento que gostaramos de ter...
- Mas... e depois?
Anna Albertini olhou-o com ar estranho e, pela primeira vez,
Carlo quase que a viu perder a compostura:
- O que aconteceu depois foi culpa minha. Mas eu no podia
evitar que acontecesse. Cada vez que ele me tomava em seus braos
eu. . . - Interrompeu-se e ergueu as mos, num gesto de splica:
Por favor! Eu no quero falar sobre isso. Tudo j acabou, agora.
Eu mudei. Sei que vou ser uma boa esposa.
- Ele ainda significa muito para voc?
- Ele  a nica pessoa que eu tenho.
- Que foi que ele lhe disse, quando o trouxeram para ver voc na priso?
- Nada. Ficou apenas a olhar-me. Eu procurei explicar-lho,
mas ele no me deixou falar. E, depois, foi embora. Eu no o censuro por 
isso. Sei que, no fim, ele compreender. O senhor no acha?
- Espero que sim - respondeu, deliberadamente, Rienzi.
Mas, em seu lugar, eu no contaria muito com isso.
Pela primeira vez, o sentido real da pergunta de Carlo tornou-se-lhe 
claro. Ela levou a mo  boca, e seu rosto se converteu numa
mscara de terror:
Ele j no me ama?
No, Anna. E eu vou p-lo, esta tarde, no banco das testemunhas. Talvez 
no lhe agrade o que voc ir ouvir.
Ela no chorou, nem se lamentou; apenas se levantou lentamente da mesa e 
dirigiu-se  janela, onde permaneceu, tensa e trmula, com as mos 
espalmadas de encontro  branca parede de pedra.
- Voc o amava realmente, Anna?
- No sei - respondeu ela, a voz surda, sem inflexo. - A
 que est a coisa. At agora, eu jamais soube, na verdade, de coisa
alguma... mesmo com respeito a mim. Enquanto Belloni estava vivo,
as coisas pareciam ter sentido... Havia uma estreita e longa estrada,
comigo numa extremidade e Belloni na outra. Enquanto eu caminhava, sabia 
que, mais cedo ou mais tarde, eu o encontraria. Agora
ele est morto, - e no existe nada...
- Ento voc precisa encontrar um novo caminho, Anna.
Houve algo infinitamente pattico em sua resposta:
- Mas um caminho sempre conduz a algum lugar. Eu no
sei para onde quero ir. Nem sei, mesmo, se eu existo. H apenas o
meu nome, Anna Albertin, mas no eu. Ento no v?
- Vejo, Anna - respondeu Carlo, acercando-se dela e tomndo-lhe as mos 
frias. - Posso ver uma criatura, tocar-lhe. Ela foi feita para ter filhos 
e embal-los em seus prprios braos.  muito bela. Pode amar e ser 
amada.
- A nica pessoa que jamais me amou foi minha me.
- Ela est morta, Anna.
- Eu sei.
- Mas voc est viva, Anna insistiu ele, com ardor.
Continuar vivendo. Precisar ter alguma coisa pela qual viver.
- Eu antes tinha Belloni. Agora ele est morto, tambm.
- Isso era dio, Anna. Voc no pode continuar odiando um
morto!
- Eu queria amar Luigi, mas ele no me ama. Por onde comearei? Aonde 
irei?
Carlo repetiu-lhe, em tom sombrio:
- Se perdermos a causa, voc ir, por espao de vinte anos,
para a priso.
- Eu sei, mas no tenho medo disso. Ser at bastante bom,
de certo modo. Eles me diro o que fazer, como faz-lo, aonde ir.
- Mas isso no  viver! - exclamou Carlo, agora irritado e
veemente. - Isso  morte!  como a princesa na floresta encantada.
Voc no ter pesadelo, mas tampouco ter vida! Ser conduzida
para aqui e para acol como um autmato, at que a beleza se extinga, e 
que o amor se extinga, e j no haja mais esperana para voc!
- Por favor, no fique zangado comigo.
Ele tomou-a pelos ombros, com violncia, e sacudiu-a.
- Por que no? Voc  uma mulher, e no uma boneca de trapo. No poder 
continuar a lanar as responsabilidades de sua vida sobre os ombros de 
outrem. Foi voc quem arruinou Luigi. Ele queria amor e voc no lho 
podia dar. Agora, sou eu quem deseja
algo de voc: ajuda, cooperao! Voc no est me dando nada!
Largou-a, e ela ficou a passar as mos pelos ombros magoados,
os olhos cheios das primeiras lgrimas que ele jamais vira nela.
Instantaneamente, sua ira se dissipou e ele viu-se dominado 
pela ternura. Passou-lhe a mo pela cintura e puxou-lhe a cabea de 
encontro ao seu prprio peito:
- Eu no a estou censurando, Anna. No sou Deus. Estou
procurando fazer com que voc prpria se censure.
Ento, pela primeira vez, ela ps-se a chorar, agarrando-se 
desesperadamente a ele, o corpo agitado por soluos:
- No me deixe. No me deixe, por favor. Sinto-me segura
em sua companhia!
126  127
Ele a afastou com brutalidade, e tornou a explodir:
-Voc no pode sentir-se segura! Voc tem de sentir se desprotegida, 
solitria, amendrontada! Tem de desejar algo com tanta 
violncia, que seu corao se despedace. Voc  uma mulher, Anna, e
no uma criana!
Ela tornou a agarrar-se a ele, a cabea apoiada em seu ombro,
os cabelos negros a roar-lhe os lbios. Rienzi procurou, 
desajeitadamente, consol-la, enquanto lanava o olhar, sem nada ver, 
para
alm dela, em direo a todas as desanimadoras implicaes que a
dependncia de Anna, ao apoiar-se nele, poderia ter. Depois, 
desvencilhou-se delicadamente dela.
- Tenho de ir embora, Anna. Devemos estar no tribunal dentro
de poucos minutos.
- No v embora. No me deixe!
- Preciso ir, Anna - disse Rienzi, com sbria piedade. Preciso.
Dirigiu-se  porta e chamou o guarda, para que o deixasse sair.
Quando a porta se fechou atrs dele, Anna Albertini ficou a fitar,
com rosto inexpressivo, o postigo gradeado da parte superior; de repente, 
porm, tomada de sbito terror, lanou-se sobre a cama, a soluar como 
uma criana abandonada.
128
A SESSO DA TARDE comeou suavemente, num tom de calma
acadmica. O Prof. Galuzzi ocupou o banco das testemunhas, e Carlo
Rienzi conduziu-o atravs de um breve resumo do depoimento por
ele prestado durante a manh. Depois, Rienzi ps-se a pedir-lhe
definies.
- Professor, pergunto-lhe se poderia fazer a fineza de explicar
ao tribunal o significado das palavras trauma e psicose traumtica.
Galuzzi sorriu, tossiu, ajustou o pince-nez e explicou:
- Literalmente, a palavra trauma significa ferimento. No
sentido mdico, significa uma condio mrbida do organismo humano
causada por um distrbio externo. No sentido psiquitrico, significa
quase que a mesma coisa: uma cicatriz causada por choque emocional
ou mental. Se posso explicar-me mais claramente, uma cicatriz num
dedo  um trauma... embora no muito grave. As cicatrizes deixadas por 
uma grande operao cirrgica so, tambm, traumas. Existem graus 
similares de cicatrizes, quanto ao que se refere  psique humana.
- E os traumas mais graves so sempre persistentes?
- Sempre. Embora o tempo e o tratamento possam diminuir seus efeitos.
- Corrija-me se eu estiver errado, professor, mas acaso a palavra 
psicose no descreve um desarranjo mental bastante  profundo, grave ou 
mais ou menos permanente?
- Em termos gerais, assim .
- De modo que um paciente psictico , sempre, em maior
ou menor grau, prejudicado?
- Exatamente.
- Tomemos alguns exemplos simples, professor - prosseguiu
Rienzi, em tom brando, quase de deferncia. - Uma criana perde
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um pai ou uma me a quem muito ama. O senhor chamaria a isso choque 
emocional?
- Sem dvida.
- E isso deixaria cicatrizes?
- Deixaria.
- Cicatrizes que poderiam, mais tarde, revelar-se atravs de alguma 
enfermidade psquica?
- Sim ... Poderiam.
Fez-se breve silncio no tribunal. Todos os olhos estavam pousados em 
Rienzi, quando este se dirigiu  sua mesa, apanhou alguns
papis e voltou novamente para junto de Galuzzi. Havia uma transformao, 
agora, em Carlo. Seus ombros se endireitaram, o tom de
sua voz adquiriu vivacidade, suas perguntas se tornaram mais rpidas.
- Tomemos, por exemplo, o caso de Anna Albertini. Ela perdeu os pais aos 
oito anos de idade. Segundo declarou o senhor 
promotor, sua me foi executada por um peloto de fuzilamento. Como
consideraria o senhor o dano causado  sua mente infantil?
- Como sendo muito grave.
- Ainda uma pergunta, professor. Afirmou o senhor que submeteu a acusada 
a exames. Qual a natureza desses exames?
- Em termos gerais consistiram de exame mdico, observao
neurolgica e de uma forma modificada de anlise.
- Ento o senhor sabe que, embora casada h quatro anos,
 ela ainda virgem?
- Sei.
- Concordaria em que isso indica uma anormalidade em suas
relaes com o marido?
- Perfeitamente.
- Como diagnosticaria o senhor tal anormalidade?
- Como sendo um estado de incapacidade sexual da acusada,
relacionado e provavelmente induzido por suas experincias infantis.
Ou, em outras palavras, pelo trauma ou cicatriz de que estivemos falando? 
O senhor descreveria Anna Albertini como sendo uma paciente psictica?
- Sim.
- Em outras palavras, professor, o senhor est dizendo que ela  
mentalmente enferma?
O promotor ps-se de p, protestando:
- Protesto, Sr. Presidente. A pergunta conduz a testemunha a
uma concluso que compete unicamente aos senhores juzes.
- A objeo  aceita. O advogado da defesa deve limitar-se
apenas a obter informaes segundo os termos do processo em pauta.
130
- Com o devido respeito, Sr. Presidente - respondeu, com
firmeza, Carlo - estou interessado em definir claramente perante
este tribunal a natureza da informao obtida. No obstante, por
deferncia ao desejo do Sr. Presidente, reformularei a pergunta. 
Diganos, professor:  ou no  verdade que um paciente psictico  um
indivduo mentalmente enfermo?
-  verdade.
- Nada mais tenho a perguntar.
- O senhor est dispensado, professor - disse o presidente.
Houve um momento de sussurrada consulta entre os juzes, e
Ascolinivoltou-se para Landon e Ninette, com um sorriso de triunfo:
- Esto vendo? Eu lhes disse que ele estava escondendo o
jogo! Isto est bom, muito bom!
A julgar pelo murmrio que percorreu o tribunal, dir-se-ia que
a maioria dos espectadores era tambm dessa opinio. Os reprteres
escreviam apressadamente e o promotor conferenciava com os seus
assistentes. Dentre todas as pessoas presentes, somente Anna 
Albertini se mantinha calma e impassvel como uma sacerdotisa que 
presidisse a um rito antigo, que houvesse perdido, desde muito, sua 
aplicabilidade ou significao.
O presidente bateu o martelo e fez-se de novo silncio, enquanto
o promotor se levantava, dirigindo-se  tribuna dos juzes:
- Sr. Presidente, Srs. membros da corte!  to clara e simples
a denncia que tendes em mo, to conciso e unnime o depoimento
das testemunhas, que hesito em desperdiar o tempo deste tribunal,
chamando outras testemunhas de que dispomos. Apresentamos no
s a prova do crime, como a prova da premeditao. Ambas so confirmadas 
pela declarao voluntria da acusada. No compete a mim
fazer comentrios acerca da nova tcnica adotada pela defesa, mas
eu ressaltaria que a defesa ou aceitou ou deixou de contestar todos os
nossos testemunhos. Eu pediria uma orientao, Sr. Presidente.
Por alguma razo que Landon no compreendeu, o presidente
pareceu irritado ante tal pedido.
- No consigo ver qualquer razo para que se adote outra
orientao quanto a este caso - respondeu, acremente. - Se a Promotoria 
no tem outras testemunhas a chamar, ento a defesa poder
apresentar seus prprios depoimentos.
- Com a devida permisso do tribunal, gostaria de tornar a
chamar, em primeiro lugar, Luigi Albertini.
Ao ouvir esse nome, Anna Albertini pareceu despertar. Suas
Mos procuraram, nervosas, o anteparo de metal do compartimento
dos rus, enquanto seus olhos, arregalados, perturbados, seguiam todos
os passos do vacilante e desorientado jovem que se encaminhava para
131
o banco das testemunhas. Rienzi deixou que ele permanecesse um
momento de p; depois ps-se a interrog-lo de maneira deliberadamente 
fria.
- Sr. Albertin, h quanto tempo est casado?
O rapaz ergueu a cabea, sobressaltado, irritado:
- J disse antes; quatro anos.
- Seu casamento foi sempre feliz?
Houve uma pausa, um olhar envergonhado para a esposa e,
aps, uma resposta resmungada, soturna.
Nunca foi feliz.
- Por que no?
- Eu... eu preferia no dizer.
- Mas deve dizer - advertiu-o, secamente, Rienzi. - Sua
esposa est sendo julgada por assassnio.
Albertini enrubesceu e balbuciou, com ar infeliz:
- Eu... eu no sei como dizer.
- Diga-o como sabe... simplesmente, rudemente. Por que
razo seu casamento no foi feliz?
- Ns ... ns nunca nos amamos como as pessoas casadas devem fazer.
- E por que no?
- Porque sempre que eu a tomava em meus braos ela comeava a gritar: 
Eles a esto matando! Eles esto matando minha me!
- Compreende por que motivo ela fazia isso?
- Claro que compreendo! - Um sbito e ligeiro sentimento
de raiva apoderou-se dele, ms, logo extinguiu-se. - Anna tambm
o compreendia. Mas isso no nos ajudou em nada. Quatro anos passaram 
assim.
- E durante esses quatro anos - anos difceis, admito - o
senhor nunca procurou ouvir a opinio de um mdico?
- Muitas vezes, e de muitos mdicos. Todos eles diziam a mesma coisa.
- E que diziam eles?
- Que com o tempo, e com pacincia, ela talvez melhorasse.
Fez uma pausa e explodiu com amargura. - Mas ela nunca melhorou! Que 
espcie de vida  essa?
- E agora, Sr. Albertini?
O rapaz olhou-o, perplexo- No entendo o que o senhor quer dizer.
Frio como um esgrimista, Rienzi avanou, pronto a desferir o
golpe final.
- Acho que o senhor. entende. No  verdade que, dez dias
aps a deteno de sua esposa, o senhor fez um requerimento, primeiro ao 
Arcebispo e, depois, s autoridades civis, solicitando 
a anulao de seu casamento, por no ter-se o mesmo consumado?
Houve um momento de silncio mortal e, em seguida, um grito
de puro horror, lanado pela jovem que se achava no banco dos
rus:
- No, Luigi! No! - E a jovem lanou-se sobre os guardas,
expelindo um gemido longo, gemente. - No faa isso, Luigi! No
me abandone! No me abandone!
A voz do presidente ergueu-se acima do tumulto:
- Retirem a acusada!
O professor Galuzzi ps-se de p, de um salto:
- -Com o devido respeito, Sr. Presidente, sugiro que se preste
 acusada imediata assistncia mdica.
- Obrigado, professor. O tribunal muito apreciaria se o senhor
atendesse a acusada e dissesse, depois, se a mesma se acha em 
condies de assistir ao julgamento.
Enquanto Anna era retirada da sala, a gemer e a debater-se
entre os guardas, seu marido permanecia, acabrunhado, no banco das
testemunhas. Logo que se fez silncio, Carlo Rienzi, o rosto plido,
mas composto, voltou-se para os juizes:
- J acabei de interrogar a testemunha, Sr. Presidente. Lamento o que 
ocorreu, mas no me restava outra alternativa.
Pela primeira vez, um melanclico sorriso de aprovao estampou-se no 
rosto do velho.
- O senhor  novo neste tribunal, Dr. Rienzi. Espero possamos
v-lo mais vezes. - Apanhou o martelo. - A sesso est suspensa
por trinta minutos, ou at o momento em que a acusada esteja apta
a assistir ao julgamento.
Em meio  desordem que se seguiu  sada dos juzes, Ninette
e Landon permaneceram sentados em companhia do Dr. Ascolini, 
espera de que a papagueante multido se dispersasse. Carlo apanhou
os seus papis e retirou-se, dirigindo-se  cela de Anna Albertini.
Ascolini estava entusiasmado como um colegial, a pular em sua
cadeira, dirigindo-se a Ninette com grande profuso de gestos:
- Viu onde est o instinto, minha filha? O mtodo, o senso
dramtico? isso  talento de grande advogado! Voc viu o que ele
fez. Primeiro, apanha uma testemunha hostil e tira brasa para a sua
prpria sardinha. Toma uma palavra de especialista, trauma, e, de
repente, essa palavra se converte numa outra: enfermidade mental.
Temos a lanada a primeira pedra. Mas Carlo sabe, como todos ns
sabemos, que cada um de ns , desta ou daquela maneira, enfermo.
Ento ele arma um grande drama - lgrimas, gritos estridentes, 
confuso - a fim de mostrar o que a enfermidade pode significar:
132  133
uma bela jovem que no pode ir para a cama com o marido. E temos
a a segunda pedra: compaixo. E todos ns fazemos a mesma pergunta: 
Como pode isso acontecer a uma rapariga bonita, com quem
todos ns gostaramos de dormir? Por um momento, esquecemos
que ela matou um homem e que outra mulher dorme s, por causa
dela. Duas pedras mas no constituem ainda alicerce para qualquer
defesa. Mas a promessa, minha filha! O que no promete este rapaz!
Sinto-me orgulhoso dele.
- Ento v dizer-lhe isso, dottore - disse, com firmeza, Ninette
uma dzia de passos, uma dzia de palavras, e a coisa est feita.
v j.
- Este ainda no  o momento oportuno.
- Talvez jamais surja melhor ocasio, dottore. Deixe o orgulho de lado.
Ascolini hesitou um momento; depois, levantou-se, alisou o palet e 
dirigiu-se, com passos firmes, para a porta da sala do jri.
Landon tinha l suas dvidas,e confessou-as a Ninette, mas a pintora 
estava jubilosa pelo xito de sua manobra.
- Ento voc no percebe, Peter, que isso  importante?
Importante para Carlo, se ele puder contar com o apoio e os 
conselhos de Ascolini at que termine este caso. Importante para 
Ascolini,
que est passando por uma crise em sua prpria vida. As melhores
coisas que fazemos so-feitas rapidamente, nascidas do corao.
- Ns sabemos o que se passa em nossos coraes, querida, mas no sei se 
compreendemos o que se passa no corao deles.
Voc faz mistrio, Peter, onde no existe mistrio algum.
Esses dois esto preparados para ser amigos. Ambos se respeitam. Se
no se aproveitar uma boa oportunidade, talvez demore muito para
que surja uma outra.
Landon no tinha nenhuma resposta adequada para isso e, ademais, era-lhe 
muito mais fcil beij-la do que discutir com ela. 
Rendeu-se, pois, com um encolher de ombros e um sorriso - e ambos
penetraram, de mos dadas, em meio  tagarelice da antecmara. As
conversas eram ensurdecedoras. Erguiam-se em altas ondas de nfase
e caam em espurriosos cavados de confuso. Palavras, frases, 
fragmentos de interpretao, alteavam-se como flocos de espuma e 
extinguiam-se entre o vozerio. Mulheres riam, homens lanavam olhares 
sutis e
compreensivos. Trocavam-se segredos to livremente como nos bastidores de 
um teatro.
Aquilo era uma pequena e amarga ilustrao da necessidade que
tinha a criatura humana de transformar a morte num circo e de 
transformar num espetculo a expulso do bode expiatrio para o deserto.
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A piedade  uma indulgncia consoladora, que se converte 
facilmente
em desdm e gracejos escarnecedores, mas a compaixo  uma virtude rara 
baseada na admisso de que cada um de ns oculta em
seu prprio corao as fraquezas que condena em seus semelhantes,
e que o sofrimento ou o desejo frustrado poderiam levar-nos a 
maiores excessos do que aqueles que condenamos nos outros. A 
crueldade
de uma multido  menos aterrorizadora do que o medo que ela
oculta, o desespero do perdo pessoal que inibe o perdo dos 
outros.
- Peter, olhe!
Os dedos de Ninette cravaram-se na palma da mo de Landon,
que ergueu os olhos e viu que Valria Rienzi se aproximava deles,
abrindo caminho, em meio da multido. Valria, o rosto plido e
tenso, abordou-os abruptamente:
- Quero falar com vocs dois. Venham tomar comigo uma
xcara de caf.
Sem esperar resposta, agarrou-os pelo brao e conduziu-os apressadamente 
a um pequeno bar situado a cem metros do tribunal. Mal
se sentaram  mesa, e ela explodiu:
- Julguei que vocs dois gostariam de saber. Baslio me abandonou. Disse-
me isso durante o almoo. Assim, sem mais nem menos ... a comdia 
terminou! - Lanou um riso estridente, histrico.
- Oh, sei o que vocs esto pensando! Que isso, mais cedo ou mais
tarde, teria de acontecer, exatamente como aconteceu com voc, 
Ninette. Mas no foi assim ... no foi assim, absolutamente. Sabem
quem preparou tudo isso? Meu inteligente, adorvel pai! Como vocs
sabem, ele gosta de gente de raa. S os melhores garanhes so bem
acolhidos nos estbulos dos Ascolini! De modo que ele telefonou a
Baslio e o ameaou de criar complicaes em seus negcios, se ele
continuasse a avistar-se comigo. Esperto, pois no? Todo mundo,
agora, tem seu companheiro, exceto eu e meu pai. Carlo tem a sua
virgenzinha, vocs tm um ao outro. S meu pai e eu estamos sobrando. Que 
 que fao agora, Peter? Como  que vou me arranjar?
- Sua voz elevou-se ainda mais, e vrias cabeas se voltaram para
ela. - Voc sabe como eu sou na cama. Que  que me receita?
Sob os olhares atnitos dos que se encontravam no bar, Landon
debruou-se sobre a mesa e deu-lhe dois tapas fortes nas faces, 
fazendo com que a crescente onda de histeria se convertesse em soluos. 
Ninette nada disse: continuou sentada, envergonhada, o rosto
enrubescido, enquanto Landon tirava um leno do bolso e o entregava,
por sobre a mesa, a Valria.
- Enxugue os olhos, menina - disse, calmamente. - Voc
est fazendo papel de tola!
135
O tom com que lhe falou fez com que ela se dominasse e se
pusesse a enxugar o rosto, enquanto Ninette e Landon trocavam
olhares entre si, ante a revelao nua e crua que acabara de ser feita.
- Creio que voc j havia desconfiado, Ninette - disse-lhe,
calmo, Landon. - Lamento apenas que voc tivesse de ouvir dessa maneira.
Ela apenas abanou a cabea, sem saber se poderia falar. Mas
estendeu, impulsivamente, a mo e pousou-a sobre a de Landon. No
mesmo tom calmo, Landon tornou a dirigir-se a Valria:
- Por que no diz o resto da coisa? Voc quer vingana. Sabe
de que modo consegui-la. Conte a histria a seu pai. Conte a Carlo.
Esta  a melhor ocasio - no lhe parece? - bem no meio de uma causa?
- Quero faz-lo - respondeu, quase num sussurro, Valria.
Voc no pode imaginar o quanto desejo faz-lo.
- Mas no o far - interveio, incisiva, Ninette.
- Por que no?
Fitaram-se, por sobre a mesa, como esgrimistas, e Landon sentiu-se to 
excludo daquilo como se estivesse na Lua. Ninette Lachaise repetiu, 
tranqila:
- No o far, Valria, porque, quer voc saiba ou no, Carlo
representa a sua ltima esperana. Sei disso porque tambm segui parte
do caminho que voc percorreu. Voc no poder sobreviver a muitos homens 
como Lazzaro. E, decorrido algum tempo, isso  tudo o que conseguimos, 
todas ns. Na verdade, no importa muito que Carlo ganhe ou perca, mas se 
voc o destruir antes que ele tenha 
tido a sua oportunidade, voc tambm se destruir a si prpria. - Quase
no mesmo flego voltou-se para Landon e disse, com um sorriso de
vis: - Volte para o tribunal, Peter. Da em diante, isto  coisa de
mulheres.
Ao sair para a plena claridade do sol do meio-dia, Landon sentiu-se como 
um homem que acabasse de salvar-se por um triz. Cinco minutos aps estava 
de volta ao tribunal, ao lado de Ascolini,  espera de que a acusada 
fosse trazida ao recinto e os juizes 
entrassem. O velho parecia curiosamente subjugado. Quando Landon o 
interrogou
acerca de seu encontro com Carlo, respondeu, absorto:
- Conversamos um momento. Ele mostrou-se bastante amvel.
Fiz-lhe algumas sugestes. Ele pareceu-me grato.
- Mas houve algum progresso?
136
- Oh, sim. Eu diria que isso foi um progresso. - E, aps
um momento, acrescentou: - Carlo levou-me  cela, para que eu
visse a moa. Falei com ela e com Galuzzi.
- Que impresso lhe causou ela?
- Uma criana aptica... uma mulher trgica. Que mais se
poder dizer?
Landon teve a impresso de que o velho tinha em sua mente
coisas que no estava disposto a discutir, mas no fez comentrio
algum e, decorridos alguns momentos, Anna Albertini foi trazida ao
banco dos rus e os juzes entraram na sala, a fim de que o julgamento 
prosseguisse.
O aspecto da jovem era lamentvel. Sentou-se ereta no banco, as
mos a agarrar o anteparo de metal do compartimento. Tinha o rosto
angustiado, afilado, olheiras profundas, os cabelos no mais ajeitados,
mas midos, a colarem-se-lhe s faces e s tmporas. Mas quando o
presidente indagou se ela se sentia suficientemente bem para 
continuar, respondeu, em voz firme, incolor:
- Sim, obrigada.
Rienzi confirmou seu assentimento e chamou sua primeira testemunha: uma 
camponesa de perto de quarenta anos, dotada ainda de desbotada seduo 
sexual, que contrastava vagamente com seu vestido de matrona do campo. 
Sentou-se serenamente e sorriu, segura
de si mesma, quando a submeteram ao juramento de praxe. O presidente 
dirigiu-lhe a palavra em tom brusco e profissional:
- Faa o favor de dizer o seu nome ao tribunal.
- Maddalena Barone.
- Onde reside?
- Em Pietradura. Dez quilmetros ao norte de San Stefano.
-  casada?
- No.
- Tem filhos?
- Sim. Tenho um filho.
- Que idade tem ele?
- Dezesseis anos.
- Quem foi o seu pai?
- Gianbattista Belloni.
Maria Belloni lanou um grito de angstia:
- - Mentira ... Mentira imunda!
O presidente bateu com o martelo sobre a mesa:
- Se houver qualquer outra perturbao da ordem, farei com que a removam 
do tribunal!
O promotor ps-se de p de um salto:
137
- Sr. Presidente, protesto! Um homem foi morto ... assassinado! Seus pecados passados no podem ter 
qualquer relevncia neste tribunal.
o presidente abanou a cabea:
- Devemos ignorar a objeo.         O representante do Ministrio Pblico teve o trabalho de obter todos os 
fatos acerca do carter e da reputao do morto. A defesa deve ter o mesmo direito. - E prosseguiu a 
interrogar a testemunha: - O pai de seu filho contribuiu alguma vez para a manuteno do mesmo?
- Sim. Mandava-me dinheiro todos os meses. No era muito, mas   ajudava.
-  De que maneira esse dinheiro lhe era pago?
-  Atravs do sargento Fiorello.
-  Ele lho entregava pessoalmente?
-  No. Vinha pelo correio.
-  Como  que sabe que vinha atravs do sargento Fiorello?
-  Depois que meu filho nasceu, escrevi ao pai, pedindo-lhe que me ajudasse. Ele no respondeu, mas o 
sargento Fiorello foi ver-me.
-  E que lhe disse ele?
-  Disse-me que eu receberia dinheiro regularmente. Ele me ,enviaria, pelo correio, todos os meses. Mas que 
deixaria de mand-lo, caso eu abrisse a boca e dissesse quem era o pai do mesmo.
- Por que razo est agora disposta a revelar tal fato ao tribunal?
- Frei Bonifcio foi ver-me e disse-me que era meu dever dizer a verdade,
- Obrigado. Pode deixar o banco das testemunhas.
Na breve, tensa pausa que se seguiu, o nico som         audvel era o dos soluos bafados de Maria Belloni. O 
promotor fez outro apelo, mas comedido:
- Sr. Presidente, eu gostaria de chamar a ateno da corte para o fato de que o pagamento do dinheiro 
destinado  manuteno de seu filho, atravs de canal oficial e confidencial, s constitui crdito a seu favor e 
no desonra a memria de Gianbattista Belloni.
O presidente assentiu, urbanamente:
- Meus colegas, sem dvida, levaro tal fato em considerao, no momento oportuno. Dr. Rienzi?
Com a devida permisso, gostaria         de reinquirir o sargento Fiorello.
Permisso concedida.
O  corpulento sargento ocupou de novo o banco das testemunhas, e novamente chamou a ateno de Landon o 
seu ar de competncia
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e sua Compostura, Piscou um pouco, quando Carlo pediu permisso para conduzir ele prprio o 
interrogatrio, mas, quanto ao resto, no demonstrava sinal de emoo. Carlo comeou a interroga-lo em 
estilo inspido e prosaico:
- Sargento Fiorello, quero lembrar-lhe alguns detalhes de sua folha de servios COMO policial. O senhor 
comeou sua carreira h vinte anos, sob o regime fascista, e, aps      adestramento, foi enviado a San Stefano. 
Permaneceu l durante toda a guerra, Terminada a guerra, foi promovido a sargento e assumiu a chefia do 
posto policial. Est correto?
- Sim senhor,
- Depois da guerra, muitos de seus colegas foram demitidos, sob  acusao de simpatia pelos fascistas ou 
acusao de opresso e crueldade.
- Exatamente.
- E durante a guerra, alguns deles foram fuzilados pelos guerrilheiros por essa mesma razo?
- Sim.
- E como  que o senhor escapou? Como conseguiu ser promovido?
-  O registro oficial revelava que eu participara atvamente do movimento subterrneo e trabalhara em segredo 
com os lderes guerrilheiros locais.
- Especialmente com Gianbattista Bellon?
- Sim, senhor.
- E os registros oficiais continham alguma carta de recomendao assinada por Bellon?
- Perfeitamente.
- Qual era sua Opinio a respeito dele?
- Que se tratava de um homem patriota e corajoso.
- E, desde ento, teve o senhor algum motivo para mudar de Opinio?
- No.
-Chamo sua ateno, sargento, bem como do tribunal para o item 75 do sumrio de culpa, entregue a esta 
corte pelas autoridades judicirias. - Aguardou  Um momento, enquanto os juzes folheavam os seus papis, 
eProsseguiu. - Esse item  uma cpia fotosttica de uma anotao inserda no Livro de Registro de Acusaes 
da Diviso de Segurana Pblica em San Stefano. A anotao , com efeito, uma descrio do julgamento da 
sentena e da execuo de Agnese Moschetti, me de Anna Moschetti, em novembro de 1944. A anotao  
atestada por Gianibattista Belloni e cinco outros participantes
139
 do tribunal militar. Os senhores verificaro que a data da declarao  16 de novembro de 1944 - trs dias 
aps a morte de Agnese Moschetti. Mas no foi juntada ao registro policial seno a 25 de outubro de 1946, 
muito depois do armistcio, e um ms aps a designao do sargento Fiorello como comandante do posto 
policial. Pode explicar essas datas ao tribunal, sargento?
- Posso. A descrio do julgamento foi feita e atestada enquanto a administrao fascista se encontrava 
ainda no poder e os alemes ocupavam o pas. Era, por conseguinte, um documento comprometedor. Belloni 
guardou-o at depois da guerra, entregando-me, ento, para que eu o inclusse no registro oficial.
- O senhor o encararia como sendo um documento incomum?
- Em que sentido?
- De acordo com as circunstncias e as condies locais, o julgamento e execuo de   Agnese Moschetti 
eram atos de guerra. Por que razo Belloni achou necessrio registr-los? Pode o senhor falarme de algum 
outro procedimento dos guerrilheiros que tivesse sido igualmente registrado?
- No, no posso.
- Por que ento Belloni adotou uma medida assim, to desusada?
- Conforme ele me explicou, a execuo de uma mulher era um negcio chato - essas foram as suas palavras, 
um negcio chato e ele queria que os fatos fossem anotados e conhecidos.
-   E era essa a nica razo?
-   No sei de nenhuma outra.
-   No   houve, por exemplo,      nenhum pedido de inqurito pblico?
-   No,  que eu saiba.
-   Nem   rumores, dvidas ou perguntas acerca da verdadeira natureza do caso Moschetti?
-   No. Nada.
-   Como questo de interesse, sargento, onde se realizou o julgamento?
- Isto est no processo. Na casa de Anna Moschetti, em San Stefano.
-   Onde estava a polcia aquela noite ...      e, particularmente, onde se  encontrava o senhor?
-   Estvamos em patrulha, a milhas de distncia. Belloni simulara um chamado telefnico, bem como a 
comunicao de que os guerrilheiros iriam fazer explodir a linha da estrada de ferro.
- O senhor sabia o que se planejava?
- No.
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- Mas eu julguei que o senhor contava com a confiana de Belloni e que havia Cooperado com ele ...
- Era esse o mtodo ... Ningum sabia mais do que o necessrio. Era mais seguro assim. Fazia o que me 
mandavam, sem perguntar coisa alguma...
- O senhor compreende, sargento, que est depondo sob juramento?
- Perfeitamente.
- Ento permita que lhe repita uma pergunta. Depois que foi nomeado comandante do posto, ningum jamais 
lhe pediu para que abrisse um inqurito, a fim de apurar as circunstncias em que ocorreu a morte de Agnese 
Moschetti?
- Ningum,
O dedo de Rienzi ergueu-se para ele como um escalpelo.
- O senhor mente, sargento! Mente sob juramento solene. E eu o. provarei a este tribunal! - Voltou-se e fez 
ligeira reverncia aos juizes, com que se desculpando. - J terminei de interrogar esta testemunha, Sr. 
Presidente.
- Mas o tribunal ainda no disse tudo  testemunha! - exclamou o presidente, lanando um olhar frio ao 
sujeito corpulento, impassvel, que ocupava o banco das testemunhas. - Ainda tem tempo de emendar o seu 
depoimento, sargento. Se as declaraes posteriores provarem que o senhor  culpado de perjrio, talvez 
grave castigo o aguarde.
Por um momento, Landon julgou que o sargento sustentasse descaradamente o que havia dito, mas no ltimo 
instante, a testemunha vacilou, gaguejando:
- Eu ... eu respondi s perguntas que me foram feitas. No houve pedido de inqurito, mas ... falou-se nisso. A 
coisa, porm, no deu em nada.
Carlo ps-se de p de um salto:
- Por favor, Sr. Presidente, eu gostaria que o escrivo lesse a transcrio de minha pergunta anterior, referente 
a rumores, dvidas ou perguntas.
- Podemos dispensar a transcrio - disse com firmeza, o presidente. - A pergunta ainda est viva em nosso 
esprito. O juiz auxiliar da vara e o representante do Ministrio Pblico anotaro a conduta da testemunha, 
anotando, ainda, que a mesma poder ser eventualmente acusada de perjrio, obstruo da justia e 
conspirao. Faa o favor de deixar o banco das testemunhas.
Ao voltar para o seu lugar, Fiorello parecia ter encolhido seis polegadas em altura e circunferncia. Por outro 
lado, dir-se-ia que Rienzi adquiria, a cada momento, nova estatura. Apesar de seu as
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insone, e de seu rosto tenso, magro, parecia irradiar energia e crescente autoridade, Nos intervalos do 
interrogatrio, ou enquanto os juzes conferenciavam entre si, como agora estavam fazendo, dir-se-ia que 
ele tinha a virtude de apagar-se da ateno dos presentes, de modo que cada vez que reaparecia, sua 
presena causava novo impacto e cada interrogatrio adquiria novo aspecto de drama. Aps breve consulta 
entre os juzes, o presidente imps ordem ao tribunal e dirigiu a palavra a Rienzi:
- Meus colegas acentuam, com justia, que a defesa parece estar dando considervel nfase no s ao 
carter do morto, como a um acontecimento ocorrido h dezesseis anos: a execuo de Agnese Moschetti, 
Acham - e essa  tambm a minha opinio - que a defesa deveria auxiliar-nos a estabelecer a relevncia de 
tais declaraes.
- Somos de opinio, Sr. Presidente, que tais declaraes so relevantes quanto ao que se refere a todos os 
pontos deste caso: a natureza do crime, o motivo, provocao, premeditao responsabilidade moral e legal 
da acusada, bem como a um ponto de suma importncia para todos os membros do poder judicirio e do 
organismo poltico: de que modo fazer-se justia dentro das limitaes da lei.
Um leve sorriso de satisfao contraiu os lbios do velho jurista:
- Se as provas do advogado de defesa estiverem  altura de sua eloqncia, este tribunal se dar por 
satisfeito. Queira chamar sua prxima testemunha.
- Chamo a Frei Bonifcio, da Ordem dos Frades Menores, proco de San Stefano.
Houve um momento de pattica curiosidade em meio ao espetculo, quando o velho e alquebrado sacerdote 
atravessou o tribunal arrastando os ps metidos em sandlias. Apesar de sua tonsura e do hbito de uma 
antiga Ordem, ele parecia exatamente o que era: um pastor idoso de um rebanho indisciplinado, para quem o 
mundo parecia demasiado grande.
O escrivo aproximou-se, a fim     de ministrar-lhe o juramento:
- Jura perante Deus dizer toda a verdade, apenas a verdade, sem subterfgio ou acrscimo?
O frade hesitou um momento e, depois, voltou-se para o presidente:
- Permite-me, Sr. Presidente?
-  Sim, padre. Diga.
-  No posso jurar dizer toda a verdade ... mas apenas a parte que escapa ao sigilo da confisso, e que  de 
meu conhecimento como, cidado comum.
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- Aceitaremos seu juramento nesses termos.
- Sujeito, pois, ao selo da confisso, juro.
- A defesa pode interrogar a testemunha.
O mtodo adotado por Rienzi, diante do velho sacerdote, foi de deferncia e de quase humildade. Uma vez 
mais, Landon ficou impressionado pelo seu talento de camaleo, que sabia adaptar-se a uma situao e a uma 
pessoa.
-   H quanto tempo reside o senhor em San Stefano?
-   H trinta e dois anos.
-   Conhece todas as pessoas do lugar?
-   Todas.
-   Conheceu a me da acusada, Agnese Moschetti?
-   Conheci.
-   E conheceu a acusada quando criana?
-   Conheci.
-   Depois da morte de sua me, foi o senhor uma das pessoas. que  cuidaram dela e, posteriormente, 
providenciaram a sua ida para a companhia de seus parentes, em Florena?
- Exatamente.
- Durante a guerra, o senhor era membro de um grupo de guerrilheiros que lutou contra os fascisti e os 
alemes?
- Isso no  bem assim. como sacerdote, meu dever principal consistiu sempre em atender s necessidades 
espirituais de meu rebanho.   Em muitas ocasies, porm, colaborei com os guerrilheiros, locais.
- Colaborou, especificamente, com Gianibattista Belloni?
-   Colaborei.
-   Em que consistia esse trabalho?
-   Em levar informaes, esconder fugitivos, cuidar dos feridos, transportar, s vezes, armas, vveres e 
munies.
-   E fez essa coisa at o momento do armistcio?
-   No.
-   Quer fazer o favor de explicar isso ao tribunal?
-   No s nas ltimas fases da guerra, como, tambm, imediatamente  aps, fui levado, por motivos de 
conscincia, a afastar-me deBelloni  e com efeito a censur-lo abertamente.
- Por qu?
- Porque achava que muitas de suas aes eram ditadas no, pelas necessidades da guerra, mas por desejo de 
vingana pessoal ou. tendo em vista vantagens pessoais.
- Pode dar alguns exemplos ao tribunal?
- Belloni e seus homens levaram embora o mdico da aldeia. e o fuzilaram, simplesmente porque ele prestara 
cuidados mdicos a
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feridos alemes. Ordenou a execuo de um campons e de sua mulher, cujas terras confinavam com as de 
sua propriedade. Mais tarde, comprou essas terras por preo insignificante. Imediatamente aps o 
armistcio dirigiu o julgamento sumrio e a execuo de sete moradores de San Stefano. Queixas constantes 
eram-me feitas por mulheres e raparigas molestadas por ele ou por membros de seu bando.
Um murmrio de comentrios irrompeu pelo tribunal, e o promotor pblico ps-se de p de um salto:
- Sr. Presidente! Devo protestar, da maneira mais viva possvel, contra a irregularidade de tal procedimento. 
Belloni est morto e, por conseguinte, fora da jurisdio desta corte. Estamos interessados apenas na 
acusao de assassinato, feita contra Anna Albertini, a qual, penso eu, j ficou suficientemente provada. 
Belloni no est aqui para responder por seus atos. E no  ele quem est sendo julgado, mas sim Anna 
Albertini.
Pela primeira vez, Rienzi entregou-se a uma refutao enftica:
- Sr. Presidente, membros do jri! O que nos interessa  a justia... que se avalie bem a culpa. Nosso sistema 
judicirio define e gradua o crime de morte no apenas quanto ao que se refere ao ato em si, no apenas em 
termos de premeditao ou provocao, mas tambm em termos de motivao e de atenuantes. Penso, com 
todo o respeito, que esta corte no poder chegar a uma deciso justa sem que conhea todas as 
circunstncias e o carter de todas as pessoas envolvidas no fato em apreo, inclusive o carter do morto.
O presidente fez com a cabea um sinal de assentimento:
- A defesa poder continuar o seu interrogatrio.
- Obrigado, Sr. Presidente - disse Rienzi, voltando-se, a seguir, para a testemunha.
- Agora, padre, o tribunal gostaria de     ouvir o que o senhor sabe acerca da morte de Agnese Moschetti, 
me da acusada.
-  Sinto muito - respondeu o velho com firmeza, empertigando-se. - No posso responder a essa pergunta. 
No fui testemunha ocular. Muito do que sei chegou a meu conhecimento sob o sigilo da confisso. No me 
sinto livre, pois, para prestar qualquer declarao sobre esse ponto.
- Seria correto dizer-se, padre, que as pessoas lhe transmitiram essa informao no confessionrio porque 
tinham receio de o fazer publicamente?
- Tampouco posso responder a essa pergunta.
Rienzi aceitou respeitosamente a resposta. Aguardou um momento e, depois, enveredou Por outro caminho:
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- Permita-me fazer-lhe uma pergunta pessoal, Frei Bonifcio. Acaso fez o senhor quaisquer protestos pblicos 
quanto ao julgamento e execuo de Agnese Moschetti?
- Fiz. Condenei-os, de meu plpito, da maneira mais violenta. Referi-me a outros atos de violncia praticados 
no s pelos guerrilheiros, como pelos que se achavam no poder. Procurei, atravs do ex-representante 
policial, sargento Lopinto, iniciar uma ao punitiva.
- Mas, depois do armistcio, quando o sargento Lopinto j estava morto e o sargento Fiorello o substituiu  
testa do posto Policial, por ocasio da volta de Belloni como prefeito e senhor da aldeia, o senhor tomou 
qualquer providncia?
- Tomei. Pedi ao sargento Fiorello que reabrisse o caso e instaurasse um inqurito pblico. Ele negou-se a 
faz-lo.
- E deu-lhe alguma razo para isso?
- Sim. Disse que muitas coisas tinham sido feitas durante a guerra... coisas que era melhor a gente esquecer. o 
povo tinha de recomear a viver normalmente. No havia razo alguma para se alimentar velhos dios.
- E o senhor concordou com ele? - indagou, suavemente, Rienzi.
Pela primeira vez, o velho hesitou. Seu rosto se anuviou, tremeram-lhe os lbios, e ele se encurvou um pouco 
mais, como que oprimido pelo fardo da culpa e da recordao.
- Eu ... eu no estava certo de que ele no tivesse          razo. Havia muita coisa a favor de suas palavras. Eis 
a a tragdia da guerra: homens de boa vontade entregam-se a ms aes, e muitas coisas ms so feitas em 
nome do bem. Alm disso, tnhamos de reconstruir nossas vidas, e no podamos faz-lo tendo por base o 
rancor.
- De modo que o senhor nada mais fez com respeito ao inqurito?
- At a morte de Gianibattista Belloni... no.
- Quer dizer que tambm o senhor, padre - prosseguiu, com fria preciso, Rienzi - participou de uma 
conspirao de silncio em torno desse assunto?
-  Um homem s pode seguir o caminho que tem a seus ps. Parece que segui o caminho errado. Lamento, 
agora, que assim tenha sido. Um sacerdote tem muito mais coisas por que responder.
Nessa altura, no havia ningum no tribunal que no sentisse simpatia pelo velho, por sua amarga confisso. 
Mas Rienzi no havia ainda terminado. Voltou  sua mesa e desembrulhou, com teatral deliberao, um 
pacote envolto em papel marrom. Depois, tornou ao
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banco das testemunhas, levando nas mos algo que parecia ser um pedao de pedra.
- Reconhece isto? - indagou, mostrando-o ao frade.
- Reconheo.  um pedao de pedra do muro do cemitrio da igreja de San Stefano.
-   H aqui algumas palavras escritas. No lhe peo que as leia, apenas,  que me diga quem as escreveu.
-   Foram escritas pela acusada, Anna Albertini.
-   Sabe quando ela as escreveu?
-   No dia seguinte ao da morte de sua me.
-   O senhor as viu escritas?
-   Vi. Deparei com a acusada a escrev-las        no muro com um pedao de lata.
- Obrigado, padre.  o bastante.
Enquanto o frade, encurvado, alquebrado, deixava o banco das testemunhas, Rienzi voltou-se para a tribuna 
dos juzes:
- com a permisso desta corte de justia, proponho-me voltar a este assunto, apresentar novas provas e 
identificar mais amplamente o caso perante este tribunal. Por ora, chamaria a ateno dos presentes para o 
estado de minha cliente. Ela passou, como todos sabeis, por grande tenso. Est, como bem podereis ver, 
muito deprimida e necessitada de cuidados mdicos. Solicito a clemncia da corte, pedindo que os trabalhos 
sejam adiados at amanh, quando a defesa apresentar os depoimentos finais.
O presidente olhou-o com ar severo:
- Este tribunal j concedeu  defesa grande amplitude para a apresentao de seu caso. Devo aconselhar que 
no se entregue demasiado a tticas e estratagemas     forenses.
- Isto no  estratagema, Sr.     Presidente - volveu, com ardor, Rienzi. -  um pedido feito por considerao 
 minha cliente, que est sendo julgada pela mais grave das acusaes. Submeter-nos-emos, de bom grado,  
deciso dos senhores juzes, mas rogamos sejam prestados cuidados mdicos  acusada.
O presidente conferenciou um momento com seus assistentes jurdicos e com os juzes auxiliares. Depois, 
decorrido um instante, disse: Professor Galuzzi, queira aproximar-se, por favor.
Enquanto Galuzzi, conferenciava com o presidente e com os outros juzes, prosseguia o murmrio que 
irrompera na sala. Finalmente, o presidente- anunciou, solenemente:
- De acordo com a solicitao da defesa, esta corte reiniciar Os seus trabalhos amanh s dez horas.
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- Obrigado, Sr. Presidente - disse Carlo Rienzi, voltando para a sua mesa como algum que houvesse 
apostado todas as economias de sua vida num nico lance de dados.
Espero - murmurou Ascolini - que ele tenha boas cartas para apresentar amanh. Do contrrio, eles o 
crucificaro. - E, bruscamente, acrescentou: - Carlo ir jantar hoje, com vocs. Quero falar-lhes, antes que 
vocs o vejam.
Landon franziu a testa, com ar de dvida:
- Duvido que eu disponha de tempo. Ninette no est aqui, e eu prometi a Carlo esper-lo depois da sesso.
- Mande-lhe, ento, um bilhete - disse-lhe, obstinado, o velho. - Diga-lhe que v diretamente ao apartamento, 
daqui a uma hora.
Mas por que isso, doutor? - indagou Landon, a voz um tanto irritada. Sua pacincia estava quase esgotada 
pelas exigncias daquela gente.
Ascolini foi bastante perspicaz para perceber de que se tratava. Ergueu as mos, num gesto de escusa:
- Eu sei, Eu sei, Pedimos demasiado e damos, em troca, muito pouco. Envolvemos vocs em nossas intrigas e 
os magoamos porque vocs so nossos amigos. Perdoe-me. Prometo-lhe que esta ser a ltima vez. - Tirou do 
bolso um caderninho de notas e um lpis.
- Seja indulgente para comigo esta vez. Escreva um bilhete a Carlo; pediremos a um dos escrives para que 
lho entregue.
Relutantemente, Landon redigiu umas linhas, e o velho pediu a um dos escrives do jri que entregasse o 
bilhete a Rienzi. Depois, tomou Landon pelo brao e conduziu-o, em meio ao burburinho do pblico que se 
dispersava, para a plida claridade da tarde, que j descia sobre a cidade.
Aps trs minutos de tortuosa caminhada, chegaram a uma pequena praa, que tinha ao centro uma fonte 
batida pelas intempries e, ao lado, um caf surpreendentemente minsculo, onde serviam ch gelado e vrias 
espcies de tortas. A praa estava ainda quente e mida, mas, dentro, havia penumbra e um ar aprazvel. 
Foram atendidos prontamente, e Ascolini comeou, de maneira brusca e sria, a expor seus pensamentos:
- Carlo fez muito, muito mais do que eu esperava. Mas no poder vencer, claro. Amanh ser um dia 
perigoso para ele, mas, se conseguir sobreviver, ter obtido um triunfo profissional. Ter vinte causas sobre a 
sua mesa, antes de terminar a semana. E isso
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ser apenas um pequeno prenncio do que vir depois. Sua primeira batalha ter sido ganha, como j foi, 
com efeito, ganha: provar que  um bom advogado e um esprito independente. Mas uma batalha no  uma 
campanha, e haver outras, mais duras ainda. Para esta, ele estava armado pelo estudo e pelo aprendizado; 
para as outras, receio que ele no esteja nada preparado.
J o aconselhei h vrias semanas - disse, rudemente, Landon. - Ele s poder vencer se empreender uma 
retirada. Valria no serve para ele. Receber tudo e no dar nada em troca. Ele passar o resto da vida 
tentando domestic-la... e acabar como um velho em companhia de uma megera. - Fez uma pausa e 
acrescentou, pesaroso: - Perdoe-me, doutor. Tenho grande respeito pelo senhor, e ela  sua filha. Mas no 
posso continuar a ser corts.
- No h necessidade de que seja corts - respondeu,              com brandura, Ascolini. - Sei que ela sente 
cime do senhor e de Ninette, e que quer criar complicaes entre ambos. Mas o senhor tambm criou uma 
certa complicao, ao dormir com ela.
Envergonhado, chocado, Landon fitou-o, atnito:
- Como foi que soube disso?
Ascoln fez um gesto com a mo, como se aquilo no tivesse importncia:
- Ela prpria me contou, no dia seguinte ao de sua pequena aventura. - Sorriu entredentes, com desagradvel 
satisfao. Oh, imagino que ela prometeu discrio e sigilo, mas o senhor no devia deixar-se levar por tais 
juramentos.
- De fato, no devia, - disse Landon - mas me deixei levar. No compreendo, porm, por que razo ela lhe 
disse isso.
Uma ameaa - respondeu, tranqilamente, Ascolini. Uma assero de poder por parte de uma mulher 
ciumenta. Se eu tornasse a interferir em suas relaes com Lazzaro, ela contaria tudo no s a Carlo como a 
Ninette.
- Ela contou a Ninette,  hora do almoo.
Ascolini fez, com a cabea, um gesto de compreenso:
Eu esperava que ela o fizesse. Qual a reao de Ninette? Melhor do que eu mereceria - respondeu Landon. 
Deixei-as juntas. O que aconteceu depois, eu no saberia dizer. Mas, ao saber de tudo, doutor, por que razo o 
senhor no me procurou?

Ascoln alou os ombros, num de seus gestos eloqentes:

- Achei vantajoso no lhe dizer nada. Pensei, acertadamente, que,o senhor se sentiria obrigado a colocar-se do 
lado de Carlo e ajud~lo. Quanto ao resto - ajuntou, tornando a rir entredentes, como se zombasse de si 
prprio - eu bem podia compreender, Eu prprio j fiz isso com filhas e mulheres de outros homens. E havia
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uma certa satisfao, de minha parte, em ver um homem como o senhor escabujar um pouco. Sei que o 
escandalizo, Sr. Landon. Mas j lhe disse, h muito tempo, que espcie de gente somos ns, A a nica coisa a 
meu favor  que sou suficientemente honesto para 
admitir que assim . No sou um nobre pai a colocar a sua filha virgem em leito. j fui conivente com 
muitas loucuras para que no pudesse suportar esta equanimidade.

Landon explodiu, rudemente:

- Ento por que razo, com os diabos, o senhor fez tanto barulho a respeito de Basilio Lazzaro?

Ascolini respondeu, no mesmo tom equnime

- Mesmo numa sociedade como a nossa, Landon, velha, sofisticada e, no raro, corrupta, h certos limites, 
alm dos quais uma mulher no pode ir, se quiser preservar o seu lugar. Divertimo-nos com os 
entretenimentos dos casamentos de convenincia. Mas fazemos objees a vulgaridades tais como Lazzaro. 
Esse caso teria de terminar, pois que, do contrrio, no haveria salvao para Valria.

- E o senhor acha que ela tem salvao, agora?

- Apenas uma: Carlo.
- Ninette disse,a mesma coisa. No sei se estou de acordo.
Talvez o caminho j esteja fechado.
- E pensa que no o sei? - Pela primeira vez, o velho advogado revelava 
certa irritao. - Por que razo julga o senhor que lhe fiz tantas 
confidncias? Porque desejo us-lo, Sr. Landon... 
Veja! Estive com Carlo esta manh. Falei com ele e com Galuzzi. Sou
bastante velho para que no compreenda em que p esto as relaes
entre Carlo e sua cliente. O senhor  um profissional. Sabe o que
isso significa. Carlo sente afeto por essa moa. J notei os sinais.
Eu prprio tive certas clientes pelas quais me deixei arrastar em
circunstncias muito menos favorveis. Eu era suficientemente cnico
para aproveitar a oportunidade. Mas Carlo no  cnico e, h muito
tempo, tem fome de amor.
Landon abanou a cabea e recostou-se, cansado, em sua cadeira sem provar 
o caf que tinha  sua frente.
- Sinto muito, doutor. Posso receitar para Carlo ... como j
o fiz, . . mas no posso obrig-lo a tomar o remdio. Ademais, no
creio que a coisa possa ir muito longe. A moa  mentalmente enferma!

- E acaso o senhor, Sr. Landon, jamais encontrou algum que tivesse necessidade de uma enfermidade na 
criatura amada

- respondeu Landon, cada vez mais impaciente: s vezes
- Mas, com os diabos, que espera o senhor que eu faa? Que faa
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uma pequena preleo a Carlo e o mande de volta  extremosa Valria?
- Sinto muito, Sr. Landon - respondeu, com grave dignidade, Ascolini. - Lanamos teias para apanh-lo e, 
agora, estamos to emaranhados quanto o senhor. Um dia, talvez, tenhamos a graa de emendar-nos, mas o 
senhor me fez uma pergunta e essa  minha resposta. - Fez uma pausa e acrescentou, com uma 
simplicidade quase tocante: - Diga a Carlo, da parte de algum que sabe o que est dizendo que, s vezes,  
melhor que a gente se contente com uma ma pequena e azeda do que com uma fruta desconhecida num 
pas que no  o nosso.

Ao chegar ao apartamento, Landon encontrou Ninette sozinha, azafamada com os preparativos do jantar de 
Carlo Rienzi. Abraaram-se, mas sem ardor - e, depois, Ninette disse-lhe:

- Tive uma longa conversa com Valria. Eu a compreendo, Peter, e tenho pena dela. Todos os seus pontos de 
apoio foram destrudos com um nico golpe ... e Ascolni  responsvel por isso. Gosto dele, como voc sabe, 
mas ele foi brutalmente egosta, no s nesse caso como em muitos outros. Durante toda a vida, procurou 
centralizar em sua pessoa o afeto de Valria. Agora, como deseja que ela tenha filhos - e tambm porque 
Carlo, de repente, passou a assemelhar-se ao filho que ele desejaria ter - ele se afasta de Valria. Ela se sente 
desorientada, Peter... Desorientada, amargurada e Ciumenta. De modo que procura lanar-se contra todos os 
que se encontram ao seu alcance. .

- Ela ainda tem contra quem lanar-se: Carlo - disse, com tristeza, Landon. - Acho que eu deveria falar com 
ele, antes que ela o faa.

- No, Peter! - exclamou, com firmeza, Ninette. - Enquanto houver uma Possibilidade de que ele no o saiba, 
acho que devemos aferrar-nos a ela. Depois de minha conversa com Valria, Penso que existe tal 
possibilidade. Ela sabe, pelo menos, que nada tenho contra ela... e que voc tampouco o tem.

- Acho que me sentiria melhor se contasse tudo a Carlo.
- E como se sentiria ele, Peter?

- No sei.

Ela, ento, o enfrentou com a pergunta que ele temera durante toda a tarde:

- E como  que voc se sente agora, Peter... a nosso respeito?
- Sinto-me envergonhado de mim mesmo, se  que isso serve para alguma coisa.

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-  Por que razo se sente envergonhado, Peter? Por que voc no  o homem que julgava ser?

-  Em parte. Todos ns temos o nosso orgulho, como voc sabe. E, em parte, porque voc merece que eu 
proceda melhor com voc.

- Voc diz isso a srio, Peter? Mesmo sabendo o que houve entre mim e Lazzaro?

- Lazzaro foi um velho episdio para voc. O que aconteceu comigo foi algo diferente. No h desculpa para 
isso.

- H sempre uma desculpa, Peter. Isso  o que me preocupa. Eu no sou perfeita, Deus bem o sabe. Se 
fssemos casados, eu provavelmente lhe daria vinte desculpas a mais num ms, mas se voc as aceitasse, eu o 
odiaria. No quero casamento de espcie alguma, Peter. No desejo uma unio que se converta 
inevitavelmente na espcie de crueldade que vimos ser praticada nas ltimas semanas. No me seria possvel 
suportar tal coisa. Eu definharia muito rapidamente. Eu o amo, chri, mas quero v-lo contente. Amo-o 
bastante para desejar que voc se v, se no puder sentir-se contente comigo.

- Eu tambm a amo, Ninette, mais desesperadamente do que jamais julguei possvel. - Aproximou-se dela, 
mas ela o afastou de si. Landon. prosseguiu, expondo seus pensamentos com dificuldade:
- Durante toda a minha vida, por mil e uma razes, procurei bastar-me a mim mesmo, no depender de 
ningum, manter-me fora do alcance do sofrimento que outras pessoas pudessem causar-me.  assim que me 
conhecem em minha profisso - sujeito impetuoso, ambicioso, em quem desejariam passar uma rasteira; mas 
no podem faz-lo porque se trata de um sujeito que conhece bastante as coisas e  muito pouco sensvel. Eu 
poderia voltar a isso, mas j no me sentiria satisfeito. Sei de que preciso. Sei que preciso de voc. Quero 
dizer-lhe uma coisa, querida. Jamais o disse a qualquer outra pessoa em minha vida. Neste momento, sou 
quase Carlo Rienzi. Voc poderia pedir o preo que quisesse. Creio que eu o pagaria.

Durante longo momento, Ninette permaneceu tbia e irresoluta, Medindo o risco que correria. Depois, abanou 
a cabea e disse, num sussurro:

- No h preo algum, Peter. Quero que voc apenas me ame. Pelo amor de Deus, ame-me, apenas.

Correu para os braos de Landon e beijaram-se, contentes, parecendo a ambos quase possvel que a juventude 
e todas as suas iluses pudessem de novo renascer.

Quando Carlo chegou, encontrou-os felizes como dois pssaros. empoleirados numa macieira. Fizeram-no 
passar ao atelier e puse ram-se a preparar os alicerces de uma noitada cordial
151
O chianti, o Barolo e o conhaque toscano so remdios fortes demais para depresso, mas deram resultado, 
quanto a eles, aquela noite. Beberam bastante, riram moderadamente, entregaram-se com entusiasmo ao jantar 
de Ninette e, depois, pouco a pouco, mergulharam em sonolenta satisfao, enquanto Carlo se sentava ao 
piano e tocava Scarlatti e Brahins, bem como as velhas e plangentes melodias da msica folclrica das 
montanhas.

Foram momentos bons, tranqilos: uma revivescncia da juventude e das esperanas puras da inocncia. Suas 
portas estavam trancadas  intruso. Suas janelas se abriam sobre telhados prateados a um cu rico de estrelas. 
A msica era um blsamo para as feridas recentes e um lenitivo para os pesares antigos. Quando cessou, 
ficaram sentados, quietos, na semi-obscuridade, a conversa a flutuar como palha em gua calma.

Sinto-me grato Por esta noite - disse Carlo, em voz baixa. Mais grato do que poderia dizer-lhes. Amanh ser 
um dia crtico para mim, mas vocs me prepararam para enfrent-lo.

- Como correro as coisas, Carlo? - indagou Ninette.

- Quem poder diz-lo? Estamos sentados nos joelhos da Deusa Cega. No ouso esperar demasiado.

- E est satisfeito, at agora?
- Quanto a mim, estou. Penso que fizemos mais do que os outros julgavam Possvel. Posso olhar-me num 
espelho e reconhecer que 
provei o que me propus fazer. No comeo, julguei que isso seria o bastante. Agora, acho    demasiado pouco, - 
Interrompeu-se um momento para acender um cigarro, e a chama do fsforo alumioulhe O rosto magro e 
plido, mas dotado da nova maturidade da experincia.

-  Anna quem agora me preocupa. Ela tem, at agora, confiado em mim. Tem to Pouco medo, to Pouca 
Compreenso do que o meu fracasso poderia significar-lhe! ISSO  um Pesadelo para mim
- Talvez para ela seja uma bno -         observou Ninette.

- Oh, no! - Sua reao foi rpida e apaixonada. - Voc no compreende. No comeo foi uma bno... mas 
no agora. como  que Poderei explicar? Quando a vi pela primeira vez, ela era COMO uma criana ... no... 
uma mulher que houvesse sado de Um mundo e penetrado num outro - num mundo estranho, mas Muito 
mais belo - em que nada havia para odiar, nada para temer, nada Para desejar. At Mesmo a priso lhe 
parecia um lugar confor~ tvel. Julguei, a Princpio, que ela no compreendesse sua situao, mas ela a 
Compreendia muito bem, e podia encarar, sem o menor sinal de terror, vinte anos de encarceramento. A 
nica coisa que parecia
152

interess-la, em sua defesa, era que eu no me desgraasse. Faleilhe a respeito, Peter, e voc me explicou que 
se tratava da euforia do choque, do bem-estar daqueles que sobrevivem a uma arremetida macia contra os 
tecidos do crebro e do corpo e mergulham num estado de anestesia que a prpria natureza prov, e que fica 
alm dos poderes do mdico, Depois, lentamente, comeou a ter conscincia de outras coisas. Ps~se a falar-
me de seu marido, do malogro de sua vida conjugal, da esperana que agora alimentava de chegar  
consumao do amor e dar-lhe filhos. Fiz uma coisa brutal ao coloc-lo no banco das testemunhas, mas foi 
necessrio. E isso produziu estranho efeito. Pela primeira vez, ela comeou a perceber no apenas a existncia 
da tragdia, mas da esperana. Se, agora, se vir privada disso, s Deus sabe o que poder acontecer-lhe!

Sua voz extinguiu-se, e eles continuaram a fumar em silncio, enquanto a penumbra os envolvia e a fumaa 
dos cigarros subia, cinzenta e espectral, para a escurido do teto. Decorrido um momento, Ninette perguntou:

- Como  que voc a v, Peter? Que espcie de pessoa  ela? Landon refletiu um momento e,- depois, 
respondeu, judiciosamente:

A resposta , creio eu, que ela no  ainda, absolutamente, uma  pessoa adulta, Tem vinte e quatro anos e est 
familiarizada, como qualquer de ns, com o funcionamento do mundo cotidiano; mas   ainda uma criana, 
com a inocncia de uma criana, as perplexidades de uma criana e a dependncia de uma criana.

Extamente, Peter! - exclamou, com ardor, Carlo. - Valria e o pai julgam que estou apaixonado por Anna. 
Talvez esteja, mas no como eles imaginam. Valria jamais me deu um filho, mas acho que tenho por Anna 
os mesmos sentimentos que teria por uma filha: zelo, ternura, piedade de tanta simplicidade.

- E ela jamais se tornar adulta? - indagou Ninette. E foi Landon. quem respondeu:

-  possvel, mas o processo ser lento. Carlo j viu alguns dos  sinais. O ato criminoso foi, na verdade, uma 
tentativa no sentido, de libertar-se, por meio violento, do fardo do passado. O passo seguinte  esse que agora 
estamos vendo: ela est tateando o caminho, como uma criana, em busca de uma afirmao de identidade.

Como ocorreu esta tarde - interveio Carlo, apanhando o fio do argumento. - Pela primeira vez, ficou zangada 
comigo, porque eu lhe disse que ela deveria recear por seu prprio destino, ao invs de deixar que eu 
carregasse o fardo de seus temores.

Houve ligeira pausa, interrompida por Landon, que, da penumbra em que se achava, perguntou, calmo e 
astuto:

153
- E que disse ela a isso, Carlo?

- Que eu era impaciente com ela, que eu pedia muito demasiado cedo, que ela queria ser mulher, mas que 
no podia tornar-se adulta sozinha.

- Pobre criana! - disse, baixinho, Ninette. - Pobre criana, to desnorteada!

- Mas ento vocs no percebem? - exclamou Rienzi com intensidade, em tom novo e vibrante. - Ela est, 
agora, cuidando de si mesma, procurando um novo caminho. Se perdermos esta causa, e ela for condenada a 
vinte anos de priso, tornar a mergulhar de novo na indiferena completa do desespero. Ela acabar como 
essas pobres criaturas que passam a vida toda sentadas a um canto, sem nada ver, sem nada ouvir, sem nada 
dizer, sem que tenham sequer, para consol-las, a idia da morte. Mas se ganharmos, se pudermos dar-lhe 
uma esperana de liberdade dentro de um tempo razovel, ela ento continuar a sua busca e, tendo um 
pouco de amor, talvez at consiga ser bem sucedida. At mesmo o que ela sente em mim j fez muito por ela. 
Um pouco mais ... e quem sabe?

A despeito de si prprio, Landon fez-lhe a pergunta final:

- E voc pode dar-lhe tanto, Carlo? E acha que tem o direito de faz-lo?

A resposta veio firme, segura:

- Penso que tenho. J dei muito em troca de nada... Por que razo no poderia dar um pouco a essa pequena 
e desorientada criatura?

- Chegar a ocasio - disse, deliberadamente, Landon - em que a sua criana se transformar em mulher e 
lhe pedir mais do que voc ter para dar.

- No posso pensar nisso - respondeu Carlo Rienzi. - No posso pensar alm de amanh.

NA MANH SEGUINTE, Landon e Ninette chegaram ao tribunal quase quarenta minutos antes do incio dos 
trabalhos; mas tanto a ante-sala como a calada j estavam atulhadas de gente que clamava por entrar. 
Foram necessrios vinte minutos de discusso com um funcionario apoquentado, para que conseguissem ser 
admitidos ao tribunal, onde outras pessoas privilegiadas j se achavam sentadas.

Ascolini l estava com Valria. Ela estava vestida com mais sobriedade do que habitualmente. Tinha o rosto 
plido, os olhos pesados, e sua maneira era estranhamente alheia e distrada. Landon e Ascolini sentaram-se 
lado a lado, entre as duas mulheres, o velho advogado tambm se mostrava tenso e preocupado. Respondeu 
de modo vago s perguntas de Landon, resumindo as perspectivas da manh em frases curtas, irritadias:

- At agora, foi apenas uma questo de ttica. Carlo ganhou terreno. As linhas principais da defesa 
aclararam-se. O estado de esprito da corte parece pender ligeiramente a seu favor. A partir deste ponto, 
tudo depende dos depoimentos que ele tenha para apresentar e do uso que faa de suas consideraes finais. 
Eu teria gostado de discutir o assunto com ele, mas tambm  um sujeito de cabea dura. Sinto-me esquisito 
esta manh. J  tempo, pensei, de aposentar-me.

As portas de ambos os lados do tribunal se abriram, e as personagens comearam a entrar para o ato final 
do drama jurdico. O juiz auxiliar da vara e seus escrives acomodaram-se em seus lugares. O promotor 
falava, em voz baixa, com seus assistentes. Carlo Rienzi entrou, acompanhado de seus dois colegas de 
aspecto modesto. Sentou-se  sua mesa e ps-se a folhear os papis, fazendo anotaes numa agenda que 
tinha a seu lado. Houve um murmrio de vozes exaltadas, quando Anna Albertn entrou na sala, trazda 
pelos guardas.
154  155
Depois, como que para evitar quaisquer outras discusses, o presidente e os juizes assistentes penetraram 
rapidamente no recinto e tomaram seus lugares na tribuna. Houve um sussurro e um arrastar de ps, 
enquanto os espectadores se sentavam, aps o que as batidas secas do martelo reduziram a silncio mortal a 
sala repleta.

Carlo Rienzi levantou-se. Sua voz era fria, clara e impessoal:
- Sr. Presidente, Srs. membros do jri. Temos mais duas testemunhas a apresentar e, depois, o nosso 
depoimento estar completo. com a devida permisso do tribunal, gostaria de interrogar Ignazio Carrese.

- Permisso concedida.

O homem que se aproximou do banco das testemunhas era um campons baixo, entroncado, de pouco menos 
de cinqenta anos, mos nodosas, andar desajeitado e rosto queimado do sol, enrucrado e lanhado como as 
rochas batidas pelas intempries de seu paese natal. Lido o juramento, resmungou um assentimento e 
permaneceu de p, braos lassos, ombros arqueados, cabisbaixo, a fitar o assoalho.

Rienzi f-lo suar um momento e, depois, recuou um passo, at que  o campons ergueu a cabea e fitou-o com 
olhos assustados.
-  Queira dizer o seu nome ao tribunal.

-  Ignazio Carrese.

-  Qual  o seu meio de vida?
-  Sou agricultor em San Stefano.

-  ] proprietrio de suas prprias     terras?
-  Sou.

-  E elas sempre lhe pertenceram?
-  No. Comprei-as depois da guerra.
-  Onde conseguiu o dinheiro?

-  Belloni me emprestou.

-  E quais os juros que lhe cobrava?
-  Juro algum.

-  Ele foi sempre assim generoso?

Carrese baixou os olhos, hesitou e, depois, balbuciou sua resposta:

- Eu ... eu no sei. Foi generoso comigo, pelo menos. Eu ... eu era o seu brao-direito, entre os guerrilheiros.

- Percebe que, respondendo a algumas das perguntas que vou fazer-lhe, o senhor pode ser prejudicado?

A testemunha levantou a cabea e endireitou o corpo, como que disposto a enfrentar um destino h muito 
adiado. Sua voz adquiriu um novo tom, mais firme:

Sim. Eu ... eu percebo.

Por que razo concordou em vir depor?
156

Falei com Frei Bonifcio. Ele me disse                  Sua boca tremeu, parecendo, por um momento, que iria 
sucumbir.

- Disse-lhe o qu? - interpelou-o, vivamente, Rienzi

- Que no bastava que eu estivesse arrependido. Que eu precisava  reparar o mal.

- Deciso sensata, mas tardia - comentou, seco, Rienzi que,  espero, talvez possa ser levada em conta por este 
tribunal. Ficou um instante em silncio, como que a desafi-lo e, depois, prosseguiu, em tom mais brando: - 
Ignazio Carrese, quero que se lembre de um certo dia, em 1944. Era um sbado, creio eu.

Como que ansioso por expiar a sua falta o mais rapidamente possvel, a testemunha prosseguiu, embaraada, 
enveredando, de vez em quando, no rude dialeto da regio:

- Exatamente ...      Foi num sbado,  noite. Estvamos todos em nosso esconderijo, nas montanhas. . . eu ... e 
os outros rapazes. Aguardvamos a chegada de Belloni. Quando ele apareceu, vimos que estava 
completamente alucinado. Tinha no olhar aquela expresso que costumava ter quando algum o traa. E disse: 
A est! Ningum esbofeteia Belloni e se pe a fresca! Temos um trabalho para amanh, um grande 
trabalho!

- E ele lhe disse de que trabalho se tratava?
- Sim, disse.

- Que foi que ele disse?
- Disse ... disse ...

Camarinhas de suor escorriam -lhe pela testa enrugada - e ele as enxugou com um leno encarddo.

- Que foi que ele disse? - instou, com firmeza, Rienzi.

- Disse: Trata-se daquela cadela da Moschetti. Seu marido  um fascista imundo e ela  da mesma laia. Ela 
tem de sumir!

Um gemido surdo, vindo do banco dos acusados, fez com que todos se voltassem e vissem Anna Albertini a 
oscilar em sua cadeira, os olhos fechados, extremamente plida.

As palavras de Rienzi atravessaram o tribunal como um estampido de revlver:

- Domine-se, Anna!

Uma exclamao de surpresa ecoou pela sala.

O presidente ergueu a cabea, com ar de espanto e desagrado, mas o efeito sobre Anna Albertini foi 
instantneo. Ela abriu os olhos, sentou~se ereta e apoiou as mos no anteparo do compartimento.

- Desculpe-me - disse, em voz baixa. - J estou bem, agora.

Rienzi voltou-se para a testemunha:

157
- Belloni disse: Seu marido  um fascista imundo e ela  da mesma laia. O senhor sabia o que ele queria dizer com 
isso?

O velho campons pareceu encolher-se, e sua voz baixou de tom:

- Claro. Todos ns sabamos. H muitas semanas, j, vinha ele procurando dormir com ela, mas ela nada queria com ele.

- E ele estava disposto a mat-la por isso?
- Sim.

- E o senhor no protestou?

- Claro! Claro que sim! - respondeu o campons, procurando, com dbil animao, justificar-se. - Procurei... bem como 
alguns outros ... mas Bellon fez o mesmo de sempre. Puxou uma arma e disse: Vocs conhecem o regulamento. Faam o 
que lhes digo, pois, do contrrio, darei cabo de vocs. Apanhem suas armas.

- E, no dia seguinte - disse, em voz baixa, Rienzi - vocs mataram a me de Anna Albertini?

- Ns no a matamos! Foi Bellon quem o fez. Ns ... ns apenas o acompanhamos, como tnhamos de fazer.

Houve longo e tenso silncio no tribunal. Todos os olhos estavam voltados para o campons mal vestido, encurvado, que 
ocupava o banco das testemunhas. Depois, como que movidos por um impulso comum, voltaram-se para a jovem, que 
continuava sentada como uma esttua, a fitar absortamente a distncia. com toda a calma, Rienzi prosseguiu o 
interrogatrio:

Poderia dizer-nos, por favor, como foi praticado o crime?
O velho campons tomou flego e comeou a esforar-se por chegar  revelao final:

- Era uma noite de sbado ... Ns todos nos dirigimos  casa dos  .Moschetti. Encontramos Agnese Moschetti em 
companhia da menina...

- Desta moa? - indagou Rienzi, indicando Anna Albertini.
- Sim ... mas ela era ento, claro, apenas uma menina ... de oito ou nove anos, creio eu. Ns... ns a seguramos enquanto 
Belloni levava a me dela para o quarto. A menina gritou e esperneou como maluca, at que ouvimos os tiros ... Depois ... 
depois, ela ficou quieta... No disse uma palavra; apenas ficou a olhar ... os olhos parados, como morta. . . - Sua voz 
vacilou, e suas ltimas palavras foram proferidas atropeladamente, num assomo de angstia:

meu Deus, perdoai~me! Mas no pude evitar... No pude! Enfiou o rosto nas mos nodosas e ps-se a soluar 
incontrolavelmente, enquanto Anna Albertini permanecia imvel, tomada de seu antigo e catalptico horror.

158

Lentamente, Rienzi dirigiu-se  sua mesa e apanhou o pedao de pedra que mostrara a Frei Bonifcio. Depois, estendeu-a 
ao velho, campons, que o fitou com ar apalermado.

- J viu isto antes?

Carrese, sem poder falar, tez um sinal afirmativo com a cabea. Rienzi insistiu, com voz tranqila:

- Sabe ler?
- Sei.

- Quer fazer o favor de ler as palavras escritas nesta pedra? Carrese desviou o-olhar, o rosto contrado:

- Por favor ... por favor, no me pea isso.

Rienzi deu de ombros e voltou-se para o presidente:

- com a devida permisso, eu prprio as lerei. So palavras simples, senhores, traadas profundamente com um pedao de 
lata. Estiveram, durante dezesseis anos, expostas ao sol e  chuva.        mas so ainda legveis. Dizem: Belloni, um dia eu 
o matarei! 
Entregou a pedra ao presidente, que lhe lanou um olhar         perfunctrio e a passou aos seus colegas, para que a 
examinassem. Fraco, exausto, Rienzi permaneceu de p diante da tribuna dos juizes. Aguardou at que a pedra passasse de 
mo em mo; depois, apanhou-a, e dirigiu-se  mesa do promotor. Deps a pedra diante do representante do Ministrio 
Pblico e anunciou:

- Gostaria que o Sr. Promotor tambm lesse essas palavras escritas por uma criana de oito anos um dia aps a morte de 
sua me, trs dias antes que uma parenta bondosa a levasse para viver consigo em Florena. - Sua voz se elevou, numa 
nota de viva irritao: - E elas provam o que afirmam! Premeditao! Premeditao, numa criana de oito anos, que via 
sua me ser violentada e assassinada por um heri dos guerrilheiros! J terminei o interrogatrio desta testemunha, Sr. 
Presidente.

O campons, a caminhar pesadamente, voltou para o seu lugar, em meio ao silncio que se fizera na sala. O presidente 
escreveu algo numa folha de papel e passou-a ao juiz imediato. Depois, disse com voz fatigada, sem inflexo:

Queira chamar sua prxima testemunha, Dr. Rienzi.
- Chamo o Dr. Peter Landon!

Aps o dramtico depoimento de Carrese, Landon teve a impresso de que a sua entrada constitua um anticlmax; mas 
seu aparecimento e o som ingls de seu nome causaram um murmrio de comentrios na sala. Landon acercou-se do 
banco das testemunhas, fez o juramento de praxe e identificou-se. Rienzi, intencionalmente, deteve-se um momento nas 
qualificaes e funes exercidas pelo depoente,

159

solicitando, depois,  corte que o aceitasse como testemunha 
especializada de condio profissional igual  do Dr. Galuzzi.
Como que para afastar-se ainda mais do impacto dramtico dos depoimentos 
anteriores, Rienzi voltou-se para o escrivo do jri e pediu-lhe para que 
relesse o depoimento do Prof. Galuzzi. O escrivo remexeu em seus papis, 
tossiu, ajustou os culos e ps-se a 
repetir, como um papagaio, os trechos importantes, longos, do testemunho 
do psiquiatra. Enquanto o escrivo lia, a multido mexia-se irrequieta, 
em seus lugares. Landon lanou um olhar de cautela a Rienzi, mas no 
recebeu resposta alguma do rosto plido, magro, nem dos olhos frios do 
inquisidor. Terminada a leitura, Rienzi agradeceu, em tom
formal, ao escrivo, e ps-se a interrogar a Landon:

- O senhor concordaria, Dr. Landon, com as definies do Prof. Galuzzi?
Sim... concordaria.

Concordaria, de modo geral, com a opinio de que os traumas psquicos se 
revelam em vrias formas de enfermidade mental, no raro muito depois da 
poca em que ocorreu o acontecimento que os causou?
- Em termos gerais ... sim.

- O senhor ouviu o depoimento da ltima testemunha. Ouviu
de que modo a acusada, quando contava apenas oito anos, presenciou
as circunstncias brutais em que se verificaram o estupro e o assassnio 
de sua me. Concordaria em que isso seria suficiente para causar um 
trauma psquico dos mais graves?
- Concordaria.

- Dr. Landon, como definiria o senhor a palavra obsesso?
- Em termos psiquitricos, significa uma idia persistente ou repetida, 
em geral fortemente carregada de emoo e, com freqncia, acompanhada de 
impulso para alguma forma de ao, sendo de carter patolgico toda a 
condio mental do paciente.

- A palavra patolgico significando, nesse caso, doena ou
enfermidade?
- Exatamente.

- Poderia o senhor tornar sua definio um pouco mais clara para o 
tribunal?
- Bem, certos pacientes tm,obsesses de culpa, de modo que
se acham inclinados a acusar a si prprios de crime que jamais 
praticaram. Outros so obcecados por angstias desarrazoadas, de modo
que no sero capazes de atravessar uma rua por receio de serem mortos. 
H pessoas que,  noite, antes de dormir, do vinte voltas pela casa, a 
fim de assegurar-se de que todas as portas e janelas esto fechadas. 
Isto, tambm, constitui um estado obsessivo.

E  curvel tal estado?
s vezes, pode ser aliviado mediante anlise, que revele ao
paciente as razes de sua doena. Outras vezes, porm, a idia e os
fatores emocionais se tornam to. enraizados, que passam a ser incurveis 
- exceto, talvez, esse tipo de operao cirrgica conhecido como 
lobotomia prefrontal.

- Segundo o exame a que o senhor submeteu a acusada, e de acordo com os 
testemunhos prestados perante este tribunal, o senhor diria que esta 
jovem foi vtima de um estado obsessivo?
- Indubitavelmente.

- Que comeou com o choque psquico nela produzido pela morte de sua me?
- Sim. Seu malogro matrimonial, por exemplo, devido  sua
incapacidade sexual,  um sintoma obsessivo diretamente associado
 violncia praticada contra sua me.

- Agora, Dr. Landon, desejo que o senhor tenha bem em mente
a importncia da pergunta que vou fazer-lhe. Desejo, tambm, que o 
tribunal apreenda toda a sua significao, para que no parea que estou 
conduzindo esta testemunha para longe dos fatos, e penetrando no domnio 
da especulao. Apresso-me a assegurar ao Sr. Presidente
que no  essa, de modo algum, a minha inteno. O depoimento do Dr. 
Galuzzi suscitou a questo crucial. do senso moral e da responsabilidade 
moral. Eu gostaria de ser mais especfico quanto ao ponto. Voltou-se para 
Landon e perguntou-lhe, com grande deliberao: 
- Acaso a obsesso a que estamos nos referindo - a idia fixa, os fatores 
emocionais enraizados - privam o paciente de responsabilidade moral? 
Diminui, acaso, sua responsabilidade, de modo que o paciente no possa 
deixar de fazer o que faz, sendo impelido por foras que se acham alm de 
seu controle?

Era uma pergunta perigosa, e Landon bem o sabia. Levou tempo a refletir, 
e sua resposta foi cuidadosamente exata:
- A psicologia moderna aponta muitos estados em que o paciente  ou 
parece estar privado de responsabilidade por suas aes, ou em que o seu 
senso moral e, por conseguinte, a sua responsabilidade, se acham 
diminudos. Todavia,  preciso que se diga que tais estados no 
constituem ainda matria de definio jurdica, e que o paciente que 
pratica um ato criminoso se acha ainda sujeito  lei, tal como  ainda 
estruturada.

- O senhor diria que a enfermidade da acusada diminui, a sua 
responsabilidade moral?
- Sem a menor dvida.

- Isso retardaria, de algum modo, o seu desenvolvimento como pessoa 
adulta?
160  161

- Isso  elementar, creio eu. A psique humana manifesta-se, como o corpo, 
mediante desenvolvimento orgnico, influncia ambiental e educao. Seu 
desenvolvimento pode ser inibido por enfermidade fsica, trauma ou m 
educao.

- E como ocorre com o corpo, uma funo psquica pode ser
inibida, sendo todas as outras funes normais?
- Perfeitamente. Um matemtico brilhante, por exemplo, pode ter as 
reaes emocionais de uma criana.

- Seria certo dizer-se, Dr. Landon, que, em certos choques psquicos, no 
somente  inibido o desenvolvimento normal, mas, que o paciente 
permanece, digamo-lo assim, fixado e ancorado no momento em que se 
produziu o choque?
- Esse  um modo de obsesso... um modo nada incomum.

- E um ato praticado sob tal estado de obsesso teria, portanto, o mesmo 
carter moral, o mesmo padro emocional, como se tivesse sido cometido na 
ocasio do primeiro choque?
Landon franziu a testa e contraiu os lbios:
- Poderia ter. O senhor no deve pedir-me para ir alm deste ponto. Tal 
fato s poderia ser estabelecido mediante longa e meticulosa anlise 
clnica.

Mas o senhor admitiria ao menos tal possibilidade?
Qualquer psiquiatra teria de admitir.

- Lembrando-se do que aconteceu a Anna Albertini, lembrando-se da 
evidncia de sua incapacidade posterior, lembrando-se de seus prprios 
exames clnicos, o senhor admitiria tal possibilidade em seu caso?
- No se poderia deixar de levar isso em conta.

- Sejamos claros quanto a este ponto, Dr. Landon. O senhor
admite, sem qualquer dvida, a existncia de um choque grave, de um grave 
dano psquico?
- Perfeitamente.

- Admite a existncia de um estado de obsesso, com diminuio da 
responsabilidade moral?
Admito.

Admite, pelo menos, a possibilidade de que o assassnio de
Gianbattista Belloni pudesse ter tido, na mente da acusada, o mesmo
carter como se tivesse ocorrido imediatamente aps a morte de sua me?
- Quanto a este ponto, no estou preparado para dizer mais do que j 
disse.

- Obrigado, Dr. Landon - disse Rienzi. afastando-se.

- A defesa d por encerrado o interrogatrio, Sr. Presidente.

A testemunha est dispensada.
162
Embora tivessem planejado juntos o questionrio, Landon teve a 
desagradvel impresso de que Rienzi agira inoportunamente, abordando a 
questo de maneira demasiado casual. Para os espectadores, tambm, aquela 
era uma concluso frouxa, quase pattica. A tempestade que Rienzi 
parecera prometer resultara, afinal de contas, num simples aguaceiro. Foi 
o que Landon disse a Ascolini, mas o velho abanou a sua juba branca e 
murmurou, irritado:

- No so vocs que esto julgando o caso, mas os sujeitos que se acham 
na tribuna dos juizes. O rapaz saiu-se bem! Ofereceulhes um momento de 
drama ... e, depois, uma ducha de frio raciocnio. Alm disso, ainda 
haver mais. Ouam!

O promotor, alto, rosto de ave de rapina, erguera-se e, em tom grave, 
estudado, dirigia-se aos juzes:

- Sr. Presidente, senhores membros da corte! Ningum se sentiu mais 
comovido do que eu pelos argumentos da defesa. Ningum sente mais 
comiserao do que eu ante o fardo que recaiu, durante todos estes anos, 
sobre os ombros dessa infortunada jovem. Mas ...
- Pausa de oratria, bem calculada e cheia de admonio: - . . . mas devo 
manter o meu ponto de vista, assim como os senhores, membros do 
judicirio, devem manter o seu, quanto ao que diz respeito  lei. A lei  
uma muralha entre a ordem e o caos. Em certo sentido, a lei  mais 
importante do que a justia. Suspenda-se a lei
- como ocorreu, neste pas, durante longos anos - e far-se- com que se 
instaure, de todos os modos, o imprio da violncia e da desordem. 
Procure-se dobrar a lei, mesmo a favor daqueles que o merecem; procure-se 
modific-la, mesmo por motivo de compaixo, e criar-se- um precedente 
para novos e maiores crimes. Dir-se- que a vingana violenta  legal, 
que o assassnio poltico  permissvel; trar-se- de volta a este pas a 
vendetta, com a qual uma tradio de crimes passa de gerao a gerao. 
Os senhores no ousaro faz-lo. Segundo as provas apresentadas,  dever 
desta corte condenar esta mulher. O crime, em si, est provado sem a 
menor sombra de dvida; a premeditao est provada ... dezesseis anos de 
premeditao, cujo registro foi primeiro gravado no muro de um cemitrio 
e, depois, no sangue de Gianbattista Belloni. Muito se disse neste 
tribunal sobre o carter dbio desse homem. No contradiremos nada do que 
foi dito. Mas mantemos nossa posio, baseada no princpio mais antigo da 
lei - o de que o assassnio, qualquer que seja o motivo,  um ato imoral 
e ilegal. Podeis,  vossa discrio, considerar um castigo misericordioso 
para a infortunada jovem que se acha no banco dos rus. Deveis, porm, 
reconhecer o seu crime como sendo aquilo que : assassnio intencional e 
premeditado! Sou um servo da lei, senhores,

163
como vs. Nada mais necessito dizer... certo de que fareis o que vos 
cumpre.

Isto foi feito com tal simplicidade, que quase no se percebia o talento 
que havia atrs dessas palavras: o juzo preciso, o senso de 
oportunidade, os recursos do ator e a astcia do jogador, que faziam com 
que ele se recusasse a entrar em escaramuas fora do crculo de sua 
falange. As simpatias da corte talvez se voltassem contra ele, mas as 
correntes de interesse, de precedente e de responsabilidade judicial, 
eram fortemente a seu favor. Ele tinha em mos um caso jeitoso, e um 
pedido gratuito de clemncia no o afetava. Sentou-se, com ar sbrio e um 
tanto enfatuado, enquanto o presidente chamava Carlo Rienzi para que 
apresentasse seus argumentos finais.

Carlo levantou-se lentamente, ajeitou a beca sobre os ombros e preparou-
se para os momentos finais de sua primeira aventura forense. Lanou 
rpido olhar a Anna Albertini e, depois, em tom tranqilo e persuasivo, 
dirigiu-se aos juzes:

- Sr. Presidente, senhores membros da corte. Meu culto colega falou-vos 
da lei. Ao ouvi-lo, dir-se-ia que a lei  algo fixo, imutvel, que no 
comporta argumento nem interpretao. Mas no  assim. O direito  um 
agregado de tradies, precedentes e ordenaes, umas boas, outras ms, 
mas todas dedicadas, seno de fato, ao menos em princpio  segurana do 
indivduo,  manuteno da ordem pblica e  aplicao da justia moral. 
s vezes, esses fins concordam entre si. Outras vezes esto em 
contradio, de modo que a justia, poder ser mal servida, embora a 
ordem seja seguramente mantida. s vezes, a lei  demasiado simples; 
outras vezes, demasiado pormenorizada, de modo que  sempre necessrio 
haja interpretaes, anotaes e conflito de opinies, para que se chegue 
 sua verdadeira inteno. O declogo diz, categoricamente: No matais. 
Mas, acaso, isso  tudo? Bem sabeis que no. Metemos um homem aum 
uniforme, pomos-lhe uma arma na mo e dizemos-lhe:
**  uma coisa santa e abenoada matar em defesa de nosso prprio pas ** 
...  e prendemos-lhe no peito uma medalha, quando ele o faz. Sejamos  
claros quanto a este ponto, senhores. A lei  um instrumento no um fim. 
No , nem o poder ser jamais, um instrumento perfeito de justia.
Mas no  simplesmente a lei que  imperfeita. H tambm imperfeio 
naqueles que a ministram: na polcia e no Poder Judicirio. Se estes 
falharem no cumprimento de seu dever, se seus poderes se perverterem, 
como se perverteram, durante a guerra, em San Stefano, fazendo com que 
floresam homens, maus e os inocentes fiquem indefesos, que acontece, 
ento? Se, no momento em que Belloni
164
arrastou para estupr-la, a me desta jovem, Anna Albertni o 
houve~prostrado com um tiro, vs a acusares de assassnio? No! Vs  
elogiareis como uma criana corajosa que se ergueu em defesa da honra de 
sua me. Talvez at lhe pregsseis ao peito a medalha. que um pas 
reconhecido conferiu a Gianbattista Belloni!

No digo isto, Sr. Presidente, a fim de reivindicar para a defesa um 
argumento estranho  lei. Digo-o como uma afirmao de um princpio 
defendido por grandes juristas, no s deste pas como de outras naes - 
o princpio de que  dever de um tribunal no apenas apoiar a lei, mas 
procurar fazer com que a maior justia possvel seja feita dentro de sua 
imperfeita estrutura.

Eu sei, como vs tambm o sabeis, que jamais podereis fazer justia  
minha cliente. No podeis restituir a vida  sua me. No podeis correr 
uma cortina e ocultar de seus olhos de criana o horror do estupro e do 
assassnio. No podeis restituir-lhe os anos em que ela esteve mergulhada 
em sua sombria obsesso. No podeis trazer de volta o marido que se 
afastou dela, nem dar-lhe capacidade para enfrentar nem mesmo as relaes 
mais elementares do casamento. S o que podeis fazer  lanar novos 
fardos sobre ela - fardos de culpa, castigo e reparao.

Estis diante de um dilema quanto a esta questo, senhores. Todos ns 
estamos diante de um dilema. Somos obrigados a fazer aquilo que no 
podemos levar a cabo. Acreditamos em algo que no podemos afirmar perante 
este tribunal, porque no existe no vocabulrio do cdigo palavra que o 
defina. Vemo-nos obrigados a fazer justamente aquilo que condenamos na 
acusada - a aplicar a lex talionis, olho por olho, dente por dente!

Julgareis, pois que no podeis deixar de faz-lo, Anna Albertini 
culpada, de facto, de um ato de homicdio. Contudo, sabeis, como eu o 
sei, que, houvesse tal ato sido praticado em outra poca
- embora sob as mesmas condies de choque e provocao t-lo-eis 
exaltado como um ato de virtude. Sabeis que tal ato talvez jamais tivesse 
sido praticado, no houvesse um guardio da lei conspirado, h muitos 
anos, no sentido de negar a Anna Albertini uma reabilitao legal. Mas 
quando vos retirardes para tomar vossa deciso, no podereis levar 
efetivamente em conta tal fato. Considerareis e creio que decidireis de 
maneira favorvel - os argumentos da defesa em favor de uma atenuao da 
pena, levando em conta a enfermidade mental parcial. Rejeitareis, por 
certo, a acusao de crime premeditado, compreendendo que a evidncia do 
trauma e da obsesso o excluem da jurisdio deste tribunal.

Mas a tragdia, senhores - a amarga tragdia de vossa situao  que 
deixareis de fazer justia no por falta de conhecimentos
165
ou de boa vontade, mas porque nossa lei jamais definiu, 
adequadamente, a natureza da responsabilidade moral, pois que sua 
evoluo no acompanhou as descobertas da psiquiatria moderna quanto ao
que concerne s complicadas enfermidades da mente humana.
Que podereis fazer, dedicados como sois  verdade e  justia,
mas sabendo que estas se encontram alm de vossos anseios mais
nobres? Espero possais definir este ato nos termos mais 
clementes sancionados pela lei. Imporeis, estou certo, uma pena mnima, 
no s quanto  durao, mas tambm quanto ao lugar e s condies. Se
deveis encarcerar esta jovem, que  ainda apenas uma criana, que
no o seja numa casa de correo, mas num lugar em que possa
encontrar amor, desvelo e uma esperana de cura das enfermidades
que recaram sobre ela. . . 
Pela primeira vez Rienzi hesitou. Seus ombros tremeram, e ele
ficou, um momento, cabisbaixo, e esforando-se por dominar-se. Depois, 
endireitou o corpo e abriu os braos, num apelo final e apaixonado:
- Que mais posso dizer, senhores? De que outro modo poderei
mostrar-vos a maneira de harmonizar a fria irracionalidade da lei
com a verdade e a justia a que o instinto humano aponta com infalvel 
certeza? Como vs, sou um servidor da lei e, como vs, sinto~me,
neste momento, envergonhado de minha servido. Deus nos ajude a todos!
Sem proferir outra palavra, voltou-se, dirigiu-se  sua mesa e
sentou-se, afundando o rosto nas mos.
Foi um momento magnfico, um instante de penetrao, como
os que os grandes pregadores, s vezes, impem ao seu auditrio. O
paradoxo da condio humana foi subitamente posto a nu, bem como
o que h nela de pattica, pelo que h de lamentvel e de macio
terror nas conseqncias da imperfeio mais banal. No tribunal,
uma mulher ps-se a soluar, espasmodicamente. Ninette enxugou
os olhos, e o velho Ascolini assoou ruidosamente o nariz. O presidente, 
de cabelos brancos, limpou os culos, e seus assistentes procuraram em 
vo disfarar a emoo que aquele jovem advogado lhes
causara. S Anna Albertini permanecia imvel e distante, alheia ao
alto clima emocional da cena.
O presidente inclinou-se em sua cadeira:
- Dr. Rienzi...
Rienzi levantou a cabea, com ar vago, e todos viram que ele
tinha o rosto mido de lgrimas.
- Peo-lhe ... peo-lhe que me perdoe, Sr. Presidente.
O presidente fez com a cabea um gesto de simpatia:
166

Esta corte compreende que o advogado da defesa se encontra sob grande tenso, mas  de praxe, aps terem 
usado da palavra, o promotor e o advogado da defesa, que se d aos acusados a oportunidade de fazer alguma 
declarao pessoal.

Rienzi lanou um olhar a Anna Albertini e, depois, abanou a cabea:

- Dispensamos o privilgio, Sr. Presidente. Nada h a acrescentar  nossa defesa.

- A corte retira-se para deliberar.

Mal o presidente se levantou, ouviu-se uma voz histrica de mulher, a gritar do fundo do tribunal:

- Dem-lhe a liberdade! Acaso ela j no sofreu bastante? Demlhe a liberdade.

Dois policiais correram para a mulher, mas, antes que chegassem at ela, toda a assistncia j estava a repetir 
o grito, a bater os ps e a bradar, num, assomo de vergonha, piedade e frustrao:

- Dem-lhe a liberdade! Dem-lhe a liberdade!

Em meio  desordem que se seguiu, os juzes deixaram a sala apressadamente, Anna foi reconduzida  cela, e 
Ascolini fez com que Valria, Ninette e Landon entrassem no recinto reservado do tribunal, onde os quatro 
ficaram junto de Rienzi e de seus colegas, a observar, com leve espanto, a maneira pela qual os policiais 
evacuavam o Povo, como carneiros, atravs da antecmara, em direo  rua, enquanto os gritos eram cada 
vez mais altos e ferozes:

- Dem-lhe a liberdade! Dem-lhe a liberdade!

Por fim, as portas se fecharam e eles ficaram a ss com seus dramas pessoais, cheios de confuso e 
perplexidade. Durante um momento, ningum proferiu palavra; depois, Ascolini lanou os braos em torno de 
Carlo e abraou-o  maneira meridional, ardente:

- Maravilhoso, meu rapaz, maravilhoso! Sinto-me orgulhoso de voc! Voc ainda far grandes coisas, mas 
talvez jamais depare nos prximos vinte anos com um momento como este! Veja-o, Valria! Veja o homem 
com quem voc se casou! No se sente orgulhosa dele?

- Muito orgulhosa, papai.

com a experimentada seduo de uma atriz, abraou-o e coloulhe  face os lbios frios. Landon, que se achava 
bastante prximo, pde ouvir-lhe as palavras:

- Voc venceu, Carlo, No lutarei mais contra voc. Prometo-lhe.

Havia um infinito cansao no sussurro com que ele respondeu:
- Havia necessidade de tanta coisa, Valria? Havia necessidade de tudo isto?

167
Depois, beijou-lhe de leve a face e acercou-se dos outros com
um sorriso fatigado, para receber seus cumprimentos. O promotor
apanhou os seus papis e aproximou-se do grupo, com sua cordialidade 
profissional:
- Meus cumprimentos, Rienzi! Foi a melhor maneira de conduzir uma causa 
m que j vi em muitos anos! - Voltou-se com um sorriso, para Ascolini: - 
Um discpulo de classe, hein, 
doutore?
Ns, velhos rates, temos de aprender novos truques, para que 
possamos enfrent-lo!
Rienzi enrubesceu e murmurou, vagamente:
 muita bondade sua!
De modo algum, meu caro colega! O senhor o merece. E
se sair muito bem deste caso. A imprensa o apoiar em cheio. O
presidente-tampouco  homem que viva a dispensar cumprimentos
 toa. Dentro de uma ou duas semanas, o senhor ter em mos um
nmero de causas muito maior do que aquele a que poder atender!
Rienzi sorriu, com ar triste:
- Ainda no sabemos qual a deciso.
- Tolice, meu caro colega! - respondeu, a sorrir, o promotor,
dando-lhe uma palmadinha nas costas. - A deciso no tem importncia. O 
que conta  o seu xito, e o senhor fez uma estria 
surpreendente.
Quando o promotor se afastou, Ascolini comentou, irritado:
- Esse sujeito  um idiota! No lhe d ateno.
- Ele quis ser amvel - respondeu, encolhendo os ombros,
com ar absorto, Rienzi. - Diga-me, doutore: qual ser, na sua opinio,
o resultado?
Ascolini contraiu os lbios finos e, depois, respondeu, pesando
as palavras:
- Penso que voc tem boas possibilidades. As provas mdicas
atuam fortemente a seu favor. Voc fez bem em sublinhar em sua
defesa, o dilema judicial. Isso sempre predispe o jri a encarar com
simpatia o acusado. Por outro lado, o judicirio est sempre preocupado 
com a. questo de precedente legal. No pode encarar, nem
dar a impresso de que est encarando com tolerncia a questo da
vendetta. Eu no gostaria de estar, neste momento, no lugar 
desses
juzes. Mas voc, meu rapaz, se saiu estupendamente bem. - Sorriu,
com certo constrangimento, e ajuntou: - Se voc no empenhou o
relgio, gostaria que mo devolvesse.
- O senhor me fez muito feliz, dottore - respondeu, com ar
grave, Carlo. - Mas, na verdade, eu vendi o relgio. Sorriu, com
expresso infantil. - Esta foi uma aventura bastante cara para mim.
- Mas que lhe render juros cem vezes maiores - ame caiorosamente, 
Ascolini. - E voc, ento, me comprar outro relgio.
Rienzi voltou-se para Ninette e Landon:
- Devo muito a voc, Peter... E a voc tambm, Ninette.
Voces foram mais pacientes comigo. . . conosco, do que 
merecamos.Landon corou e respondeu, em voz baixa:
- Deixemos isso para mais tarde, Carlo. Eu tambm tenho algo a dizer.
Houve uma pausa breve, embaraosa, mas, antes que algum
encontrasse palavras para quebr-las, o Prof. Galuzzi acercou-se deles,
vindo da cela em que se encontrava Anna Albertini.
Como est Anna, professor? - indagou, ansioso, Rienzi.
Melhor do que esperava. Dei-lhe um sedativo ligeiro e um
tranqilizante. Atravessaremos o resto do dia sem qualquer 
complicao. Eu gostaria de falar, com o senhor, dentro de alguns 
momentos,
em sua cela. Foi estupenda a sua defesa, meu jovem. Eu prprio me
senti bastante comovido.
- E concordou com ela, professor?
- De um modo geral, concordei. A definio de responsabilidade criminal  
um dos grandes problemas da medicina legal. O
interrogatrio a que submeteu o Dr. Landon lanou bastante luz sobre
a questo. Com sua permisso, gostaria de referir-me a ele num 
trabalho que estou preparando para o Registro Mdico.
- Isso  uma grande honra, professor.
- De modo algum. O senhor prestou grande servio a todos ns.
Rienzi hesitou um momento e, depois, disse sem rebuos:
- Vo pedir-lhe, naturalmente, que faa um relatrio sobre
este caso, e que apresente recomendaes quanto ao tratamento a que
dever ser submetida a minha cliente. Seria indiscrio perguntar-lhe
de que modo o senhor o far?
Absolutamente - respondeu, em tom cordial, Galuzzi.
Sugerirei o mnimo encarceramento possvel, de preferncia numa de
nossas mais modernas instituies psiquitricas, onde as pacientes 
desfrutam de grande grau de liberdade, conforto e atividade construtiva.
Recomendarei ainda observao regular, anlise e tratamento mdico.
- E far tais recomendaes mesmo que percamos a causa?
- Certamente. Devo ressaltar, no entanto, que a deciso final
cabe ao tribunal.
- Sei disso. Espero, porm, que o senhor compreenda que me
interesso pelo futuro dessa moa.
169
 Terei prazer em mant-lo informado de seus progressos. Agora, peo que 
me desculpem, pois  provvel que eu seja chamado, a
qualquer momento, para conferenciar com os magistrados.
Fez ligeira e cerimoniosa curvatura e deixou-os. Rienzi seguiu-o
com o olhar, ansioso. Valria observou astutamente o marido, mas
nada disse. Ascolini comentou:
- Cada qual em sua profisso, meu rapaz. Sua cliente estar
em boas mos:
- Eu sei - respondeu, macambzio, Carlo. - Eu sei.
Valria, com um leve toque de irritao na voz, indagou:
- Durante quanto tempo teremos de esperar os juzes? No
podemos ficar a manh inteira parados aqui.
- Demoraro um pouco, penso eu - disse Carlo. - Por
que vocs no saem para tomar um caf? Se eu souber onde esto,
mandarei algum cham-los, quando eles voltarem.
- Por que no vem conosco, Carlo?
- No, minha querida. Esperarei aqui. Quero falar com Anna.
Talvez no haja quase tempo ... depois.
- Estaremos no Caff Angelo - disse, com vivacidade, Ascolini. - ] o 
lugar mais prximo. Acalme-se, rapaz; logo isto estar terminado.
Quando deixaram o tribunal, Valria comentou, num curioso tom de piedade:
- Ele se sentir solitrio, sem a sua virgenzinha...
- Ele est solitrio h tanto tempo - respondeu, spero, Ascolini - que 
provavelmente j se habituou. Voc  uma tola, Valria.
Ele sobreviveu  crise; mas a sua ainda est por chegar.
- Estamos passando por um momento difcil, dottore - interveio, com tato, 
Ninette. - Todos ns precisamos ter pacincia uns
com os outros. Por que no vo, vocs dois, dar uma volta, indo
depois encontrar-nos no Caff Angelo?
Aquela era a deixa de Landon - e ele a aproveitou de bom
grado:
- Faamos isso, dottore. Eu bem que poderia tomar algo mais
forte que caf.
As duas mulheres os deixaram, e eles puseram-se a andar, vagarosamente, 
em torno do permetro ensolarado do Campo. Ascolini
parecia cansado. Apoiava-se pesadamente ao brao de Landon e
falava de modo hesitante, pensativo, como se toda a sua 
incisiva confiana o houvesse abandonado.
 - Valria comea a sentir cimes, o que  muito bom. Mas
no basta. Ela precisar ser, tambm, generosa. Quando isto 
terminar,
170
Carlo estar exausto e solitrio; ter necessidade de bondade e 
considerao.
- E, acaso, Valria poder dar-lhe isso?
- Espero que sim. Eles precisam de prtica e ... e de uma
certa humildade. Ela, como eu,  deficiente em ambas as coisas. 
Sinto-me preocupado, Landon. J sou bastante idoso para ver a magnitude
dos meus erros e velho demais para evitar as conseqncias. Vivi,
durante longo tempo, sem f. Agora comeo a ter medo da morte e
do.juzo divino.  estranho!
- E Valria tambm tem medo, pois no?
- Tem medo de outras coisas. De perder-me. De ser forada
a submeter-se a outros padres, diferentes dos meus. De perder a
fcil absolvio que encontra em mim.
- E de perder Carlo?
- Tem medo de que ele a rejeite ... o que no  bem a mesma coisa.
- Que a rejeite em troca de qu? De uma amante?
- No. Isso no a preocupar muito, creio eu. Justificaria as
suas prprias loucuras. A culpa de Carlo preservaria o poder que
ela tem sobre ele. E Carlo no  homem que possa encontrar felicidade 
numa ligao oculta. O perigo, para ambos,  mais sutil: que
Carlo possa encontrar dignidade e satisfao em objetivos 
aparentemente mais nobres, enquanto que ela ficaria sem dignidade, 
diante de
divertimentos j ranosos.
- O senhor est pensando em Anna Albertini?
- Isso  o comeo da coisa, embora no seja, necessariamente,
o fim.  uma empresa digna, como v: uma criatura extraviada a
ser socorrida e guiada a um porto seguro; a inocncia a ser 
protegida; a desprezada a ser tratada com carinho e reconduzida ao 
seu
desenvolvimento normal. Haver outros casos, em nmero cada vez
maior,  medida que ele for ficando mais velho: impostoras, 
assassinos, maridos violentos, esposas infelizes com os quais ele se 
ver,
em maior ou menor grau, envolvido. Posso compreender isso bem.
- Sorriu entredentes, soturnamente: - Desempenhei, com um nmero 
demasiado grande de mulheres, o papel de libertino alegre; 
no
entanto, houve uma ou duas delas para quem fui o cavalheiro 
plido
e galante, que as levava para casa e as depunha nos braos de 
suas
mames, ao invs de lev-las comigo para a cama.  assim que ns
nos justificamos, Landon. O senhor o sabe to bem quanto eu.
Undon sabia-o demasiado bem, mas no sabia o que podia
fazer para remedi-lo. O casamento, na melhor das hipteses, era
um negcio incerto, e a virtude empertigada podia no raro destru-lo
171
mais rapidamente do que o pecado amvel. A dependncia
mtua era um hbito, o cuidado recproco uma prenda de difcil
cultivo, mas ambos deviam comear num momento de necessidade
comum, e Rienzi e sua esposa pareciam ter-se afastado muitssimo
disso, Foi o que disse a Ascolini, que concordou com um aceno 
grave
de cabea:
- A necessidade a est, mas Carlo se cansou de diz-lo, e
Valria jamais apreendeu tais palavras. Procurei, ontem  noite, 
ensin-las a Valria,*mas no estou certo de que ela haja compreendido.
Talvez Ninette seja mais bem sucedida.
- Assim o espero.
- A dificuldade  que no resta muito tempo. A carreira de
Carlo comeou hoje. Logo, comear a rolar cada vez mais rapidamente, 
como um trem. Depois disso, no haver mais vagares para
jogos amorosos.
Depois desse melanclico sumrio, pouco mais havia a dizer, de
modo que entraram num bar e tomaram juntos uma dose de conhaque.
Feito isso, voltaram lentamente, ao Caf Angelo, a fim de 
encontrar
Ninette e Valria.
Para alvio de Landon, encontraram-nas a conversar cordialmente diante de 
suas xcaras de caf. Valria estava plida, 
submissa
e, parecia, estivera chorando; mas, ao v-los, esboou um sorriso
lvido:
- Ninette foi bondosa para comigo, Peter. Eu os tratei a ambos
muito mal, mas espero que, doravante, possamos ser amigos.
- No falaremos mais nisso - disse, com firmeza, Ninette.
Isto est acabado... encerrado de vez! E esta noite, teremos
uma comemorao.
- Uma comemorao? - repetiu Ascolini lanando um olhar
astuto  filha. - Onde?
- Na villa - respondeu, em voz baixa, Valria. - Pela volta
de Carlo. L estaro Peter e Ninette, e voc, papai, poder convidar
o Prof. Galuzzi e qualquer outra pessoa que voc julgue que Carlo
gostaria de encontrar. Telefonei  Sabina, e tudo j est sendo 
providenciado. Precisamos de uma coisa assim, papai.
Ascolini sorriu, feliz:
- Faremos uma festa, minha filha, que acabe com todas as
festas. Deixe a lista dos convidados a meu cargo. Voc tem 
certeza
de que eles, l em casa, estaro preparados para receber-nos?
- Plena certeza, papai.
- timo. Deixe-me, agora, escrever os nomes. Depois, pedirei
emprestado o telefone do Angelo, e tudo estar organizado.
Dez minutos depois, estava ele empoleirado, como um gnomo
jovial, sobre um alto tamborete, a convidar todas as 
notabilidades de
Siena a que participassem do triunfo obtido por sua famlia,
Na alva cela conventual, Anna Albertini achava-se mergulhada,
tranqila, num sono conseguido  custa de drogas, enquanto Carlo
Rienzi velava a seu lado. Tinha o rosto plido, mas repousado, 
numa
estranha e vazia beleza. As mos pousadas sobre o cobertor 
cinzento,
eram lassas e abandonadas como as de uma criana adormecida. Os
cabelos, desfeitos sobre o travesseiro, formavam um escuro 
lialo em
torno de sua testa de marfim. Seus seios, pequenos, virginais, 
arfavam no lnguido ritmo do repouso. Paixo, culpa e terror eram 
coisas
estranhas quele sono, e Carlo Rienzi, no penltimo momento de
sua batalha, sentia-se flutuar como uma palha na gua estagnada 
da
estreita cela.
Tudo o que ele podia fazer tinha sido feito. Tudo o que prometera, 
cumprira. O resultado jazia agora nas mos da Deusa Cega.
Quanto a ele, sentia-se exausto, vazio e ressequido como um 
regato
de vero; mas, ao fitar aquele rosto plido, inocente, sentiu o 
primeiro e grato arroio da ternura irromper dentro dele, como uma
fonte que surgisse de ressequido areal. Foi uma espcie de refrigrio, 
aps a rida disciplina que se impusera a si prprio - e,
movido por sbito impulso, estendeu a mo, a fim de afastar uma
mecha de cabelo que cara sobre a testa da jovem.
Mas retirou-a, com sbito sentimento de culpa, ao ouvir algum
abrir o ferrolho; depois, a porta se abriu e o Prof. Galuzzi 
foi inuoduzido na cela.
Galuzzi observou-o, um momento, com olhos astutos, experimentados, e 
indagou:
- Como est ela, Dr. Rienzi?
- Dormindo tranqilamente - respondeu Rienzi, levantando-se e afastando-
se da cama.
Galuzzi apanhou a mo lassa da jovem, tomou-lhe rapidamente
o pulso e deps a mo sobre a coberta.
- Muito bem. Podemos deixar que ela durma um pouco. Penso que, agora, os 
juizes no tardaro. O senhor lhes deu muito o que
pensar, Dr. Rienzi.
- O senhor j conversou com eles?
- J. Dei-lhes minha opinio nos mesmos termos em que falei
com o senhor.
- Fico-lhe grato - disse Rienzi.
172 173
- Galuzzi fitou-o um instante, hesitando ante os sinais de fadiga
e tenso que se estampavam em seu rosto jovem, belo. Depois disse, 
pensativo:
- Acho, Dr. Rienzi, que o senhor ser, algum dia, um grande
advogado. Tem crebro para isso; possui as qualidades dramticas
necessrias,  sinceridade que chega quase  obsesso. Todos os 
verdadeiramente grandes as possuem: cirurgies, filsofos, inventores, 
juristas. Mas, como toda grandeza, isso requer disciplina.
- Que  que est procurando dizer-me, professor? - indagou,
calmamente, Rienzi. - Isso tem algo que ver com minha cliente?
- Bastante, creio eu - respondeu Galuzzi, com o mesmo ar
pensativo. - O senhor no est satisfeito com o que fez no tribunal... e 
duvido que qualquer outro advogado tivesse feito a metade
do que o senhor fez. Mas o senhor quer ir alm. Quer refazer a
vida de sua cliente, depois do julgamento.
Rienzi viu-se numa armadilha.
- Algum teria de faz-lo - respondeu, incisivo.
- Mas por que o senhor?
Rienzi encolheu os ombros, num ligeiro gesto de perplexidade:
- Colocado o caso nesses termos, mal sei o que responder-lhe.
Mas, no v o senhor que, at aqui, tive a vida dessa moa em
minhas mos? Ela dependeu inteiramente de mim. No posso simplesmente 
deix-la cair num lago, como uma pedra, e esquec-la. O
senhor certamente o compreende, pois no?
Galuzzi ignorou a pergunta e, por sua vez, fez-lhe outra:
- Esta  a sua primeira causa importante, pois no?
- Sim, senhor.
Durante um momento, Galuzzi nada disse, caminhando apenas
para junto da cama e ficando a observar a jovem adormecida. Depois,
com voz muito baixa, prosseguiu:
Haver muitas outras causas, Dr. Rienzi. Poder o senhor
conduzi-las todas como se prope conduzir o caso de Anna Albertini?~
- No, creio que no.
- Tomemos um cirurgio... e eu prprio pratiquei a cirurgia
durante longo tempo. Quantas vezes, uma vida humana no depende,
literalmente, de suas duas mos? s vezes, essa vida lhe escapa por
entre os dedos. Outras vezes, misericordiosamente, ele a salva. 
Poder ele lamentar o que perdeu ou carregar, durante o resto da vida,
o fardo das vidas que salvou? Voltou-se e encarou Rienzi com viva
determinao: - Acaso est apaixonado por essa moa, Dr. Rienzi?
- Eu ... eu no creio.
Rienzi ficou um momento pensativo. Finalmente, admitiu, com, relutncia:
No. No tenho certeza.
Galuzzi afastou-se, dirigindo-se  janela. Decorrido um momento, tornou a 
acercar-se de Rienzi. Seus olhos revelavam piedade, e
havia brandura em sua voz:
Eu deveria ter desconfiado. Ningum poderia fazer a defesa
que o senhor fez, sem que o animasse alguma paixo.
Eu lhe disse que no tenho certeza - volveu Rienzi, com
certa irritao na voz.
Eu sei. Mas ela tem certeza disso.
Rienzi fitou-o, sobressaltado:
- O senhor quer dizer que ela est apaixonada por mim?
- Eu no disse isso. No creio, mesmo, que ela saiba o que
 amor. Mas os nicos objetos de paixo em sua vida - sua me,
seu marido, e at mesmo Belloni - desapareceram de sua vida. Sua
obsesso se fixou no senhor.
Rienzi tomou longo flego.
- Eu receava que isso acontecesse.
Galuzzi olhou-o com um meio sorriso nos lbios finos, entediados:
- Mas tambm se sente lisonjeado, hein? - sorriu entredentes,
jocosamente. - Se h algo que aprendi em vinte anos de psiquiatria
 isso, Dr. Rienzi: a mente humana jamais funciona de maneira
simples. Quando parece que assim , ento  que ela adquire a sua
mxima complexidade.  como aquelas bolas de marfim que os chineses 
talham de maneira to.habilidosa, umas dentro das outras.
Por mais que a gente se aprofunde na anlise, h sempre alguma
coisa nova que nos surpreende.
Para surpresa de Galuzzi, Rienzi sorriu e citou, despreocupadamente:
- Fui ao meu tio mandarim e indaguei-lhe acerca do amor.
Respondeu-me que consultasse o mago de meu corao. No se
preocupe muito com isso, doutor, talvez isso jamais acontea.
 - Mas se acontecer - volveu Galuzzi, com suas maneiras graves, 
acadmicas - se o senhor se meter em alguma complicao, as
conseqncias podero ser mais terrveis, para ambos, do que possa 
imaginar.
Girou nos calcanhares e retirou-se - e, quando a porta se
fechou, Carlo Rienzi sentou-se junto  cama e tomou nas suas a mo da 
jovem adormecida.
A polcia estava tomando todas as providncias para que no
houvesse distrbios, ao encerrar-se o julgamento de Anna 
Albertini.
174
175
As vias de acesso ao tribunal estavam sendo guardadas por policiais
em motocicletas. Havia guardas em todas as portas - homens 
corpulentos, munidos de curtos cassetetes, com pistolas visveis em seus
negros coldres de couro. A justia estava prestes a ser feita, e o povo
podia gostar ou no do veredicto - mas, de qualquer maneira, teria
de manter-se calado, pois que, do contrrio, haveria cabeas quebradas.
A corte  estava cheia de sussurros. At mesmo a luz parecia
mudado, de modo que as feies de cada um dos personagens
se achavam nitidamente traadas, como montanhas sob um cu tempestuoso. 
Rienzi estava de p Junto ao compartimento dos rus, a conversar em voz 
baixa, com Anna Albertini. Quando os juizes entraram, Rienzi lanou a 
Anna um sorriso encorajador, deu-lhe 
uma palmadinha na mo e dirigiu-se  sua mesa. O silncio, tenso e 
explosivo desceu sobre a sala, enquanto o presidente se sentava, pondo-
se, com enlouquecedora deliberao, a remexer em seus papis.
Decorrido um momento, falou:
Tenho presidido a muitas causas neste tribunal, mas afirmo,
que nenhuma delas lanou to pesado fardo sobre mim e meus colegas. No 
somos monstros. Somos homens dotados de compreenso, comiserao e 
simpatia humana. Mas, como to bem o afirmou o representante da 
Promotoria Pblica, representamos tambm aqui a lei. Somos seus 
mantenedores, seus intrpretes, seus rbitros. Baseadas em nossas 
decises, outras decises sero, mais tarde, 
tomadas. Os precedentes que criarmos influenciaro o curso da justia
mesmo muito depois de nossa morte. Se julgarmos mal ou 
insensatamente poderemos corromper a justia, em sua aplicao a muitas,
outras criaturas.
Fez uma pausa e lanou um olhar pelo tribunal - como se
fosse uma imagem, de cabelos brancos, da temperana e da razo
disciplinada.
- Se quiserdes um exemplo de como isso pode acontecer, a
o tendes, no caso presente. Houve um tempo em que a lei j no
funcionava neste pas. Um tempo em que os homens se achavam
perturbados pelas chamadas necessidades de guerra - em que o
tribunal era o conselho de guerra sumrio, quando aqueles que
diziam estar defendendo a justia imediata estavam, na verdade, 
usando de seu poder acidental, movidos por vingana ou por desejo de

erro 1: pgina 176

bems pessoais. O Direito foi pervertido pela poltica, pelo poder, pela 
conspirao deliberada. O crime pelo qual Anna Albertini foi julgada 
comeou nessa poca de desordem, mas. . . - Fez uma pausa e, depois, 
ajuntou, com firmeza: mas terminou numa
176
outra, em que o domnio da lei se acha restabelecido. Ora, Anna Albertini 
deve ser julgada de acordo com o Cdigo Penal.
Ningum proferiu palavra, mas sentia-se que perpassava pela sala como que 
um vago murmrio de interesse, como o rudo quase imperceptvel, 
produzido pelo encrespar das guas de um lago. O presidente volveu a 
pgina de suas anotaes e prosseguiu, grave:
- Contudo, como o advogado da defesa acentuou em sua eloqente 
argumentao, a lei leva em considerao no apenas o ato em si, mas a 
inteno, o motivo, a responsabilidade da pessoa que o pratica. A todas 
essas coisas, tanto os meus colegas como eu 
dedicamos a maior reflexo. A inteno, neste caso, era bastante clara:
assassnio por vingana. O motivo foi grande.. . maior do que 
qualquer um de ns poderia provar. Mas, dizer-se que o motivo escusa
o ato,  abrir a porta a toda a espcie de violncia,  restaurar,
neste pas, a antiga e horrvel prtica da vingana tradicional. A
questo da responsabilidade  muito mais complexa - e este ponto
foi por ns debatido longa e meticulosamente. Em momento algum a defesa 
insinuou que Anna Albertini se encontrasse insana no  momento em que 
praticou o seu ato. Em momento algum se afirmou que ela no estivesse em 
condies de ser julgada por este 
tribunal. A defesa argiu, de maneira bastante pondervel, que o choque 
traumtico, causado pela morte de sua me, a deixou num estado de 
esprito em que o tempo e as circunstncias no existem para ela. A 
opinio
da defesa conta com o apoio, pelo menos em parte, de testemunhos
mdicos especializados. A partir deste ponto, o advogado da defesa
lanou mo - com considervel habilidade forense - de dois argumentos. 
Afirmou, primeiro, que o ato criminoso praticado por Anna Albertini tinha 
o mesmo carter, tanto em relao  lei como  moral, como se tivesse 
sido praticado na ocasio da morte de sua me. Um psiquiatra talvez 
pudesse elaborar, baseado nesse ponto, uma hiptese plausvel, mas. . . - 
ajuntou, Com singular deliberao -  no apenas minha opinio, como 
opinio de meus colegas, que essa hiptese no tem valor perante a lei. 
Seu segundo argumento - o de que o estado da acusada representava uma 
enfermidade mental e que, por conseguinte, sua responsabilidade 
criminal se achava diminuda - foi muito mais convincente e, ao chegar 
nossa deciso, o levamos devidamente em conta. Levamos tambn~
em considerao o terrvel motivo que precedeu ao ato, embora o motivo 
datasse de muitos anos. Levamos ainda em conta os muitos anos de tormento 
mental por que passou essa jovem, o malogro de seu casamento e o dbio 
futuro que agora a aguarda.
177
Deteve-se, volveu a ltima pgina de suas anotaes, concentrou-se um 
pouco e, a seguir, em tom menos ardente, ps-se a proferir sua deciso:
 - A Promotoria solicitou um veredicto baseado em homicdio premeditado. 
A nosso ver, essa acusao  demasiado grave para que deva ser mantida. 
Baseamo-nos, pois, em acusao menos grave.
Anna Albertini! Esta corte a considera culpada de homicdio em  grau 
mnimo, praticado em estado de enfermidade mental parcial, pelo que a lei 
prescreve uma pena de priso que vai de trs a sete anos.
Em vista de todas as circunstncias atenuantes, decidimos impor-lhe
a pena mnima de trs anos, que dever ser cumprida em instituio ou 
instituies que possam ser determinadas, de tempos em tempos, por nossos 
conselheiros mdicos.
Mal tais palavras foram proferidas, Carlo Rienzi, inclinou-se pesadamente 
em sua cadeira e afundou o rosto nos braos. Anna Albertini permaneceu 
imvel no banco dos rus, plida, fria e 
virginal, enquanto a assistncia prorrompia em tumultuosa ovao, que nem 
mesmo os policiais, atarantados, conseguiram conter.
178
- Amanh - disse, com firmeza, Ninette - faremos as malas e iremos 
embora. Casaremos em Roma e arranjaremos uma villa nas imediaes de 
Frascati, uma casa com jardim e paisagem, onde voc possa estudar e eu 
possa pintar. Temos necessidade disso, chrri. Gastamo-nos demais neste 
lugar. J  tempo de partir!
Caminhavam pelo jardim da villa de Ascolini, a observar a luz estender-
se, por sobre o vale, para o ocidente, enquanto as cigarras formavam o 
seu coro estridente e um pssaro chilreava 
languidamente em meios dos arbustos. Carlo dormia. Ascolini cochilava em 
sua
biblioteca, e Valria desempenhava o papel do chatelaine diligente, 
arranjando flores nos vasos, vociferando contra as criadas que, na 
cozinha, preparavam a festa da noite.
Apesar dos protestos de Landon e Ninette, Ascolini insistira para
que fossem diretamente do tribunal para a villa. Tambm Valria 
suplicou urgentemente apresena de ambos. Dir-se-ia tivessem medo
de estar a ss uns com os outros, como se necessitassem de um 
catalizador para iniciar o lento processo de restaurao e unio entre 
si.
Landon e Ninette sentiam-se cansados e ressentidos mas 
Consolavam-se com a idia de que, na manh seguinte, se libertariam das 
obrigaes de cortesia e estariam livres para dedicar-se a seus assuntos 
privados.
Depois do drama do tribunal e da confuso subseqente, acolhiam com 
satisfao a calma que o campo lhes proporcionava. Valria dirigiu o 
automvel, Carlo sentou-se a seu lado, exausto e taciturno, enquanto que 
Ascolini se acomodou no assento de trs, rememorando os triunfos daquela 
manh. Depois, tambm ele mergulhou em silncio, enquanto os vinhedos e 
os trigais iam ficando para trs, e as folhas das oliveiras pendiam, 
empoeiradas e imveis, sobre as encostas dos montes.
179
Almoaram no terrao, palraram vagamente durante alguns momentos e, aps, 
se dispersaram. Carlo, achava-se nas garras de 
violenta reao. Valria conduzia-se com estudada discrio, e Ascolini 
simplesmente observava as manobras, como velho e fatigado guerreiro. A 
prpria situao de Landon foi resumida num veredicto de Ninette:
- Finita ta commedia! J  tempo de deixar todos os outros
e de viver para ns. Deixemo-los a desempenhar o seu prprio eplogo. No 
devemos esperar a cena final.
E, assim, no longo entardecer, caminhavam pelos jardins da villa, a 
conversar no tom feliz, inconseqente, de amantes recentes.
Falaram de Frascati e de como l deveriam viver - no encravados
entre as villas principescas dos Conti, dos Borghese e dos Lancellotti,
mas em alguma pequena propriedade situada nos recncavos dos
Montes Albanos, talvez dotada de uma vinha e com um caseiro que
tivesse uma horta, pela qual pudessem passear e observar o pr do
sol sobre 4 extenso distante da Roma imperial. Falaram de uma
exposio de quadros de Ninette, dos amigos que viriam compartilhar de 
sua vida pastoral e de como os seus filhos talvez nascessem
cidados do Velho e do Novo Mundo.
Depois, quando as sombras comearam a alongar-se, Ascolini
juntou-se a eles, animado como um grilo depois de sua sesta.
- Um grande dia, meus amigos! Um grande dia! E temos uma
dvida para com vocs, pela sua participao nele. Vocs sabem o
que precisamos, agora. - Lanou um polegar enftico em direo
da casa. - Um filtro de amor para aqueles dois. No riam. As avozinhas 
desta regio ainda hoje os preparam para os camponeses 
apaixonados. Ns, claro, somos demasiado civilizados para tal tolice,
mas ... ela no deixa de ter sua utilidade.
Ninette riu e deu uma palmada no brao do velho:
- Pacincia, dottore! Por mais que o senhor o incite, aquele
burrinho s caminhar de acordo com a sua prpria andadura!
Ascolini esboou um sorriso e lanou uma pedra contra uma
lagartixa que fugia precipitadamente.
- No sou eu quem est impaciente, mas Valria. Est ansiosa, agora, por 
uma reconciliao. Exige provas de perdo. Mas eu
digo a mesma coisa: -Piano, piano! Palavras suaves, mos suaves,
quando um homem est assim cansado. - Riu, feliz, entredentes.
- Comigo, era diferente. Depois de toda grande causa, eu urrava,
feroz, por uma mulher! Talvez Carlo tambm chegue a isso ... quando
tirar Anna de seu sangue.
- Para onde eles a mandaro, o senhor sabe?
- No est ainda decidido. Levaram-na para San Gimignano,
mas sei que Galuzzi tem esperana de transferi-la para as Irms 
Samaritanas, em Castel. Gandolfo: Existe l um grande sanatrio para.
enfermidades mentais. Muito bonito, creio eu. E, tambm, eficiente.
- Mudou de assunto com um alar de ombros, e indagou: - E
que faro vocs dois, agora?
- Partimos para Roma - respondeu Landon. - Logo que
possamos fazer as malas e fechar o atelier de Ninette.
- Espero possamos v-los l. Ns, tambm, partimos dentro
de alguns dias. Quero que Carlo tome conta de meu escritrio de 
advocacia.
- E ele gosta dessa idia?
- Ela o seduz, penso eu, agora que podemos encarar-nos em
termos iguais. Da minha parte, necessito de folga, para pr a minha
vida em ordem. Se esses dois pudessem sentir-se satisfeitos juntos,
eu tambm poderia comear a ser feliz. - Apanhou um pedao de
galho de um ramo pendente, sentou~se num banco de pedra e ps-se
a traar, lentamente, uns riscos no cho de cascalho. - A vida 
uma comdia complicada, meus amigos. Se me tivessem dito, cinco
semanas antes, que eu chegaria a isto. . . que estaria fazendo papel
de cupido, sonhando com netos e pensando at em confessar-me, eu
lhes teria rido na cara! Mas foi o que aconteceu. Pergunto-me, s
vezes, se tudo no ser demasiado fcil, e se no haver atrs da
esquina um sujeito com um papel na mo, para ajustar contas com a gente.
- Mas por que haveria de haver, dottore? - indagou com
ardor, Ninette. - A vida no  um livro de escriturao mercantil.
As vezes, h ddivas cujo nico preo  a gratido.
- As vezes - disse, secamente, Ascolini. - Talvez eu seja
um sujeito desconfiado que no merece a sua sorte.
- Ento, deixe que lhe conte a respeito da nossa - volveu,
com um sorriso, Ninette. - Landon e eu vamos nos casar.
Ascolini ficou um instante a fit-la. Depois, seu velho e astuto
rosto iluminou-se de puro deleite. Passou-lhe o brao pela 
cintura
e ps-se a valsar com ela pela alameda:
- Maraviglioso! Estupendo! E vocs tero um monte de filhos,
todos belos, E voc ser a me mais formosa do mundo! Tudo isso
e, ainda por cima, talento! Dr. Landon, o senhor  um homem afortunado! 
Fortunatissimo! E deve tudo isso a ns! Se no o tivssemos
mandado de volta a Siena com a pulga atrs da orelha, o senhor 
ainda
estaria brincando de esconde-esconde com as modelos e as telefonistas. 
Mas que bom pressgio! H uma dupla razo para a festa
desta noite. - Ofegante e excitado, tomou-os pelo brao e conduziu-os,
180  181
pelo caminho de cascalho, em direo da casa. - Voc precisa contar a 
Valria, minha filha. E o senhor, Dr. Landon, far uma
pequena prdica a Carlo sobre o casamento, as alegrias da paternidade, e 
toda a satisfao que sente ao chegar a isso. Quando chegar
o primeiro beb, faremos um grande batizado, e eu garanto a presena de 
um cardeal de chapu vermelho para fazer a coisa para
vocs. E vocs precisam escolher-me para padrinho, para que eu possa
cuidar da f e da moral do pequeno.
- Primeiro teremos de reform-lo, dottore!
- Nessa altura, minha filha, eu talvez j esteja usando uma
estamenha e batendo com um tijolo no peito, como So Jernimo.
Era um quadro cmico, que os fez rir. Estavam ainda a rir,
quando chegaram ao terrao, e Ascolini gritou a um criado para que
trouxesse vinho e copos. Valria saiu da casa e juntou-se a eles e,
quando Ascolni lhe deu a notcia, seus olhos se encheram de lgrimas, ao 
mesmo tempo que abraava Ninette com ardor.
Sua cordialidade causou surpresa a Landon. A converso de
Ascolini era coisa, fcil de aceitar-se. Ele estava envelhecendo 
e,
diante do grande talvez, agarrava-se s certezas simples da vida:
orgulho e ironia eram uma dieta demasiado rala para os anos de
inverno. O ardor estava sendo disciplinado pelos simples 
arrefecimento da velhice; sua astcia inata e sua perversa experincia 
estavam amadurecendo e convertendo-se em sabedoria. Mas, quanto a
Valria, o caso era diferente. Ela era ainda jovem, ainda em 
ascenso, iniciada demasiado cedo nos prazeres fceis, e Landon no 
podia
compreender uma transformao assim to sbita.
Mas, lentamente, comeou a perceber. Ali estava toda a natureza daquele 
povo. Ali estava o paradoxo essencial de seu 
carter e
de sua histria. O velho Cardeal de Bellay o chamou de peuple de
grandes enfants ... Cest une terrible bte, que cette ville-l, 
et sont
tranges cervaux ... uma cidade terrvel e bestial... netos... crebros 
estranhos ... O seu prprio San Bernardino, psiclogo bastante moderno do 
sculo XV, caracterizou ainda melhor esse povo:
Compreendo as fraquezas de vosso carter. Deixais uma coisa e
depois tornais a essa mesma coisa; e, vendo-vos agora to divididos
e tomados de tantos dios, creio que, no fsseis muito, muitssimo
humanos, tereis terminado por causar a vs mesmos algum grande
dano. No obstante, digo que vossa condio e vs prprios sois bastante 
mutveis. E quo mutveis sois, mesmo quanto ao mal, pois
que logo tornais ao bem!
Era uma gente muito humana: demasiado humana para que os
espritos mais frios pudessem viver confortavelmente em companhia
dela. - Eram violentos por natureza, incapazes de fazer concesses.
o mesmo molde produziu o mstico e o homicida, o assassino poltico e o 
asceta que tomava de assalto o Reino dos Cus.
O vale, embaixo, enchia-se, agora, de sombras, mas o lugar em
que estavam continuava banhado pela luz do sol - um smbolo,
pensou Landon, dos sentimentos mais gentis que pareciam envolver
os membros da famlia Ascolini. Perguntou a si prprio se no 
teria,
afinal, descoberto a raiz do problema de Carlo: se ele no 
compreenderia muito pouco Valria e o pai, exigindo demasiado deles uma 
constncia romana, uma retido romana - quando tudo o que
eles tinham a oferecer-lhe era apenas coragem, um ardor 
flutuante
e a grande loucura visionria de outros homens.
Foi trazido o vinho e todos ergueram um brinde  sua felicidade mtua. 
Falaram, durante uns momentos, de coisas simples.
Depois, Valria levou Ninette para dentro, a fim de que esta 
escolhesse um vestido, enquanto Landon saa  procura de Carlo, em
busca de uma camisa para o jantar.
Encontrou-o a esfregar os olhos num pequeno quarto que deveria ter sido o 
seu refgio, ao tempo em que a alcova conjugal 
era
demasiado fria para proporcionar-lhe conforto. Rienzi recebeu-o 
alegremente, acendeu um cigarro e disse rindo:
- H um comentrio para voc, Peter! Obtenho grande triunfo.
Meu nome aparecer em todos os jornais, e acabo desta maneira.
a dormir, de cuecas, num quarto de hspedes!
. - No tem importncia, rapaz. Voc ter uma grande noite 
sua frente.
- Eu sei - respondeu ele, franzindo, com desagrado, a testa.
- No sei, ao certo, se desejo enfrent-la.
- Tolice, homem! Far-lhe- bem. Ademais, foi um gesto amvel, e voc 
precisa aceit-lo amavelmente.
- Isso foi idia do velho, sem dvida.
- No, no foi. Foi de Valria.
Ele lanou a Landon um olhar rpido:
- Tem certeza disso?
- Claro que tenho. Ela e Ninette arranjaram a coisa entre
si. Ascolini apenas fez os convites, por telefone. Eu estava presente.
Devo saber, portanto.
- Ento ela quer, mesmo - murmurou, pensativo, Carlo.
- Quer o qu?
- Uma reconciliao. Est tentando refazer nosso casamento.
- ] o que ela quer, claro. Como voc sabe, no posso jurar
por ela, mas estou convencido de que ela  sincera nisso. Como 
que voc se sente a respeito?
183

Rienzi refletiu um momento, antes de responder; depois deitou-se de novo 
na cama e ps-se a lanar anis de fumaa em direo do teto.
- Eis a uma pergunta difcil, Peter - respondeu, finalmente.
Uma pergunta que no sei como responder. Algo aconteceu comigo, e eu no 
sei como explicar, nem mesmo a mim prprio.
- Mas  bastante simples, santo Deus! Voc est cansado, esgotado. Passou 
por uma grande batalha, num momento crtico de sua
vida. Agora, voc precisa de descanso e de um pequeno reajustamento.
- No, Peter.  mais do que isso. Veja! - Apoiou-se
sobre os cotovelos e prosseguiu, vivamente: Sabe como era que
eu costumava imaginar este dia.. . o dia do meu primeiro triunfo?
Eu lhe direi: exatamente como aconteceu no tribunal. A deciso, as
aclamaes, as congratulaes de meus colegas. A rendio de Ascolini. E 
depois? Depois, eu me voltaria para Valria, tom-la-ia, em
meus braos e lhe diria: A est! Apanhei as estrelas e as depus
em seu regao. Agora, deixe de criancice e venha para a cama, para
que nos amemos e geremos um filho! E ela acederia, feliz, e no
haveria mais brigas... salvo as discusses de amantes, que tambm
terminariam na cama.
-  exatamente isso que ela quer, neste momento. Se voc
no acredita, experimente!
- Eu sei - respondeu, desanimado, Rienzi. - No  preciso
que voc me diga. Mas ento voc no percebe? Eu j no quero
isso! J no tenho vontade. Voc sabe como .
Landon sabia, mas no conseguia encontrar palavras para dizlo a Rienzi, 
que se apressou a explicar, num rpido atabalhoamento de palavras:
- Quando eu cursava o primeiro ano de Direito, fizemos uma
grande festa. Foi na noite em que as notas foram fixadas e eu vi
que passara de ano. Embebedamo-nos, pusemo-nos a cantar, 
achando, todos ns, que a vida era maravilhosa. Depois, resolvemos 
terminar a noitada numa casa de mulheres, a maior e mais luxuosa
de Roma. Maravilhoso! ramos jovens, cheios de seiva, animados
pelo xito. Mas, quando l chegamos, oh ... no houve nada. Eu
no tinha medo, no era inocente, mas a coisa no passava de uma
fria transao. Demasiados ps tinham transposto aquela porta. 
Demasiados idiotas subido as mesmas escadas...
- E voc no foi para a cama?
Rienzi riu, de vis:
- No. Voltei para casa e fiquei de mos dadas com a filha
da senhoria, que era to inocente que achava que um beijo a deixaria 

184
grvida. - Seu rosto tornou a anuviar-se. - Mas, falando a srio, Peter, 
 isso o que sinto agora quanto a Valria. Falta-me entusiasmo. No
tenho interesse. Que  que fao?
Minta um pouco. D tempo ao tempo. Sopre a brasa at
que o fogo torne a acender-se.
Mas se no existe brasa, Peter? Apenas carvo e cinzas?
Ento voc est em maus lenis, irmo! No existe divrcio na Igreja, 
nem neste pas, e voc no tem talento para levar uma
vida dupla. Assim sendo, faa uma tentativa, homem, pelo amor de
Deus! Voc no  criana. Conhece as palavras. E as mulheres sentem-se 
felizes em acreditar naquilo que desejam ouvir.
Voc tem razo, claro - respondeu Rienzi, saltando da
cama e apagando o cigarro. - S que sou um mau mentiroso e Valria 
conhece as palavras de trs para diante. No obstante... vesti la giubba! 
Metamo-nos no disfarce e vejamos que espcie de pea
vamos representar! Agora, vamos ver se podemos encontrar uma
camisa para voc. - Remexeu numa gaveta e retirou uma bela camisa de seda 
creme, que jogou a Landon com um sorriso: - Use-a
no casamento, amigo, e erga um. brinde ao noivo relutante!
Era um gracejo de mau gosto, mas Landon deixou-o passar.
Aquela no era ocasio de fazer a Rienzi uma preleo sobre o
casamento e as alegrias da paternidade - de modo que deixou tambm isso 
de lado. Agradeceu-lhe o emprstimo da camisa e voltou
ao quarto de hspedes,a fim de preparar-se para o jantar. 
Perguntou
a si mesmo por que seria que Rienzi no dissera uma nica palavra
acerca de Anna Albertini. Seria possvel que sua histria de rapaz
estivesse se repetindo em sua fantasia? O homem envergonhado e
a virgenzinha plida de mos dadas no topo da escada, enquanto
o grande e depravado mundo cuidava de seus assuntos...
O primeiro ato do jantar de Ascolini constituiu verdadeiro xito. Mais de 
vinte pessoas se sentaram  mesa, em sua grande sala
de jantar: sbios locais e suas esposas, um membro da Cmara dos
Deputados, duas notabilidades jurdicas, o decano da imprensa de
Siena, o Prof. Galuzzi e uma surpreendente marquesa, frgil, como
uma boneca de Dresden, que repreendia Ascolini com a franqueza
de uma velha, amante.
Ascolini deu uma de suas exibies de bravata. Valria sorria e
dirigia todo o assunto com habilidade. Carlo desempenhava o seu
Papel com vago encanto, o que desarmava os homens e deixava as
mulheres a cantarolar intimamente de satisfao. Ninette, radiante,
185:
era assediada por senhores idosos que haviam descoberto, demasiado
tarde, o seu interesse pela pintura. Landon quase no tinha talento
para essa espcie de charada social, mas foi salvo de completo enfado
unicamente pelo Prof. Galuzzi, que se revelou no s um conversador 
amvel e espirituoso como um satirista dotado de grandes recursos.
Terminado o jantar, levaram os seus conhaques para o terrao
e ficaram a observar a Lua, que galgava lentamente as cumeeiras
distantes do Amiata. Os rouxinis de Valria no estavam ainda
cantando, mas Galuzzi era um contador de histrias divertido, e
Landon ouvia-o com ateno. Inevitavelmente, Galuzzi conduziu a
conversa para o caso Albertini e, aps um relancear de olhos 
cauteloso, para verificar se ainda estavam a ss, entregou-se a algumas
reflexes perturbadoras.
- Algum dia, Dr. Landon, este jovem Rienzi ser um grande
jurista. Mas h uma falha, em algum lugar, que no consigo localizar.
- Que espcie de falha?
- Como poderei defini-la? Uma confuso, um conflito ainda no 
solucionado.
- O conflito  bastante claro, penso eu. Trata-se de um casamento no 
muito feliz.
- J ouvi isso antes.  um caso comentado. E nota-se a 
incompatibilidade, mas no  a isso que me refiro. Estive a observ-lo
atentamente, em suas relaes com essa sua cliente. Relaes um
tanto curiosas, por assim dizer.
- Curiosas? Como?
- Da parte da jovem - disse Galuzzi, com cautela - ,
digamo-lo assim, normalmente anormal. A mente afetada procura
um foco em que concentrar suas faculdades dissociadas, um alvio
para o fardo de seus temores, suas frustraes, suas enfermidades.
Exige um bode expiatrio para suas falhas, um protetor para as suas
fraquezas, um objetivo para o seu amor doentio. Eis a o que Rienzi
se tornou para essa rapariga. O senhor sabe, to bem quanto eu,
como  que funciona essa espcie de transferncia.
- Carlo est perfeitamente ciente dessa parte, creio eu - atalhou, pouco 
 vontade, Landon.
- Sei que est ciente - volveu, acremente, Galuzzi. - Eu o adverti.
- E como recebeu ele tal advertncia?
- Muito bem. Devo acrescentar que sua conduta foi, do ponto
de vista profissional, impecvel. Mas  precisamente a que a falha
comea a revelar-se: uma certa arrogncia, uma atitude de posse,
186
uma convico sutil de que ele exerce uma influncia benigna sobre essa 
moa, uma presteza demasiado grande em assumir responsabilidades que se 
acham alm de sua funo.
Tudo o que Galuzzi dizia encontrava eco e assentimento por
parte de Landon. Mas o modesto sentimento de culpa que o assaltava
fez com que ele tentasse pelo menos uma leve defesa de Rienzi.
- Mas no  essa uma reao bastante normal? O primeiro
cliente, a primeira causa importante?
- De certo modo, . Mas h um outro elemento que no sei
como definir. - Galuzzi sorveu seu conhaque, pensativo e, depois,
acendeu um cigarro. E prosseguiu, lentamente: - Sabe o que acho
que , Dr. Landon? Um conto sobre a inocncia e o paraso perdido... 
Vejo-o sorrir... e o senhor pode muito bem faz-lo! Somos
cnicos, o senhor e eu. Em nossa profisso, temos de s-lo. Perdemos cedo 
a inocncia e raramente o lamentamos, enquanto no
somos velhos.  uma maneira ruinosa de viver, pois gastamos uma
vida inteira para voltar ao ponto de partida. Mas  uma maneira
muito humana - e, para todos ns, o nico meio que aprendemos
de tolerar-nos a ns prprios e aos outros. Chegamos, no fim, a
perdoar, porque no podemos suportar a vida sem que perdoemos
a ns prprios. Aprendemos a contentar-nos com pouco. - Fez um
largo gesto e ajuntou: - Mas por que deveria fazer-lhe uma preleo sobre 
a inocncia, Dr. Landon? O senhor tem tanta experincia
quanto eu. Indivduos como ns podem perceber uma virgem a vinte
passos de distncia, e descobrir um homem honesto com os olhos
fechados. No h muitos espcimes nem de uma coisa, nem de
outra! O mundo est cheio de demi-vierges e de homens pouco menos
que mentirosos. - Seu rosto tornou a anuviar-se, e prosseguiu: Rienzi no 
 mais inocente do que a maioria, mas ele jamais pde
perdoar nem suas prprias deficincias, nem as deficincias alheias.
Ele quer a Lua e tambm os seis pences. Quer ser amado por uma
virgem e consolado- por uma prostituta, porque cada uma delas, 
sua maneira, lhe d a iluso de virtude. Sua ambio  alimentada
e toda a sua carreira construda sobre os pecados dos homens. Mas
isso no basta. Ele tem de desempenhar o papel de sacerdote e
fazer doces prelees  sua cliente, na priso. Um sujeito assim 
inexpugnvel! Nada pode atingi-lo, porque tudo constitui alimento
para as suas iluses!
- De acordo com esse raciocnio - atalhou, sobriamente, Landon - nada 
pode faz-lo feliz.
- Concordo. Nada pode faz-lo feliz porque ele julga tudo 
luz do paraso perdido.
Abruptamente, Landon fez-lhe uma nova pergunta:
187
- O senhor est disposto a permitir que Rienzi se mantenha
em contato com essa moa?
Galuzzi tirou uma baforada em silncio e, depois, respondeu, lentamente:
- J pensei muito nisso. Duvido que eu pudesse impedir algo
que constitui um contato razovel entre advogado e cliente. 
Duvido,
tambm, que eu o desejasse fazer. At agora, Rienzi tem feito bem
 rapariga. Poder ainda ajud-la por muito tempo. De modo que
resolvi aquiescer.
- E como far isso?
- Estou procurando fazer com que Anna Albertini seja removida para uma 
instituio situada em Castel Gandolfo, nas imediaes de Roma. Isso 
poder levar ainda algum tempo. Por ora, ela
ficar sob os cuidados das Irms do Bom Pastor, que tm um sanatrio 
semelhante, mas menor, para doenas mentais, perto de Siena.
Eu j disse a Rienzi que ele poder visit-la logo que ela seja 
admitida.
Depois, desejo que ela seja deixada a ss durante algum tempo, 
para
que eu possa t-la sob o meu controle e ver qual o regime de 
anlise
e tratamento a ser adotado.
- E que tal pareceu a idia a Rienzi?
- Teve de aceit-la, mas no lhe agradou. - Galuzzi deu de
ombros, lanou fora o cigarro e permaneceu de p, a figura escura,
imponente, tendo por fundo a claridade da Lua que surgia. - Como
 que a gente descreve figuras para um cego? De que maneira pode
a gente lutar contra a poderosa magia dos que enganam a si prprios?
Sem meias palavras, Landon fez-lhe a ltima pergunta:
- O senhor acha que Rienzi est apaixonado por essa moa?
- Amor  uma palavra camalenica - respondeu Galuzzi,
absorto. - Suas cores abrangem uma gama de experincias diversas.
Quem poder dizer que, mesmo quando o consideramos da maneira
mais nobre possvel, no estamos amando a ns prprios?
Aps essa desoladora reflexo, deixaram o terrao e juntaram-se aos 
outros convidados.
Os presentes, agora, se dispersavam pela sala, formando pequenos grupos 
que, aps esgotar o seu estoque de amabilidades, se 
entregavam a comentrios de coisas locais e a reminiscncias 
provincianas.
Landon socorreu Ninette de um poltico palrador e sugeriu que ambos
voltassem para Siena com o primeiro grupo que se retirasse. Carlo, 
ergueu-se, no mesmo instante, com um copo na mo, e ops-se a tal 
sugesto:
- Tolice! Vocs no podem ir embora ainda! Vamos desembaraar-nos desse 
bando enfadonho e terminar a noitada juntos.
Depois, eu prprio os levarei para casa.
188
Tinha os olhos vidrados, a voz arrastada, e Landon no tinha a mnima 
inteno de permitir que ele se aproximasse de um automvel. Por isso, 
sorriu:
- Esta noite, no, Carlo, Voc est cansado, um tanto alto
e j  hora de ir para a cama!
- Para a cama? - repetiu ele, esboando, embriagado, um
sorriso, e tomando outro trago de bebida. - Todos querem que eu
v para a cama! Valria, o velho e, agora, vocs! Ningum me pergunta o 
que eu quero. No passo de um garanho, eis tudo! Um
nobre animal de reproduo que tem de exercer suas funes! Elevou a voz 
e um pouco de bebida caiu de seu copo sobre o assoalho
polido. - Encha a casa de advogados... de grandes advogados,
como Ascolini e como eu! ...
J era tempo de fazer algo. Landon tomou-o firmemente pelo
brao e conduziu-o para a porta, falando-lhe, jocosamente, da melhor
maneira possvel:
- Essa  boa, Carlo! Ningum deseja que voc faa coisa alguma que no 
lhe apetea. Ninette e eu ficaremos aqui, mas voc
precisa ficar um pouco mais sbrio.
- Quem quer ficar sbrio? Este  um grande dia. Eu sou um
sucesso! E vou casar novamente!
Landon, a essa altura, j o havia afastado do salone e o conduzia
em direo da escada, para que ningum o ouvisse, mas Valria apareceu no 
patamar, logo acima deles. Rienzi ergueu a mo, numa
saudao lamurienta, alcolica:
- L est ela! A noivinha que quer ser me dos Gracchi. Quantos filhos 
voc deseja, querida? Devemos t-los todos de uma
vez, ou em etapas mais cmodas?
- Leve-o para a cama, pelo amor de Deus! - exclamou Valria, amarga, 
procurando passar por eles ao descer a escada.
Rienzi quis interceptar-lhe os passos, mas Landon o afastou,
segurando-o de encontro ao corrimo. Rienzi rendeu-se, com um
riso de bbedo:
- Voc est vendo, meu amigo, como ela me despreza! Voc
no me despreza, no  verdade, Peter? Voc sabe que sou um
grande homem! A pequena Anna tampouco me despreza. Eu a salvei,
voc bem sabe! Ningum acreditava que eu pudesse faz-lo, mas eu
a salvei. Pobre Anna! Ningum lhe oferece uma festa esta noite.
Debruou-se sobre o corrimo e ps-se a chorar. Quase a empurr-lo, quase 
a carreg-lo, Landon f-lo subir a escada e entrar no
Pequeno quarto de hspedes.. Uma vez l, o ps na cama e tiroulhe a 
jaqueta, os sapatos e a gravata. Rienzi estava ainda se 
lamuriando e resmungando, quando Landon fechou a porta e desceu. 
189
Ninette fez-lhe um sinal da porta da biblioteca, e ele dirigiu-se a ela, 
enquanto Ascolini e a filha se despediam dos ltmos convidados.
Ninette beijou-o e disse-lhe:
- Obrigada, chri. Voc agiu com muita habilidade. No creio
que algum tenha visto muita coisa. Valria vai levar-nos para casa.
Pobre moa! Tenho pena dela.
- ] uma confuso dos diabos, querida. Mas eles tero de se arranjar 
sozinhos.
Que  que se passa com Carlo?
Est cansado. Bebeu um pouco demais. Acha-se numa embrulhada terrvel, 
como uma omeleta de aldeia.
Falou-lhe da conversa que tivera com Carlo e do inquietante
diagnstico de Galuzzi. Ela suspirou e encolheu os ombros, num gesto
gauls de desespero:
- Que mais podemos fazer, Peter? Que nos resta dizer? Haver alguma 
esperana para essa gente?
- Absolutamente nenhuma! - disse Ascolini, parado, junto
 porta, apoiado  ombreira, um velho de cabelos brancos, rosto
anuviado, metido num dinner-lacket que, de repente, parecia 
demasiado grande para ele. - Jamais esquecemos, jamais perdoaremos
coisa alguma. H^ma influncia malfica sobre ns. Uma influncia
que d bicho nos frutos e gorgulho no trigo! Vo para casa, meus
amigos, e esqueam-se de ns.
Com passos vacilantes, atravessou a sala e afundou-se numa
poltrona. Landon serviu-lhe um copo de conhaque e ele o tomou de
um trago; depois, endireitou o corpo e ficou a fitar, frouxo e absorto,
o cho. Valria entrou, apressada, com um casaco lanado sobre o
seu vestido de noite e uma maleta na mo. Estava plida de clera.
- Estamos de sada, papai. No me espere. Se Carlo quiser
saber onde estou, diga-lhe que pedirei a Lazzaro para que me traga
para casa. Ele no  grande coisa... Deus bem o sabe, mas, pelo menos,  
um homem!
- Por favor, minha filha, no faa isso! - Um ltimo assomo
de ira e animao galvanizava o velho. - Deixe que os nossos
amigos levem o carro. Fique mais um dia aqui comigo.
- Com voc, papai? - indagou ela, a voz estridente, spera
amarga. - Voc me disse, ontem  noite, que eu devia viver a minha
vida; que voc viver a sua, e que eu devia viver a minha e aceitar
as conseqncias! Bem, pois  exatamente isso que estou fazendo!
Carlo no me quer. Voc j est cansado de reviver, atravs de
mim, os anos j extintos! De modo que estou livre. Boa noite, papai!
Espero vocs dois no carro.
190
Sem olhar para trs, saiu apressada. Landon apertou a Mo
flcida do velho, murmurando-lhe uma ou duas frases que Ascolini
pareceu no ouvir. Somente quando Ninette se inclinou para beij-lo, foi 
que ele voltou a mover-se e, dando-lhe uma palmadinha no
rosto, disse-lhe em voz baixa:
- Deus a abenoe, minha filha! Cuide de seu homem.. . e
sejam bondosos um para com o outro.
- Ir visitar-nos em Roma, dottore?
- Em Roma? Oh, sim... certamente.
Deixaram-no, encolhido e derrotado, afundado na grande poltrona e saram 
para o frio luar, onde Valria os aguardava, sentada
ao volante de seu automvel. Tinha o rosto banhado de lgrimas,
mas nada disse, partindo logo com o carro, rpida e perigosamente,
pela alameda ngreme, at chegar  faixa alumiada pela Lua, da estrada 
que conduzia a Siena. Durante um ou dois quilmetros, 
permaneceu muda, enveredando violentamente pelas curvas do monte,
enquanto os pneumticos gemiam e as rodas giravam perigosamente sobre o 
cascalho da beira do caminho. Depois, de repente,
ps-se a falar - um monlogo em voz baixa, ardente, que no
comportava comentrio nem interrupo:
- Querido Carlo! Doce e querido Carlo! O rapaz nobre, de
grande talento e grande futuro, cuja esposa no o ama! Vocs, no
acreditaram em mim, acreditaram? Pensavam que eu no passava
de uma cadela insensvel, ardente com todos... menos com o marido! Aquela 
msica era um truque! Msica suave, para coraes
despedaados. Noturnos para amantes no correspondidos. Deus do
cu! ... Se vocs ao menos soubessem o quanto esperei desse homem!
Eu era a filhinha de papai. Ele dava tudo, e eu sentia-me 
reconhecida, mas a nica coisa que ele no podia dar era eu mesma. Ele 
no podia ceder tal coisa - percebem? - e eu no sabia de que modo
arranc-la dele. Fez de mim uma scia, mesmo em minhas loucuras.
Isso  o que queria de Carlo... isso que vocs dois possuem, e que
fazia com que eu os odiasse: companheirismo. Eu queria que
ele permanecesse a meu lado, que estivesse  minha altura no amor
e no dio, que me domasse e me libertasse ao mesmo tempo! Mas
ele no queria nada disso. Ele, Carlo, no o queria! Desejava 
posse, rendio... triturar-me, reduzir-me a p, de modo que no sobrasse
nada! No era suficientemente forte para faz-lo de uma maneira,
de modo que procurou faz-lo de outra. Os sorrisos murchos,
a atitude melanclica, os acessos de furor e as ternuras... 
Leve-me de volta ao ventre de minha me e deixe que eu lhe devore a alma
como um verme de nogueira! ...
191
O carro deu uma guinada e derrapou numa curva em cotovelo,
mas Valria continuou a falar sem dar ateno ao grito de Ninette
e ao protesto de Landon.
- Julguei que, hoje, o seu orgulho - ou o que quer que seja
que o faa agir - estaria satisfeito, e que eu poderia aproximar-me
dele como mulher. Mas ele no quer uma mulher! Quer uma boneca
com que brincar e da qual possa arrancar a serragem, quando se sente
forte e cruel. Por isso  que se voltou para essa tal Anna ... essa
pobre, vazia e bela criana, que no tem nada dentro de si seno o
que ele l colocou. Bem, ele que v para ela! Estou livre dele agora...
e livre de meu pai tambm! Sou senhora de mim mesma e pouco
me importa que...
Lanou um grito e freou violentamente, quando uma massa
imprecisa saiu da valeta e cruzou a estrada, poucos metros  frente.
Ninette tambm gritou e se lanou contra Landon. As rodas pararam
e o carro derrapou, descrevendo um crculo assustador, enquanto o
pra-choque batia em cheio num chopo da beira da estrada. Acabaram, 
ligeiramente contundidos e abalados, de frente voltada para
a direo de onde vinham. Ninette estava ofegante e trmula, enquanto
que Valria, debruada sobre o volante, soluava. Landon foi o
primeiro a recompor-se.
- Por esta noite, basta! - Disse, spero. - Vamos voltar para a villa!
Valria no fez protesto algum quando ele a afastou bruscamente de seu 
lugar e assumiu a direo do carro. Permaneceram todos
em silncio, enquanto o automvel subia, impetuoso e seguro, a estrada 
serpeante. Ao chegarem  casa, Landon deu a Ninette uma ordem breve:
- Leve-a para a cama. Fique com ela at que eu volte. Vou
ter uma conversa com o velho!
Ninette abriu a boca para protestar, mas, vendo-lhe o rosto
plido, zangado, e os lbios fortemente contrados, mudou de idias
e, tomando o brao de Valria, conduziu-a, dcil como uma paciente
de hospital, ao seu quarto, no andar superior.
Ascolini achava-se ainda na biblioteca, afundado em sua poltrona, a fitar 
o vazio, tendo a seu lado um copo de conhaque, de
que j havia bebido a metade. Landon foi diretamente ao assunto, em
tom rude:
- Isso precisa parar, doutor! Acabar de vez, j, completamente!
Se isso no acontecer, haver alguma morte nesta casa antes que a
semana termine. H dez minutos, ns trs quase morremos na estrada.
Valria est desesperada. Carlo acha-se completamente embriagado.
E o senhor fica aqui sentado, a sentir pena de si mesmo, porque
192
chegou finalmente a hora de saldar contas e o senhor no deseja
pag-las. Se pretendem destruir-se uns aos outros, essa  a maneira de 
faz-lo.
O velho levantou sua branca juba leonina e fitou Landon com
olhos vagos, mas hostis:
- E por que razo deveria o senhor importar-se, Dr. Landon,
com o que possa acontecer-nos? Morte, desonra, condenao ...
que diabo poder isso importar-lhe?
A irritao de que se achava possudo fez com que Landon no
pudesse controlar-se. Apontou ao velho um dedo acusador e explodiu:
- Porque eu tambm tenho dvidas a pagar, eis a o porqu!
Para com o senhor, para com Carlo, para com Valria. E esta  a
nica maneira pela qual poderei sald-las ... a ltima oportunidade
que me resta.  tambm a sua ltima oportunidade... e o senhor
bem o sabe! Foi a que a coisa comeou: com o senhor. Se ainda
resta alguma esperana, essa esperana est em suas mos. Os cobradores 
a esto, meu caro doutor, e, se o senhor no lhes pagar, eles
poro a casa abaixo sobre a sua prpria cabea!
Interrompeu-se, deitou um pouco de conhaque num copo e tomou-o de um 
trago, enquanto o velho o fitava com olhos frios, 
ressentidos. Finalmente, com um toque de seu antigo e sardnico humor,
Ascolini indagou:
- E qual  o pagamento, hein, meu amigo? Qual a penitncia
imposta por nosso confessor? J estou muito velho para flagelar-me
em praa pblica ou arrastar-me de joelhos para a missa!
- O senhor est velho, doutor - respondeu, com leve maldade, Landon - e 
logo estar morto. O senhor morrer odiado e
nada deixar atrs de si, exceto uma recordao desagradvel. Sua
filha se converter numa prostituta, para vingar-se do senhor. E o
homem que poderia gerar filhos para alegrar sua casa morrer estril, por 
falta de algum que o ensine a amar.
Fez uma pausa e, to rapidamente como o assaltara, a raiva
extinguiu-se nele, fazendo com que se afastasse, com um gesto de 
desespero:
- Que v tudo para o diabo! Que mais se poderia dizer? Nada
 suficientemente bom para despertar sua gratido; nada consegue
torn-lo suficientemente humilde para pedir-nos o que ns todos lhe
daramos de todo corao!
Houve um longo silncio, enquanto o relgio da lareira prosseguia em seu 
tique-taque, marcando os segundos como um carrasco
que se encontrasse oculto em sua caixa. Depois, lentamente, Ascolini
levantou-se de sua poltrona e deu uns passos em direo a Landon e,
1 193
com voz trmula, de velho, mas que conservava ainda certa dignidade,
disse-lhe:
- Muito bem, Landon. Voc venceu. O velho touro se rende.
Mas para onde ir daqui?
Lentamente, Landon voltou-se e viu-lhe no rosto to destroado orgulho, 
tanto sofrimento h muito oculto, que se sentiu tomado
de sbito sentimento de piedade. Lanou ao velho um sorriso exangue, 
retorcido:
- O primeiro passo  o mais difcil. Depois a coisa se torna
cada vez mais simples. Um pouco de piedade, e a elegncia de se confessar 
arrependido.
- E julga isso assim to fcil? - indagou, enquanto a sombra- de um 
sorriso lhe contraa os lbios de velho cnico. - O senhor
exagera o meu valor, Dr. Landon. Agora, v dormir, como bom
rapaz que . Um homem tem o direito de estar a ss, antes de sua
ltima rendio!
Ao deixar o velho, Landon dirigiu-se ao terrao e acendeu um
cigarro. A Lua pairava alta e mgica, sobre as montanhas e, do
fundo do jardim, ele ouviu, pela primeira vez o doce lamento dos
rouxinis. Ficou imvel, a mo pousada sobre a fria pedra da 
balaustrada, enquanto o canto plangente se elevava e caa no ar parado.
Era uma msica espectral, a ecoar as queixas de amantes mortos
e o rancor de paixes h muito extintas- Era um lamento de esperanas 
perdidas, de iluses desfeitas, de palavras no ditas e que,
agora, jamais seriam proferidas, No obstante, havia, naquele canto,
paz, bem como a fria absolvio do tempo. A Lua se dissipara e o
canto mergulharia no triste silncio dos ciprestes, mas, pela manh,
o sol se ergueria e despertaria de novo a fragrncia do jardim e,
enquanto se estivesse vivo, sempre haveria a esperana da manh e
da maturidade.
Ainda no fazia muito tempo que ele chegara quele lugar,
obcecado pela convico de inutilidade, convencido de que o Jargo
de sua profisso se assemelhava ao encantamento de um xam um passaporte 
que conduzia  preeminncia na tribo, mas que no
deixava de ser um remdio infrutfero para as muitas enfermidades
da alma. Agora, pela primeira vez, comeava a ver uma virtude em
seu uso, uma virtude na experincia que adquirira e, talvez, at
mesmo uma pequena promessa de virtude quanto a si prprio.
Com Ascolini, ele vencera uma batalha e pagara uma dvida.
Mas havia, ainda, outras batalhas a travar, e ele sentia-se grato pelo
carter restaurador daquele momento de luar e de rouxinis. Terminou o 
194
seu cigarro e subiu lentamente a escada, em direo do quarto de Valria.
Ela estava deitada, recostada em travesseiros, o rosto plido, os
olhos absortos na dolorosa contemplao com que os enfermos vem
a si prprios. Ninette achava-se sentada  beira da cama, alisando
os cabelos de Valria. Landon deteve-se ao p da cama, a fitar ora
uma ora outra,  procura das palavras que precisava dizer.
- Quero que voc v deitar-se, querida - disse, dirigindo-se,
afetuosamente, a Ninette. - Valria e eu temos algo a conversar. Irei
v-la, antes de recolher-me.
Ninette Lachaise fez com a cabea um gesto de assentimento,
mas Landon notou um lampejo de ressentimento em seus olhos. Ela
inclinou-se e beijou Valria; depois, beijou, tambm, Landon.
- No demore muito, chri! - recomendou, tendo na voz
uma nota de cautela que traa de certo modo, o tom despreocupado
com que o disse. - Estarei  sua espera.
Deixou-o, e Landon sentou-se ao lado da cama. Valria Rienzi
observava-o, entre curiosa e amedrontada.
- Foi um dia duro, no acha? - indagou ele, em tom profissional.
Os olhos de Valria encheram-se de lgrimas sentidas, mas ela
nada respondeu. Landon. continuou a falar, evitando abordar 
diretamente o tema, receoso de que uma palavra menos judiciosa pudesse
destruir as relaes de amizade existentes entre eles.
- Sei como voc se sente, Valria, pois que tambm compartilho de seus 
sentimentos. Sei do perigo com que voc se defronta,
pois trato, h muito tempo, de mentes angustiadas. Esta noite, voc
teve uma viso da morte, mas, no ltimo momento, recuou. Se voc
se mostrar indiferente e passar de novo, por outra experincia 
semelhante,  possvel que voc, por um segundo de atraso, no possa
mais recuar. E depois... kaput! H cura para quase todas as coisas,
menos para o beijo do Anjo Negro. Talvez voc esteja perguntando
a Si prpria por que razo me interesso pelo que voc possa fazer.
Eu lhe responderei. Passamos, juntos, uma noite ... e houve nela
algo de bom, porque havia algum amor. No suficiente para a vida
toda, talvez, mas o bastante para aquele pequeno espao de tempo.
Por isso me interesso! E ainda h mais. Sou mdico. Existem pessoas
que me procuram com almas enfermas, coraes enfermos, mas a
maioria delas vem tarde demais, quando a enfermidade j tomou
conta delas e no as deixa. Voc no est doente, ainda. Est ferida,
cansada e solitria, numa regio sombria. Eu estou lhe oferecendo
uma mo em que voc se apie, enquanto sai do estado em que se encontra.
195
Ele podia ver a luta em que ela se debatia: necessidade e desafio, cada 
qual querendo manifestar-se primeiro. Ela fechou os olhos
e permaneceu, muda, recostada nos travesseiros. Landon seguroulhe o 
pulso, firme:
- H duas maneiras,  sua escolha. Voc poder encher-se de
plulas para dormir e despertar, pela manh, com os fantasmas ainda
sentados em sua cama. Ou poder falar e desabafar, deixando que
algum reduza tais fantasmas a um tamanho que lhe permita enfrent-los. 
Eu, por exemplo. Conheo todas as palavras ... at mesmo
as palavras feias. - Sorriu baixinho: - No h honorrio. E se
voc quiser chorar, posso emprestar-lhe um leno limpo.
Ela abriu os olhos e fitou-o, com pesarosa perplexidade:
- Voc est dizendo isso a srio?
- Claro que estou.
- Mas o que acontecer? Voc apanhar todos os meus pedaos e tornar a 
junt-los? Encher os lugares vazios em que eu
absolutamente no me encontro?
- No.
- Dar umas palmadinhas em minha cabea e dir que eu
estou perdoada, contanto que seja, no futuro, uma boa menina?
- Tambm no.
- Ensinar meu pai a amar-me e Carlo a desejar-me como esposa?
- No.
- Ento, o que  que voc me dar, Peter? Pelo amor de Deus,
o que  que voc me dar?
- Coragem e grande apoio! Quanto ao resto, voc precisar
de Deus Todo- Poderoso. Mas, sem coragem, voc tampouco o
encontrar. Bem ... isto  o que de melhor posso oferecer-lhe. Voc
quer falar, ou prefere uma cpsula sedativa?
Ela, ento, cedeu e ps-se a falar, primeiro banhada em lgrimas e, 
depois, num fluxo de palavras, s vezes desordenadas e 
incoerentes, outras vezes tragicamente lcidas. Landon escutava-a, 
incitava-a, interrogava-a e ficava intrigado como sempre, diante 
da variedade de faces que uma criatura humana podia exibir. Mulher de
m conduta, amorosa, mentirosa, me, amante elegante, garotinha
sentada no colo do pai a pedir-lhe um mundo em troca de um beijo.
Numa noite ou mesmo, em todas as noites de um ms - no haveria
tempo para interpretar cada uma dessas faces. O que ele ento estava
tentando fazer no era uma anlise clnica, mas apenas dispensarlhe um 
pouco de misericrdia: afastar o sofrimento por algumas
horas, dar-lhe uma esperana que, ele bem o sabia, talvez no 
sobrevivesse at os primeiros clares da alvorada.
196
Finalmente, a torrente de palavras extinguiu-se, e Valria permaneceu 
deitada, exausta, mas calma, pronta para dormir. Landon 
inclinou-se e beijou-lhe de leve os lbios - e ela respondeu apenas com
um murmrio sonolento. Modo de cansao, Landon dirigiu-se ao seu quarto.
Ninette Lachaise dormia, inteiramente vestida, em sua cama.
Ele tirou o palet, os sapatos e a gravata e deitou-se ao seu lado.
Ela mexeu-se, murmurou algo e passou o brao por sobre o peito
de Landon - e ele, tambm, mergulhou no sono, com os lbios de
Ninette a roar-lhe o rosto. Quando despertou, ela no estava mais
l, e j era, de novo, pleno meio-dia na Toscana.
Quando Landon desceu, encontrou a villa banhada num resplendor de triunfo 
e de unio domstica. A criada cantava, a lustrar
os mveis; o velho porteiro assobiava, enquanto revolvia, com um
ancinho, o cascalho da alameda; Ninette e Valria colhiam flores
no jardim, enquanto Ascolini e Carlo Rienzi se achavam sentados,
no terrao, diante da mesa do caf, a folhear um monte de jornais
e uma pilha de telegramas de congratulaes.
Receberam-no sorridentes. Ascolini ordenou que trouxessem caf
fresco, e entregou-se  entusistica exaltao do xito de Rienzi:
-  magnfico, Dr. Landon... como uma grande noite na
pera. Vou ler-lhe o que dizem: Uma vitria forense. . . . . uma
vindicao dos mais nobres princpios de justia. . . um novo astro no 
firmamento jurdico. H vinte anos no vejo uma coisa
assim. E isto aqui! exclamou indicando, num gesto expansivo, a
pilha de telegramas. Nossos colegas, em Roma, esto encantados.
A partir deste momento, Carlo pode escolher entre uma dzia de
grandes causas. Sinto-me orgulhoso dele. Ele fez com que eu 
engolsse minhas prprias palavras, mas sinto-me orgulhoso dele.
O prprio Rienzi estava afogueado de satisfao. Seu rosto perdera a 
expresso tensa e angustiada da vspera, e tambm ele se
entregou, loquaz, a cumprimentos:
- Este xito  tambm seu, Peter. Sem sua orientao eu no
me teria sado to bem. Sei, creiam-me, que tive muita sorte em
Contar COM ambos como meus mestres. - Fez uma ligeira pausa e,
com acanhamento juvenil, apresentou suas desculpas: - Lamento o
que aconteceu ontem  noite. Eu tinha passado o dia todo sem comer
e estava muito embriagado.
Ascolini riu, indulgente:
- Uma ninharia, meu rapaz! Esquea-se disso. J vi homens mais 
importantes do que voc serem levados para a cama em ocasies
197
muito menos significativas. Alm disso,  no futuro que precisamos 
pensar. Antes de sua chegada, Dr. Landon, estvamos a discutir acerca da 
participao de Carlo, como scio, em meu escritrio de
advocacia. No estou ainda inteiramente decidido a aposentar-me,
mas isso no tardar. E, depois, ele poder ficar com toda a minha
banca de advogado. Mas tenho ainda de dar-lhe algumas lies, hein,
meu rapaz?
Era to grande e patente a boa vontade existente entre ambos,
que Landon perguntou a si mesmo, durante um momento, se ele no
teria interpretado de maneira demasiado dramtica os acontecimentos
da noite anterior. Depois, Carlo disse, em tom inteiramente casual:
- Recebi, esta manh, um telefonema de Galuzzi, Vo transferir Anna, 
hoje, para as Irms do Bom Pastor. Disse-me ele que
eu poderia visit-la esta tarde. Eu estava pensando, Peter, se voc
no gostaria de acompanhar-me. - Esboou um sorriso de splica
e ajuntou: - Sei o quanto j lhe pedi, Peter, creia-me. Valria
contou-me que voc e Ninette vo se casar, e sei que vocs desejam
partir o mais cedo possvel. Mas eu apreciaria muito se voc fizesse
uma ltima visita profissional a Anna.
- Certamente, se voc assim o deseja, mas no creio que eu
possa acrescentar algo ao conhecimento de Galuzzi. Ele  timo mdico. 
Eu, em seu lugar, teria grande confiana nele.
- Eu sei. Mas ele , afinal de contas, um funcionrio do governo. Eu 
gostaria de ter alguma orientao particular.
E como encararia Galuzzi a minha visita?
Ele j a aprovou. V comigo, Peter, por favor. Podemos
sair ali pelas trs horas e estar de volta s cinco.
- Valria e eu cuidaremos de Ninette - disse Ascolini.
Jantaremos hoje juntos e, depois, os despacharemos com todo o nosso
amor.
Tudo isso foi dito de maneira to simples e suave, que Landon
quase no percebeu o que havia por trs daquilo. Carlo precisava
de uns momentos de intimidade com Anna. Ascolini precisava de
Ninette como sua aliada junto a Valria. Galuzzi fora bastante sagaz
ao desejar um monitor para aquele primeiro encontro crucial entre
o advogado e a cliente por ele iniciada na incerta estrada que 
conduzia  liberdade. Eles ainda o estavam usando, e no haveria 
libertao enquanto Ninette e ele no abandonassem aquele lar de almas
atormentadas e no seguissem para o seu prprio refgio nas verdes
colinas de Frascati.
O primeiro toque de outono j estava no ar, quando Landon e
Rienzi seguiram, pela estrada de Arezzo, rumo ao Hospcio do Bom Pastor.
198
O bom humor de Carlo parecia t-lo abandonado, pois que estava inquieto e 
preocupado. Ao chegarem aos primeiros espinhaos da montanha, Carlo 
desviou o carro para o lado da estrada e parou numa reentrncia rochosa, 
de onde o terreno descia, precipitosamente, para um vale inspito e 
sombrio. Isso feito, tirou do bolso
um mao de cigarros, acendeu o de Landon e o seu, e ps-se a falar
de um modo nervoso, entrecortado, como algum que estivesse h
muito privado de intimidade.
- Temos tempo para conversar um pouco, Peter. H certas
coisas que desejo discutir com voc.
- Diga l.
- Em primeiro lugar, Valria. Lamento e sinto-me envergonhado pelo que 
aconteceu ontem  noite, mas, na verdade, tudo o que
eu disse era verdade. J no sinto mais nada por ela. Mais do que
nunca, sinto, agora, necessidade de fazer um bom casamento. Sei o
que ir acontecer. Subirei, em minha carreira, como um balo. Voc
sabe to bem quanto eu o que isso significa. Presses, solicitaes,
trabalho... sem que haja possibilidade de recuo. Sem alguma espcie de 
amor em minha vida estarei desperdiando os meus melhores
anos sem qualquer recompensa... numa marcha que acabar em
bancarrota. Uma amante compreensiva ajudaria, mas eu tampouco
a tenho, Estou sozinho, Peter. Apesar de minha idade, sinto-me 
velho e vazio.
Aquela piedade por si mesmo irritou Landon, mas, lembrando-se de sua 
dvida, procurou ser gentil:
- Olhe, Carlo. Essa espcie de reao  a coisa mais natural
do mundo. Voc esteve envolvido numa causa tremenda. O pndulo pode 
oscilar do triunfo para a depresso. No seja demasiado
apressado. Por que razo voc e Valria no fazem mais uma tentativa?
O rosto de Rienzi endureceu, e ele abanou a cabea:
- J esquecemos as palavras para isso, Peter. Quanto a mim,
passei demasiadas noites num leito frio. Quanto a ela, demasiadas
noites em outras camas. Como recomear, depois disso?
Landon deu-lhe a resposta de Ninette:
- Algum tem de dar o primeiro passo e pedir desculpas. Sugiro que esse 
algum seja voc.
- E depois disso? De que modo apagar todo o tempo desperdiado, todas as 
mgoas, todas as lembranas?
Landon, ento, deu-lhe uma outra resposta, to rude e obscena
quanto a sua irritao poderia ditar:
- Viva com elas, irmo! Viva com elas e aprenda a ser grato
por tudo o que voc conseguiu salvar. Com os diabos, Carlo! Voc
199
no  mais criana! Que  que voc pretende? Um novo livro todas
as noites, com as pginas ainda fechadas e nenhuma palavra ainda
escrita? Uma nova virgem cada vez que for para a cama e uma
poro de gente a aclam-lo pela manh, quando voc deixar os
lenis? Que consolo h nisso, pelo amor de Deus? Uma maravilha
de todas as horas ... e, na melhor das hipteses, uma coisa 
tediosa!
Para sua surpresa, Rienzi riu:
- Pelo menos, voc ainda no esqueceu as palavras, Peter!
- Nem voc. Nem Valria.
- Receio que voc jamais o compreenda - respondeu Rienzi,
ficando a fumar, alguns momentos, em silncio. Depois, 
acrescentou:
- Voc no me faz justia, Peter. No vou lanar-me contra moinhos
de vento. No vou passar a perseguir, na Via Veneto, as mocinhas
que servem de modelo. No sou desse tipo. Mas oxal o fosse. Acredite ou 
no, j estou quase resignado  minha situao. O casamento de 
convenincia  uma instituio muito antiga neste pas.
Valria pode fazer o que quiser, contanto que seja discreta. 
Quanto
a mim, posso comear a ver um novo objetivo em minha vida. Talvez
no seja inteiramente satisfatrio, mas, em parte, o .
- Voc se refere a Anna Albertini?
- Precisamente. Dentro de trs anos, ela estar livre. Durante
esse tempo, ela ter de ser preparada para participar do mundo 
cotidiano. Quando ela o fizer, precisar contar com uma espcie de 
estrutura baseada  afeto e em novos interesses.
- E voc acha que poder proporcionar-lhe tal estrutura?
- Acho.
- A que preo?
- Menos do que paguei pelo que agora possuo.
- Voc quer saber o que eu penso? - indagou, em tom glido,
Landon.
. -  por isso que estou falando com voc, Peter. Mais do que
nunca, preciso, agora, de sua amizade.
- Ento, pelo amor de Deus, oua o que vou dizer-lhe!
Interrompeu-se, concentrou-se por um momento e prosseguiu,
ardoroso e persuasivamente, sabendo que, agora ou nunca, a sua
dvida deveria ser paga:
- Em primeiro lugar, permita-me que lhe diga, Carlo, que
no concordo com muitos de meus colegas que afirmam que toda
aberrao humana  um sintoma de enfermidade mental. Acredito,
como penso que voc tambm acredita, que o homem  um ser responsvel, 
dotado de livre arbtrio. Mas isso no  razo para se confundir a 
questo. H no s enfermidade mental, como, tambm
enfermidade moral. H muita maldade no mundo. Depravao e
indulgncia intencionais. Existe, tambm, uma enfermidade especial
que se segue a essas coisas: um estado de fuga, uma evaso do 
conhecimento de culpa, o homem a cobrir a cabea com as cobertas a fim
de fugir ao assalto das Frias. Eis a a razo porque a psiquiatria
moderna se divide em duas escolas. Os deterministas dizem que o
homem no  responsvel por suas aes. Por conseguinte, quando
lhe revelamos a fonte de sua doena, ele se cura perdoando a si 
prprio. Voc  advogado. Deve ver onde isso termina: no absurdo
destruidor de que o mal tem em si a sua prpria absolvio. A
outra escola afirma, mais sensatamente, que, ao revelar-se a fonte~,
da doena, deve dar-se ao homem uma esperana de perdo, mas
que ele deve ser levado tambm a corrigir-se. . . - Fez uma pausa
e riu, um tanto contrafeito: - Voc talvez esteja perguntando a seus
botes por que razo estou aqui a fazer-lhe esta pequena preleo ...
Bem, eu no sou nenhum santo de gesso. Deus bem o sabe. Sei,
como voc tambm o sabe, quando estou ao indo mal. Voc est
agindo mal, neste momento, porque se recusa a conceder a Valria
qualquer espcie de perdo, exigindo-o todo para voc. Voc sabe
que est preparando o caminho para um mal ainda maior. De modo
que procura criar a iluso de que poder obter a sua prpria absolvio 
mediante o prprio ato que o condenar: a sua dedicao a
Anna Albertini.
- Voc est me mentindo, Peter - disse, friamente; Rienzi.
- Desta vez, no, creia-me. - Ele estava agora defendendo
uma causa, e o conhecimento de sua prpria culpa dava-lhe 
premente
humildade. - Oua-me, Carlo, e pense, um momento, em Anna.
Voc ganhou sua causa baseando-se nos argumentos que voc e eu
preparamos para ela... isto , que, na ocasio do crime, ela se
achava mentalmente enferma, privada de senso moral e de responsabilidade, 
devido ao choque causado pela morte de sua me. Ora,
isso poderia ser verdade. Por outro lado, poderia ser igualmente
certo que ela fosse uma pessoa responsvel, que tivesse 
conscincia
de culpa e que, praticado o ato - depois de ser ele praticado, 
lembre-se - ela se projetasse no estado de fuga em que permaneceu,
virtualmente, desde ento. Reflita um momento sobre isso. E se
houver, ao menos cinqenta por cento de probabilidade de que assim
Ocorreu, veja aonde isso conduz. Ela apega-se a voc porque voc 
a nica pessoa que continua a absolv-la, como o fez, no sentido
jurdico, no tribunal. Talvez seja por isso que ela no lamenta a perda
do marido, Pois ele a rejeitou e no a perdoou.
- Esse  um pensamento monstruoso!
- Monstruoso, sem dvida - respondeu, tranqilamente, Landon. - E as 
conseqncias podero ser ainda mais monstruosas.
200 201
Voc talvez pudesse vir a priv-la, de maneira completa, total, de
qualquer esperana de cura.
- No compreendo.
- Ento permita que lhe explique, Carlo - volveu ele, tentando pousar a 
mo, num gesto cordial, no ombro de Rienzi. Este,
porm, ressentido, evitou o contato. - Acredite no que lhe digo,
homem! Estou sendo o mais sincero possvel com voc. No estou
procurando inventar fantasmas para assust-lo. Esta  a minha profisso, 
como a sua  o Direito. Toda psiquiatria, para ser bem 
sucedida, depende da boa vontade do paciente em procurar curar-se, 
sabendo que est doente. Ele procurar, claro, resistir ao 
tratamento,
mas se seu sofrimento  bastante agudo, acabar por cooperar ...
salvo, por exemplo, nos casos de parania, em que a mente se 
fecha
inteiramente  razo. No caso de Anna Albertini no existe sofrimento, 
nem senso de necessidade. Enquanto ela contar com voc,
no estar doente, mas curada, de modo que sua mente se fecha a
novas indagaes. Voc a perdoou. Por conseguinte, ela se sente 
totalmente perdoada. De modo que a longa fuga continua, e voc, Carlo
voc, meu amigo -  seu associado nessa fuga.
- Mas suponhamos - disse Rienzi, em seu modo irnico de
advogado - apenas supomos que sua suposio  certa, embora
voc, no tribunal, haja provado e convencido os juzes de que no
era. Em que terreno voc se encontra agora, Landon?
- No mesmo terreno - respondeu, categrico, Landon.
Mas por motivo diferente. Voc se converteu num apoio necessrio
 enfermidade de sua cliente. Ela continuar a agarrar-se a voc.
Aceitar qualquer condio, qualquer relao que voc lhe imponha,
mas voc jamais poder livrar-se dela. E se lhe falhar...
Interrompeu-se e deixou que o pensamento pairasse, como uma
nota discordante, entre eles.
- E se eu lhe falhar, Peter?
- A morte, agora, j lhe  familiar - respondeu, sombrio,
Landon. - No lhe apresenta qualquer terror e solve todos os problemas. 
Ela se suicidar ou procurar mat-lo.
Bem, ali estava, agora, o pensamento extemporneo: a morte
posta, s claras, sobre a mesa, a morte escrita na palma da mo de
um homem - e este demasiado cego para v-la. Landon deixou
que ele ficasse um momento a refletir sobre essa idia. Depois, indagou:
- Voc acredita em mim, Carlo?
- No - respondeu Carlo Rienzi. - Receio que no.
202
Ps o motor em funcionamento, deu marcha  r, e depois prosseguiu 
montanha acima, rumo ao Hospcio do Bom Pastor.
No fim da tarde, Alberto Ascolini fez sua capitulao final,
diante de sua filha e de Ninette Lachaise. Sentou-se com elas num
baixo banco de pedra, defronte da pequena fonte onde um fauno
tocava sua flauta e se divertia entre os repuxos. Pela primeira vez
em sua vida, no pensava ele numa exibio teatral, nem na retrica de 
sua profisso. No procurou persuadir nem dominar a situao; achava-se, 
apenas, ali sentado, apoiado a uma bengala, um chapu
de campons sobre a cabea branca, a pedir, pela primeira e ltima
vez, desculpas pela sua carreira de saltimbanco.
- Eis aqui como a coisa termina, minhas filhas. Eis aqui como
acho que ela deve terminar: um velho tolo sentado no jardim em
companhia das mulheres. Eu costumava ter medo disto... E, hoje,
pela primeira vez, posso ver que talvez haja prazer nisto. 
Quando eu
era rapaz - e isso faz muito tempo - os signori que possuam esta
villa costumavam atravessar San Stefano em suas carruagens, a 
caminho de Siena. Tinham cocheiros e ajudantes, e as mulheres - 
que
me pareciam princesas - levavam seus lenos ao nariz, enquanto
passavam pela aldeia. Lembro-me de mim, um moleque de nariz sujo
e calas rasgadas nos fundilhos, a gritar por moedas de cobre, 
enquanto o cocheiro me desferia golpes com o chicote. Isso faz muito 
tempo,
mas eu o relembrava todos os meses, todos os anos, enquanto ia
subindo na vida, sado do monturo. Um dia, eu teria uma 
carruagem
e a mulher de leno rendado seria a minha mulher, e eu me exibiria em 
grande gala na pera, e atravessaria o Corso, em Roma, e beijaria as mos 
das damas nos sales. Fiz tudo isso, como sabem.
Jantei com reis e presidentes, e compareci a uma recepo conduzindo em 
meu brao uma princesa de sangue real... Mas onde est
tudo isso, agora? No se converteu em p e cinzas. No posso dizer
isso. Foi um bom tempo? Sim, sem dvida. Mas, com bastante freqncia, eu 
sonhava com o rapazinho de nariz sujo, e estendia a mo
Para ergu-lo at  carruagem. . . No obstante, jamais pude tocarlhe. 
Tampouco podia livrar-me dele. Ele sempre voltava, e jamais
consegui saber se ele zombava de mim ou me censurava. De modo
que, por ele, penso, eu me vingava do mundo a que chegara... e
o fazia at mesmo contra voc, Valria, minha filha. Custou-me muito
tempo para perceber que essa vingana tambm se voltava contra
Mim. Quando me casei com sua me, eu era pobre, ambicioso e a
amava. Quando me tornei famoso e cortejado, passei a desdenh-la. 
Procurei refaz-la em voc, Valria, segundo a imagem que eu desejara.
2033
Coisa estranha, minhas filhas. - . Ela me disse, muitas vezes,
que o preo era demasiado alto e que, uma vez pago, eu me 
arrependeria. E  por voc, minha filha, que eu o lamento mais. Voc 
tinha razo, ao dizer-me que eu a fazia pagar tudo o que lhe dava. Nada
de graa! Foi a lio mais amarga que o garoto de nariz sujo teve
de aprender. Ele jamais teria acreditado em coisas gratuitas ... no
beijo que nada custa, ou na mo que ajuda um nosso semelhante a
levantar-se de um fosso. Mas aprendeu-o agora... e isso devido a
voc, Ninette, e at mesmo a esse seu obstinado Landon ... Mas
voc, minha Valria, teve de pagar pela lio.. . - Sua voz hesitou,
e ele assoou violentamente o nariz. - Perdoe-me, minha filha, se
puder. Se no puder, creia, ao menos, que a amo.
- Basta, dottore - disse, baixinho, Ninette Lachaise. - Esse
amor  o bastante ... e Valria deveria saber que ele a est.
Levantou o velho chapu de palha e deu-lhe um beijo na testa,
passando-lhe pelo rosto a mo fria. Depois, deixou-os - Valria
com suas lgrimas e o velho advogado com seus remorsos - entregues  
purificao de um sol de fim de vero.
- Vamos! - exclamou o velho, na sua maneira viva e pragmtica. - 
Enxuguemos, agora, os nossos olhos e vejamos se nos tornamos mais 
sensatos. Agora voc acreditar, minha filha, que lhe
digo a verdade?
- Sim, papai.
- Ento vamos ver o que podemos fazer com esse seu casamento. Agora me 
diga, honestamente: que  que se passa entre vocs dois?
Valria ergueu o rosto devastado e fitou-o, absorta:
- A coisa  bastante clara, no lhe parece, papai? Tenho sido
uma idiota e Carlo precisa de algo que no posso dar-lhe.
- Admitiremos que voc agiu idiotamente - disse Ascolini,
com seu velho e sardnico sorriso. - Deixaremos isso de lado e s
o encararemos, ocasionalmente, para que nos lembremos de no
ser de novo idiotas. Mas ... e a respeito de Carlo? Que  que ele deseja?
- Oxal eu o soubesse - respondeu ela, triste, erguendo os
ombros. - Uma me, talvez. Ou uma noiva infantil, recm-sada
de uma escola de freiras!
- Ele tem essa noiva infantil - observou, cinicamente Ascolini. - Mas ela 
no lhe serve, pois permanecer trs anos encarcerada. Quanto a uma me, 
ele pouco poder fazer, a menos que
arranje uma viva maternal com um metro e doze de busto.
- No graceje com isso, papai. A coisa  sria.
204
- Sei que  sria, minha filha - volveu o velho, novamente
ranzinza. - Mas nem por isso vamos erguer as mos aos cus e sair
a lamentar-nos pela cidade. Vamos fazer alguma coisa a respeito.
- O que, por exemplo?
- Essa moa, Anna Albertini... Voc deve ignor-la. Se
Carlo quiser passear pelo jardim do convento de brao dado com
ela, tendo uma freira por co de guarda, deixe que ele o faa
Ele enjoar, com o tempo. A piedade  uma dieta muito rala para
um homem de trinta e cinco anos. Se ele quiser experimentar a viva
ou uma franguinha encontrada em algum caf, tambm no tome
conhecimento disso. Engula seu orgulho e aceite-o como ele ... e,
enquanto voc o tiver, veja se o transforma para melhor. Isso 
costuma acontecer, como voc sabe. E voc ter alguma coisa por que
se interessar. Voc o viu no tribunal. Ele era outro homem. E voc
 mulher. Talvez voc possa fazer surgir esse mesmo homem na
cama. Oua, minha filha - ajuntou, voltando-se para ela e 
aprisionando-lhe o pulso em suas velhas e vigorosas mos: - H sempre
aquele que beija e aquele que vira a face. s vezes, aquele que
desvia a face aprende a gostar do sabor do beijo. Vale a pena tentar,
no acha? E voc ter algo com que se distrair. Depois do vero,
vem o outono. Se no der certo, que  que voc. perde?
Nada, creio eu. Mas voc no percebe que estou sozinha, agora? Sinto-me 
amedrontada.
- Espere at chegar  minha idade - respondeu Ascolini com
um sorriso. - At chegar ao ltimo inverno, quando se sabe, com
certeza, que jamais haver outra primavera. Coragem, menina! Mostre um 
novo rosto, e veremos que cenouras haveremos de encontrar
para atrair esse nobre asno com quem voc se casou!
O Hospcio das Irms de Bom Pastor elevava sua massa cinzenta sobre ampla 
extenso de jardins, terras de cultivo e 
sombrios
Ciprestes. Visto de perto, seu aspecto era desagradvel: um 
grande
muro de tufo, guarnecido, em cima, de espiges e cacos de vidro;
Porto de.ferro forjado, tendo, atrs, grossa tela de arame, de onde
se via, ao fundo o prprio hospcio, uma velha construo monstica de 
quatro pavimentos, slida como uma fortaleza, de 
janelas gradeadas e uma antena de televiso a erguer-se, 
incongruentemente, sobre seu velho telhado. Ao entrarem, um porteiro 
idoso levou a mo ao bon, saudando-os num gesto frouxo. Duas pacientes, 
que caminhavam, com passos arrastados, pelo gramado, fitaram-nos com
Olhos vtreos, indiferentes. Uma jovem freira, as mangas do hbito
arregaadas, colhia flores, seguida de um grupo de mulheres que se
205.
moviam a esmo, como galinhas num terreiro. Uma vaga opresso apoderou-se 
de Landon, ao pensar em toda a infelicidade concentrada naquele lugar, 
ltimo refgio daqueles que, por vontade de Deus e por se terem iludido a 
si mesmos, no conseguiram entrar em acordo com a vida.

Contudo, nem todos os iludidos se achavam atrs de grades. Havia um 
nmero demasiado grande deles que, como Carlo Rienzi, criava para si 
prprio situaes carregadas de possibilidades explosivas e destruidoras. 
Carlo tornara-se, da noite para o dia, uma figura pblica de grande 
evidncia; no obstante, uma criatura de olhos sagazes j podia ver que 
os pilares e os esteios de sua personalidade comeavam, lentamente, a 
ceder. As fendas eram claramente visveis
- as perigosas inclinaes para a indulgncia e o iludir-se a si prprio. 
Como, ou de que modo, ele fracassaria, era coisa que ningum poderia, ao 
certo, dizer, mas Landon estava disposto a apostar que Carlo se 
inclinaria, inevitavelmente, em direo de Anna Albertin.

Mesmo para um homem medianamente sensual, a ligao com uma jovem 
atraente, de vinte e quatro anos, era repleta de perigo. Acrescente-se a 
isso o carter da prpria moa: sua dependncia forada, sua imaturidade, 
sua tendncia para decises trgicas, e teremos a todos os elementos de 
um melodrama clssico.

Quantas vezes poderia o mundo explodir? A resposta, agora, era clara para 
Landon: tantas vezes quantas um homem procurasse rejeitar as simples 
normas pragmticas da experincia humana e dirigir o seu prprio destino 
sem respeitar o dever, a obrigao e a sua natureza como animal 
dependente.

Os gregos, tambm, tinham uma palavra para isso: Nemesis

a derradeira e inevitvel catstrofe, quando um homem puxava as vigas do 
telhado do mundo sobre a sua desafortunada cabea. O trgico era que 
tambm outras cabeas se partiam - e ele geralmente no sobrevivia para 
cuidar delas.

Landon ainda remoa essas tristes reflexes quando a Irm da portaria, 
uma mulher de cara de cavalo, olhos amveis e sorriso incerto, lhes abriu 
a porta. F-los passar  sala de visitas, um aposento grande, 
modestamente mobiliado, guarnecido de cadeiras de espaldar alto, imagens 
gmeas do Sagrado Corao e de Nossa Senhora de Lourdes e um cheiro vago 
de lamparina e de cera de assoalho. Depois, retirou-se,  procura da 
Madre Superiora.

Landon esmoreceu ante a idia de passar uma ou duas horas naquele 
ambiente asctico, mas Carlo o tranqilizou com um sorriso insperado:

- No se preocupe, Peter. Isto  apenas para que nos adaptemos  piedade, 
Conservam esta sala para capeles, mdicos e bispos visitantes.
206
Quando Anna aparecer, creio que a Madre Superiora nos proporcionar a 
liberdade do jardim.

- Oxal Deus o permita, - respondeu, secamente, Landon. Rienzi lanou-lhe 
um sorriso triste, infantil:

- No fique demasiado zangado comigo, Peter. Afinal de contas, esta  a 
minha deciso, e terei de arcar com as conseqncias... boas ou ms.

- Ter mesmo, Carlo? - indagou London, ainda irritado.

Se  o que voc pensa, ento faa, com os diabos, o que bem entender. 
Seja l como for, eu parto amanh. Assim sendo, por que razo deveria eu 
preocupar-me?

- Quero que sejamos amigos - disse Carlo Rienzi - Tenho grande afeto por 
voc. Mas isso no significa que tenha de concordar sempre com voc, no 
lhe parece?

- Aquele que argumenta em seu prprio favor tem um idiota por advogado, 
Carlo. E aquele que quer ser o seu prprio mdico  mais tolo ainda. J 
lhe disse o que pensava. No posso obrig-lo a agir de acordo com a minha 
opinio. Agora, por favor, seja um bom rapaz e deixe de discutir.

Neste momento, a Madre Superiora entrou. Era uma mulherzinha plida, de 
traos finos, que fez com que Landon se lembrasse da marquesa de 
Ascolini. Tinha um ar de grande dama, nascida para exercer autoridade, e 
Landon pensou que ela talvez pudesse ser uma extraordinria Madre 
Superiora.

Quando Carlo se apresentou, ela o cumprimentou calorosamente:
- Acompanhei a sua causa com grande interesse, Dr. Rienzi. Os homens de 
minhafamlia se dedicaram, durante muitos anos,  advocacia, de modo que 
acompanhei o seu caso com especial interesse. Sua defesa foi magnfica.

Quanto a Landon, tratou-o com cortesia mais cerimoniosa:
- Temos muito prazer em receb-lo, Dr. Landon. O Professor Galuzzi 
refere-se ao senhor com grande respeito. Se desejar, em qualquer ocasio, 
conhecer os nossos mtodos e conversar com o nosso pessoal, teremos 
grande satisfao em acolh-lo.

Landon respondeu com uma curvatura, e a Madre Superiora prosseguiu, 
lanando mo, evidentemente, de um exrdio bem preparado:
- Estamos todos muito interessados, meus senhores, pelo caso

de Anna. Como sabem, ela foi aqui admitida esta tarde, e no tivemos 
nenhuma das dificuldades com que costumamos deparar nos casos de novas 
pacientes. O Prof. Galuzzi deu instrues para que ela tenha tanta 
liberdade e responsabilidade quanto possvel. Ela gozar de todos os 
privilgios concedidos s nossas pacientes mais adiantadas: um quarto 
privado, tempo para ler e costurar, uma hora
207
de televiso todos os dias e o uso de alguns cosmticos. Estes so,
sem dvida, privilgios especiais, mas, enquanto nossas pacientes se
mostram ordeiras em seus hbitos, obedientes em sua conduta, no
h razo para que eles sejam reduzidos. Quanto a visitas, h um
dia determinado para isso, todos os meses. Contudo, o Prof. Galuzzi
sugeriu que, por enquanto, seria melhor para Anna que ela recebesse
visitas apenas de seis em seis semanas. Se ela fizer bastante progresso,
ento adotaremos a praxe usual.
Acertadssimo, pensou Landon. Galuzzi tinha mente lcida e
olhos sagazes e naquela mulherzinha plida podia contar com uma
vigorosa executora de suas determinaes.
A Madre Superiora prosseguiu, em sua maneira decidida, profissional:
- Temos, ainda, uma outra norma, que nos tem parecido muito
til. Quando os visitantes chegam, so em geral acompanhados de maneira 
discreta, certamente - por uma de nossas Irms. Como,
porm, o Dr. Landon est aqui hoje com o senhor, creio que podemos 
dispensar tal prtica.
Pela primeira vez, Rienzi pde tomar p na conversa.
- Como a senhora sabe, tenho grande interesse pessoal por
Anna - disse, ansioso. - Se houver algo que eu possa fazer para
torn-la feliz aqui, basta,que a senhora me avise.
- Asseguro-lhe, Dr. Rienzi, que ela ter a melhor assistncia
possvel - sorriu, indulgente, a Madre Superiora. - Nosso corpo
mdico  bem adestrado e dedicado. O Prof. Galuzzi vem c constantemente. 
Nossas Irms so especialmente exercitadas para manter
razovel disciplina, ao mesmo tempo que dispensam s nossas pacientes 
todo o carinho possvel. Talvez os senhores encontrem 
hoje
Anna um tanto inquieta. Isso  natural.  o seu primeiro dia, e 
ela
se sente desambientada e estranha; mas assentar prontamente. 
Ademais, sendo uma jovem saudvel,  natural que, de quando em quando, se 
sinta enfadada pela falta de companhia de pessoas do 
outro
sexo. Mas temos prtica dessas coisas e sabemos como resolver a
situao. - Levantou-se e alisou o hbito: - Se os senhores trouxeram 
algum presente para ela, eu gostaria de v-lo.
Desajeitado como um colegial, Rienzi exibiu os pacotes: uma
caixa de chocolate, uma fita de cabelo, uma medalha religiosa 
presa
a uma correntinha de ouro e uma cesta de costura.
A velha freira examinou tudo com um sorriso, mas insistiu em
retirar a tesoura da cesta de costura:
- No  por causa de Anna, Dr. Rienzi, mas pelo perigo de
que possa ir parar em outras mos.
Rienzi enrubesceu e desculpou-se:
- Oh, no pensei nisso! Desculpe-me.
- Pelo contrrio, Dr. Rin*zi... O senhor  um homem solcito. Anna tem 
sorte em contar com o seu apoio.
Nesse mesmo instante, Anna entrou, hesitante, na sala, e Rienzi
estendeu-lhe a mo, vivaz:
- Anna, minha cara!  bom tornar a v-la!
- O mesmo digo eu, Dr. Rienzi.
Sua acolhida cerimoniosa e o aperto de mo hesitante tolda
a satisfao que se lia nos olhos de Rienzi, que se apressou em
 apresent-la a Landon:
Voc se lembra do Dr. Landon, Anna? Ele a ajudou muito,
no s antes como durante o julgamento.
Certamente - respondeu ela, dirigindo-lhe um sorriso cauteloso. - O Dr. 
Landon foi muito bondoso para comigo. No me esquecerei disso
Voc est com bom aspecto, Anna. Sei que vai ser muito feliz aqui.
A jovem nada respondeu e a Madre Superiora interveio, rapidamente:
Preciso deix-los. Tenho trabalho a fazer. Conduza os senhores ao jardim, 
Anna. Leve-os ao lugar em que voc viu as Irms
fazendo suas oraes. - E, voltando-se para Landon, explicou, com
um sorriso: - ] o jardim das Irms. Os senhores estaro mais 
vontade, l. No sero molestados pelas pacientes que andam pelo
ptio. Antes que se retirem, Anna os trar aqui, para uma xcara de caf.
Quando a Superiora se afastou, Carlo mostrou a Ann a os presentes e, 
enquanto eles os admiravam, Landon a observou detidamente. Trajava, como 
todas as internadas, um vestido de l cinzento,
com longas mangas guarnecidas de botes e um cinto costurado ao
prprio vestido. Calava meias e sapatos pretos. Tinha agora o cabelo 
mais curto, puxado para trs e atado por uma pequena fita azul.
Suas mos estavam irrequietas, mas o rosto conservava ainda aquele
ar de calmo e clssico repouso que ele notara no dia em que a vira
pela primeira vez. Havia mais cor em suas faces, e mais vivacidade
em seus olhos e em sua voz. Os gestos eram comedidos, os movimentos 
estudadamente humildes, de modo que ela mais parecia uma
novia que uma sentenciada por homicdio.
Apesar de tudo o que pensara de Rienzi, Landon teve de admitir
a si prprio que no via nela seno inocncia, naqueles primeiros
momentos de encontro. havia sinal algum de sensualidade, nem
sequer um toque de mo ou um olhar que revelassem intimidade
Ou conluio. Anna chamava agora Rienzi pelo seu nome de batismo,
208 209
mas nem, mesmo o mais desconfiado abelhudo teria encontrado o
que quer que fosse digno de censura no tom ou na inflexo de
sua VOZ.
Passado o primeiro momento de emoo, Anna empilhou seus
presentes sobre uma cadeira e levou os dois homens para o 
jardim.
Caminhava entre ambos, recatada como uma novia, contando-lhes,
com simplicidade, os detalhes de seu primeiro dia aps o julgamento.
- Todos foram bondosos para comigo. Em San Gimignano,
fizeram-me um jantar especial e permitiram que as enfermeiras 
fossem conversar comigo. Uma delas me arranjou o cabelo, outra me
trouxe um livro de oraes. Pela manh, deixaram-me passear sozinha pelo 
jardim, e a esposa do administrador ofereceu-me caf.
Todos me disseram que eu tive muita sorte, referndo-se  maneira
maravilhosa pela qual voc me defendeu. Senti-me muito orgulhosa.
Deram-me, aqui um timo quarto. H grades nas janelas, mas elas
tm, tambm, cortinas floridas, e tudo  muito branco e limpo.A
Irm Eullia levou-me a-dar uma volta pelo jardim e mostrou-me,
no barraco do jardineiro, uma ninhada de gatinhos recm-nascidos.
Contou-me histrias engraadas a respeito das pessoas que vamos e,
hoje  noite, haver um concerto, com a participao de cantores
famosos de Roma.
A primeira impresso de Landon. foi a de sua extrema simplicidade, de sua 
preocupao por coisas triviais, de seu contentamento
dentro do estreito mbito de sua existncia de sentenciada. Mas,
quando Carlo comeou a indagar a respeito de suas leituras, de 
como
gostava ela de passar o tempo, dos programas de televiso que 
via,
Landon vislumbrou nela seno uma inteligncia viva, embora limitada, pelo 
menos uma criatura de juzo bastante aceitvel.
Pela primeira vez, Anna manifestou interesse pelo que talvez
pudesse fazer depois de obter a liberdade. Vira, certa vez, um 
desfile
de modas, e, agora, perguntava a si mesma se, mais tarde, no poderia vir 
a ser um manequim. Se isso no desse certo, talvez, lhe
agradasse fazer um curso de estenografia. Queria saber se no haveria um 
meio de estudar estenografia no hospital. Fez perguntas
acerca do trabalho de Carlo e de Landon, e suas indagaes, conquanto 
elementares, no deixavam, nem por isso, de ser bastante
sensatas.
Carlo agia com tato. Procurava ver o que lhe interessava, estimulava com 
perguntas o seu interesse e, depois, dava-lhe as 
informaes de que ela necessitava. Sua conversa abrangia amplo mbito*
mas evitava abordar assuntos que pudessem desagrad-la ou reviver
velhas lembranas de infncia ou de sua vida matrimonial. Gracejava
210
com ela e ria desta ou daquela observao levemente chistosa
de Anna. Durante todo o tempo, caminhou separado dela, com as
mos atrs das costas, como um parente cordial ao lado de uma
colegial que acabasse de terminar o seu curso.
Mas, para Landon, faltava algo naquele quadro. Era demasiado
plcido, demasiado recatado. Faltava-lhe emoo, ardor. Nada havia 
naquilo que justificasse a desesperada esperana de Carlo, nem
os seus prprios receios, nem que parecesse ter importncia  prpria 
Anna. Landon no podia acreditar que aquela exibio tivesse
sido preparada para ele. Rienzi era um ator demasiado bisonho para 
desempenhar aquele papel, e Anna no recebera instruo alguma para 
preparar aquela burla.
De repente, porm, Landon comeou, pouco a pouco, a compreender. Aquilo 
no era todo o espetculo, mas um preldio, um
ritual preparatrio para que passassem a uma outra fase de comunicao. 
Viu, ou julgou ver, que ambos tinham necessidade de algo
assim. Eram plos  parte quanto  natureza, educao e experincia. 
Encontrar-se-iam demasiado raramente, e por espao de tempo
211
demasiado curto, para que pudessem saltar imediatamente a 
um plano
mais elevado da compreenso. A jovem seria subjugada pela disciplina 
diria da instituio. Carlo, por sua parte, tambm teria de
dominar-se, se no quisesse que as exacerbaes de sua vida o
levassem a alguma indiscrio. De modo que cada um de seus encontros 
comearia assim: conversas frvolas, para escumar a superfcie de 
pensamentos adormecidos, uma lenta pavana ao longo das
alias do jardim... Mas para qu?
Chegaram, finalmente, a um muro de pedra, baixo onde havia
uma cancela que conduzia ao domnio privado das. Irms; um gramado de 
croquet cercado, todo ele, por cerrados arbustos e, mais
alm - e mais recluso ainda - um jardim situado em um plano
mais baixo, onde havia um tanque de peixes e um sacrrio de Nossa
Senhora de Ftima.
Era ali que as freiras se reuniam em seus momentos de recreao e para 
rezar o tero, em meio  fresca da tarde. Era ali que se 
refugiavam dos trabalhos ingratos do hospcio e da intruso das doentes
que perambulavam, trpegas, por toda parte.
- Aqui, disse subitamente, Anna - aqui me sinto, pela primeira vez, 
livre. No livre como antes, mas como o serei um dia.
No fitava os seus companheiros: circunvagava o olhar pelo
jardim e por sobre o topo dos ciprestes, na direo do cu azul, onde um 
falco solitrio pairava, em lentas circunvolues no ar imvel.
Brilhavam-lhe os olhos e tinha o rosto transfigurado por um sbito
*fluxo de vitalidade.
- Esto vendo aquele camarada l no alto? Quando eu era
menina, em San Stefano, costumavam cham-lo de ladro de galinha. Sabem 
como  que eu o chamo agora? Chamo-o Carlo. Ele
paira l em cima durante horas e horas, e a gente pensa que ele
no vai jamais descer. Mas, de repente, ele cai - ploque! - como
uma pedra. - Voltou-se para Landon, afogueada, a rir: - Exatamente como 
Carlo! Durante todo o tempo em que estive presa, 
durante todo o tempo que durou o julgamento, ele parecia estar muito
longe... a quilmetros e quilmetros de distncia, no meio de gente
importante. Agora... veja! Est aqui comigo, neste jardim.
Landon lanou rpido olhar a Rienzi, mas ele estava debruado
sobre uma roseira florida, interessado como qualquer botnico. A
jovem tornou a rir, numa zombaria infantil:
- Carlo no acha que  um falco. Gosta de fingir que  uma
cegonha de pernas compridas e um longo nariz de advogado, com
um par de culos sobre o mesmo. Queria que o senhor ouvisse as
prelees que ele me fazia quando ia visitar-me! Parecia exatamente
a Madre Superiora, quando falou, hoje, comigo: Anna deve ser 
uma boa menina. Anna deve fazer o que lhe disserem. Deve aprender
suas lies, ser asseada, paciente e cooperar.
- Anna  uma menina de sorte - disse, friamente, Carlo. Mas ri de coisas 
que no deve.
Voc me disse, certa vez, que eu precisava rir!
Eu sei, menina, mas...
No sou menina! Sou mulher. E isso  o que voc quer que
eu seja, no  verdade? Era o que voc dizia o tempo todo, durante
o julgamento. E agora me chama de menina!
Disse isso em tom petulante, como se fosse uma velha queixa
e, depois, ficou cabisbaixa, a morder a unha do polegar,  espera
de que Carlo tornasse a censur-la. Essa vez, porm, ele foi mais
gentil para com ela. Sorriu, benevolamente, e respondeu:
- Anna, as coisas que gosto de dizer-lhe so coisas que a libertaro. 
Voc est, agora, em melhor situao do que espervamos. Trs anos no  
tanto tempo assim, e passa mais depressa se voc viver pacientemente cada 
dia. Isto qui  um bom lugar. As Irms so bondosas. Se voc for 
obediente e dcil, talvez possamos tir-la daqui mais cedo. Isto no  
motivo Para gracejos. Tenho vivido presa h muito tempo. Agora, quero 
voar livremente, como o ladro de galinhas. Quero tornar a usar vestidos 
bonitos, admirar as vitrinas das casas de modas, e ...
- Eu sei, eu sei - atalhou ele, a voz mais doce, sentimental.
Mas virei visit-la to amide quanto possvel. presentes. Voc ver que 
os dias passaro cada vez depressa
212
Ademais,  preciso um inverno inteiro para que se formem as flores
da primavera... mas elas, afinal, aparecem.
Ela mostrava-se, agora, arrependida, como uma criana calculista que-pede 
doces apenas para ganhar uma carcia.
- Perdoe-me, Carlo - disse, humildemente. - Procurarei ser
melhor. Desejo tanto que voc fique contente!
- Sei que voc o deseja, Anna. Agora, como boa menina,
esquea-se disso e falemos de outras coisas.
Para Landon, aquela era uma experincia embaraosa, como
deparar a gente com um casal alcoolizado, em atitude amorosa, no
meio de uma escada. Anna lanava mo da piedade para seduzir
Carlo, enquanto que ele se esforava, canhestramente, para adotar
uma atitude de paternal solicitude. Quanto tempo poderiam eles
manter aquela situao, era coisa que Landon no saberia dizer. Mas,
segundo tudo indicava, vinham-se adestrando naquilo havia muito e,
talvez, ao enganarem-se mutamente, tivessem chegado a um ponto
de tolerncia recproca maior do que o habitual. Mas, mais cedo ou
tarde, um deles fraquejaria. O conto de fadas ruiria por terra
e, ento... que fosse tudo para o diabo!
Landon, aquela tarde, j estava farto daquilo, mas agentou
mais meia hora, andando com eles, de um lado para outro, pelo
campo de croquet, a ouvir o que ambos diziam, a fazer, de vez em
quando, ele tambm, uma observao banal, e a observar com que
facilidade e inconscincia Anna e Carlo mergulhavam no convencionalismo 
daquela ligao to pouco convencional. Finalmente, desistiu e sugeriu a 
Carlo que j era tempo de partir.
Carlo consultou o relgio e respondeu, ressentido:
- Bem, j que voc assim o deseja... Mas levar algum tempo antes que eu 
possa ver Anna novamente.
Quanto a Anna, mostrou-se ainda mais relutante. Levou a mo
ao brao de Rienzi e pediu-lhe:
- Por favor, Carlo! Antes de voc ir embora, poderamos trocar uma 
palavra em particular?
Voc no se importaria, Peter?
No, ele no se importaria. Teria prazer em livrar-se deles por
alguns momentos. Fumaria um cigarro e passearia mais uns dez minutos pelo 
jardim, enquanto eles trocassem, junto da Madona, naquele
discreto recanto, quaisquer segredos que pudessem ter. Carlo 
conduziu Anna at os degraus de pedra que separavam os dois jardins,
e quando ela desapareceu do outro lado, voltou para junto de Landon,
a fim de dar-lhe uma explicao apressada:
213
- Desculpe-me, Peter. Tudo isto deve ser muito enfadonho
para voc. Mas voc compreende como . Este  o primeiro dia
que ela passa aqui. E ela est inquieta. Eu me sentiria culpado, se
no a deixasse tranqila. No demorarei muito.
Culpado ou inocente, Landon precisava dizer-lhe o que pensava. Uma vez 
fora dos portes do sanatrio, aquele amor, como um camaleo, mudaria de 
novo de cor e rastejaria para a toca 
chamada grandes iluses, um lugar alto, secreto, completamente fora
do alcance da razo. Agarrou firme o pulso de Carlo e advertiu-o:
- Carlo, voc  meu amigo e eu preciso dizer-lhe algo. Voc,
neste assunto, est caminhando sobre ovos. Diga ela o que disser,
e do modo que quiser, a verdade  que essa moa  um perigo para
voc. E tampouco voc deixa de constituir um certo perigo para ela.
Desista disso, como homem sensato! Despea-se dela, e deixe-a de
vez. Por favor, Carlo!
Carlo procurou desvencilhar-se, mas Landon no o soltou.
- Se voc hoje no viu a verdade, Peter, nada far com que voc
a veja! - explodiu em voz baixa, irado, Carlo. - Voc possui um
esprito corrupto! J me disse tudo isso antes. Mas, agora, j  demais.
Solte-me, por favor!
- Apenas mais uma coisa, Carlo!
Landon j tinha na ponta da lngua a conversa que tivera com
Galuzzi, bem como a suspeita que Carlo j despertara. Mas refletindo
melhor, resolveu calar-se. Por que razo deveria ele, com os diabos,
fazer o papel de carrasco junto a um homem que j estava tecendo
a sua prpria corda? Deu, pois, de ombro, e deixou-o ir. Carlo 
afastou-se, zangado, e desapareceu no jardim contguo, enquanto Landon
se sentava sob uma rvore outonal, a fumar um cigarro insosso.
Fumou outro, e mais outro. Por espao de dez, quinze, vinte
minutos, ps-se a andar de um lado para outro pelo gramado. Depois,
completamente exasperado, foi  procura de Rienzi e de Anna. Mal
havia posto o p no primeiro degrau de pedra, quando ouviu suas
vozes e, pela primeira vez em suavida, fez papel de espio.
Rienzi e Anna estavam sentados num banco de pedra, num caramancho 
situado diante do sacrrio. Achavam-se voltados um para o outro, tendo de 
permeio metade do banco, mas Anna segurava-lhe a mo e suplicava-lhe:
- Voc me disse muitas vezes, Carlo, que ningum pode viver
sem amor... sem alguma espcie de amor. Sei que voc  casado,
de modo que no devo pedir-lhe que me ame assim. Mas no sou
criana e, assim sendo, voc tampouco deve oferecer-me essa espcie
de amor. Que  que temos para ns, Carlo? Que  que voc poder
dar-me, para que eu possa manter-me viva neste lugar?
Landon no podia ver o rosto de Rienzi, mas podia sentir-lhe
o desassossego e o esforo que fazia para contornar a situao, naquela 
sua, branda voz de mestre-escola:
- Voc  uma criatura preciosa para mim, Anna, minha querida... e isso 
por muitas razes. Durante todas estas semanas, tive
o seu destino em minhas mos. Voc era e  ainda o meu prmio.
Claro que me interesso por voc profundamente.
- E isso  tudo?
Era a mesma voz que Landon ouvira no aparelho de gravao
do Dr. Galuzzi: morta, fria, incolor. Rienzi protestou, debilmente.
- No, Anna. Voc sabe que isso no  tudo. Mas, quanto
ao resto, nem eu mesmo tenho ainda certeza. Duvido que pudesse
encontrar palavras para diz-lo.
- Mas eu tenho palavras, Carlos... Eu o amo!
Rienzi ficou tremendamente perturbado, mas ainda tentou gracejar, como se 
ela fosse uma criana:
- Amor  uma palavra importante, Anna. Significa coisas diferentes em 
ocasies diferentes. A maneira pela qual voc me ama hoje
poder ser muitssimo diferente da maneira que voc me amar amanh.
- Voc me ama, Carlo?
Landon viu-o hesitar um momento e, depois, ouviu as palavras
de sua rendio:
- Eu... eu a amo, Anna.
Mas ela no estava ainda satisfeita. Instou com ele, erguendo-lhe a mo 
relutante e levantando-a ao peito:
- De que modo voc me ama, Carlo? De que modo?
Era a ltima trincheira de Rienzi - e ele bem o sabia. Landon
sentia que Carlo procurava recobrar o domnio sobre si prprio,
encontrar as palavras que constitussem a sua derradeira defesa:
- Eu... eu ainda no sei, Anna.  por isso que voc deve
ser paciente comigo. Necessito de tempo, ambos necessitamos de 
tempo para que nos conheamos melhor, no nos momentos de crise
vividos num tribunal, no aqui neste lugar, mas l fora, no mundo
das criaturas normais. Isso que existe entre ns, Anna, precisa crescer
naturalmente, como uma planta. Se as flores parecerem diferentes
do que espervamos, ainda assim ser belo, ainda assim ser bom
para ns. Ser que voc no compreende?
Para surpresa de Landon e alvio evidente de Carlo, ela aceitou
a situao. Hesitou um momento e, depois, disse, em sua voz infantil:
- Sim. Compreendo. Agora, posso ser feliz, creio eu. Ser
que voc poderia, por favor, dar-me um beijo de despedida?
214
215
Carlo fitou-a longamente; depois, COM Comovente ternura, mas
sem sinal algum de ardor, segurou-lhe o queixo e beijou-lhe de leve
os lbios. Feito isso, levantou-se. Perplexa, desapontada, ela ficou a
olh-lo, tirando-lhe da lapela, com dedos nervosos, uma pequena penugem.
- Voc fez isso como se eu fosse uma menina.
Rienzi sorriu, com ar grave, e abanou a cabea:
- No, Anna! Voc  mulher. Uma mulher belssima.
- Ento, beije-me de novo. Faa com que eu me sinta mulher.
Apenas uma vez... apenas uma vez!
Landon teve vontade de gritar-lhe. No, no faa isso! Mas
a vergonha o conteve. E, decorrido um segundo, a jovem j estava
nos braos de Rienzi - ambos se beijavam apaixonadamente, como
dois amantes. E qualquer freira que por ali passasse poderia 
ter predito, em altas vozes, a runa de ambos.
Foi ento que, sbito, sem qualquer advertncia, a coisa aconteceu. Com 
um nico gesto convulsivo, Anna afastou Carlo de si.
Tinha a fisionomia contrada, numa mscara de terror e de dio.
Enquanto Carlo a fitava, incrdulo, Anna lanou um grito estridente, 
histrico:
- Eles a esto matando! Eles a esto matando!
E lanou-se, a unhadas violentas, selvagens, contra os olhos e
o rosto de Carlo, a gritar a acusao insana:
- Foi voc! Foi voc quem a matou! Voc... voc!
Carlo e Landon tiveram de lanar mo de todos os seus esforos para que 
pudessem conduzi-la de volta ao hospcio, onde quatro freiras corpulentas 
a meteram numa camisa-de-fora e a levaram embora. A Madre Superiora 
examinou-os com olhos sagazes, desconfiados; depois, chamou uma das 
Irms, para que cuidasse do rosto ferido de Carlo.
216
DEZ MINUTOS DEPOIS, na fria sala de visitas - onde se achavam
ainda empilhados, sobre a cadeira, os presentes que Carlo 
levara a Anna, a freirinha plida os recebeu com a glida pergunta:
- Bem, senhores, como foi que isso aconteceu?
Carlo Rienzi era grande advogado, mas, agora, estava no banco
dos rus, e precisava que algum o defendesse. Antes que tivesse
tempo de abrir a boca, Peter Landon apressou-se em explicar:
- Creio que eu, Revma. Madre, vi melhor o que aconteceu
que o prprio Dr. Rienzi. Estvamos, os trs juntos no jardim. O
Dr. Rienz despedia-se de Anna, enquanto que eu, a uns trs passos
de distncia, os observava. Anna parecia perfeitamente normal, mas
quando o Dr. Rienzi lhe estendeu a mo, ela passou-lhe ~os braos
pelo pescoo e tentou beij-lo. Ele a afastou e disse-lhe que no
fosse tola. Ela se ps, ento, a gritar, dizendo que fora ele quem
lhe matara a me. E, logo a seguir, o atacou.
Landon esperava, desesperadamente, que a narrativa parecesse
to chocante e ingnua quanto ele o desejava. Aquela freira plida,
competente, mantinha, naquele momento, poder de vida e morte sobre
o advogado Rienzi, e Landon no tinha dvida de que ela o, condenaria sem 
piedade, se desconfiasse da verdade. De modo que, por precauo, 
acrescentou uma opinio pessoal:
- Foi trgico o que aconteceu, mas, falando profissionalmente,
no estou demasiado surpreso. Tanto o Prof. Galuzzi como eu estvamos 
muito preocupados com certos elementos instveis existentes no caso dessa 
jovem. Sei que o Prof. Galuzzi tenciona examin-los mais detidamente, 
mediante anlise profunda. Se pudesse usar o 
seu telefone, gostaria de chamar o Dr. Galuzzi.
A Madre Superiora lanou-lhe um olhar frio, penetrante, e, aparentemente, 
satisfeita, voltou-se para Rienzi:
217
- Dr. Rienzi, o senhor concorda com a explicao do Dr.
Landon?
Mesmo abalado como estava, Rienzi era, ainda bom advogado.
Sabia que uma meia mentira era pior que uma mentira completa. Sua
resposta foi concisa e convincente:
- Foi exatamente o que aconteceu.
A Madre Superiora fez um aceno com a cabea e disse em tom enrgico, 
decidido:
- Receio que isto no termine aqui. Os senhores sabem que
as pessoas que nos so confiadas pela Justia se acham sob a guarda
do Estado. Tudo que lhes acontece se converte em relatrio oficial.
Necessito, pois, do depoimento dos senhores... quatro cpias, cada
qual com firma reconhecida.
Ela devia ter ficado convencida, pensou, soturnamente, Landon,
pois que, do contrrio, saberia que os estava obrigando a perjrio,
e a conscincia das dignas Irms era demasiado delicada para que.
elas se entregassem a to deliberada ironia.
Carlo Rienzi murmurou algumas palavras, manifestando pesar
pelo que ocorrera, mas a Madre Superiora, num gesto altivo, 
imperioso, fez-lhe sinal com a mo para que no se incomodasse. Sua
vocao era cuidar de mentes enfermas, e Anna Albertini estava
irremediavelmente doente. Conduziu Landon, atravs de um corredor 
deserto, onde os passos ecoavam, at ao seu escritrio  e telefonou ao 
Prof. Galuzzi.
Fez primeiro o seu prprio relatrio, num tom claro  decisivo
de oficial de Estado-Maior. Depois, entregou o receptor a Landon.
Foi-lhe um alvio ouvir a voz seca, acadmica, de Galuzzi:
- Ento, meu amigo, a coisa aconteceu mais cedo do que
espervamos, hein? Bem, talvez seja melhor assim... para todos. A
Madre Superiora disse-me que o senhor estava a e presenciou tudo.
-  verdade.
- Segundo presumo, foi a sua prpria verso o que ouvi, pois
no? indagou, com leve ironia, Galuzzi.
A Madre Superiora contou-lhe exatamente o que eu lhe disse.
Vou prestar meu depoimento num relatrio oficial.
Para surpresa de Landon, Galuzzi riu:
- O nosso jovem advogado  afortunado com os seus amigos. Seu testemunho 
ocular encerrar, certamente, o assunto, dada a importncia de sua 
reputao profissional. Se o senhor tiver 
tempo, porm, dentro dos prximos dias, gostaria de tomar um, copo de
vinho em sua companhia... e talvez pudssemos conversar acerca
de nossa paciente.
218
Sou-lhe muito grato pelo convite - respondeu Landon.
Mais do que poderia expressar-lhe. Mas deixarei Siena dentro de
dois dias. Vou me casar.
- Meus parabns! - exclamou, calorosamente, Galuzzi. E
acrescentou, em tom mais seco: - Acho que faz bem. A senhorita
Lachaise  uma mulher encantadora... e j  tempo que o senhor
aproveite a vida. Felicidades, meu amigo. Deus o acompanhe.
- Felicidades para o senhor - disse, em voz baixa, Landon.
E obrigado.
A velha freira observou-o com olhos astutos, experientes.
- De modo que o seu caso est encerrado, Dr. Landon. O
meu apenas comea. Obrigada e bom dia.
Dirigindo o carro de Rienzi, Landon cruzou o porto de ferro
e ouviu quando o mesmo se fechou com um baque. Enquanto subiam
do vale para a montanha, Carlo permanecia encolhido e silencioso a
seu lado, a passar a mo pelo rosto marcado e a fitar, absorto, a
estrada. Decorrido algum tempo, animou-se um pouco e disse, com voz 
aptica:
- Obrigado pelo que voc fez, Peter.
- Esquea-se disso.
- Voc no imagina quanto eu o lamento.
- Esquea-se disso, tambm.
Dificilmente Landon poderia ter dito menos, mas no tinha coragem de 
dizer mais. Sabia que, se Rienzi proferisse uma nica palavra de piedade 
por si mesmo, ele pararia o carro e lhe daria um soco no nariz, 
obrigando-o a seguir a p at Siena. Compreendia o
que ele deveria estar sofrendo; estava disposto a jurar falso para
salvar a cabea de Rienzi; mas a lembrana de Anna Albertini, 
irremediavelmente perdida, encerrada numa camisa-de-fora e despachada 
para o esquecimento, o perseguiria durante longo tempo.
J anoitecia, quando chegaram  Villa Ascolini. Felizmente todos
estavam se vestindo para jantar, de modo que Landon acomodou
Carlo na biblioteca, diante de uma garrafa de usque e de um sifo,
e subiu, rpido, a escada, a fim de falar com Ninette. Ela ouviu-o
em silncio e, depois, censurou-o, com firmeza:
- Sei que voc est zangado, chri, mas voc no pode desistir
agora. Sei como voc se sente por ter precisado prestar falso 
testemunho. Concordo em que todas as suas-dvidas esto saldadas. Mas
no podemos agir como se se tratasse apenas de uma questo de dbito
e crdito. Carlo est passando por uma crise, e devemos ajud-lo a 
super-la.
219
- Voc no acha que j  tempo de que ele comece a ajudar a si prprio?
- Mas acha que ele pode faz-lo neste momento? - indagou
ela, estendendo a mo e acariciando-lhe o rosto zangado. - Peter,
Peter, ento voc no v? O que ele fez hoje deve parecer-lhe algo
assim como um crime.
E acaso no ocorreu exatamente isso?
Quem poder diz-lo, chri? Quem poderia dizer se era necessrio muito ou 
pouco para perturbar o equilbrio mental de Anna?
Quem sabe se, sem a interferncia de Carlo, isso no teria acontecido
muito mais cedo? No o julgue, Peter. No o faa hoje. No o faa, por 
enquanto.
Ele no sabia resistir a um seu pedido. Tomou-a e beijou-a,
rendendo-se com um sorriso fatigado:
- Muito bem, querida. Que  que voc quer que eu faa?
- Deixe Carlo comigo um momento. V falar com Ascolini e Valria.
- Voc acha que seria sensato contar-lhes o que ocorreu?
- Estou certa que sim.
Quanto a Landon, no tinha a mnima certeza disso, mas, no
fundo, sentia-se demasiado indiferente para se importar com o que
pudesse acontecer. Decorrido um momento, Ninette cruzou a 
biblioteca, ao encontro de Carlo, enquanto Landon seguiu pelo corredor,
a fim de conversar com o Dr. Ascolini.
O velho recebeu a notcia de modo bastante calmo. Passou mentalmente em 
revista as probabilidades legais e, depois, satisfeito de que tanto 
Rienzi como Landon estivessem livres de qualquer denncia, encolheu os 
ombros e respondeu, tranqilamente:
- Para a moa, claro,  uma coisa terrvel. Para ns ... para
todos ns... talvez seja a bno que espervamos. Carlo agora,
est s. Talvez volte para Valria.
- Talvez. Parece que ele no tem outro lugar para onde ir.
O velho lanou um olhar irnico a Landon:
- O senhor j est farto disso tudo, no  verdade, meu amigo?
- Mais do que farto. Vamos despedir-nos esta noite, doutor.
Ascolini, com ar grave, fez com a cabea um sinal afirmativo:
- Tem razo, certamente. Se lhe disser que lhe sou grato, isso
significar muito pouco. Permita-me que lhe diga, simplesmente, 
que
todas as suas dvidas para com Carlo esto saldadas, e que, agora,
ns  que somos seus devedores. Eu jamais jurei falso a favor de
homem algum, embora tenha feito muitos juramentos falsos a mulheres- Mas 
isso  outro assunto. Obrigado, Dr. Landon, e muitas
felicidades. Sei que ser bondoso com Ninette, e ela com o 
senhor.
220
Agora deixe-me como um bom rapaz. Descerei dentro de alguns minutos, para 
falar com Carlo. Que  que o senhor ir dizer a Valria?
- A verdade - respondeu, categrico, Landon. - Que Mais poderia dizer-
lhe? Isto  o fim da estrada.
Quando ele lhe deu a notcia, Valria Rienzi repetiu a sua prpria frase:
-  mesmo o fim da estrada, como voc diz, Peter. Se no
pudermos unir-nos depois disso, no restar mais esperana. Seguiremos 
cada qual o seu caminho. A tolerncia tambm tem limites.
Havia uma pergunta que precisava ser feita, e ele a fez sem meias 
palavras:
- Como  que v essa nova unio?
- Apenas com amor - respondeu ela, enftica. - No quero
mais saber desta fria salada convencional. No espero demasiado;
no conto sequer com um ajuste em termos iguais. Mas deve ainda
haver algum amor de ambas as partes, e at mesmo um certo ardor, s 
vezes. Sobre que outras bases poderemos recomear?
- Sobre nenhuma outra base. Voc ama Carlo?
- Posso comear a am-lo, creio eu.
- E ele a ama?
- No sei, Peter. Mas ele dever dizer-me esta noite.
- Voc acha que, esta noite, ele o saber?
- Se no o souber esta noite, ento jamais saber  Voltou-se para o 
espelho e ps-se a escovar os cabelos. - Eu o verei l
embaixo, Peter... Mas no me beije, ao despedir-se de mim.
Ele voltou ao seu quarto, lanou-se sobre a cama e fechou os
olhos. Estava exausto, mas, por enquanto, ainda no haveria descanso para 
ele. Segundo seus clculos, todas as suas dvidas estavam pagas, e ele j 
estava livre para partir. Mas havia ainda uma ltima exao - e ele no 
tinha ainda coragem de enfrent-la. Continuou
deitado, esgotado e vazio, procurando pr em ordem os seus emaranhados 
pensamentos.
No era apenas Carlo quem havia chegado ao fim da estrada.
Peter Landon, tambm, chegava a um momento final e a um novo
ponto de partida. H muito tempo j, vinha ele se envolvendo, consciente 
ou inconscientemente, na multiforme e delicada anatomia do amor e da 
justia: na fidelidade quele e nos aspectos jurdicos desta. Mas, embora 
houvesse descoberto que ambos eram atingveis, nenhum era perfeito. 
Chegava-se a cada qual mediante conflito e contradio. O amor era  
afirmado pelo contrato de casamento, mas o contrato no bastava para 
preserv-lo. Quando  justia, estava destinada a ser  reservada mediante 
as multplices disposies do Cdigo.
221
Mas, mesmo que ambos fossem defendidos por mil vozes, mesmo que mil 
advogados estivessem encarregados de mil casos, no se chegava ao amor
ou  justia seno mediante lenta pesquisa, meticulosa ponderao
acerca do direito e do dever, afanosa busca da verdade, implacvel
extirpao do erro e do egosmo.
Mesmo aps os esforos de toda uma existncia, no se chegava
ainda ao fim do assunto. O amor era uma flor que exigia 
pacientes
cuidados; a justia, o fruto de vigilante cultivo. Mas - que Deus
tenha piedade de suas almas miserveis! - os homens eram demasiado 
negligentes quanto ao que lhes foi confiado; o amor pelo 
qual
poderiam viver felizes, e a justia pela qual poderiam viver em 
segurana... dois passos que os saravam do caos.
Com tais pensamentos perturbadores, levantou-se da cama, lavou
o rosto, passou um pente pelos cabelos e desceu.
Encontrou Ascolini e Valria a conversar com Ninette junto 
porta da biblioteca. Ninette parecia tensa e ansiosa, e tinha 
os olhos inchados de chorar. Quando Landon lhe perguntou por Carlo~ ela 
abanou a cabea:
Durante
Nada posso dizer, chri, pois que tampouco o se Um momento, a coisa foi 
terrvel. Jamais vi um homem to perturbado. Ele contou-me tudo ... as 
coisas mais secretas de sua 
vida.
Depois, sentou-se no cho, ps a cabea nos meus joelhos e nada
mais disse. Agora est calmo, mas o que ele est sentindo ou pensando  
coisa que no sei. Ele quer ver-nos a todos.
- E disse por qu?
- No. Disse apenas que queria ver-nos a todos reunidos.
Ficaram alguns momentos irresolutos, a olhar uns para os 
outrosFinalmente, Valria encolheu os ombros e abriu a porta da 
biblioteca.
O primeiro olhar lanado a Carlo Rienzi fez com que todos eles
se detivessem. Parecia ter envelhecido dez anos em duas horas. 
Tinha
o rosto lvido e encovado, os olhos brilhantes e febris. Os 
belos
caam-lhe, midos e escorridos, pela testa. Achava-se apoiado ao 
consolo de mrmore da lareira, como se o mais leve movimento o 
fizesse
cair.
- Al, Carlo - disse Valria, em voz baixa.
- Al, Valria.
Depois disso, houve uma pausa. Carlo fitou-os com ar vago,
Piscou repetidamente e abanou a cabea, como se quisesse dissipar
as nvoas de um pesadelo. E disse, a voz incolor:
- Alegra-me que voc esteja aqui, Valria. Alegro-me que nossos amigos 
estejam aqui. Desejo dizer-lhes algo.
222
Landon pde ver que Valria lutava contra um sbito impulso de piedade, 
mas permaneceu 
imvel,  espera de que Carlo prosseguisse.
- Sinto-me vazio esta noite - comeou ele. - Nada sou, nem nada tenho. 
Fiz hoje uma coisa 
horrvel, mas nem sequer posso sentirme culpado pelo que ocorreu. J no 
posso sequer 
sentir claramente o que lhes estou dizendo neste momento. Tudo o que sei 
 que quero 
senti-lo, e que vocs acreditem no que lhes digo, pois que jamais serei 
capaz de repetir estas palavras. Lamento o que aconteceu no apenas por 
mim, mas pelo que fiz e pelo que tenho sido... para voc, Valria, para 
seu pai, para Peter e Ninette, que aqui esto. Isso talvez parea 
estranho, dito por um homem que no consegue sentir coisa alguma... mas  
algo que precisa ser dito. Eu amo vocs todos. Espero que me perdoem e me 
deixem partir em paz.
"Santo Deus", pensou Landon. "Isto no pode ser verdade!" Mas era 
verdade, e to patente 
que Landon no pde deixar de perguntar a si mesmo por que razo todos 
eles no se punham 
a rir. O advogado Rienzi defendia a sua prpria causa com extraordinrio 
talento de charlato, como jamais seria capaz de o fazer em qualquer 
tribunal. Suplicava exatamente aquilo que ele prprio negava - o direito 
de continuar a ter pena de si prprio, o direito de dispor da vida sempre 
de acordo com as condies por ele impostas, mas tendo sempre, no 
obstante, um 
peito amigo sobre o qual chorar. Num lance final, genial, representava o 
papel de menino 
aoitado, sabendo que, no fim, as vergastadas cairiam sobre as costas de 
outrem. Jamais faria uma defesa to astuta, nem menos digna do que 
aquela.
Landon teve ainda a impresso de que ele estava vencendo, ao ver Valria 
acercar-se dele 
com as mos estendidas. Mas, de repente, conteve-se e perguntou-lhe, a 
voz clara, fria:
- Para onde vai voc, Carlo?
Ele voltou-se, com ar vago, para ela, e respondeu em tom quase de 
desculpa:
- Voc no deve pedir-me para falar sobre isso. J lhe causei demasiado 
sofrimento. Mas no 
haver mais complicaes, prometo-lhe. - Riu, hesitante. - Eu disse hoje 
a Peter que no sabia que palavras empregar. Engraado! E acabei por 
verificar que sempre as soube. S que as estou proferindo demasiado 
tarde. Esse foi sempre o meu dilema. Um homem demasiado 
pequeno tornando-se adulto tarde demais. Perdoe-me.
Landon quase esperava que ele dissesse: " o que a defesa tinha a dizer". 
Mas Carlo, era 
demasiado astuto para isso - e, ademais, estava exausto, como todo ator 
aps um grande 
desempenho. Afastou-se da lareira e dirigiu-se, com passos arrastados, 
para a porta. Ento, 223
ntida como um clarim, a voz vigorosa de Ascolini o desafiou:
- Tolice, rapaz! Pura tolice tudo o que acaba de dizer! Aceitamos que 
voc tenha feito papel de idiota. E da? Esse  um direito que todo 
homem,tem. Mas o que voc no tem, com os diabos,  direito algum de 
infligir a todos ns uma confisso lamurienta! Domine-se, homem! V 
chorar numa taberna, se tiver necessidade disso, ou num bordel, mas, 
aqui, porte-se como homem e mantenha-se calado!
Rienzi olhou-o um momento com ar inexpressivo, a oscilar sob o impacto de 
tais palavras. Depois, aps curioso momento de transformao, seu rosto 
pareceu endurecer, e algo que bem poderia ter sido um sorriso lhe 
contorceu os lbios exangues. Ergueu a mo, num cumprimento zombeteiro:
- O senhor  melhor advogado do que eu, doutor. Sempre o ser.
Seus joelhos fraquejaram, mas, ao cair para a frente, Landon o apanhou e 
carregou-o, sobre o ombro, para o quarto de hspedes. Lanou-o sobre a 
cama e deixou-o entregue aos cuidados de Valria. Ela nada disse; 
dirigiu-lhe apenas um sorriso amargo e ps-se a desatar os sapatos de 
Rienzi.
Landon ficou-lhe grato por sua discrio. Jamais lhe agradaram discursos 
ao descer da cortina, e no tinha pacincia com atores bbedos. Mas Carlo 
Rienzi era um grande ator - o que num advogado constitua talento e, para 
certas mulheres, um substituto passvel de masculinidade. Pelo menos, 
Valria estava aceitando aquilo sem iluses. Ou talvez estivesse criando 
uma nova iluso, j que o amor era um deus cego, irmo da deusa de punhal 
nu e, da balana de pratos equilibrados, a espiar, por baixo do leno que 
lhe vedava os olhos, as comdias encenadas em seu nome.
- Est na hora de irmos embora, Peter - disse Ninette Lachaise. - J  
tempo de que nos dediquemos a ns prprios. Detivemo-nos demasiado nesta 
cidade.
Estavam de p no terrao da villa, a admirar o nascer da lua e a ouvir o 
primeiro canto solitrio dos rouxinis. O vale estendia-se, plcido, ao 
luar e, por sobre as ameias da montanha, eles percebiam o vago cintilar 
das primeiras estrelas. A terra rendera-se  noite. Landon puxou Ninette 
para si e disse-lhe, suavemente, como jamais ralara antes:
- Eu a amo, menina. Nunca imaginei que pudesse amar tanto algum. Mas 
voc est certa de que quer correr o risco?
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-  sempre um risco - disse, por trs deles, Ascolini. - Mas somente os 
sensatos sabem disso. Vo para casa, vocs dois. Procurem uma igreja, se 
assim o necessitarem, mas faam-no depressa. O tempo  a coisa mais 
preciosa que vocs possuem - e quem o saberia melhor do que eu?
Entregou-lhes as chaves do automvel e, depois, tirou, do bolso dois 
antigos e belos volumes, um dos quais ofereceu a Ninette, com uma 
observao irnica:
- Para voc, minha querida. Vo a todas as coisas que o seu homem sente 
por voc, mas que no ser capaz de dizer-lhe, sendo, como , um sujeito 
montono, que s conhece o jargo de sua clnica. So os sonetos de 
Petrarca para sua Laura, e o livro foi feito por Elzevir.  um presente 
de casamento. Com ele, vai o meu corao ... e todo o meu amor.
Ninette lanou os braos ao pescoo do velho e beijou-o. Ascolini ficou a 
abra-la longamente; depois, afastou-a, com gesto delicado.
- Leve-a embora, Landon, antes que eu mude de idia e a conduza correndo 
para o altar. Aqui tem um presente, meu amigo! acrescentou, dando-lhe o 
outro volume, e comentando, sardnico:
- So os Sonetos Luxuriosos, de Aretino! O senhor tem idade suficiente 
para apreci-los e ainda  muito jovem para no precisar deles! - Tomou-
os pelo brao e impeliu-os vivamente pelo terrao, em direo ao 
automvel. - Nem mais uma palavra! Nada de despedidas demoradas! Elas me 
lembram a morte, eu j tenho muitas coisas que me lembram dela!
Ao descer pelo caminho sinuoso, em direo do porto, puderam ainda v-
lo, solitrio e imponente, no terrao, o luar a pratearlhe a cabea 
leonina, a ouvir o lamento dos rouxinis.
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